O altar da pátria e o circo do juízo anestesiado, por Zé da Flauta*
06/07/2026
Se a gente puxar o fio da história republicana, vai ver que o casamento entre o poder e o futebol começou a ser desenhado no papel durante a Era Vargas, na década de 1930. Getúlio Vargas, um mestre na arte de manipular as massas, percebeu que para construir a sua ideia de "Estado Novo" e unificar um país continental, ele precisava de um símbolo que falasse direto ao coração do povo.
O futebol, que já tinha descido a ladeira da elite e tomado as várzeas na marra, foi o escolhido. Getúlio oficializou o profissionalismo, começou a construir estádios e transformou a Seleção Brasileira em uma espécie de embaixada da identidade nacional. O objetivo era claro: usar o orgulho do drible para costurar uma sensação de união e anestesiar as tensões trabalhistas e a falta de liberdade política. Se o povo estava comemorando o gol do Leônidas da Silva, não estava na praça protestando contra o governo.
Anestesia
Mas a engrenagem do uso político atin...
O futebol, que já tinha descido a ladeira da elite e tomado as várzeas na marra, foi o escolhido. Getúlio oficializou o profissionalismo, começou a construir estádios e transformou a Seleção Brasileira em uma espécie de embaixada da identidade nacional. O objetivo era claro: usar o orgulho do drible para costurar uma sensação de união e anestesiar as tensões trabalhistas e a falta de liberdade política. Se o povo estava comemorando o gol do Leônidas da Silva, não estava na praça protestando contra o governo.
Anestesia
Mas a engrenagem do uso político atingiu o seu ponto mais implacável e calculado durante o regime militar, na virada dos anos sessenta para os setenta. O governo Médici transformou a conquista do Tri em 1970 numa gigantesca peça de propaganda oficial.
O brio e o talento genial de Pelé, Tostão e Rivellino foram sequestrados pelos generais para vender o "Brasil Grande" e o "Ninguém segura este país". O futebol virou uma espécie de anestesia geral, a euforia da vitória nas quatro linhas funcionava como uma cortina de fumaça perfeita para esconder a dívida externa que começava a estrangular o futuro do país.
Ópio moderno
É aí que o peito aperta quando a gente nota a grande ironia dessa comédia dramática. Os políticos da República descobriram que o futebol é o melhor calmante para o juízo das massas porque ele opera na chave da paixão cega, onde a razão não tem assento. Criou-se a máxima de que "futebol e política não se misturam", um ditado imbecil inventado justamente por quem mais misturava as duas coisas nos bastidores.
Ao transformar o torcedor num patriota de noventa minutos, o Estado conseguia desviar o foco do que realmente importava, a inflação comendo o salário, o hospital sem remédio e a escola caindo aos pedaços. O espetáculo da bola virou o ópio moderno, financiado com dinheiro público para garantir que o cidadão descarregasse a sua fúria contra o juiz e os bandeirinhas e voltasse para casa manso na segunda-feira.
Escanteio
Para melhor entender essa relação entre a República e o futebol, somos obrigados a uma reflexão severa sobre o nosso papel na arquibancada da vida. O drible, a malandragem e a ginga nasceram do brio do povo trabalhador, mas foram confiscados por governantes espertos para servir de anestésico e manter a engrenagem do poder girando sem sobressaltos.
Temos que conseguir vibrar com um gol, sem ir à escanteio, aceitando o circo para esquecer a falta de pão. A bola continua sendo uma obra-prima da nossa cultura, mas o uso que fazem dela nas tribunas de honra é quadrado, calculado para manter o povo de juízo adormecido enquanto eles mandam no jogo da nossa realidade.
Até a próxima!
*Zé da Flauta é compositor e cronista





















