Imagem principal - Elaborado com base no Tesouro Direto
Na última campanha presidencial, não faltaram promessas. Algumas, inclusive, gastronômicas e etílicas. Mas hoje o Tesouro Direto, menos teatral e mais objetivo, foi seco e sem fantasia: chegamos ao osso.
Antes de seguir, uma lembrança necessária: a economia não respeita torcida. Ela não se curva a slogan, palanque ou preferência ideológica. Pode até ser empurrada por algum tempo para debaixo do tapete da narrativa, mas sempre reaparece no supermercado, no aluguel, no financiamento, na conta de energia, no imposto, no boleto vencido e no crédito que desaparece justamente quando a empresa mais precisa respirar.
Quando o Tesouro IPCA+ 2035 passa a pagar algo próximo de 8% ao ano acima da inflação, o dado não deve ser lido apenas como “boa oportunidade para o investidor”. Deve ser lido também como sinal de desconfiança. O Tesouro IPCA+ remunera o investidor pela inflação oficial mais uma taxa fixa contratada no momento da compra; portanto, quanto maior essa taxa real, maior o prêmio exigido para financiar o Estado brasileiro.
O problema é que esse patamar lembra o Brasil de 2014, 2015 e início de 2016, quando a confiança fiscal desabou, a recessão veio pesada e o país descobriu que criatividade contábil não paga despesa permanente. A volta de juros reais longos tão altos não é um raio em céu azul. Ela aparece junto com dívida pública elevada, déficit nominal expressivo e inadimplência empresarial recorde.
Não é “nervosismo do mercado”. É cobrança.
O Brasil está pagando prêmio de risco porque o governo gasta demais, promete demais, arrecada demais e entrega pouco.
A picanha foi discurso de campanha. O osso está vindo em forma de juro real.
A conta dos juros já passou de R$ 1 trilhão em 12 meses
Estamos em um momento delicadíssimo, e não há malabarismo retórico capaz de esconder a realidade: os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 84,8 bilhões apenas em abril de 2026, segundo as estatísticas fiscais do Banco Central. No mesmo conjunto de dados, a dívida bruta brasileira chegou a 80,4% do PIB, número também divulgado por veículos econômicos a partir da estatística oficial do BC.
Na prática, isso significa que o Estado brasileiro está consumindo uma parcela brutal da riqueza nacional apenas para rolar e remunerar dívida. Cada ponto a mais de juro real encarece o financiamento público, aperta o crédito privado, reduz investimento e transfere renda da economia produtiva para a conta da dívida.
E não adianta a militância econômica tentar colocar toda a culpa no banco, no banqueiro ou no “mercado”. Juros altos não caem do céu. Eles também são consequência de risco fiscal, descontrole de gastos, perda de credibilidade e dúvida sobre a capacidade do governo de equilibrar receitas e despesas.
Enquanto isso, parte da grande imprensa prefere o conforto da espuma: dia sim, outro também, fala-se demais sobre intrigas palacianas, fofocas de bastidor, guerra de narrativa, manchete comportamental e distração de rede social.
Mas o assunto sério — gasto público, juros, dívida e insolvência silenciosa da economia real — aparece diluído. O cômico, se não fosse trágico, é a ironia que isso carrega.
Qualquer pessoa que conheça minimamente o setor comercial sabe que, em tempo de crise, anúncio fica mais barato. As empresas cortam marketing, o mercado publicitário encolhe e fica mais difícil vender cotas de publicidade. Claro que o governo tenta ocupar espaço. Porém, não haverá Pix de verba publicitária federal suficiente para sustentar a fantasia por muito tempo.
O Pix da publicidade governamental não resolverá a solvência. Não reduzirá os juros. Não reabrirá a empresa quebrada. E, principalmente, não pagará boleto vencido.
O Brasil real está inadimplente
A crise não está apenas no gráfico do Tesouro. Está no balcão da padaria, no caixa do mercadinho, na oficina pequena, no fornecedor, no prestador de serviço e no MEI que virou CNPJ para trabalhar, mas agora virou estatística de dívida.
A Serasa Experian registrou 8,7 milhões de empresas inadimplentes em janeiro de 2026, com 60,1 milhões de dívidas que somavam R$ 201,7 bilhões. Em março, o número subiu para 8,9 milhões de CNPJs inadimplentes, mantendo o indicador próximo ao maior nível da série histórica.
