Nunca
sentira um sol tão quente antes, era como se estivesse em uma sauna
gigante. Podia sentílo queimando todo o corpo e retirando toda a água e
energia de seu organismo. Sua pele, olhos e principalmente garganta
estavam secas e como se não bastasse, a tarefa designada era das piores.
Olhava para a picareta como se fosse ela a causadora de seu sofrimento e
não ele mesmo. Por livre e espontânea vontade o quisera, mesmo contra o
desejo de seus pais; era a sua última chance e não a perderia por nada
deste mundo. Ajudado por quatro homens que falavam uma língua desconhecida
para muitos mas que de estranha maneira era a única coisa a amenizar a
monotonia daquele cansativo trabalho, cavavam um imenso buraco. Entre
quatro homens magros de pele escura se encontrava alguém diferente. De
pele clara, alto, forte mas que visivelmente não era acostumado a tal
esforço físico. Apesar das circunstâncias havia um invejável brilho nos
seus olhos que poderia ser confundido com prazer por estar naquele lugar,
naquele momento.
Madison, se encontrava a milhares de milhas de casa, onde nunca estivera
antes, porém a sensação de familiaridade com o local era constante.
Pudera, enfim depois de tantos livros, fotos e artefatos, finalmente
estava na terra dos faraós, aproximadamente 500 milhas da cidade de Cairo
no Egito, no meio de absolutamente nada.
Voltando a concentrar-se no que os quatros homens falavam, Madison
distinguia o que parecia ser uma mistura de vários dialetos árabes. Isso
proporcionava a chance de praticar um pouco do que havia estudado, porém
não se sentia na posição de interromper o diálogo dos quatro homens. Eles
pareciam ser velhos amigos e eram acostumados a trabalhar juntos. Suas
mãos eram calejadas e seus corpos se mostravam resistentes para tal
sacrifício.
Os quatro homens trabalhavam com bastante eficiência, enquanto dois deles
cavavam os outros dois recolhiam a terra, colocavam em uma caixa
improvisada, com rodas que era empurrada até uma rampa onde outros
trabalhadores se encarregariam de puxá-la para fora do que se transformou
em um grande buraco de aproximadamente 3 metros de profundidade.
De repente um deles menciona algo sobre Madison:
-O que faz este branquelo aqui? Dizia o mais velho.
-Provavelmente é um estudante. Respondeu um deles que empurrava a caixa em
direção à rampa.
-Se ele é estudante, deve saber nossa língua . Dizia outro.
Madison quis dizer alguma coisa, mas pensou que seria melhor fingir não
entender. Dessa forma poderia saber o que pensavam dele. Sua técnica
mostrou-se eficaz. Não demorou muito para o mais velho sarcasticamente
dizer o que estava pensando.
-Este Rapaz deveria estar lendo livros! Minha mulher pode cavar mais
rápido que ele.
Todos riram, sem qualquer constrangimento, afinal de contas o estrangeiro
não tinha a menor idéia de que estava servindo de distração para quatro
cansados trabalhadores. Assim pensavam eles. Madison pensou ser uma
brincadeira sadia, pois afinal poderia até ser verdade, ele não era o mais
rápido dos escavadores, porém não era somente um estudante a procura de
aventura.
Madison estava com 26 anos, depois de ter sido aceito na mais antiga e
conceituada Universidade dos Estados Unidos, a Harvard University de
Boston Massachusets, se tornou um advogado de respeito em sua cidade. No
entanto não tinha conseguido a realização profissional esperada. Seguindo
a vontade de seu pai, tornou-se um advogado por mera conveniência,
respeitado pela comunidade, com dinheiro o bastante para poder comprar uma
casa, casar-se e construir uma família; porém isso não era o que queria
para sua vida. Assim, nunca parou de pesquisar e aprender mais sobre a
cultura e a história da civilização que lhe trazia profunda admiração: os
egípcios. Nos últimos anos especializou-se em línguas árabes e
particularmente nas línguas egípcias mais antigas; sempre com a idéia fixa
de que um dia iria fazer uma grande descoberta.
