
Ensaio - O sorriso como mordaça: Lima Barreto e a elite progressista do século XXI 29/08/2025
29/08/2025 -
Por Jorge Henrique de Freitas Pinho*
1. Preâmbulo — o espelho de Lima Barreto
Lima Barreto não escrevia para agradar. Sua pena era como uma navalha que riscava a carne da República, expondo a ferida que a elite insistia em cobrir com ataduras de retórica. Mais de um século depois, sua voz ainda ecoa, não porque tenha sido plenamente ouvida, mas porque permanece incômoda.
Em agosto de 2025, um episódio político revelou que o Brasil continua a preferir o artifício à verdade. Um presidente, que se diz filho do povo, repreendeu publicamente seu ministro por mostrar a imagem de um homem negro e desdentado. Fê-lo em nome de um programa que se orgulha de “colocar um sorriso na boca dos brasileiros”, como se dentes novos pudessem apagar a miséria que o próprio sistema alimenta.
Se Lima Barreto vivesse hoje, veria nessa cena não uma novidade, mas a repetição farsesca de um enredo antigo: o país que rejeita o povo real e fabrica máscaras para poder se contemplar no espelho.
2. Cena e contradição: “o sorriso censurado”
Em 21 de agosto de 2025, durante evento em Sorocaba (SP), o presidente Lula criticou uma revista institucional produzida por um de seus ministros (na Agricultura ou Desenvolvimento Agrário) para um congresso na Alemanha.
A publicação mostrava, lado a lado, uma mulher branca sorrindo e ostentando bochechas coradas, enquanto um homem negro aparecia sorrindo sem nenhum dente. Lula reagiu com indignação, questionando: “Você não acha que isso é fotografia para representar o Brasil no exterior? Um cara sem dente e ainda negro.” Ele determinou: *“Jogue essa página fora”* . Em seu discurso, vinculou ainda o episódio à criação do programa “Brasil Sorridente” .
A fala gerou intensa repercussão. Especialistas em comunicação e direitos humanos apontaram que, mesmo que a intenção alegada pelos defensores fosse evitar estereótipos, o próprio enunciado de Lula carregava uma carga problemática que não deveria ser subestimada. Por outro lado, representantes do governo, como a ministra da Igualdade Racial, defenderam que a menção foi uma crítica ao estigma racial e à exclusão estrutural.
Esse episódio expõe com clareza a contradição entre a narrativa progressista do governo — que se diz sensível à questão racial — e o medo simbólico de exibir rostos que denunciam diretamente a miséria. O sorriso artificial, de dentes brancos, torna-se uma mordaça estética, erguida não para libertar, mas para calar e esconder.
3. O sorriso como metáfora política
Há séculos o poder aprendeu a fabricar símbolos para ocultar a realidade. Antigamente eram coroas, mantos e brasões. Hoje são slogans e programas com nomes sedutores. O “Brasil Sorridente” é um exemplo perfeito dessa lógica: promete devolver dentes ao povo, mas, em vez de libertar sua dignidade, converte o sorriso em espetáculo político.
Um sorriso pode ser expressão de alegria verdadeira ou mordaça estética. No caso brasileiro, ele se tornou a segunda coisa. Não importa se o pobre tem trabalho, moradia, escola ou justiça; importa que, na foto oficial, ele apareça com dentes alinhados, como se a ordem social fosse harmonia. Trata-se de um simulacro de prosperidade, construído para que a elite se orgulhe de si mesma diante do espelho.
A ironia é cruel: o povo não enxerga o próprio sorriso. Não há espelho na favela sem saneamento, não há consultório nas estradas de terra, não há futuro no barraco improvisado. O sorriso é dado mais para o governante que para o governado. É o poder que precisa ver dentes brancos para se convencer de que não falhou. O sorriso, nesse caso, é um antídoto contra a má consciência do dominador, não contra a miséria do dominado.
Aqui está o núcleo filosófico: quando a estética substitui a ética, quando o verniz vale mais que a madeira, o país se condena à mentira. Um sorriso pode iluminar um rosto; mas um sorriso imposto, fabricado e fotografado, apenas escurece a verdade.
