Por Jarbas Beltrão*
Preâmbulo: Quando narrativas/ficção suplantam a verdadeira realidade histórica, aí temos a confirmação da previsão orweliana ("1984") se impondo na interpretação da realidade. Os controladores das massas reconstroem a História.
'As promessas da Revolução"
Costumamos acreditar na Revolução de 1789 como o início de uma "nova era da História".
Aquele Movimento foi o ponto de partida da modernidade na política. A educação ocidental cravou certas "verdades" sobre o 1789, colocou para o lado outras tantas inconvenientes para quem tem o controle das narrativas,e, praticamente tornou impossível a revelação
do caráter da Revolução.
A propagação dos ideais revolucionários tomou conta da mentalidade ocidental; mentalidade consolidada a partir daquilo que os revolucionários faziam suas defesas e colocavam como demandas populares.
O iluminismo foi a base teórica/filosófica/ideológica da Revolução; ideal revolucionário calcado em cima da "razão", da oposição às "crendices" e ao poder político absoluto do monarca; daí o lema da Revolução: Igualdade, Liberdade, Fraternidade.
Com dez anos (1799) de Revolução, o que se viu foi um quadro inverso da proposta revolucionária: violência, morte, terror, tudo sob comando da intolerância e da guilhotina.
' A queda da Bastilha'
O símbolo da "vitória revolucionária" é "a queda da Bastilha", uma fortaleza medieval usada como presídio pelo Estado francês.
A Bastilha quando da sua queda já não era um presídio que tivesse superlotação, pelo contrário, fala-se de sete presos.
Presídio tinha pequena guarnição sob comando de um velho oficial francês; não tinha prisioneiros políticos, no auge de sua população carcerária, nem 1% da mesma era de prisioneiros políticos; mal-feitores sempre foram maioria.
Quando do 1789, o que havia eram prisioneiros familiares, colocados ali para recuperação de suas personalidades depravadas.
No 1789, a massa dos presidiários já estava solta, maioria criminosos e ladrões de alta periculosidade; infestavam as ruas de Paris causando terror e infernizando a vida da população.
Ajudaram na criação de um clima pre-revolucionário, numa "Ordem política" caótica com um monarca frágil e desinteressado pelos problemas da sociedade, principalmente das cidades. O campo tinha uma parcial autonomia em relação à cidade
A Revolução isolou-se em
Paris, palco de um clima infernal. A partir das tomada da Bastilha, seguiu- se aumento dos casos de saques, roubos, assaltos, quebradeiras, estrupos, embriaguez seguidas de brigas, serviços públicos paralisados, manifestações com aglomerações violentas.
' A Revolução sai de Paris '
A Revolução saiu de Paris só no início de outubro do ano do "golpe revolucionário" - golpe do Terceiro Estado, declarando-se como Estado Geral, excluindo, nobreza, clero e parte da burguesia - três meses depois do julho da revolução.
Os revolucionários tentaram uma "monarquia constitucional", de traços britânicos. Luis XVI, reagiu e o modelo deu errado.
A postura do monarca custou- lhe posteriormente a prisão no decadente e mal-cuidado Palácio das Tulherias. A multidão retirou o Rei de Versalhes, com a famosa "marchadas mulheres," que marcharam vinte quilômetros até o Palácio Real, exibindo paus, enviadas, foices.
Das Tulherias, Luis XVI, tenta a fuga para a Áustria, descoberto em Varenes, fronteira austríaca é preso, juntamente com sua esposa Maria Antonieta.
Da nova prisão são condenados à morte, colocando em funcionamento "grande símbolo" revolucionário - a guilhotina.
A França com a morte dos monarcas, já estava dominada pela histeria do terror revolucionário, era os tempos da República Jacobina - o "Reino da Guilhotina", com as regras da insanidade dominando a França.
Segue com a morte do monarca o "Reino do Terror"
1793 é o auge do terror revolucionário, as vítimas foram aqueles que a Junta de Salvação Nacional, considerava inimigos da Revolução e inimigos da "razão".
Sofreram principalmente os camponeses, uma certa nobreza e os cristãos; a França passou a viver um processo de "descristanização".
