Da Série, Mistérios do Aquém: a revogação da lei da gravidade no “suicídio” de Herzog - Por Natanael Sarmento*
03/08/2026
Nos anais dos mistérios do aquém da ditadura militar do Brasil, a arte cênica de forjar mortes dos dramaturgos do verde-oliva se superava nos bastidores do DOI-CODI. Em São Paulo o teatro dos horrores daqueles porões ficava longe dos refletores e do público.
A cena da física dobrada
Obra-prima dessa pantomima trágica entra em cartaz em outubro de 1975, sob o título “Suicídio do Jornalista Vladimir Herzog" divulgado na imprensa.". A ditadura que revogou diversas leis, suprimiu liberdade de– imprensa, de greve, pluripartidarismo, censurou. Mas a porca torceu o rabo na revogação da lei da gravidade e da anatomia humana na pantomima do suicídio de Herzog.
Desafio
A versão oficial sustentava que o respeitado diretor de jornalismo da TV Cultura Vladmir Herzog havia dado fim à própria vida utilizando um cinto de pano pendurado numa grade de janela a metro e meio do chão.
A mente esmaga
A cena da física dobrada
Obra-prima dessa pantomima trágica entra em cartaz em outubro de 1975, sob o título “Suicídio do Jornalista Vladimir Herzog" divulgado na imprensa.". A ditadura que revogou diversas leis, suprimiu liberdade de– imprensa, de greve, pluripartidarismo, censurou. Mas a porca torceu o rabo na revogação da lei da gravidade e da anatomia humana na pantomima do suicídio de Herzog.
Desafio
A versão oficial sustentava que o respeitado diretor de jornalismo da TV Cultura Vladmir Herzog havia dado fim à própria vida utilizando um cinto de pano pendurado numa grade de janela a metro e meio do chão.
A mente esmaga
Na genialidade da armação, o "enforcado" aparecia com os dois pés firmemente apoiados no chão, joelhos dobrados, numa postura de quase contrição involuntária. A física é uma ciência chata: insiste em nos manter vivos. Na física do DOI-CODI e da Nota Oficial o jornalista teria vencido e revogado a gravidade, mantendo-se, voluntariamente, "dobrado" até morrer por “asfixia”.
A Arte de forjar
No figurino da farsa montada os pés no chão. Nada de corpos suspensos no ar. Corda ajustável: o cinto aparece miraculosamente amarrado depois de o detido ter sido submetido ao ritual padrão de "boas-vindas", ritual este que o mais pateta da Terra Plana sabe que retira até os cadarços dos sapatos para evitar acidentes. Maquiagem merecia o Oscar tão visíveis as marcas do corpo que o Cego Aderaldo podia notar das últimas cadeiras.
Não convenceu
A peça grotesca não agradou, nem convenceu o grande público, a sociedade brasileira, jornalistas e juristas, gente acostumada com os dissabores desses teatros montados de fantoches da ditadura.
Efeito contrário
A farsa do enforcamento de joelhos foi tão descarada que a opinião pública repudiou a versão oficial e escancarou a tramoia dos porões do regime. O "caso encerrado" com a divulgação da foto no jornal foi tiro pela culatra. Escancarava a brutalidade e a inacreditável estupidez burocrática dos agentes do terror do Estado brasileiro.
Finalmente
Anos mais tarde, a Justiça reconhece o que todos já sabiam. Em 1975: Herzog foi assassinado sob tortura. A tese do suicídio era mais um lixo da história sanguinária da ditadura militar. A fotografia é eterna. A ditadura, não. Ditadura nunca mais!
*Natanael Sarmento é professor e escritor, e integrante do Diretório Nacional da UP. @sarmentonatanael

NR - Os textos assinados expressam a opinião dos autores.