Foi assim que cerca de seis meses atrás ele deixou sua vida de advogado
para seguir o seu sonho. Tudo começou três anos atrás, com a visita de um
velho amigo dos tempos de Harvard, Jeff Kandall. O antigo colega soube a
respeito de um grande evento arqueológico que estava sendo planejado. Como
Madison, Jeff se tornou um advogado e como tal, sabia prender sua
audiência. Falava com entusiasmo sobre um boato de fonte segura,
envolvendo Madison em uma estória fantástica demais para ser verdade.
- Meu caro Madison, nos tempos da faculdade você sempre falava que iria
descobrir alguma coisa importante um dia. Está lembrado? Nossa! Quantas
vezes escutei toda aquela baboseira…
Jeff Kandall tinha um modo de envolver qualquer pessoa, toda vez em que
contava uma estória ou boato. Sendo um bom advogado, sua profissão,
segundo ele próprio, era fazer com que acreditassem nele. Jeff se tornou
um mestre nisso. Sua estória era quase inacreditável, Madison porém
queria crer nela. Naquela estória ou qualquer outra que lhe desse a
oportunidade de deixar a vida monótona que levava.
- Pois bem! Como grande amigo que sou, irei ajudá-lo a fazer isso.
Trabalho para uma multinacional e não posso exatamente lhe contar o que
fazem. Mas não se preocupe, é tudo legítimo. Estou trabalhando para o
governo do meu querido país, os Estados Unidos da América .
A organização para a qual Jeff dizia trabalhar parecia realmente existir.
Desde que passou a representar tal organização, vagarosamente começou a
gozar de certo poder e influência, financeiramente nunca estivera melhor.
- O governo do nosso país esta financiando uma empresa fantasma, ou seja
ela não existe. Foi aí que eu entrei fazendo tudo parecer legal. O
dinheiro é suposta-mente designado para o sistema de educação, a nossa
“Multinacional” é uma prestadora de serviços para o sistema educacional
do nosso país.
Em tempos de guerra como aqueles, o desenvolvimento de novas armas deveria
ser mantido em segredo pelo governo, bem como, todo o dinheiro destinado a
isso. Então, estaria o governo realizando uma escavação arqueológica
totalmente em segredo. E para quais fins ?
- O governo esta selecionando pessoas para uma expedição ao Egito, estão à
procura de algo. Continuou Jeff.
- O que eles estão procurando, você sabe ?
- Não, mas deve ser alguma coisa muito importante pois deram um grande
cheque para um velhote.
- Que velhote ?
- Professor Smith, pelo menos era o que dizia toda a documentação, sua
identidade real não se sabe. Parece ser um grande estudioso e cientista,
já trabalhou em vários projetos secretos para o governo. Convenceu o
governo americano, que era extremamente importante procurar algo no Egito.
É muito respeitado entre todos, parece ter desenvolvido projetos secretos
para os militares . Todo o dinheiro foi dado a ele se você realmente quer
descobrir alguma coisa, esse parece ser o caminho. Finalizou Jeff.
Madison disse a si mesmo centenas de vezes que daria tudo para fazer parte
de uma grande expedição, não poderia perder esta oportunidade. E como se
realmente acreditasse na tal estória, eufórico exclamou:
- Jeff, eu quero estar nessa expedição !
- Farei tudo para que você vá, meu amigo. Deixe comigo.
Mais de dois anos se passaram e Madison nunca mais ouviu falar do amigo,
era como se tivesse desaparecido. Os dois nunca mais conversaram até
quando seis meses atrás, Madison recebeu uma carta .
“Senhor Madison, seu interesse em nossa expedição é bem vindo.
Necessitamos de toda ajuda possível . Entre em contato com minha equipe.
Obrigado”.
Abaixo havia o endereço da empresa chamada The Kingston Group, e a carta
era assinada por um nome que jamais esquecera:
Professor Smith
- Não pode ser verdade! Disse Madison espantado após ler a carta.
Depois de tanto tempo a estória contada por Jeff poderia ser verdadeira. A
princípio pensou: que teria a perder? Poderia tirar alguns meses de folga
para viajar e conhecer o Egito; seria muito interessante. Porém não tinha
a menor idéia de sua função na expedição. Quando perguntou a Jeff qual
seria sua colocação e o que diria a seu respeito, escutou inúmeras piadas.
- Caro Madison, se eu contar a verdade sobre você, não irá a lugar algum.
Vou ter que mentir um pouco .
