
É Findi - Vale-me São Cristóvão! Cadê as Leis e as Punições? - Crônica, por Ana Pottes*
30/08/2025 -
A cada dia que saímos das nossas casas, seja para cumprir as obrigações de trabalho, médicos ou até mesmo para alguma atividade de lazer, nos deparamos com um burburinho de carros e motos em um trânsito que se transforma num espetáculo à parte.
A quem o considere como um reflexo da sociedade na qual vivemos e se a comparação for pertinente, existimos em uma sociedade congestionada. Aqui se faz necessário pensar no significado da palavra. Moderna como sou, busquei rapidamente o Google, que me trouxe o sentido literal: algo que está sobrecarregado, lotado, como o trânsito com excesso de veículos; ou acúmulo exagerado de um fluido em uma parte do corpo causado por congestão; e no sentido figurado, uma pessoa cujo rosto é tomado por uma emoção forte, tal como vergonha, ira ou excitação, ou alguém que está furioso, com raiva, a ponto de rosto ficar vermelho, ou ainda descrever algo que se tornou confuso ou embaraçado devido a um excesso.
Ao fechar o aplicativo fui arrebatada pela convicção de que sim, somos no trânsito animais sociais e representamos ali o adoecimento, as congestões, confusões, embaraços e o caos da nossa sociedade. Penso que este pode se tornar um mote para escrever outra crônica, no entanto agora escolho e preciso externar meus sentimentos ligados ao nosso trânsito. Sei que é um tema envolvendo um sem-número de problemas e dificuldades que impactam na qualidade de vida das cidades e na saúde mental dos cidadãos, aspectos que podem ser uma conversa bastante profunda, mas não agora.
Portanto, esse show de complexa coreografia é bem cuidado por um órgão cuja responsabilidade é gerenciar e aplicar a regulamentação, organização do labirinto de carros, motos, ciclistas, pedestres e outros animais, que se apresentam de maneira caótica. Assim, as leis estabelecem limites e dão base para a tomada de decisões, nos permitindo agir com confiança, protegendo a todos, que compõem a sociedade, de comportamentos perigosos, garantindo a ordem pública.
Agora, vamos ao maior peso dos motivos dessa crônica, ou seja, os pontos que venho crendo: por algum fator incompreensível, acredito na existência de um código de trânsito apócrifo, específico para os condutores de moto, e do qual os demais usuários do trânsito não têm conhecimento. São leis criadas pelos motociclistas, só deles e só eles as conhecem. Em um ponto inicial aprendi, mas estou quase desaprendendo, que algumas ações no trânsito são erradas, estando sujeitas as punições previstas na lei. Por exemplo: ultrapassar outro veículo pela direita; utilizar o acostamento como via expressa ou transformar a linha divisória das faixas de velocidade em pista exclusiva para motocicletas, formando um perigoso corredor e impedindo a qualquer motorista de fazer uma mudança de faixa com confiança, sem colocar em risco a sua segurança e a do outro. No meu entender tal situação quebra e joga no lixo um aspecto fundamental de uma lei de trânsito, ou seja, a que legisla sobre a segurança. Assim o que é para ocorrer em situações de trânsito parado ou em lentidão se transformou em regra. Virou lei e ai de quem estiver pela frente.
Pois bem, além de circularem por essa linha central na velocidade da luz, apropriando-se da mesma, eles se veem como donos dos retrovisores dos carros e, em sendo deles, podem quebrá-los e deixá-los para trás sem nenhum problema. Nada para esses pilotos se constituem em limites, afinal, foram os motoristas que colocaram os seus veículos e dentro deles, suas vidas na frente dos motociclistas.
O outro ponto que me vem à lembrança e tem me tomado o pensamento é algo que, com certeza, tem a ver com a fábrica de motocicletas. Venho matutando há algum tempo e chego à conclusão de que a revisão na linha de montagem não tem ocorrido com a precisão que se faz necessária, pois as motos a circular pelas ruas da nossa cidade têm buzina, é bem verdade, mas infelizmente elas não têm freios. Esse defeito impossibilita seus condutores de diminuir a velocidade quando diante de qualquer situação do trânsito, então eles usam a buzina para que aqueles condutores intrometidos saiam, se protejam e rezem. Então passam e nessa passagem vão despejando impropérios, gritos e gesticulação incompreensíveis, pelo menos para mim que não conheço o código apócrifo.
Nesse caos de engarrafamento e de estresse que vem tomando conta das ruas da cidade, devemos nos cuidar e nos apegar com São Cristóvão, pois as leis e as punições parecem não funcionar por aqui.
*Ana Pottes, psicóloga, gosta de escrever crônicas, contos e poemas sobre as interações emocionais com a vida. Autora do livro de poemas: Nem tudo são flores, mas... elas existem!
