Hospital Pedro II: História, Renascimento e o Polo Médico do Recife
Poucos monumentos no Brasil sintetizam de forma tão marcante e grandiosa quanto o Hospital Pedro II, no Recife. Erguido no século XIX, o imponente monumento no bairro da Boa Vista não é apenas um marco físico da cidade; é o berço e a própria certidão de nascimento da medicina social e hospitalar moderna em Pernambuco e no Nordeste.
Vanguardismo Arquitetônico e Celeiro da Medicina
O Hospital Pedro II nasceu para ser grande: na estrutura física, na causa a que se destinava e pelos profissionais que a ele se dedicaram. Grande como seu patrono, D. Pedro II — estadista culto, patrono das letras, protetor das artes e entusiasta da ciência e da inovação. Ele exerceu um papel central no apoio ao saber científico e na modernização cultural do país no século XIX.
A história deste hospital é tão longa, rica e pitoresca em detalhes que nem de longe é intenção sequer resumi-la, pois seria tarefa impossível. Projetado pelo engenheiro e arquiteto pernambucano José Mamede Alves Ferreira — autor de marcos como o Ginásio Pernambucano, a Casa de Detenção (atual Casa da Cultura), o Cemitério de Santo Amaro e o Teatro de Santa Isabel — o Hospital Pedro II foi inaugurado em 10 de março de 1861, após 14 anos de obras, sob a administração das Irmãs de Caridade da Santa Casa de Misericórdia. Com 22 mil metros quadrados de área construída, foi o primeiro prédio do Estado concebido com destinação exclusivamente hospitalar.
Sua edificação neoclássica, com traços que remetem ao Hospital Lariboisière (1854), em Paris, impressiona pelo estilo imponente, no qual se destacam as marcantes arcadas romanas e o pórtico ornamentado pela figura da Caridade, esculpida em cantaria fina de Lisboa. Esse desenho, rompeu com os velhos modelos claustrofóbicos dos antigos hospitais coloniais ao adotar a tipologia pavilhonar, o primeiro nosocômio construído no Brasil inspirado nos preceitos higienistas do médico francês Jacques-René Tenon, estruturando-se em blocos autônomos e paralelos integrados por galerias abertas. Essa configuração garantia ventilação natural, iluminação abundante, separação dos doentes por sexo, dimensionamento rigoroso do espaço e circulação cruzada de ar, isolando as enfermarias por pátios para extinguir a umidade, conter a propagação de epidemias e assegurar a salubridade, marcando uma verdadeira revolução na arquitetura de saúde no país.
Antes mesmo de sua inauguração, em 22 de dezembro de 1859, o elegante edifício serviu como salão de recepção imperial e foi palco de um pomposo e concorrido baile beneficente oferecido pela Associação Comercial de Pernambuco em homenagem a D. Pedro II e à Imperatriz D. Teresa Cristina. Considerado um dos eventos sociais mais comentados do século XIX no Brasil, o acontecimento reuniu cerca de duas mil pessoas da alta sociedade e foi crucial para angariar fundos e acelerar a conclusão das obras, ocorrida pouco mais de um ano depois.
Mais tarde, a partir de 1920, impulsionada pela visão do Dr. Octávio de Freitas, a nobre estrutura passou a abrigar a Faculdade de Medicina do Recife, ocasião em que o Pedro II assumiu formalmente o papel de hospital-escola. Durante seis décadas — atuando como Hospital das Clínicas até 1982 — foi centro de excelência e vanguarda na formação médica pernambucana e nordestina, sendo pioneiro em diversos procedimentos, como a primeira cirurgia sob anestesia geral no estado (inicialmente com éter e, posteriormente, com clorofórmio), a primeira cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea do Norte-Nordeste, as primeiras hemodiálises no estado e as primeiras cirurgias complexas de grande porte de Pernambuco e da região.
Grandes expoentes da medicina regional integraram o corpo clínico deste renomado hospital — verdadeiro templo de formação de elites médicas. Ao moldar gerações de mestres, clínicos e cirurgiões que definiram a prática sanitária no estado, a instituição colocou-se na vanguarda da medicina brasileira na segunda metade do século XX.
O Longo Deserto de 28 Anos e a Visão de Antônio Carlos Figueira
A transferência das atividades acadêmicas para o novo Hospital das Clínicas, em 1982, inaugurou um capítulo crítico de incertezas. Teve início um deserto assistencial de 28 anos, período em que a edificação secular enfrentou a degradação, o risco de perda patrimonial e até propostas descabidas de conversão em centro comercial. O salão imperial onde dançaram nobres viu a poeira e o esquecimento ameaçarem sua vocação original.
Durante essa fase, o Pedro II foi parcialmente ocupado por repartições públicas: abrigou o Museu da Medicina e, na gestão de Cyro de Andrade Lima como Secretário Estadual de Saúde, sediou a estrutura administrativa da I Regional de Saúde, além de acolher o Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva (NESC) da Fiocruz.
A paralisia assistencial à população só foi rompida graças à liderança arrojada, visionária e decisiva do médico e gestor Antônio Carlos Figueira. À frente do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), e demonstrando uma capacidade ímpar de pactuação e governança, ele identificava a restauração não como um mero resgate saudosista, mas como um ato de responsabilidade pública e sanitária.
