
É Findi – A Marcha do Pré-Sal, por Valéria Barbalho*
30/08/2025 -
“Quem conhece o meu nordeste / Certamente há de saber / Que Caruaru do Bonito / Há cem anos veio nascer”. Assim começa Capital do Agreste, a primeira letra de música escrita pelo meu pai, Nelson Barbalho. Feita em parceria com o compositor caruaruense Onildo Almeida, autor da melodia, foi gravada pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga, em homenagem ao centenário de Caruaru, em 18 de maio de 1957. Até então, meu pai só tinha escrito livros e textos para jornais e revistas da cidade. Após esta experiência, resolveu se aventurar neste campo. Convidou para parceiro o seu colega do IAPC, o maestro Joaquim Augusto, e, juntos, começaram a compor.

Encomenda: “Gibão de Couro” e “A Marcha da Petrobrás”
Em julho daquele ano, seu Luiz jantou em nossa casa, em Caruaru. Na ocasião, encomendou ao meu pai dois baiões. A dupla Nelson e Joaquim logo atendeu ao pedido. Em agosto os baiões “Gibão de Couro” e “A Marcha da Petrobrás” foram enviados para a casa de Gonzaga, no Rio de Janeiro. O “Gibão”, meu pai considerou “um baião sentimental”, e “A Marcha” ele classificou como um “baião nacionalista”. “Gibão” logo foi lançado (embora Gonzaga não tenha dado o devido crédito ao meu pai e a Joaquim), mas “A Marcha” só foi gravada em 1959, em disco de 78rpm. Ela foi tocada nos alto falantes do Maracanã, antes de uma partida de futebol com o estádio lotado e a turma adorou. O Brasil vivia a época do “Petróleo é nosso!” e “A Marcha” virou uma espécie de hino.
Nessa ocasião, o jornalista caruaruense, Luiz Torres, fez uma longa entrevista com o meu pai para um jornal de grande circulação do Recife. Dela transcrevo trechos, copiados do seu diário:
“Torres (T): Porque o baião demorou a ser gravado?
Nelson (N): Digo-lhe que o “Petrobras” custou a sair talvez por causa da letra, que é essencialmente nacionalista. Não foi composta com intenção política e sim com finalidades nacionalistas; nacionalismo sadio, sem tendências ou subterfúgios. Você bem me conhece e sabe que sou um cara politizado, mas apolítico (...). Fiz “A Marcha” com o propósito de ajudar, nem que fosse com uma parcela ínfima, o Brasil, pois creio firmemente que somos o “País do Futuro” de que falava Stefan Zweig, e o nosso futuro reside na extração do nosso ouro negro. Quem tem petróleo tem riqueza, no mundo inteiro é assim; porque no Brasil é diferente? O “Petrobras” procura acentuar isto que acabo de dizer; é uma espécie de grito do nacionalismo petrolífero brasileiro.
Torres (T): Teria havido restrições ao disco?
Nelson (N): Meu nêgo, se existe isso, não o posso afirmar. No entanto, admito que se possa fazer restrições à letra do baião da Petrobras, como se fazem restrições à própria Petrobras. Finda esta entrevista peço-lhe publicar a letra no rodapé da mesma, para que todos verifiquem se afirmo ou não a verdade.
Torres (T): Você acha motivo para qualquer censura ao baião?
Nelson (N): Acho, desde que partida de inimigos do Brasil que se sintam prejudicados com essa “publicidade gratuita” que a “Marcha” proporciona à campanha do petróleo brasileiro”.
A entrevista nunca foi publicada! Pouco tempo depois, Gonzaga confidenciou ao meu pai que foi aconselhado a não mais cantá-la em público e a RCA Victor não permitiu a sua regravação em LP. O verso “o sangue da terra vai jorrar” foi interpretado como incitação à violência, revolução.
Tive uma grata surpresa quando li, na Coluna do Ancelmo Gois, que o Governo Federal foi buscar, no fundo do baú, A Marcha da Petrobrás. Acreditem, a música foi tocada na inauguração do Campo Tupi, na região do Pré-Sal da Bacia de Santos, no dia 1º de maio de 2009.
https://youtu.be/sVFiwh638p0?si=3iLzzvKoyqFz9Xf3
“A Marcha da Petrobrás”
Após 50 anos, “A Marcha” foi resgatada. Eis sua letra: “Brasil, meu Brasil, tu vais prosperar tu vais / Vais crescer inda mais / com a Petrobras / Agora a coisa vai mudar / O sangue da terra vai jorrar / Porque o nacional monopólio / Nos deu o nosso rico petróleo / Somos assim donos de um grande país / Um povo forte, futuroso e bem feliz / Petroleiros conduzindo pelo mar / O ouro-negro para o Brasil refinar / Assim Mataripe e Cubatão / O óleo do Brasil destilarão / Candeias, Maceió e Nova Olinda / Os campos de nossa riqueza infinda / Terão de dar produção para o Brasil / E nossa terra não será só ouro-anil / No conselho mundial entre as nações / Nós brasileiros temos de ser campeões”.
*Valéria Barbalho é médica pediatra, cronista e filha do escritor e historiador caruaruense Nelson Barbalho.
