Capítulo 1
 

 

Nunca sentira um sol tão quente antes, era como se estivesse em uma sauna gigante. Podia sentílo queimando todo o corpo e retirando toda a água e energia de seu organismo. Sua pele, olhos e principalmente garganta estavam secas e como se não bastasse, a tarefa designada era das piores. Olhava para a picareta como se fosse ela a causadora de seu sofrimento e não ele mesmo. Por livre e espontânea vontade o quisera, mesmo contra o desejo de seus pais; era a sua última chance e não a perderia por nada deste mundo. Ajudado por quatro homens que falavam uma língua desconhecida para muitos mas que de estranha maneira era a única coisa a amenizar a monotonia daquele cansativo trabalho, cavavam um imenso buraco. Entre quatro homens magros de pele escura se encontrava alguém diferente. De pele clara, alto, forte mas que visivelmente não era acostumado a tal esforço físico. Apesar das circunstâncias havia um invejável brilho nos seus olhos que poderia ser confundido com prazer por estar naquele lugar, naquele momento.
Madison, se encontrava a milhares de milhas de casa, onde nunca estivera antes, porém a sensação de familiaridade com o local era constante. Pudera, enfim depois de tantos livros, fotos e artefatos, finalmente estava na terra dos faraós, aproximadamente 500 milhas da cidade de Cairo no Egito, no meio de absolutamente nada.
Voltando a concentrar-se no que os quatros homens falavam, Madison distinguia o que parecia ser uma mistura de vários dialetos árabes. Isso proporcionava a chance de praticar um pouco do que havia estudado, porém não se sentia na posição de interromper o diálogo dos quatro homens. Eles pareciam ser velhos amigos e eram acostumados a trabalhar juntos. Suas mãos eram calejadas e seus corpos se mostravam resistentes para tal sacrifício.
Os quatro homens trabalhavam com bastante eficiência, enquanto dois deles cavavam os outros dois recolhiam a terra, colocavam em uma caixa improvisada, com rodas que era empurrada até uma rampa onde outros trabalhadores se encarregariam de puxá-la para fora do que se transformou em um grande buraco de aproximadamente 3 metros de profundidade.
De repente um deles menciona algo sobre Madison:
-O que faz este branquelo aqui? Dizia o mais velho.
-Provavelmente é um estudante. Respondeu um deles que empurrava a caixa em direção à rampa.
-Se ele é estudante, deve saber nossa língua . Dizia outro.
Madison quis dizer alguma coisa, mas pensou que seria melhor fingir não entender. Dessa forma poderia saber o que pensavam dele. Sua técnica mostrou-se eficaz. Não demorou muito para o mais velho sarcasticamente dizer o que estava pensando.
-Este Rapaz deveria estar lendo livros! Minha mulher pode cavar mais rápido que ele.
Todos riram, sem qualquer constrangimento, afinal de contas o estrangeiro não tinha a menor idéia de que estava servindo de distração para quatro cansados trabalhadores. Assim pensavam eles. Madison pensou ser uma brincadeira sadia, pois afinal poderia até ser verdade, ele não era o mais rápido dos escavadores, porém não era somente um estudante a procura de aventura.

Madison estava com 26 anos, depois de ter sido aceito na mais antiga e conceituada Universidade dos Estados Unidos, a Harvard University de Boston Massachusets, se tornou um advogado de respeito em sua cidade. No entanto não tinha conseguido a realização profissional esperada. Seguindo a vontade de seu pai, tornou-se um advogado por mera conveniência, respeitado pela comunidade, com dinheiro o bastante para poder comprar uma casa, casar-se e construir uma família; porém isso não era o que queria para sua vida. Assim, nunca parou de pesquisar e aprender mais sobre a cultura e a história da civilização que lhe trazia profunda admiração: os egípcios. Nos últimos anos especializou-se em línguas árabes e particularmente nas línguas egípcias mais antigas; sempre com a idéia fixa de que um dia iria fazer uma grande descoberta.
Foi assim que cerca de seis meses atrás ele deixou sua vida de advogado para seguir o seu sonho. Tudo começou três anos atrás, com a visita de um velho amigo dos tempos de Harvard, Jeff Kandall. O antigo colega soube a respeito de um grande evento arqueológico que estava sendo planejado. Como Madison, Jeff se tornou um advogado e como tal, sabia prender sua audiência. Falava com entusiasmo sobre um boato de fonte segura, envolvendo Madison em uma estória fantástica demais para ser verdade.
- Meu caro Madison, nos tempos da faculdade você sempre falava que iria descobrir alguma coisa importante um dia. Está lembrado? Nossa! Quantas vezes escutei toda aquela baboseira…