No final de dezembro de 2006, mediante pactuação com a Santa Casa de Misericórdia, interveniência da Cúria Metropolitana e sob a regência arquitetônica de Jorge Passos, Figueira comandou um ousado Projeto de Restauro e Modernização do Hospital Pedro II para resgatar sua finalidade secular original. Iniciado em março de 2007, o empreendimento contou com apoio financeiro dos governos federal, estadual e municipal, de empresas privadas e de doações individuais e de apoios diversos.
A muitos, a decisão de Antônio Carlos parecia utópica. No entanto, em agosto de 2010, após três anos e meio de um trabalho exaustivo e minucioso, o IMIP devolveu à sociedade um monumento vivo, renascido e harmonizado: a mais emblemática estrutura médica já construída em Pernambuco, com sua importância histórica preservada e sua arquitetura resgatada fielmente em suas linhas originais.
O Hospital Pedro II nasceu, por assim dizer, sob o signo da filantropia. Antes mesmo de acolher o primeiro enfermo, o edifício já havia servido para mobilizar a sociedade em proveito da saúde pública. Cento e cinquenta anos depois, quando Antônio Carlos Figueira liderou sua restauração e o devolveu à assistência e ao ensino médico, retomou-se o seu ciclo histórico: o prédio secular que nascera como uma esperança para a medicina pernambucana voltou a cumprir exatamente a missão para a qual fora concebido — uma semiótica particularmente expressiva no cuidar de pessoas.
Com seu ressurgimento e integração ao Complexo Hospitalar do IMIP, o Pedro II uniu a tradição de sua fundação à inovação da medicina moderna — em uma recuperação definitivamente indissociável da figura de Antônio Carlos Figueira. Equipado com um avançado parque tecnológico, modernos recursos e ambientes humanizados, o restaurado hospital foi reaberto integrando serviços de saúde de alta complexidade, espaços culturais e áreas acadêmicas. Assim, ao ofertar serviços avançados — como transplantes, radioterapia e ensino médico —, reafirmou sua vocação ao continuar formando profissionais competentes e assistindo de modo eficiente à comunidade, fortalecendo o Recife como o segundo maior polo médico do Brasil e devolvendo a dignidade ao berço da medicina pernambucana e nordestina.
Tutela Patrimonial e a Coragem da Continuidade
Por iniciativa do IMIP, a preservação do edifício foi chancelada por seu tombamento pelo Conselho Estadual de Cultura/Fundarpe em 2008, além de seu enquadramento como Zona Especial de Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural (ZEPH 18).
Contudo, a complexa restauração do prédio monumental foi apenas o seu primeiro enfrentamento; o segundo, permanente e igualmente árduo, é a sua manutenção diária. É preciso enaltecer com vigor as gestões sustentáveis do IMIP sucessoras a Antônio Carlos Figueira. Mesmo diante dos elevados custos operacionais de um imóvel histórico tombado e das recorrentes restrições orçamentárias da saúde pública, o IMIP tem mantido com coragem e rigor a excelência dos serviços estratégicos ali prestados, inclusive com a importante participação da sociedade pernambucana e apoios diversos. Manter as portas do Hospital Pedro II abertas à comunidade usuária do SUS é um triunfo contínuo do patrimônio, da ciência e da cidadania.
Há um simbolismo particularmente forte nesse episódio: ao assumir a recuperação do Hospital Pedro II, Antônio Carlos Figueira não apenas restaurou um prédio histórico; ele reconectou duas tradições da medicina pernambucana. O edifício que havia formado gerações de médicos voltou a ser um hospital-escola, agora integrado ao IMIP. Assim, um patrimônio do século XIX passou a servir à formação dos profissionais de saúde do século XXI, preservando sua memória e renovando sua missão. Esse resgate representa um dos legados mais duradouros de Antônio Carlos Figueira para a medicina, o ensino e o patrimônio histórico de Pernambuco.
Um Laço Indissolúvel com o Pedro II
Minha história com o Hospital Pedro II é marcada pelo afeto, pela memória, pelo compromisso com a saúde pública e pela defesa da vida. Vi de perto a grandiosidade daquele templo da medicina nos meus tempos de estudante e, anos mais tarde, convivi com o desconforto à distância ao testemunhar o seu sensível "período cinza" de semiabandono e inércia de finalidade.
No entanto, o destino me reservou o privilégio de participar da gestão do IMIP no momento exato em que resgatamos a sua dignidade. Participar e ser testemunha do seu admirável restauro e modernização foi mais do que a integração a um enorme desafio institucional; foi um reencontro com as minhas raízes e história. Afinal, ver o gigante renascer não foi apenas restaurar o passado, mas devolver o futuro à saúde do nosso povo.
Mais um ato de amor do IMIP a Pernambuco. E, parodiando o padre jesuíta Antônio Vieira: "Nós somos o que fazemos. O que não fazemos não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos, apenas duramos". Podemos dizer: o IMIP fez e faz. O Pedro II está vivo e pulsante.
*Alex Caminha, é médico, formado pela UFPE, é Chefe de Gabinete da Superintendência Geral do IMIP.