
É Findi - Das Sombras da Guerra às Luzes do Amor - Conto, por Maria Inês Machado*
30/08/2025 -
Apaguem o fogo, os corpos estão queimando, enterrem com dignidade os companheiros, devolvam os órgãos mutilados, fechem as trincheiras, o inimigo avança, água! Estou com sede, comandante, cuidado, granada.
— Acorda, Samuel!
Noite longa, pesadelos infernais. Ele se senta na cama. Olhos esbugalhados, o suor pelo corpo, pavor. Tremia.
— A guerra, diz Samuel.
Momento de acolhimento. Margarida afaga suavemente o esposo.
— A guerra acabou. Estamos juntos. Nada irá nos distanciar. Venceremos os percalços.
O cheiro da mulher amada o acalma. Sente o calor do seu corpo e adormece.
Manhã ensolarada. Café matinal no alpendre, a mesa bem-posta, o bolo predileto. O canto dos pássaros parecia avisar: “O amor compreendido e sentido une almas e espanta os fantasmas da dor.” O vento sorrateiro, o balançar das palmeiras, o cheiro da hortelã. Tudo conspirava a favor da felicidade.
— Precisamos vencer os dragões internos. Somos mais fortes que eles. Vamos caminhar na verticalidade.
— De que maneira? Pergunta Samuel. As lembranças não saem da mente. A agonia cerebral parece não ter cura.
— Sabes do diagnóstico. Transtorno de Estresse Pós-traumático. Medicação prescrita.
— Recuso, Margarida. Não preciso de medicação.
— Opção equivocada. Não vamos engessar a nossa vida no preconceito.
— Vais me abandonar!
— Interpretação vitimista, Samuel. Vamos analisar a situação com maturidade.
Margarida percebe o momento delicado. Busca encontrar recursos para dirimir a resistência do esposo ao tratamento. A janela entreaberta. O olhar percorre o firmamento. As elucubrações internas permeiam a mente. Ali parece encontrar os recursos para decisões. Decidida, compreende que o momento exige carinho e firmeza. Falas oportunas irão resolver a questão em pauta.
Samuel, por sua vez, materializa pensamentos de desconfiança: Mulher ingrata. Fui substituído. A ausência foi longa.
Momentos conturbados! A negação ao tratamento psiquiátrico e a psicoterapia agravavam a situação. Insônia, pesadelos recorrentes. Noites insuportáveis. Margarida enfrentava o momento nevrálgico com firmeza. Carinhosa, entendia o momento do marido, no entanto, pieguismo não fazia parte do repertório da vida. As redes da desconfiança atormentavam Samuel.
— Precisamos conversar. Minha ausência foi longa. Dúvidas sobre os seus sentimentos.
— Comportamento imaturo. Pensamentos distorcidos. Samuel, acolhimento não é condutor de permissividade.
— Margarida, eu não gosto de remédios.
— Samuel, não brinque. Há momentos em que eles são necessários. O diagnóstico foi claro: TEPT. As orientações médicas precisam ser acatadas. Qual a razão de ficar acorrentado ao sofrimento? A dor é inevitável, mas sofrimento é opção. O amor é a nossa carta de alforria, o qual aliado à Ciência nos liberta. Você quer ficar paralisado no passado! Precisamos investir, caminhar juntos. Negação não resolve.
Samuel avança na vitimização. Margarida compreende a situação, portanto, não abre mão dos recursos disponíveis nestes momentos graves.
— Preciso do seu amor Margarida. A guerra foi cruel. Mata sonhos, gera desconfianças.
— Sim! A guerra extermina sonhos. Mas podemos recomeçar! A terapêutica psiquiatra é inadiável. Agendamos horário com o médico.
— Novamente? Não sou louco!
— Com certeza não. Traumas da guerra. Necessita do tratamento. Os loucos ficam acorrentados nos porões egoístas do preconceito e não se libertam. O momento é de decisões. Recomeçar.
— Qual a garantia que tenho da cura?
— A Ciência avançou. Os recursos terapêuticos associados à medicação e o investimento pessoal podem conduzir a um patamar diferente. Lembras das orientações da consulta médica. Que tal avançar! A vida não é um parque de diversões para “crianças mimadas”.
— Você está me chamando de criança mimada?
— Não! O seu comportamento.
— Preciso de tempo para decidir.
— Que não seja extenso. O transtorno está instalado com possibilidade de agravamento.
— Vamos retornar a dormir juntos?
— Não! Os seus demônios íntimos não me pertencem. A resistência ao tratamento médico psiquiátrico não é saudável. Necessidade de mudança mental.
O final da tarde se aproxima. O pôr do sol no horizonte é convite aos sonhos em movimento. Samuel vai ao encontro do riacho próximo à casa. A imagem refletida na água era inconfundível: Margarida! Mulher! Linda mulher! Suave e perfumada como as rosas do jardim. Cabelos longos. Olhos límpidos e suaves. Companheira e amiga. Quartos separados! Não! Distanciamento doloroso. Insuportável.
Retorna ao interior da casa, convida a esposa ao diálogo. Fala dos receios com as medicações. Medo de dependência.
— Os seus receios são compreensíveis, mas não têm fundamento. Recebemos as orientações necessárias do médico.
Margarida retoma as explicações do psiquiatra com riqueza de detalhes. Samuel se acalma.
— Confio em você. Irei à luta. Preciso me libertar.
Margarida sorri e o conduz ao banco do jardim.
— Sim, Samuel. Você não é louco. Loucos são os que enterram a felicidade nos túmulos dos preconceitos. Negam os transtornos psiquiátricos que podem surgir na vida de qualquer mortal. Sofrem e geram sofrimento.
— Veja que maravilha: Acordar com o canto dos pássaros; abrir a janela e sentir os raios solares banhando nosso corpo. Deslizar nas águas do riacho e nos deitarmos nas relvas verdejantes. Sentir o perfume da natureza.
Aqui é o “Nosso Paraíso”.
*Maria Inês Machado é psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Intervenção Psicossocial à família. Possui formação em contação de histórias pela FAFIRE e pelo Espaço Zumbaiar. Gosta de escrever contos que retratam os recortes da vida. Autora do livro infantojuvenil 'A Cidade das Flores'.
