
Livro de Alexandre Almeida mostra história e vida pelas lentes da fé, por Arnaldo Henrique Alves*
30/08/2025 -
“Quer compreender? Creia. [...] se você não compreendeu, creia! O entendimento é o fruto da fé. Não busque, portanto, entender para crer, mas creia para entender (crede ut intellegas); porque, se não crerdes, não compreendereis.” No fragmento de sua obra Comentário ao Evangelho de São João, Santo Agostinho enfatiza o primado da fé como condição na busca teológica. Ele recorda que os mistérios divinos e as verdades espirituais não são adquiridos nas cadeiras acadêmicas, mas nascem no coração do crente e na alma simples.Quem não consegue se lembrar de pessoas que, mesmo sem formação em teologia, possuem uma profunda sabedoria sobre a vida e sobre Deus?
Amor pela igreja
Isso, evidentemente, não diminui o esforço árduo de muitas pessoas que se dedicam a buscar uma linguagem apropriada e um sistema coerente para expressar a razoabilidade da fé. Assim, parece-me que, ao se propor a escrever uma defesa da fé católica, o autor, antes de tudo, desejava expressar sua fé em Deus e seu amor pela Igreja. Hoje, em um momento mais maduro de sua vida, ele consegue concretizar esse desejo de forma sintetizada.
A obra
Está dividida em dois momentos principais: o primeiro aborda a origem da humanidade até a vinda do Messias, e o segundo trata da continuidade de Cristo por meio de sua Igreja. Conforme ensina Santo Eusebio de Cesareia, bispo do século IV e um dos primeiros historiadores da Igreja, a história é regida pela providência divina; é Deus quem governa o curso dos acontecimentos humanos. Assim, se há um Regente soberano sobre a história, não há rupturas, mas uma sequência orgânica de eventos que se conectam, formando uma trama que escapa ao caos e ao pessimismo.
Nesse sentido
A Sagrada Escritura é a leitura da história feita por homens inspirados pelo Espírito Santo, que reconhecem a intervenção divina nos fatos e os conectam por meio de palavras inspiradas. Contudo, esse mesmo Espírito não agiu apenas nos hagiógrafos que compuseram os livros canônicos — aqueles que servem como norma para a retidão da fé e para o conteúdo necessário à salvação — mas também continua a atuar na história da Igreja Católica, por meio da tradição, ou seja, na sucessão apostólica que se manifesta na figura dos bispos.Um exemplo dessa intervenção histórica de Deus é mencionado pelo autor ao citar a genealogia de Jesus Cristo nos Evangelhos de Lucas e Mateus. Este último evangelista organizou uma lista que vai de Abraão a Jesus Cristo, dividida em três blocos de 14 gerações cada. O objetivo teológico dessa narrativa era conectar Jesus.
De forma resumida
O autor apresenta a história do povo de Deus a partir da criação do homem, descrito como a obra-prima de Deus. Contudo, mesmo tendo recebido o dom de ser imagem e semelhança do Criador, o ser humano cedeu à ilusão da soberba. A partir desse momento, a relação entre Deus e a humanidade tornou-se um constante recomeço da aliança divina, sustentada pela fidelidade de Deus, apesar das repetidas falhas humanas. Os inúmeros pecados motivados pelas paixões desordenadas, como o fratricídio de Caim, levaram à necessidade de uma recriação da humanidade por meio do dilúvio na época de Noé. Após restabelecer a ordem, Deus conduziu a purificação da fé dos patriarcas, que começaram a reconhecer um Deus único e pessoal, abandonando gradualmente a associação de forças da natureza a divindades.
Ao longo dessa trajetória
Deus suscitou figuras essenciais para a formação de seu povo, como José do Egito, Moisés (libertador e legislador), Josué (que liderou a entrada na Terra Prometida), Davi e Salomão (que consolidaram o povo em um reinado unido). Durante toda essa história, Deus, em sua benevolência, levantou líderes carismáticos, como os juízes e profetas, que tinham a missão de zelar pela fidelidade do povo à aliança divina. Contudo, mesmo com essas providências, o povo de Deus enfrentou divisões internas e a queda de seu reino diante de potências estrangeiras, como os assírios, caldeus, babilônios, persas, macedônios e romanos.A história do povo hebreu, porém, sempre foi marcada por uma promessa central: a descendência de Abraão e Davi. Essa descendência, como se viu, não se cumpriu plenamente em Isaac ou Salomão, mas encontrou sua realização em Jesus Cristo.
A nova Aliança
Conforme sublinhado pelo autor da Carta aos Hebreus, o verdadeiro descendente prometido era Jesus, o Filho Unigênito, que, sendo eterno com o Pai, se fez carne e inaugurou uma Nova e Eterna Aliança. Essa aliança é nova porque não mais se exige o sacrifício de animais; o próprio Sacerdote se tornou a vítima e o altar ao mesmo tempo. É eterna porque o sacrifício de Cristo, perfeito e sem pecado, agradou plenamente a Deus Pai, abrindo de forma definitiva o Paraíso para a humanidade.O Filho de Deus, sem deixar de lado a extraordinária graça da concepção e do parto virginal de Maria, ingressou na humanidade como qualquer outro homem: através de uma gestação e no seio de uma família. Assumindo verdadeiramente nossa humanidade, Ele recebeu o nome de Jesus, que significa “Deus que salva”. Isso nos lembra que Ele veio para nos salvar, ou seja, estávamos em uma condição miserável, incapazes de pagar nossa dívida ou realizar atos de justiça.
