O homem que roubou Portugal e o escândalo do Banco Master: paralelos de uma mesma engrenagem, por Antônio Campos*
23/02/2026
A história econômica é pródiga em personagens que desafiam o sistema financeiro não apenas pela audácia, mas pela capacidade de explorar suas fragilidades estruturais. Em 'O homem que roubou Portugal', Murray Teigh Bloom narra o caso de Artur Virgílio Alves Reis, responsável por um dos maiores golpes financeiros do século XX. Quase um século depois, o escândalo do Banco Master, associado ao nome de Daniel Vorcaro, reacende o debate sobre governança, regulação e os limites entre ousadia empresarial e risco sistêmico.
Alves Reis não era um ladrão comum
Ele percebeu que o Banco de Portugal operava sob um regime de moeda fiduciária frágil, com controles internos imperfeitos. Seu golpe não consistiu em falsificar notas grosseiras, mas em mandar imprimi-las na própria gráfica oficial que produzia o papel-moeda português. Criou, na prática, um “banco central paralelo”, emitindo milhões de escudos como se fossem legítimos.
Impacto
Alves Reis não era um ladrão comum
Ele percebeu que o Banco de Portugal operava sob um regime de moeda fiduciária frágil, com controles internos imperfeitos. Seu golpe não consistiu em falsificar notas grosseiras, mas em mandar imprimi-las na própria gráfica oficial que produzia o papel-moeda português. Criou, na prática, um “banco central paralelo”, emitindo milhões de escudos como se fossem legítimos.
Impacto
O prefácio da edição brasileira destaca que o impacto de sua fraude foi macroeconômico, chegando a representar cerca de 2,6% do PIB português da época. Não se tratava apenas de crime individual, mas de um abalo institucional. A moeda, símbolo da soberania, foi capturada por um particular.
No caso do Banco Master, as proporções e os mecanismos são distintos, mas as analogias estruturais são evidentes. A instituição ganhou notoriedade ao captar recursos com taxas elevadas, expandindo rapidamente sua base de ativos e assumindo posições consideradas arriscadas por parte do mercado.
Debate do modelo
Como em outros episódios bancários contemporâneos, a discussão não gira apenas em torno de ilegalidade, mas de modelo de negócio, exposição a risco e confiança do sistema.
Alves Reis justificava-se como um “desenvolvimentista”, afirmando que sua emissão clandestina visava fomentar Angola e dinamizar a economia portuguesa. A retórica é conhecida: a inovação financeira seria instrumento de progresso, mesmo que os meios fossem questionáveis. O empresário se via quase como um reformador monetário.
Também no Brasil recente, discursos de modernização financeira, crédito alternativo e soluções “fora do padrão” acompanharam a ascensão de bancos médios e independentes. O argumento da eficiência contra a ortodoxia reaparece. A linha entre empreendedorismo financeiro e imprudência regulatória torna-se tênue.

Outro ponto de contato
A confiança. O sistema bancário é, essencialmente, um pacto de fé coletiva. No caso português, o Banco de Portugal sequer possuía controles adequados para detectar duplicidade de numeração de notas. A falha institucional abriu espaço para o golpe. A engrenagem funcionava, mas com parafusos frouxos.
No Brasil, o debate sobre o Banco Master também passa pela supervisão. A atuação do Banco Central, os limites prudenciais, as garantias do FGC e a transparência das operações tornam-se centrais. Sempre que um banco cresce aceleradamente apoiado em estruturas complexas, o mercado pergunta: o regulador está enxergando tudo?
Outra analogia reside na figura do personagem. Alves Reis era carismático, articulado, capaz de convencer empresários e investidores estrangeiros da legitimidade de seu contrato forjado. Criou uma narrativa de grandeza e oportunidade histórica. O fascínio pessoal foi parte do motor do golpe.
Escândalos financeiros contemporâneos também costumam orbitar líderes que concentram poder decisório e constroem reputações de ousadia.
Semelhanças e diferenças
A personalização excessiva da gestão pode transformar a instituição em extensão da vontade de um indivíduo, reduzindo filtros internos.
Há, porém, diferenças importantes. Alves Reis cometeu falsificação deliberada e consciente, forjando documentos e assinaturas. Seu ato era criminal na essência. Já os episódios bancários modernos geralmente transitam na zona cinzenta da regulação: estruturas agressivas, mas formalmente amparadas por normas até que a autoridade determine o contrário.
Ainda assim, o efeito simbólico é semelhante. Quando a moeda ou o crédito são percebidos como manipuláveis por interesses privados, a confiança sistêmica se abala. Em Portugal, o escândalo contribuiu para instabilidade política e institucional. No Brasil, cada crise bancária reabre a discussão sobre risco moral e socialização de prejuízos.
Constante histórica
Ambos os casos revelam uma constante histórica: sistemas financeiros complexos dependem menos de genialidade individual e mais de mecanismos de controle eficazes. Onde há lacunas, surgem aventureiros — ou inovadores — dispostos a testá-las.
O homem que roubou Portugal não apenas imprimiu dinheiro; imprimiu uma lição sobre os limites da confiança institucional. O episódio do Banco Master, ainda que em contexto diverso, recorda que a solidez bancária é construída sobre prudência, transparência e fiscalização contínua.
Entre a audácia e a imprudência, a história ensina que o verdadeiro risco não está apenas no indivíduo, mas na arquitetura que permite que ele avance.
O escândalo do Banco Master demonstra a necessidade do aprimoramento do sistema de controle bancário e financeiro no Brasil. No final, quem paga a conta é a União, ou seja, o cidadão. É preciso punição exemplar, dando o devido processo legal.
*Antônio Campos é advogado e escritor.
























