O Teatro
É preciso fazer uma introdução mínima sobre o edifício inicialmente denominado Teatro de Pernambuco, erigido no então Campo do Erário, hoje Praça da República. Foi um ex-governador de nossa província, Honório Hermeto Carneiro Leão, o Marquês do Paraná (1801-1856), que decidiu homenagear sua alteza imperial a princesa Isabel de Bragança (1846-1921).
Ele deixaria o governo dez dias antes da inauguração do edifício, a 18 de maio de 1850, tendo permanecido pouco mais de dez meses no cargo. Ela completaria quatro anos de idade no dia 29 de julho seguinte. Honório garantiu seu nome na história por esse feito, esse agrado ao imperador D. Pedro II (1825-1891), por meio do onomástico da filha (fico devendo qual deles: a parenta de Nossa Senhora, a rainha da Hungria ou a rainha de Portugal).
Contudo, vale ressaltar, foi um de seus antecessores, Fernando de Rego Barros, o conde da Boa Vista (1802-1870), que em 1839 assinou a lei autorizando a construção do Teatro de Pernambuco.
O engenheiro escolhido para elaborar o projeto arquitetônico e conduzir a equipe de trabalho, o francês Louis Vauthier (1815-1901), chegou ao Recife em setembro de 1840, mas teve de esperar até abril do ano seguinte a fim de instalar o campo de obras, porque o primeiro orçamento que apresentara havia sido rejeitado pelo Poder Público.
Vauthier não suportou a campanha difamatória da qual foi vítima por tabela, por causa dos ataques a Rego Barros, deposto em 1844. O projetista do Teatro de Pernambuco voltou à França em 1846, onde iniciou carreira política e chegou a ser preso em 1849. Porém manteve laços tão frutíferos no Recife que retornou para cuidar da finalização do já rebatizado Santa Isabel (bem como da reconstrução após o incêndio de 1869).
Ele igualmente deixou legado em outras edificações recifenses que por demais conhecemos, a exemplo do Mercado de São José, ou do solar do barão João José Rodrigues Mendes (1827-1893), sede da Academia Pernambucana de Letras desde 1966. Menciono ainda o casarão onde residiu o ex-prefeito de Olinda Eufrásio Barbosa, hoje morada de Tânia Carneiro Leão, viúva de Carlos Pena Filho (1929-1960) e querida amiga.
Sobre este último marco, quando você passar novamente pela Rua Prudente de Morais, no trecho entre a praça João Alfredo (a da Igreja de São Pedro Mártir de Verona) e os Quatro Cantos, siga pela calçada esquerda e repare na casa logo antes da Estação da Luz, vizinha parede com parede a esta. Nela há um brasão da República Oriental do Uruguai na fachada, porque também funciona como sede do consulado-geral daquele país em Pernambuco.
Palco de concertos e óperas
A introdução, que prometeu ser mínima, passou do ponto porque um pernambucano não consegue falar de um símbolo de sua terra sem o associar a outro e a outro e a outro... Mas está para se dar o mesmo com esta série de O Poder, “É Findi”: Sílvio Amorim pensou em 60 pontos históricos e já me disse que cogita ampliá-los para 100. Estou indulgenciado, portanto.
O Teatro de Santa Isabel, voltemos, é indissoluvelmente ligado à história de nosso estado — não apenas no campo das artes. Preciso recorrer à Wikipédia para lembrar que nosso teatro-mor recebeu D. Pedro II e testemunhou discursos a favor da abolição da escravatura proferidos por Joaquim Nabuco (1849-1910).
Mas sei muito bem da importância dele na trajetória de Euclides Fonseca (1853-1929), que ali regeu Leonor, sua primeira ópera, em 1883. Leonor havia sido escrita por incentivo do confrade de ofício Carlos Gomes (1836-1896) e teve como spalla da estreia um aluno vindo do Ceará: Alberto Nepomuceno (1864-1920), que se juntaria aos dois primeiros no panteão dos grandes mestres da música sinfônica nacional.
Sei também da Sociedade de Concertos Populares, entidade da qual nasceu a Orquestra Sinfônica do Recife e responsável por trazer alguns dos maiores cantores e instrumentistas do mundo ao Santa Isabel enquanto esteve ativa. E saberia dizer uma infinidade de grandes nomes locais que ali brilhou: Valdemar de Oliveira, Cussy de Almeida, Elyanna Caldas, Josefina Aguiar, Marlos Nobre (todos in memoriam) e um gigantesco et cetera.