Jeff Kandall tinha um modo de envolver qualquer pessoa, toda vez em que contava uma estória ou boato. Sendo um bom advogado, sua profissão, segundo ele próprio, era fazer com que acreditassem nele. Jeff se tornou um mestre nisso. Sua estória era quase inacreditável, Madison porém queria crer nela. Naquela estória ou qualquer outra que lhe desse a oportunidade de deixar a vida monótona que levava.
- Pois bem! Como grande amigo que sou, irei ajudá-lo a fazer isso. Trabalho para uma multinacional e não posso exatamente lhe contar o que fazem. Mas não se preocupe, é tudo legítimo. Estou trabalhando para o governo do meu querido país, os Estados Unidos da América .
A organização para a qual Jeff dizia trabalhar parecia realmente existir. Desde que passou a representar tal organização, vagarosamente começou a gozar de certo poder e influência, financeiramente nunca estivera melhor.
- O governo do nosso país esta financiando uma empresa fantasma, ou seja ela não existe. Foi aí que eu entrei fazendo tudo parecer legal. O dinheiro é suposta-mente designado para o sistema de educação, a nossa “Multinacional” é uma prestadora de serviços para o sistema educacional do nosso país.
Em tempos de guerra como aqueles, o desenvolvimento de novas armas deveria ser mantido em segredo pelo governo, bem como, todo o dinheiro destinado a isso. Então, estaria o governo realizando uma escavação arqueológica totalmente em segredo. E para quais fins ?
- O governo esta selecionando pessoas para uma expedição ao Egito, estão à procura de algo. Continuou Jeff.
- O que eles estão procurando, você sabe ?
- Não, mas deve ser alguma coisa muito importante pois deram um grande cheque para um velhote.
- Que velhote ?
- Professor Smith, pelo menos era o que dizia toda a documentação, sua identidade real não se sabe. Parece ser um grande estudioso e cientista, já trabalhou em vários projetos secretos para o governo. Convenceu o governo americano, que era extremamente importante procurar algo no Egito. É muito respeitado entre todos, parece ter desenvolvido projetos secretos para os militares . Todo o dinheiro foi dado a ele se você realmente quer descobrir alguma coisa, esse parece ser o caminho. Finalizou Jeff.
Madison disse a si mesmo centenas de vezes que daria tudo para fazer parte de uma grande expedição, não poderia perder esta oportunidade. E como se realmente acreditasse na tal estória, eufórico exclamou:
- Jeff, eu quero estar nessa expedição !
- Farei tudo para que você vá, meu amigo. Deixe comigo.


Mais de dois anos se passaram e Madison nunca mais ouviu falar do amigo, era como se tivesse desaparecido. Os dois nunca mais conversaram até quando seis meses atrás, Madison recebeu uma carta .

“Senhor Madison, seu interesse em nossa expedição é bem vindo. Necessitamos de toda ajuda possível . Entre em contato com minha equipe. Obrigado”.

Abaixo havia o endereço da empresa chamada The Kingston Group, e a carta era assinada por um nome que jamais esquecera:

Professor Smith

- Não pode ser verdade! Disse Madison espantado após ler a carta.

