Por Severino Lopes*
Uma semente plantada há 90 anos que germinou e deu frutos. Virou uma árvore frondosa, um trabalho que começou simples e se transformou em um modelo de serviço e doação em favor dos pobres. Inspirado nos ideais de São Vicente de Paulo, um homem que nasceu em Pouy, na França no longínquo 1581, e que fundou em 1633 a “Companhia das Filhas da Caridade”, essa semente brotou no solo de Campina Grande.
Mais que um ato de servir e se doar, gastando-se em favor do semelhante, a obra de São Vicente fez florescer a mensagem do amor em sua plenitude, exalando o agradável perfume da alegria, conforme o maior dos mandamentos ensinado por Jesus Cristo. Edificado às margens do açude velho, o Instituto São Vicente de Paulo completa este ano, 90 anos de presença em Campina Grande.
São nove décadas de serviço aos pobres, atuando preferencialmente, em favor dos idosos e crianças. Atualmente a casa abriga 74 idosos e dá assistência educacional a mais de 600 crianças que estudam no ensino fundamental do primeiro ao quinto ano.
Programação especial
Para marcar a data, as Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, hoje constituídas por sete Freiras, sendo elas, as Irmãs, Bernadete, Joilma, Daiana, Ester, Luciene, Ericleid e Rosário, elaboraram uma programação especial. O Jubileu conta com uma semana de atividades com músicas, orações, homenagens e quermesses, culminando com a Missa Solene — a ser presidida pelo bispo diocesano Dom Dulcênio Fontes de Matos, no dia 14 de agosto.
Como gesto concreto para marcar o ano do Jubileu, as Irmãs pretendem restaurar o telhado da Instituição de Longa Permanência para Idoso que se encontra com a estrutura comprometida e gasta pela ação do tempo. Para isso, lançaram uma campanha que tem como ponto alto o sorteio de uma moto. Todo valor arrecadado será destinado para a reforma do telhado. As Irmãs têm aproveitado as semanas que antecedem as festividades para pedir à comunidade que ajude adquirindo a rifa. O valor é simbólico, mas o gesto garantirá mais dignidade aos idosos assistidos pela instituição.
“O povo de Campina Grande tem sempre um grande coração e contribui. Temos muitos benfeitores. Eu digo sempre que essa obra é de Deus, e por isso está em pé e já dura tantos anos” disse a irmã Daiana Bruna Nunes de Araújo Duarte.
74 idosos
Atualmente a instituição está em sua capacidade máxima abrigando 74 idosos, sendo desse total 45 mulheres e 29 homens. Alguns deles sem aposentadoria que dependem exclusivamente de doações dos benfeitores, como alimentos e produtos de limpeza e higiene. O cuidado é integral e envolve desde o zelo como a preocupação com a saúde e o bem estar dos idosos.
“É um trabalho amplo. É garantir saúde, alimentação, atenção, escuta e, acima de tudo, presenças. É um compromisso contínuo com a dignidade de quem já viveu tantas histórias. Por trás de cada rotina existe uma equipe dedicada, e uma missão que não para todos os dias, sem exceção” destacou a Irmã Daiana.
A assistência
A irmã Joilma Azevêdo, uma das responsáveis por cuidar de todos eles e elas, a assistência aos idosos é mantida graças à ajuda da população, que se solidariza e realiza doações periódicas ao instituto. Irmã Joilma lembra que a partir do momento que a família, um vizinho ou até mesmo uma determinação judicial coloca algum idoso na responsabilidade da instituição, o Instituto assume a obrigação de dar o melhor para cuidar deles.
“Só conseguimos fazer isso porque graças a Deus contamos com pessoas que sempre nos ajudam fazendo doações. Por mais simples que elas sejam, vão ter sempre uma utilidade muito importante para nós”, disse ela.
A irmã Joilma reforça que os gestos de doação, permitem que os idosos enfrentem a velhice com mais conforto. A instituição conta com uma equipe de cuidadores, enfermeiros, técnicos de enfermagem, farmacêuticos, médicos, fisioterapeutas e psicólogos que prestam serviços voluntários para atender os idosos. Mesmo com todos esses cuidados, a irmã destaca a importância de familiares e desconhecidos reservarem parte do seu tempo para dar um pouco de atenção a eles.
Irmã Bernadete
Entre tantas histórias que brotam em São Vicente de Paulo, se encontra a da Irmã Bernadete Rodrigues. Testemunha ocular do seu tempo, há mais de 50 anos, ela vive e respira no instituto, se doando em favor dos idosos. Sempre lutou para garantir o melhor para todos. Um tratamento digno. Este ano, completou 60 anos de vida religiosa dedicada aos pobres. Teve uma bela celebração. E recebeu flores das mãos de algumas idosas, simbolizando as tantas pétalas que ela já doou aos mais carentes.