Notem o quanto de eventos ocorrem no Santa Isabel mês a mês, a contar a divulgação oficial feita via Instagram: do Janeiro de Grandes Espetáculos aos concertos de Natal. Assim vem sendo desde o século XIX: concertos, peças, premiações, conferências... Mas delimito meu recorte à música de concerto e à ópera, meus campos de atuação.
No presente século, podemos pinçar os festivais e instituições que mais acorreram àquela casa. Virtuosi, Mimo, Conservatório Pernambucano de Música, Departamento de Música da UFPE, Orquestra Criança Cidadã (dentre outros projetos sociais de ensino musical), Festival de Ópera de Pernambuco (e montagens avulsas que vêm aumentando ano após ano nesta década) e, claro, a Orquestra Sinfônica do Recife.
Minha relação com o teatro
Hoje, entro com a mesma satisfação tanto pelo hall principal quanto pela porta dos fundos. Coxia, palco, plateia; café, camarins, salão nobre; jardins, frisas e fosso: circulo com igual naturalidade por todos os ambientes, transformando cada ida ao Santa Isabel em um programa social completo, não somente de apreciação artística.
Admiro a presença constante de Romildo Moreira, cuidadoso e receptivo como a saudosa Lêda Alves; o pessoal de apoio, que se desdobra, nos bastidores, para auxiliar os profissionais de produção de cada evento; os funcionários de recepção, que indicam o lugar de cada espectador.
Quantas obras não tive a emoção de escutar pela primeira vez ali (e que eu só conhecia em CD)? Quantas não vi serem estreadas (algumas, de amigos meus)? Quantas vezes não apostei nos aplausos inadvertidos, entre movimentos de uma sinfonia ou concerto, ou puxei os de cenas emocionantes em óperas? E quantas mais me abusei, pelos celulares satânicos soando no silêncio de um solo (sem falar nos cochichos, muxoxos, achaques e queixas de quem pouco se lixa pra arte)?
Melhores assentos
Com o passar dos anos, meu particular desafio foi analisar os melhores lugares para se apreciar um concerto no Santa Isabel. E a resposta varia. No geral, considero as primeiras filas da plateia (A a C) como ruins, porque você fica abaixo da linha dos músicos, isto é, olhando-os de baixo para cima.
Quando se trata de uma orquestra, perde-se completamente a visão de dois terços dela, ou seja, você fica alheio à atuação de madeiras, metais, percussão, piano, harpa e parte das cordas. Com grupos de câmara, essa limitação pode ser atenuada até por completo.
As filas de J em diante (busquem o mapa do Santa Isabel via Google) são mais amigáveis para orquestras. Ajuda quando os naipes estão separados por praticáveis de altura gradual. Pelo sim, pelo não, prefira frisas e camarotes (em particular, as cinco cabines mais centrais para cada lado, pois as mais laterais fazem o espectador perder o contato visual com o lado oposto do fundo do palco).
Mesmo assim, aquela sentença sobre as primeiras filas não é taxativa: elas são ideais para quem quer ver solistas de perto, apreciando dedilhados e sonoridades sutis, ou acompanhar a atuação da orquestra no fosso, no caso das óperas.
Quando o solista é um pianista e você quer acompanhar ou contemplar o desempenho dele ao teclado, convém realmente estar mais distante, e em uma cadeira entre o centro e o lado esquerdo (de numeração par, nos ingressos). Se for para escolher uma frisa, foque nas cabines de 22 a 08 ou nos Camarotes A de 40 a 26.
Por fim, as últimas cadeiras das cabines laterais dos Camarotes B são os piores lugares. Prepare-se para assistir a tudo de pé ou negociar um arranjo de assentos ingrato e desconfortável. Mas não maldigam nosso templo artístico mais eminente por conta disso. Toda casa operística tem suas peculiaridades: já sofri no Colón, em Buenos Aires, e no Champs Elysées, em Paris.
Ao contrário, aproveitem os gabaritos de quem ama e vive o Santa Isabel e agradeçam a Louis Vauthier e ao conde da Boa Vista por essa herança da qual desfrutamos.
*Carlos Eduardo Amaral é jornalista, compositor e crítico de música clássica; colaborador da revista Continente desde 2006 e autor do catálogo da Cepe Editora
(Crédito foto: Gleyson Ramos/Divulgação)
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