O apocalipse na retórica de Trump, por Ricardo Rodrigues*
07/04/2026
A imprensa em todo o mundo não falou de outra coisa hoje. As notícias sobre o mais recente ultimato imposto ao Irã por Donald Trump monopolizaram as manchetes, refletindo a preocupação generalizada com os rumos da guerra no Irã. Afinal, hoje de manhã, Trump postou em sua rede social que “toda uma civilização morreria hoje à noite, para nunca mais retornar”. Ele referia-se aos ataques mortais que os Estados Unidos planejavam desferir contra o território iraniano, caso o Estreito de Ormuz não viesse a ser reaberto hoje.
Para muitos, a postagem sinalizou claramente uma escalada sem precedentes das hostilidades. Não faltou quem enxergasse na ameaça o pior dos cenários, com a possibilidade de o conflito sair totalmente do controle, descambando para uma guerra nuclear.
Escalada retórica
A conclusão de que o conflito no Irã poderia, de fato, se tornar nuclear, talvez com o uso de armas nucleares táticas, não seria ilógica. Afinal, a sequência de...
Para muitos, a postagem sinalizou claramente uma escalada sem precedentes das hostilidades. Não faltou quem enxergasse na ameaça o pior dos cenários, com a possibilidade de o conflito sair totalmente do controle, descambando para uma guerra nuclear.
Escalada retórica
A conclusão de que o conflito no Irã poderia, de fato, se tornar nuclear, talvez com o uso de armas nucleares táticas, não seria ilógica. Afinal, a sequência de postagens feitas por Trump nos últimos dias, cada uma mais alarmante do que a outra, serviu para aumentar a credibilidade das ameaças. Não à toa, a postagem de hoje deixou a todos em polvorosa.
No domingo de Páscoa, Trump já havia postado que a terça-feira seria o Dia das Centrais Elétricas e o Dia das Pontes. E usando palavrões, ordenou que os iranianos abrissem “ a p... do estreito”, caso contrário, iriam viver no “inferno”.
Cabe salientar que esta postagem irritou os americanos católicos e evangélicos, inclusive, muitos eleitores do Trump. Eles consideraram a linguagem e o conteúdo ofensivos à fé Cristã. O jornalista Tucker Carlson foi um desses americanos irritados que desceu malho na postagem.
Sequência de mensagens ameaçadoras
No dia 30 de março
Trump já havia ameaçado “obliterar todas as usinas de geração de energia elétrica, poços de petróleo e a Ilha de Kharg e possivelmente as instalações de dessalinização de água do Irã”. Esses são alvos que juristas são unânimes em classificar como crimes de guerra.
A escalada do tom ameaçador dessa sequência de postagens, em si, é indicativa da frustração e da impaciência de Donald Trump com a postura do Irã, que insiste em não capitular diante da superioridade militar e tecnológica dos Estados Unidos. Para quem imaginava encerrar a incursão militar ao Irã em alguns dias, a dificuldade para encontrar uma saída para o conflito que seja politicamente aceitável torna-se, sem dúvida, uma fonte de irritação.

Regate ou operação especial frustrada
A bem-sucedida operação de resgate de tripulantes de um caça F-15E americano, abatido no Irã durante o fim de semana, foi amplamente comemorada por Donald Trump e seu Secretário de Guerra Pete Hegseth. Não era para menos. A operação, protagonizada por várias aeronaves americanas e comandos especiais da Marinha, os Navy Seals, extraiu de solo iraniano um piloto e um especialista em armas, machucados após se ejetarem do caça abatido.
Resgatar os militares tornou-se prioridade número um para os Estados Unidos.
A missão
Empregou centenas de militares, dúzias de caças e helicópteros, além de pessoal da CIA, e, apesar de todos os riscos, foi concluída sem fatalidades.
As comemorações pelo resgate terminaram superando a frustração do comando central americano com a operação da qual o caça atingido fazia parte. Analistas que estudaram as imagens dos aviões Hercules e helicópteros derrubados por fogo iraniano afirmam, contudo, que havia uma operação em curso, cancelada quando o F-15E foi atingido. Na opinião desses analistas, a localização da queda das aeronaves americanas, uma pista de pouso improvisada nas imediações da Usina Nuclear iraniana em Isfahan, revela que a intenção original era colocar tropas especiais em terra para extrair de depósitos subterrâneos o Urânio enriquecido do Irã. Caso tivesse sido bem-sucedida, a operação de extração do perigoso Urânio iraniano escondido certamente teria fortalecido a posição de negociação dos Estados Unidos junto ao Irã.
Frustração em cima de frustração?
Talvez abalado com o resultado da operação frustrada de extração do Urânio, Donald Trump não conseguiu segurar sua irritação com a lentidão de uma solução diplomática para o conflito, postando o que não caberia a um comandante em chefe das forças armadas dos Estados Unidos jamais afirmar.
Na tarde de hoje, a Casa Branca divulgou nota negando estar considerando o uso de armas nucleares contra o Irã.
*Ricardo Rodrigues é jornalista e cientista político.

