- Por que?
- Eles só selecionam pessoas muito inteligentes. Respondia Jeff rindo. Vou
dizer que você é um expert em línguas antigas.
- Mas eu sou. O que você pensa que venho fazendo há tanto tempo.
- Estou brincando…mas vou ter que mexer os meus pauzinhos para que possa
incluí-lo. Eles só escolhem os melhores dos melhores. Não somente
historiadores, arqueólogos e tradutores, mas também engenheiros e
cientistas. Pessoas que normalmente não se vê todos os dias. Mas você tem
uma vantagem.
- Eu sei, sou um profundo conhecedor das línguas mais antigas.
- Não, seu tonto! Você tem a mim. Irei ajudá-lo, mas precisa ter certeza
do que realmente deseja.
- O que quer dizer ?
- Bom, existem pessoas que serão contratadas para fazer a parte pesada do
ser-viço. Você não será uma delas obviamente, mas existirão inúmeros
obstáculos no dia a dia desta Missão. Dizia Jeff.
Madison achou estranho chamar uma expedição de missão, talvez fosse
somente um jogo de palavras que Jeff usava para atrair mais sua atenção.
- Não se sabe quanto tempo vai durar e no final podem não achar nada.
Continuou Jeff. - Sem falar que o dinheiro pode acabar e o governo parar
de financiar esta expedição. Quando essas coisas acontecem você é sempre o
último a saber. Há uma boa chance de um belo dia estar no meio do nada,
sem comida e água.
- Como assim? Não há qualquer tipo de planejamento? Precauções devem ser
tomadas para que todos retornem para casa a salvo.
- Você parece não estar entendendo, isso não é somente uma expedição. Eu
não estava só falando a respeito de dinheiro ou qualquer tipo de
imprevisto que possa acontecer. Existem perigos.
Com a carta na mão, somente agora lembrava Madison dessa outra parte da
discussão que quase lhe escapou da memória. Não somente era uma expedição,
mas uma Missão e estavam atrás de algo que Jeff não tinha a menor idéia do
que poderia ser. O governo americano nunca demonstrou tanto interesse em
ciência arqueológica e havia um extremo senso de urgência e preocupação
com todo assunto referente à expedição. E, o mais importante, tudo seria
mantido totalmente em segredo. Os jornais não poderiam saber a respeito e
muito menos o povo americano. Madison poderia estar totalmente enganado
sobre as intenções científicas do governo, afinal de contas poderia ser
uma missão militar. Era possível que estivessem à procura de uma arma
secreta que estaria lá escondida e o governo egípcio poderia nem saber
disso. Ou pior, sabiam e iriam protegê-la a todo custo.
- Provavelmente é uma missão militar. Pensou Madison
Sentado com os olhos vagando por todos os lados, olhando os quadros da
parede de seu escritório, a janela, e para todos os lugares ao mesmo
tempo. Seu coração bateu mais rápido. Estava nervoso, pensava que talvez
poderia até morrer se fizesse parte daquela expedição pois não era nenhum
soldado e tão pouco era inclinado a qualquer tipo de aventura que pudesse
ser considerada perigosa.
A frase, “precisamos de toda ajuda possível” não saía de sua mente. Soava
como um pedido de alguém que está aflito, talvez em perigo e não como um
convite. Se ainda fosse aquele menino que cresceu lendo sobre pirâmides e
múmias, pensaria que o perigo seria alguma espécie de maldição. Mas isso
não faria seu coração bater mais rápido. A guerra havia mudado as coisas e
a vida humana já não era tão valiosa.
Pegando a carta nas mãos, levantou da cadeira e olhou para a pequena caixa
que servia de lixeira. Mesmo não querendo admitir, havia a possibilidade
de ser a expedição que ele sempre esperou. Uma expedição a procura de algo
perdido há muito tempo, proveniente das antigas dinastias e uma descoberta
maior que a própria tumba do faraó Tutankhamon. Porém, eram somente
possibilidades e além do mais, dependia de seu trabalho e de seus
clientes. Pensando nisso, após breve hesitação amassou a carta com uma
das mãos a transformou-a em uma bolinha de papel que logo em seguida
atirou. Bateu na parede, caiu no chão, a poucos centímetros da lixeira na
qual tencionava acertar.
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