Depois de tanto tempo a estória contada por Jeff poderia ser verdadeira. A princípio pensou: que teria a perder? Poderia tirar alguns meses de folga para viajar e conhecer o Egito; seria muito interessante. Porém não tinha a menor idéia de sua função na expedição. Quando perguntou a Jeff qual seria sua colocação e o que diria a seu respeito, escutou inúmeras piadas.
- Caro Madison, se eu contar a verdade sobre você, não irá a lugar algum. Vou ter que mentir um pouco .
- Por que?
- Eles só selecionam pessoas muito inteligentes. Respondia Jeff rindo. Vou dizer que você é um expert em línguas antigas.
- Mas eu sou. O que você pensa que venho fazendo há tanto tempo.
- Estou brincando…mas vou ter que mexer os meus pauzinhos para que possa incluí-lo. Eles só escolhem os melhores dos melhores. Não somente historiadores, arqueólogos e tradutores, mas também engenheiros e cientistas. Pessoas que normalmente não se vê todos os dias. Mas você tem uma vantagem.
- Eu sei, sou um profundo conhecedor das línguas mais antigas.
- Não, seu tonto! Você tem a mim. Irei ajudá-lo, mas precisa ter certeza do que realmente deseja.
- O que quer dizer ?
- Bom, existem pessoas que serão contratadas para fazer a parte pesada do ser-viço. Você não será uma delas obviamente, mas existirão inúmeros obstáculos no dia a dia desta Missão. Dizia Jeff.
Madison achou estranho chamar uma expedição de missão, talvez fosse somente um jogo de palavras que Jeff usava para atrair mais sua atenção.
- Não se sabe quanto tempo vai durar e no final podem não achar nada. Continuou Jeff. - Sem falar que o dinheiro pode acabar e o governo parar de financiar esta expedição. Quando essas coisas acontecem você é sempre o último a saber. Há uma boa chance de um belo dia estar no meio do nada, sem comida e água.
- Como assim? Não há qualquer tipo de planejamento? Precauções devem ser tomadas para que todos retornem para casa a salvo.
- Você parece não estar entendendo, isso não é somente uma expedição. Eu não estava só falando a respeito de dinheiro ou qualquer tipo de imprevisto que possa acontecer. Existem perigos.

Com a carta na mão, somente agora lembrava Madison dessa outra parte da discussão que quase lhe escapou da memória. Não somente era uma expedição, mas uma Missão e estavam atrás de algo que Jeff não tinha a menor idéia do que poderia ser. O governo americano nunca demonstrou tanto interesse em ciência arqueológica e havia um extremo senso de urgência e preocupação com todo assunto referente à expedição. E, o mais importante, tudo seria mantido totalmente em segredo. Os jornais não poderiam saber a respeito e muito menos o povo americano. Madison poderia estar totalmente enganado sobre as intenções científicas do governo, afinal de contas poderia ser uma missão militar. Era possível que estivessem à procura de uma arma secreta que estaria lá escondida e o governo egípcio poderia nem saber disso. Ou pior, sabiam e iriam protegê-la a todo custo.

- Provavelmente é uma missão militar. Pensou Madison
Sentado com os olhos vagando por todos os lados, olhando os quadros da parede de seu escritório, a janela, e para todos os lugares ao mesmo tempo. Seu coração bateu mais rápido. Estava nervoso, pensava que talvez poderia até morrer se fizesse parte daquela expedição pois não era nenhum soldado e tão pouco era inclinado a qualquer tipo de aventura que pudesse ser considerada perigosa.
A frase, “precisamos de toda ajuda possível” não saía de sua mente. Soava como um pedido de alguém que está aflito, talvez em perigo e não como um convite. Se ainda fosse aquele menino que cresceu lendo sobre pirâmides e múmias, pensaria que o perigo seria alguma espécie de maldição. Mas isso não faria seu coração bater mais rápido. A guerra havia mudado as coisas e a vida humana já não era tão valiosa.

Pegando a carta nas mãos, levantou da cadeira e olhou para a pequena caixa que servia de lixeira. Mesmo não querendo admitir, havia a possibilidade de ser a expedição que ele sempre esperou. Uma expedição a procura de algo perdido há muito tempo, proveniente das antigas dinastias e uma descoberta maior que a própria tumba do faraó Tutankhamon. Porém, eram somente possibilidades e além do mais, dependia de seu trabalho e de seus clientes. Pensando nisso, após breve hesitação amassou a carta com uma das mãos a transformou-a em uma bolinha de papel que logo em seguida atirou. Bateu na parede, caiu no chão, a poucos centímetros da lixeira na qual tencionava acertar.

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