4. A crítica de Lima Barreto hoje
Se Lima Barreto estivesse vivo em agosto de 2025, teria escrito com sua pena ferina algo mais ou menos assim:
“Inventaram agora que a felicidade nacional se mede pelo alinhamento dos dentes. O pobre, que continua sem teto, sem trabalho certo e sem escola para os filhos, ganha do governo uma arcada branca como senha de cidadania. Não lhe dão futuro, mas lhe dão prótese. Não lhe oferecem pão, mas um sorriso de vitrine. É uma espécie nova de mordaça: não cobre a boca, mas a obriga a rir.
E se algum funcionário, distraído ou honesto, ousa mostrar ao mundo um brasileiro tal como ele é — negro, alto, sem dentes e sem disfarces — logo vem o chefe de Estado corrigir a cena: ‘Apague essa página.
Esse Brasil não pode ser mostrado’. É curioso: o Brasil real nunca pode ser mostrado. Desde os tempos de quimeras imperiais até as repúblicas ilustradas, o que se esconde não é a corrupção dos poderosos, mas a pobreza dos fracos. É ela, e só ela, que ofende o olhar delicado da elite.”
Assim Lima desmontaria, em poucas linhas, a contradição: um país que transforma a estética em substituto da ética, a maquiagem em política pública, e que, sob o pretexto de dar dignidade, apenas mascara a humilhação.
Ele veria, também, que a elite progressista de hoje pouco difere da elite branca de seu tempo. Ambas querem o negro símbolo, mas não o negro real. Aceitam a imagem do herói, do atleta, do intelectual domesticado, mas rejeitam o pobre desdentado que expõe a verdade do país. Esse continua sendo censurado, tal como o operário bêbado ou a mulata de subúrbio que Lima Barreto ousou colocar no centro de seus romances.
Em suma, para Lima, nada mudou substancialmente: o Brasil ainda fabrica ilusões para se proteger de si mesmo. E quando alguém tenta mostrar o espelho — seja num livro em 1910 ou numa revista em 2025 — o reflexo é rasgado, em nome de um sorriso que nunca chega à alma.
5. Aparência e essência: chave filosófica
O episódio do “sorriso censurado” só pode ser compreendido plenamente se usarmos a distinção entre aparência e essência — chave que atravessa a filosofia desde Platão.
Aparência: O governo apresenta o programa “Brasil Sorridente” como política de inclusão. Os dentes alinhados viram símbolo de prosperidade. O discurso progressista se veste de preocupação estética, como se o sorriso fosse a epifania da dignidade humana.
Essência: A realidade, porém, permanece intocada: pobreza insteimentalizada, racismo velado, desigualdade profunda. A miséria é ocultada sob uma prótese, não enfrentada por reformas éticas, sociais e econômicas.
Hegel nos lembraria que a contradição é motor da história. Mas aqui a contradição não gera síntese: ela é abafada pela máscara. O sorriso fabricado não nega a miséria para superá-la; apenas a encobre para eternizá-la.
Sócrates, ao interrogar a cidade, perguntaria: “O que é felicidade? É mostrar dentes brancos ou ter a alma livre?” A resposta, óbvia para quem não teme a verdade, revelaria o vazio de um programa que troca justiça por estética.
Montaigne já dizia que nada é mais ridículo do que o homem fantasiar grandezas enquanto esconde a própria miséria. Para ele, a filosofia não serve para enfeitar discursos, mas para nos lembrar de nossa fragilidade. O episódio do ‘sorriso censurado’ confirma essa lição: preferimos fantasiar um povo feliz a encarar a dor nua do povo real.
Martin Buber, em sua ética do encontro, diria que só há dignidade quando o homem é tratado como Tu e não como Isso. Mas no episódio de agosto de 2025, o homem negro sem dentes foi reduzido a Isso — um objeto incômodo, um erro de marketing a ser rasgado, em vez de um ser humano portador de história, sofrimento e esperança.
E Viktor Frankl acrescentaria que o sentido da vida não se encontra em disfarces, mas na capacidade de suportar a dor com verdade. Uma sociedade que mascara a miséria com sorrisos não encontra sentido; apenas foge dele.
Assim, a chave filosófica nos mostra: o sorriso estampado não é emancipação, mas sim a estetização da exclusão. Uma espécie de niilismo prático, no qual se aceita a miséria desde que ela não manche as fotografias oficiais.