A irmã Bernadete Rodrigues, natural de Afogados da Ingazeira (PE) é outra religiosa que se destaca. Ela estudou artes industriais e também cursou teologia. Há mais de meio século é a responsável pelo Instituto São Vicente de Paulo, atuando como diretora há mais de duas décadas. O olhar sereno, os passos lentos, traduzem toda uma vida de doação. As decisões são sempre firmes em favor do bem das pessoas assistidas pelo instituto. Se amar é servir, ela é um dos modelos dessa virtude.
O espaço da Gameleira é o preferido dos idosos. Praticamente todos os dias eles frequentam o local. Aos domingos, permanecem por mais tempo. Sentados nos bancos ou nas cadeiras de roda, com olhos atentos, ficam no local durante horas. Nem percebem o tempo passar. Nas manhãs de domingo, a emissora de rádio toca músicas de Roberto Carlos. O programa do “rei” em uma emissora da cidade, é imperdível. Faz aflorar memórias perdidas no tempo. Lembranças de um passado que não volta mais.
As muitas histórias
Alguns estão acompanhados de visitas que trocam conversas. Muitas histórias. Outros estão sozinhos em silêncio. Apenas olhando o tempo e contemplando o que passa em sua volta. Até se arriscam a puxar conversa com as visitas. Mas as vezes interagem pouco.
Construído para abrigar e melhorar a qualidade do acolhimento aos idosos atendidos pela instituição, o Espaço Gameleira é o local onde aos domingos, alguns idosos cortam o cabelo, enquanto os fiéis chegam para a Missa das 10h30, celebrada na Capela próxima.
Nos corredores da Instituição de Longa Permanência para Idoso, a rotina é a mesma todos os dias. Sempre bem tratados. O zelo e o cuidado das Irmãs, impressiona. O tratamento é digno. Mas apesar do aconchego das Irmãs, é visível a tristeza de alguns à espera de visita. Principalmente dos filhos e filhas. As rugas no rosto, os passos lentos, a voz mansa e calma, são marcas do tempo. Implacável. Sentado nas cadeiras de balanço, ou caminhando lentamente, alguns idosos olham para o alto como se estivessem parados no tempo. Os rostos se cruzam. Olhares distantes destoam os sorrisos nos lábios e revelam uma melancolia escondida.
A vida de Marleide
Marleide Rodrigues é uma delas. Ela já está no Instituto há quatro anos. Nasceu em Recife e veio para Campina Grande em 1984. Garante que é feliz na Instituição. O sorriso, apesar de tímido, expressa o sentimento de gratidão. José Soares da Silva é sempre sério. Conversa pouco. Mas nas poucas palavras que fala, lembra de seus familiares e da vida na juventude no bairro de Vila Cabral de Santa Terezinha.
Já o senhor José Barbosa da Silva, que durante anos morou no Monte Santo, gosta de conversar. Fala de música, de trabalho e de outros assuntos que a memória alcança. Está sempre no mesmo lugar todos os domingos.
A chegada em 1936
A história da chegada das Filhas da Caridade em Campina Grande e a construção do Instituto começou no dia 15 de agosto de 1936 quando dom Moisés Sizenando Coelho, Arcebispo da Paraíba, encarregou as religiosas que viessem assumir a sua direção. As Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo é uma congregação fundada em 1633 pelo padre francês, Vicente de Paulo, que dedicou sua vida às obras de caridade.
Naquele ano, quatro das Irmãs aqui chegaram, tendo à frente Irmã Galzy e Irmã Marta - francesas de origem - e também as Irmãs Ana Maria e Lucy, ambas brasileiras. Todas falecidas. Como não foi possível dispor de alojamento para as irmãs de caridade, dado a precariedade do prédio, elas foram recebidas pela direção da Casa de Caridade Padre Ibiapina, onde moravam algumas moças religiosas.
Prédio atual
Melhoradas as condições, as Irmãs passaram a residir no atual prédio, que na época contava com 20 idosos. Enxergando na educação o futuro de muitas crianças, as Irmãs fundaram em 1938 o Externato São José, dedicado à educação das crianças com baixa renda, uma escola que contava com o convênio da prefeitura e do governo estadual. E que atende ainda hoje 570 crianças.
Em 1940 foi fundada a Associação das Senhoras da Caridade (hoje Voluntárias da Caridade) que se juntaram às Irmãs para oferecer grande reforço na assistência aos idosos abandonados e aos demais trabalhos dessa obra. No início, era um grupo de mais de 60 senhoras da sociedade, que viram no trabalho, uma forma de amar. Somente em 1963, precisamente no dia 3 de fevereiro, a instituição passou a se chamar Instituto São Vicente de Paulo.
Idosos e crianças
Sob o mesmo teto abrigam-se crianças e anciãos, os dois extremos da vida humana, diversas nas suas aspirações e nas suas características, mas unidos na mesma forma de pessoa humana, carente e sofredora. A retribuição vem em cada sorriso nos rostos sofridos e gastos pela ação implacável do tempo.
Gestos de gratidão, transmitidos de forma natural e incontida, na simplicidade de que encontrou um refúgio para viver uma das mais delicadas etapas da vida onde o cuidado é indispensável. E onde o amor se materializa por meio de gestos concretos.
*Severino Lopes é editor regional de O Poder