Tomando como referência o Mapa de Empresas do governo federal, que registrava 24.213.445 empresas ativas no segundo quadrimestre de 2025, esses 8,9 milhões de CNPJs inadimplentes equivalem a algo próximo de 37% do total.
Isso não é uma dificuldade pontual. É quase quatro em cada dez empresas formais com restrição, atraso ou dívida negativada. É o Brasil produtivo pedindo oxigênio enquanto Brasília — e parte da mídia — discute narrativa e picuinhas.
E ainda não faltam os que tentam vender a solução do “5x2”, como se o drama brasileiro fosse apenas a escala de trabalho.
Vale dizer em alto e bom som que o placar real é outro: 7x0.
Sete pontos de juro real contra zero de responsabilidade fiscal.
Sete pontos de custo Brasil contra zero de humildade política.
Sete pontos de desconfiança contra zero de coragem para cortar gasto ruim.
O empresário endividado não quer slogan. O trabalhador com crédito caro não quer narrativa. O consumidor com nome restrito não quer aula de marketing político. Quer saber por que o governo arrecada tanto, gasta mais ainda e, mesmo assim, o país continua travado.
A revolta silenciosa dos endividados não será contida por emenda
Os políticos acham que os tubos de emendas resolvem tudo. Emenda para obra, para placa, para base eleitoral, para vídeo sorridente e para inauguração com capacete branco. Mas emenda não compra paciência social quando a economia real começa a falhar.
A revolta silenciosa dos endividados não nasce em editorial. Nasce no boleto. Nasce no capital de giro negado. Nasce no fornecedor cobrando. Nasce no cartão estourado. Nasce no salário que acaba antes do mês. Nasce quando a pessoa percebe que trabalhou mais, vendeu mais, pagou mais imposto e ainda assim ficou mais pobre.
Esse é o ponto que o governo, parte da imprensa acomodada e parte da classe política fingem não enxergar: responsabilidade fiscal não é pauta de banqueiro. É condição mínima para o padeiro, o agricultor, o motorista, o comerciante, o profissional liberal e o trabalhador assalariado respirarem.
E, para quem acha que vai ter refrigério com o Desenrola II, veremos o que acontecerá nas vésperas da eleição, com o eleitor recebendo um novo carnê a perder de vista, enquanto o preço da cesta básica segue pressionando a renda de quem já não aguenta mais.
A combinação de gasto sem freio, dívida alta, juros reais de crise, inadimplência recorde e explosão do custo da cesta básica pode entregar osso — ou nem osso.
A picanha? A picanha ficou no gracejo do palanque, que teima em brincar com coisa séria.
Já o osso aparece no Tesouro Direto, na dívida pública, no crédito caro, no CNPJ negativado e na empresa pequena fechando em silêncio.
Quando vamos crescer e virar um país sério?
Fica o puxão de orelha que o Brasil insiste em adiar: políticos octogenários ou jovens precisam se tornar adultos. Precisam ter vergonha dos papelões do fingimento fiscal. Precisam ter vergonha de encomendar e propagar narrativa para esconder rombo. E a imprensa precisa criar juízo para não escolher o silêncio por conveniência.
Um país adulto não chama irresponsabilidade de sensibilidade social. Não chama propaganda de política econômica. Não chama gastança de investimento. E não finge que vai servir picanha quando a cozinha já está sem gás, sem crédito e sem conta paga.
Sempre haverá quem tente transformar dado ruim em detalhe incômodo, juro alto em conspiração, dívida crescente em investimento e inadimplência recorde em exagero da oposição. Mas o caixa do supermercado não negocia com narrativa. O boleto não aceita discurso. O banco não libera crédito por simpatia ideológica. E a empresa quebrada não reabre porque alguém gritou mais alto no palanque.
A realidade pode ser empurrada para fora da manchete, maquiada em pronunciamento ou escondida atrás de propaganda oficial. Mas ela sempre volta. E, no Brasil, costuma voltar com juros. Juros muito altos.
Ahhh… o que esperar depois de tudo isso?
Nada.
Afinal, muitos se comportam como se estivessem no Titanic. Continuam na festa até o barco afundar.
Pena que não haverá botes salva-vidas para todos. Especialmente para os da terceira e quarta classe.
Nota: Os dados sobre juros nominais de abril de 2026 e dívida bruta de 80,4% do PIB vêm das estatísticas fiscais do Banco Central; os números de inadimplência empresarial vêm da Serasa Experian; e o total de empresas ativas vem do Mapa de Empresas do governo federal.
*Emanuel Silva, é Professor e Cronista.
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