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Travessuras, perigos e redenção - Deliciosas recordações de Silvio Amorim*

30/08/2025 -

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Depois de quase um ano de internato no Colégio Cristo Rei/Seminário São José, em Pesqueira, e três anos de internato no Colégio Diocesano de Garanhuns, retorno finalmente ao Recife. Durante as férias, meus pais vão passar um tempo fora.
Chamaram antes a mim e a meu irmão Gustavo e disseram:
— Deixo aqui o dinheiro para vocês escolherem onde vão estudar. Sejam responsáveis, etc. Após a partida deles, no período de matricula, Gustavo, responsável e certinho como era, matriculou-se no Colégio Marista, na Av. Conde da Boa Vista.

Novos ares.

Eu, que vinha de quatro anos de internato, com rígida disciplina, estava querendo fugir daquele padrão. Matriculei-me em um colégio noturno. Era bem mais tranquilo estudar com pessoas de perfil diferente daqueles a que estava acostumado. Pessoas mais velhas, que trabalhavam durante o dia e estudavam à noite, mas muito animadas e bem humoradas. Passei, também, a trabalhar durante o dia como vendedor de livros.

Desafinou a batucada

Mas foi numa noite dessas no colégio que, no atraso ou falta do professor,
descontraídos, iniciamos uma batucada na sala de aula:
"...Foi em Diamantina,
onde nasceu JK.." Vimos aproximando-se o "bedel", quando paramos a brincadeira e ele reclamou do barulho. Eu, querendo ser engraçado, disse:
— Foi aqui não, deve ter sido na sala ao lado... (sala essa que tinha reclamado do barulho e estava em prova).
-Ô "piadista", me acompanhe até a secretaria.
Peguei três dias de suspensão.

O pior a caminho

Preocupado, mas não tinha o que fazer. Cumprida a suspensão, retornei normalmente e, uma semana depois, vi que havia faltado à prova durante aquele período. Ao falar com o professor da cadeira, ele vê na sua caderneta duas observações. "Suspenso por indisciplina" e em seguida
"Expulso por indisciplina". Assustado, fui à Secretaria, imaginando ter sido um erro de anotação. A Secretária me confirma a expulsão.

Desencontro

Fui procurar o diretor com a esperança de resolver o assunto. Encontrei-o ele em sala de aula. Falando baixo, envergonhado, lhe digo:
-Professor, houve um equívoco, e expliquei o ocorrido.
Ele replicou de imediato: - Não, tá expulso mesmo.
Digo que não havia motivo para expulsão. Ele, falando alto, diz:
— Tá expulso, tá resolvido e saia!
A essa altura, os alunos em sala de aula já começam a fazer bagunça e eu inicio uma série de impropérios dirigidos ao diretor que, com a mão me empurra para porta de saída. Nessa hora, me viro tentando acertá-lo, quando erro o golpe e caio, vindo ele para cima de mim e eu com os pés me defendo.
Criou-se a maior algazarra, não só na sala de aula, mas em todo o colégio, com os alunos subindo para ver a confusão. Em seguida, alguns colegas me tiram da sala e do Colégio, e me colocam em um táxi, na direção de casa. Fiquei no meio do caminho quando o taxímetro chegou ao valor que tinha no bolso, pois meus transportes eram os ônibus elétricos.

A “barra” ia pesar…

Após minha saída do colégio, estouraram vasos sanitários com bombas de São João. Isso no início dos anos 70 era grave...
Dias depois, recebo em casa uma intimação do DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) para prestar depoimento. Por sorte, meu irmão Joãozinho, e Miriam, minha cunhada, ambos advogados, sabendo do ocorrido, vão em busca de seus colegas e amigos de faculdade, que se tornaram delegados de polícia, para encaminhar a questão, pois no DOPS a "barra era pesada", de conhecimento público.
A intimação do DOPS foi contornada, sendo avocada pelo gabinete do Secretário de Segurança Pública, na época, General Adeodato Mont'Alverne, que, ao entrar na sala, perguntou-me que besteira eu tinha feito. Contei o que aconteceu e ele disse:
— Vai estudar, que é o melhor que você faz...

Um ex-padre santo…

Resolvida essa questão, tinha que retornar aos estudos, mas havia ficado então sem escola no meio do ano. Fui para o Colégio Estadual Martins Júnior, no bairro da Torre, indicado por D. Maria José, sogra do meu irmão Joãozinho (filha do jurista prof. Francisco Barreto Campello). Ela entrou em contato com o prof. José Cordeiro, diretor do Colégio. O então prof. Cordeiro tinha sido o Padre Cordeiro, Reitor do seminário São José, em Pesqueira, onde eu havia estudado, mas como um prolongamento do internato do Colégio Cristo Rei. O prof. Cordeiro me acolheu de imediato. (Muitos anos depois, eu já casado, o prof. Cordeiro se torna meu vizinho e amigo, no Edif. Ana Margarida, no bairro de Parnamirim). Foi um segundo semestre muito produtivo em termos pessoais, pela boa turma que encontrei (Péricles, Polion, Eginar, Arlindo, etc.), apesar de ter sido reprovado naquele ano.

Encontro

Passa o tempo... uns vintes anos depois, eu estava na presidência da Fundação Projeto Rondon, com sede em Brasília, órgão do Ministério do Interior, quando recebo um telefonema do então deputado Federal Joaquim Francisco, pedindo-me para receber um amigo com a possibilidade de viabilizar um estágio para o filho. Quando ele disse o nome do amigo, vi que era o diretor que me expulsara do colégio na adolescência. De repente, veio-me à tona toda a situação vivida, que estava em depósito esquecido na memória. Disse: - Vou ver. Despedi-me, disposto a não retornar com o assunto. Refeito do impacto, retornei a ligação para Joaquim Francisco e disse que receberia o amigo dele no dia seguinte. Na hora marcada, ele chegou, entrou no meu gabinete, nos cumprimentamos, apresentou seu filho que seria o estagiário. Conversamos amenidades e assuntos gerais e nos despedimos, com a certeza do estágio solicitado.
Ou ele não quis tocar no assunto como eu, claro, ou, o que é mais engraçado, ele não se tocou de que eu era "aquele" aluno. Nunca falamos sobre o episódio.
Hoje ele é um dos meus bons e leais amigos e não só ele, mas toda sua bela família de irmãos, filhos, sobrinhos e netos. Isso é uma prova de que a história só finda quando bem termina.

*Silvio Amorim é advogado, foi secretário de Educação do Recife, membro do IAHGP.

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