Por isso
O Filho de Deus e de Maria se ofereceu como resgate por nossas enfermidades.Os três anos de ministério público de Jesus foram marcados por seus ensinamentos, milagres e exorcismos, sinais concretos daquilo que estava por vir. O grande Sermão da Montanha apresenta uma verdadeira carta de identidade para os seus seguidores. Nele, Jesus não apenas ensina onde se encontra a verdadeira felicidade, mas também desafia seus ouvintes a ampliar sua capacidade de amar, chegando até mesmo a amar os inimigos. Além disso, Ele traz uma revelação extraordinária: ensina que podemos chamar Deus de Pai, algo até então inimaginável, mas que se tornaria um dos motivos que o levariam à cruz.
A vida espiritual
No contexto de seus conflitos com os grupos religiosos e seus líderes, Jesus purificou a concepção religiosa do povo, mostrando que a vida espiritual não se resume a atos exteriores, mas começa na retidão do coração, onde o Espírito de Deus se manifesta e concede a graça para viver a virtude da religião. Durante a última semana de sua vida terrena, Jesus celebrou uma ceia com seus amigos e lhes revelou os segredos mais profundos de sua alma. Nessa ocasião, ensinou a humildade através do gesto de lavar os pés, apresentou o amor como a entrega de si mesmo pelos irmãos, instituiu sua presença real e sacramental na Eucaristia e o sacerdócio, e rezou ao Pai pela humanidade, pedindo a unidade entre seus seguidores. No entanto, essa mesma ceia nos revela a fragilidade humana: Judas Iscariotes, trocando a amizade com Jesus pelas coisas efêmeras deste mundo, traiu o Mestre.
O cálice amargo
Com um beijo de seu amigo traidor, Jesus foi entregue para enfrentar longas horas de tortura física, humilhação moral e abandono espiritual. Mesmo diante do amargor desse cálice, Ele o aceitou e o bebeu até o fim. Mais ainda, na cruz, Ele ampliou o alcance de seu amor, perdoando seus algozes e, descendo à mansão dos mortos, libertando os justos. Na solidão da noite, quando apenas as estrelas foram testemunhas, ressoou o grito de vitória de Jesus ressuscitado. A morte foi derrotada, a dívida paga, e as portas do céu se abriram definitivamente.
A ressurreição
Iniciou o tempo da Igreja, constituída pela presença viva de Deus, o Espírito Santo. A santidade da Igreja, porém, não se fundamenta na perfeição moral de seus membros, nem em sua estrutura visível ou nos seus edifícios. A essência da Igreja está em sua união com Cristo, sua cabeça, e na presença constante e atuante da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, que torna sempre atual a obra redentora de Cristo para todos os homens, em todos os tempos e lugares. É o Espírito Santo que reúne os discípulos dispersos e temerosos, ajuda-os a compreender os sacramentos e os mistérios da vida e da obra de Jesus.
Expansão
Do pequeno grupo dos doze apóstolos, reunidos na Palestina, a Igreja de Nosso Senhor expandiu-se pelo mundo inteiro. Superou divisões étnicas, ganhou credibilidade, permaneceu fiel mesmo diante do martírio, preservou intacta a fé frente às heresias, transmitiu o Evangelho a povos estrangeiros, resistiu a impérios e revoluções, e sobreviveu até o mau testemunho de alguns de seus membros. Contudo, ainda hoje, a Igreja é flagelada pelas divisões entre os cristãos, pelo enfraquecimento da fé e pela decadência moral.
Os santos
Como afirmou o Papa Bento XVI, a história da Igreja deve ser compreendida por meio da vida de seus santos, pois é neles que se manifesta sua verdadeira grandeza: homens e mulheres elevados pela graça de Deus a uma vida sobrenatural ainda aqui na terra. Eis a verdadeira glória e revolução da Igreja: a vitória de Deus que forja santos.
Por fim
Recordo uma história do início do século XIX. Quando Napoleão Bonaparte expressou sua intenção de destruir a Igreja, o Secretário de Estado do Papa Pio VII, Ercole Consalvi, respondeu com sabedoria: “Você não conseguirá destrui-la. Nem nós conseguimos! Se milhares de pecadores não a destruíram desde dentro, como alguém de fora poderia fazê-lo? Este breve e elucidativo trabalho do autor, fruto de sua fé em Deus e do desejo de aprofundar nos mistérios divinos, revela-nos o tesouro que muitas vezes desconhecemos. Que todo homem e mulher que lerem este opúsculo desejem o dom da fé e se abram ao conhecimento do Deus vivo e verdadeiro e de sua Igreja.
*Arnaldo Henrique Alves é padre católico.