6. Síntese: A permanência da exclusão
Mais de um século separa Lima Barreto de nós. Mas, ao observarmos a cena de agosto de 2025, a impressão é de que o tempo brasileiro corre em círculo. Ontem, a República temia o povo real e o escondia sob o verniz de instituições pomposas; hoje, um governo que se diz do povo repete o gesto, temendo a imagem de um homem negro sem dentes.
O programa que promete devolver sorrisos não devolve o futuro. O silêncio da imprensa que deveria denunciar repete a cumplicidade de sempre. A elite progressista, assim como a conservadora de outrora, prefere a máscara ao espelho, o ícone domesticado ao rosto incômodo da miséria.
Se há algo que Lima Barreto nos ensina é que o Brasil nunca tolerou ser visto como realmente é. Prefere encenar grandezas, maquiar ruínas, pintar sorrisos. Mas uma nação não se redime com próteses; redime-se quando encara sua dor sem disfarces e decide transformá-la em justiça.
O episódio
Por isso, o episódio do “sorriso censurado” não é apenas uma gafe presidencial. É uma alegoria do país: uma boca forçada a rir enquanto o estômago continua vazio; uma fotografia editada para não ofender os olhos da elite, enquanto a verdade continua a gritar da sarjeta.
O verdadeiro tributo a Lima Barreto não é repetir sua imagem em campanhas educativas, mas ouvir sua denúncia ainda atual: enquanto o negro real for censurado, enquanto o pobre for escondido, enquanto o povo for reduzido a estética, continuaremos a viver num Brasil de aparências, onde o sorriso é mordaça e a miséria é silêncio.
7. Epílogo — O sorriso, a corrente e a toga
Aqui peço permissão para concluir este ensaio com um epílogo escrito como se fosse pela pena de Lima Barreto, emprestando-lhe minha voz e abraçando, tanto quanto possível, o seu estilo ferino e incômodo:
“O Brasil não muda. Ontem arrancavam-nos o nome, a alma e a esperança nos troncos da escravidão. Hoje pedimos que agradeçamos as correntes. Um presidente, que se diz filho do povo, tem a ousadia de transformar o cativeiro em herança benfazeja. É a velha zombaria da Casa Grande, agora repetida em palanque.
O mesmo presidente, ao ver num folheto a figura de um negro alto, desdentado e risonho, ordena que o apaguem. Não convém, diz ele, mostrar assim o Brasil. Inventaram que a felicidade do povo se mede pelos dentes. Criaram um programa para nos dar prótese em vez de justiça, fotografia em vez de dignidade. Querem o negro sorridente, mas nunca o negro real, com sua dor e sua humanidade.
Se Montaigne ria das vaidades humanas, eu rio hoje dessa mania brasileira de transformar dentes em bandeira de redenção. Ele zombava dos homens que se pintam de ouro para esconder a doença. Eu zombaria dos que pintam o sorriso para esconder a miséria.
E a academia, que se gaba de progressista, me convoca como ícone, mas não como crítico. Citam minha cor, falam dos hospícios onde fui trancado, mas não deixam que minhas palavras passem como navalha sobre seus próprios privilégios. Usam a imagem, enterram a voz.
Foi assim também com Joaquim Barbosa. Nomearam-no para a mais alta Corte como símbolo de virtude e prova de diversidade. Mas quando ousou ser sujeito, quando enfrentou poderosos sem pedir licença, a máquina se moveu contra ele. Pressionado até o limite do corpo e da alma, deixou a toga antes da hora. Não lhe faltaram aplausos de ocasião; faltou-lhe o ambiente para permanecer.
Não nos enganemos: eu não pediria pão. Pão é esmola que a mão paternal concede para calar o estômago. O que eu pediria, como sempre pedi, é a oportunidade de ganhar esse pão com meu trabalho, minha inteligência e meu esforço, sem que me roubassem a chance pelo preconceito ou pelo cinismo social.
O Brasil continuará fabricando sorrisos de porcelana e togas simbólicas. Continuará erguendo negros como estandartes para logo depois devolvê-los ao silêncio. Continuará nos pedindo gratidão pelas correntes. Mas enquanto essa farsa persistir, repito: um país que só admite o negro como mito é um país que ainda teme o negro como sujeito. E enquanto isso durar, todo sorriso será mordaça, toda toga será prisão, e todo agradecimento será apenas mais um insulto à nossa dignidade.”
(*) O autor é advogado, Procurador do Estado aposentado, ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas e membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.
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