
É Findi - Sayonara. 'O Médico de Criança' - Crônica, por Malude Maciel*
30/08/2025 -
Lembro do meu pediatra. Era um jovem médico caruaruense que primava em modernizar seu atendimento às crianças da Capital do Agreste.
Seu consultório, no edifício do Banco do Povo, segundo andar, tinha uma decoração tão primorosa que os pequenos amavam: nas paredes coloridas, viam-se bonecos de Walt Disney em alto relevo que fascinavam também os papais. Creio ter sido o primeiro nessa área em Caruaru, pois antes, um clínico resolvia todos os problemas de saúde. Naquela época aqueles profissionais eram denominados simplesmente, de: "médicos de criança". Na porta do consultório estava escrito exatamente assim na plaqueta.
Sendo meu pai bancário, tínhamos direito a bons médicos pelo Sindicato dos bancários que nos favorecia também com outras benesses. E foi assim que nos tornamos pacientes e amigos não somente do pediatra em fico, mas ainda de outros baluartes da medicina em nossa cidade, ainda pacata.
Era um homem alegre, elegante, bonito e dotado de qualidades e ideias incríveis. Casado com uma senhora loira de olhos azuis, de família tradicional e conservadora, por isso sofreu pressão no seu relacionamento por não ser considerado: "branco", nos padrões da sociedade de então, ainda mais preconceituosa que a atual.
Voltas que o mundo dá
Jamais iria pensar que aquele meu médico, na infância, viria a ser tio afim do meu noivo e, anos mais tarde, levar-me à capela do Instituto Santo Antônio, no seu cadillac, rabo de peixe, modelo chic do ano, pois juntaram-se as duas coisas: amizade de paciente e de sobrinha por afinidade. E nosso convívio se prolongou. Ele era uma pessoa dinâmica, criativa e inquieta, à frente do seu tempo. Além da dedicação profissional ele deu sua colaboração como político, exercendo mandatos de vereador. Residia, com muitos filhos, numa mansão na Av. Dom Bosco, onde criava coelhos e uma cadela igualzinha à Lessie da mini série da televisão. Possuía uma bela chácara onde recebia amigos com frequência. Ali ele dava asas à imaginação demonstrando seus talentos artísticos em pinturas e esculturas. Trazia para o local novidades sensacionais como: cisnes, que nadavam nas águas tranquilas do lago artificial e pedalinhos para a meninada usufruir em seus passeios (outra atração pioneira na região). Ali, havia uma tendência à Cultura japonesa, com muitos adornos referentes ao país do sol nascente. Tudo muito bonito e harmonioso, inclusive o nome desse paraíso era Sayonara, que quer dizer: adeus, em japonês.
Mas, o tempo acaba com tudo
Após o falecimento da esposa, passou um período doente e enclausurado no próprio lar ou com as filhas, perdeu a memória e finalmente deu um "sayonara" aos parentes, amigos e fãs, no dia 6 de março de 2019, deixando muitas amizades e seus ora clientes, agora adultos, gratos pelos seus cuidados na sua fase infantil.
Para quem não descobriu seu nome pelos dados apresentados, revelo então, finalizando tal escrito em homenagem ao Dr. Luiz Gonzaga Gonçalves.
*Malude Maciel, Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras, ACACCIL, cadeira 15 pertencente à professora Sinhazina.
