
As aventuras de Cacimba - O papa, a areia santa e o jumento místico
30/08/2025 -
Por Zé da Flauta*
Em Canindé, terra de promessa e chão quente que queima o pensamento, Cacimba chegou num dia de feira com um chapelão de couro, um bornal atravessado no peito e um caixote nas mãos. Subiu na pedra da praça principal e gritou:
— Chegou o enviado do Vaticano! Vim com uma missão do Papa! Tô trazendo a areia santa que cura dor, tristeza, espinhela caída e até voto errado!
O povo parou.
De dentro do caixote, tirou pequenos potes de vidro, cheios de areia dourada.
— Ano passado eu fui a Roma, dizia ele, com uma segurança que dava inveja a bispo, e o Papa me recebeu em audiência secreta. Entramos pela porta de São Pedro, descemos três andares, passamos por uma sala cheia de santos dormindo em caixões de vidro e chegamos numa biblioteca onde só se entra descalço e com o coração puro.
A multidão arregalava os olhos.
— Lá, o Papa me chamou no canto da Capela Sistina e perguntou:
— Cacimba, é verdade que o sol do sertão cura tristeza?
Eu disse:
— Santidade, o sol do sertão é parente do Espírito Santo!
Ele chorou. Me deu essa areia e disse:
— Leve pro teu povo. Cure o que os médicos não curam.
A essa altura, as beatas choravam. As crianças queriam tocar nos potes.
— E se não acreditarem, marquem uma audiência com o Papa pra confirmar!

Mas não parava aí.
Cacimba também contava que, ao subir a ladeira da Igreja do Rosário, viu a Virgem Maria montada num jumento branco, flutuando nas nuvens, tocando um pífano de ouro. Ela teria lhe dito:
— Dizei ao povo que continue a festa, pois o céu também dança forró!
O padre da cidade, que assistia tudo da sacristia, não se conteve e sorriu. Era mentira, claro. Mas daquelas que elevam a fé.
No fim do dia, Cacimba vendeu todos os potes de areia. Comprou duas redes, um litro de mel de abelha rainha e partiu no lombo de um jegue que apareceu sozinho na estrada, como quem reconhece santo.
*Zé da Flauta é músico, compositor, escritor e conversa com Deus nas horas vagas.
