
É Findi - Luzes do Recife - Crônica, por Lília Gondim*
30/08/2025 -
Quando criança, morando em Olinda, adorava o período das festas de final de ano para, levada por minha avó, ir ver, a iluminação natalina do recife e as luzes de cores diversas do bueiro da fábrica da Tacaruna, que subiam e desciam pela torre da chaminé, criando o desenho de uma imensa árvore de natal, apagando e acendendo de forma alternada e aleatória.
Íamos sempre num ônibus que fazia uma viagem circular pela cidade. Mas o que prendia verdadeiramente a minha atenção e deliciava os meus sentidos, era o reflexo colorido das luzes nas águas do Capibaribe. As propagandas luminosas me deslumbravam, aparecendo e desaparecendo, mudando de cor. Era demais para os meus olhos de criança. Eu ansiava por aquele momento mágico, quando o ônibus passava pela ponte Princesa Izabel, pegava a Rua do Sol por trás do teatro, retornava pela Ponte Duarte Coelho e voltava à Olinda pela Rua da Aurora.
Eu, de joelhos no banco do ônibus, com a testa pregada no vidro da janela durante todo o percurso que margeava o rio e a minha avó sempre perguntando por que eu olhava pra baixo, se a iluminação natalina era em cima. Pergunta de gente grande que não encontra eco na imaginação da criança.
Depois desse trecho, eu me sentava, encostava a cabeça no ombro da minha avó, fechava os olhos e podia até dormir, pois aquela festa de luzes e cores tremendo na água estava bem guardada nas minhas retinas, na minha memória, registradas para sempre...
Tempos atrás, no natal, com nossas pontes iluminadas, saudosa daqueles passeios infantis fascinantes e querendo dividir a imagem magnífica do reflexo da iluminação das pontes sobre o rio, enviei a foto para uma pessoa amiga, pernambucana, morando fora do Recife, pedindo que compartilhasse com um grupo de amigos comuns ausentes da nossa cidade. Passados alguns dias ela me retornou a mensagem, solicitando que eu reenviasse a foto que tentando salvar, perdera.
Atendi ao seu pedido com a certeza de que, independentemente do pronto reenvio, a foto ia reaparecer logo. Pensei, sorrindo comigo mesma, que não foi uma inabilidade técnica qualquer que levou ao sumiço do arquivo; simplesmente a ponte deve ter ficado invisível mesmo, brincando de esconde-esconde com a gente, porque as pontes do Recife, acreditem, quando iluminadas, são encantadas!
Logo depois desse fato, no período momesco, além da fantástica iluminação natalina que foi mantida para somar com a do carnaval, foram colocadas em toda a extensão das pontes, figuras carnavalescas enormes, que acendiam e brilhavam a noite, jogando reflexos e imagens de caleidoscópio nas águas, apelando para nossa imaginação, trazendo coloridas recordações e realimentando minha fantasia infantil de luzes na água, lindamente desvirtuadas pela lei da refração, expondo toda a sua virtual beleza.
*Lília Gondim, é economista, funcionária pública estadual aposentada, escreve contos, crônicas e poemas.
