Por Zé da Flauta*
O sol do meio-dia em Riacho do Nó Cego não perdoa nem pensamento, quanto mais caminhão tombado. O "gigante de ferro" estava de bucho pra cima na curva do S, e o cheiro de óleo diesel se misturava ao aroma doce da farinha de trigo que forrava a estrada como neve no sertão.
Cacimba parou Relento a uns dez metros. Nos seus ombros, o clima era de guerra civil. Simão, ajeitando os óculos com um dedo minúsculo, tremia de indignação:
— Isso é a anarquia, Cacimba! O Código Penal está sendo rasgado junto com essas sacas! Olhe a moralidade escorrendo pelo esgoto!
Sebastião, do outro lado, dava pulos, apontando para uma senhora que tentava equilibrar uma lata de goiabada na cabeça:
— Moralidade não mata fome, Simão! Aquilo ali é a "goiabada da providência"! Se o povo não pegar, as formigas levam! Deixe de ser ranzinza!
A discussão foi cortada pelo ronco metálico de um jeep Willys que surgiu levantando uma cortina de poeira. O freio cantou alto. De dentro, desceu o delegado Dr. Alceu. O homem era um bloco de granito vestido de cáqui, com o coldre aberto e um bigode que parecia uma escova de arame.
O povo estancou. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o próprio caminhão.
— Quem der mais um passo… a voz de Alceu saiu rouca, carregada de fumaça de fumo de rolo, vai passar a noite explicando a "necessidade" na cela de castigo! Devolvam o que está nas mãos. Agora!
Zulmiro, o fofoqueiro da cidade, que já estava com dois sacos de açúcar nos braços, gaguejou:
— Mas Doutor... o motorista fugiu, a carga é de seguro...
— A carga é do sustento da vila, seu infeliz! Trovejou o Delegado, sacando a autoridade (e quase o revólver). Se esse trigo sumir, amanhã o senhor vai comer o quê? O barro da estrada?
Cacimba sentiu a corda esticar. Alceu representava a ordem que impede o mundo de virar um caos, mas o povo ali representava a fome que não entende de parágrafos e incisos. Simão soprava no ouvido esquerdo:
—"Apoie o Delegado, é a civilização!". Sebastião gritava no direito: "Toca a flauta, Cacimba! Distrai o homem! Deixa o povo comer!".
Cacimba tirou a flauta de madeira do cinto. Não tocou uma melodia de festa, nem de luto. Foi um som agudo, de alerta, como o grito de um gavião. Todos olharam para o vaqueiro montado no jumento.
— Dr. Alceu, disse Cacimba, com a voz calma de quem maneja gado bravo, a lei é reta, mas o chão do sertão é torto. Se o senhor prender todo mundo, não vai ter cela na delegacia. E se o povo levar tudo, não vai ter pão na padaria.
O delegado olhou para Cacimba, depois para os macaquinhos, um parecendo um promotor de justiça, o outro um agitador de palanque. O impasse estava selado na poeira. Alceu não guardou a arma, e o povo não soltou a carga. O suspense vibrava no ar como corda de viola esticada demais.
O silêncio na curva do S era tão denso que dava para ouvir o estalo do capim seco sob as patas de Relento. O delegado Dr. Alceu não era homem de recuar, e o povo, com a mão na saca e o olho na autoridade, estava naquele segundo de indecisão que precede ou uma carreira desenfreada ou uma tragédia.
Simão estava lívido, agarrado à orelha de Cacimba: — Ele vai atirar, Cacimba! A ordem social vai ruir e nós vamos ser testemunhas de um massacre por causa de três arrobas de farinha!
Sebastião, por outro lado, já estava com as patas prontas para aplaudir o caos: — Atirar nada! O povo é muito, Alceu é um só! Deixa o povo levar o sustento!
Cacimba levou o pife aos lábios e soprou uma nota longa, aguda, que parecia furar o mormaço. O som fez o delegado franzir o cenho e o povo desviar o olhar do jeep para o vaqueiro.
— Dr. Alceu — começou Cacimba, baixando o instrumento — o senhor é homem de lei, e a lei diz que o que está no chão sem dono é desperdício. Mas o senhor também sabe que se essa farinha for embora pras casas, amanhã Seu Zezé não tem o que assar na padaria e a cidade inteira morre de fome por falta de pão.
Alceu resmungou, sem tirar a mão do coldre: — E o que você sugere, vaqueiro? Que eu faça um sermão e peça por favor?
— Sugiro um trato de cavalheiros, disse Cacimba, apontando para o caminhão tombado. — O que caiu no chão e rasgou, já é da terra ou de quem pegar agora, porque seu Zezé não pode vender farinha batida com poeira. Mas o que está fechado e inteiro, o povo carrega. Não para suas casas, mas para o depósito da delegacia, sob a sua guarda.
O povo murmurou. Sebastião fez um bico de decepção, enquanto Simão começou a limpar as lentes dos óculos, satisfeito.
— Em troca — continuou Cacimba, olhando para a multidão — o senhor não prende ninguém. E amanhã, quando o dono da carga chegar, o senhor garante que cada braço que ajudou a salvar a carga receba um vale de pão e mantimento. Trabalho honesto em vez de saque. O senhor mantém a paz, o povo mantém a dignidade, e seu Zezé mantém a padaria.
O delegado olhou para as sacas, para os rostos suados e famintos, e por fim para o brilho nos olhos de Cacimba. O bigode de arame de Alceu deu uma leve tremida.
— Quem não aceitar o trato do vaqueiro — trovejou Alceu, finalmente tirando a mão da arma, — pode escolher entre o peso da saca ou o peso das minhas algemas!
Foi um "viva" contido. Em vez de uma horda de saqueadores, o que se viu foi um exército de trabalhadores. Homens e mulheres, sob o olhar severo de Alceu e a melodia agora mais alegre da flauta de Cacimba, começaram a empilhar as sacas salvas no jeep e em carroças que apareciam de todo lado.
Ao final da tarde, a estrada estava limpa. O "gigante de ferro" continuava deitado, mas o espírito da vila estava de pé. Cacimba seguiu viagem no passo lento de Relento.
— Viu só? disse Simão. — A justiça prevaleceu através da negociação coletiva. — É... resmungou Sebastião, mastigando um pedaço de rapadura que "misteriosamente" caiu no seu colo durante o rebuliço. — Mas que aquela goiabada era boa, ah, isso era!
Cacimba apenas sorriu, guardou o pife e sumiu na poeira dourada do poente.
*Zé da Flauta é músico, compositor, filósofo e escritor.