'A profanação da Basílica de Saint Denis"
Na Basílica de Saint Denis
encontrava-se os túmulos dos monarcas e nobres franceses.
A histeria do terror entendia que a memória dos mesmos tinha de ser apagada, afinal era o símbolo máximo do "ancien regime". Próximo do que fazem hoje os baderneiros, queimando estátuas de heróis ou derrespeitando símbolos e templos.
A "Convenção Republicana" decretou que todos túmulos de Saint Denis, deveriam ser profanados.
A Basílica foi invadida, abertos 51 túmulos e jazigos, os corpos retirados e jogados em valas cavadas ao lado de onde se encontravam
Estátuas, coroas, cetros e ornamentos foram derretidos pra virar moedas e financiar a guerra revolucionária.
Os corpos que
jaziam em caixões de chumbo foram retirados dos caixões, o material dos caixões viraram balas.
A profanação de Saint-Denis foi um ato muito simbólico, dizia os revolucionários, "acabou o direito divino dos reis. Eles viram pó igual a todo mundo".
'A profanação da Notre Dame de Paris'
Com a "descristanização" a icônica Basílica de Notre Dame de Paris foi alvo de profanações
Com os jacobinos no poder, Paris virou um caos, a "capital da insanidade mental".
O movimento pra "descristianizar" a França. teria de trocar o catolicismo pela "Culto à Razão".
Basílica de Notre-Dame, símbolo maior do catolicismo parisiense e francês, virou "Templo da Razão", conforme decreto da Convenção Republicana.
Da Basílica foram retiradas todas as cruzes, estátuas de santos e símbolos católicos; no altar colocaram uma estátua representando a "Deusa Razão" - uma mulher vestida de branco com o corpo à mostra; foram feitos festivais cívicos lá dentro com bandeiras tricolores da Revolução.
Túmulos reais que estavam na catedral foram abertos.
O tesouro, sinos e objetos de ouro/prata foram derretidos.pra financiar, também, a guerra revolucionária, a famosa coroa de espinhos sobreviveu porque foi escondida.
'As Carmelitas de Compiègne. As freiras guilhotinadas na Revolução Francesa'
É uma das histórias mais marcantes do terror revolucionário republicano.
Dezesseis freiras carmelitas do convento de Compiègne - sempre frequentado pela rainha Maria Antonieta - localizado entre Paris e Versalhes, foi invadido por revolucionários.
O grupo das religiosas carmelitas tinha entre 29 a 78 anos.
Com a Revolução, em 1792, todos os conventos foram fechados e as religiosas expulsas. Quanto as carmelitas se recusaram a deixar a vida religiosa e passaram a viver juntas numa casa alugada.
Denunciadas como "fanáticas"e "inimigas da Revolução". Seu crime real: continuar rezando, usando hábitos e escondendo objetos religiosos.
No Tribunal Revolucionário isso era "conspiração contra o povo"; é histórico, os revolucionários, sempre se arvoram no direito a falar em nome do povo.
A execução das freiras ocorreu na Praça da Nação, Paris. Foram levadas de carroça e, seguiam cantando hinos, e o _Salve Regina_. Subiram no cadafalso uma por uma, cantando até a última. A mais nova, Irmã Constança, tinha 29 anos e cantou até o fim.
Foram 10 dias antes da Queda de Robespierre. Elas foram as últimas vítimas do Terror.
O Papa Pio X beatificou, as religiosas em 1906 e ficaram conhecidas como "Mártires de Compiègne".
'As mortes e o terror '
O ano de 1794 foi o pico do terror. Mais de 2.600 pessoas foram guilhotinadas só em Paris em 45 dias.
As carmelitas viraram símbolo das vítimas religiosas da Revolução.
Pois é..... a História precisa ser resgatada de seus grilhões cognitivos.
Fica Dito
*Jarbas Beltrão é professor de História da UPE.
Mestre em Educação.
MBA em Geopolítica Política Estratégia Defesa Nacional e Segurança Pública.
NR - Os textos assinados expressam as opiniões dos seus autores.