Por Carlos Bezerra*
No principal teatro de Pernambuco, o portentoso Santa Isabel, a partir de 1895, passaram a funcionar as companhias itinerantes, como, por exemplo a “Cinematográfico Herver” procedente de Paris, que já em meados de 1908, fazia sua terceira apresentação na Veneza Brasileira. Exibia algumas fitas como o onipresente e indefectível “Paixão de Cristo” e os flagrantes da Exposição Nacional do Rio de Janeiro, conforme consta na obra “Clã do Açúcar”, de Lemos Filho, 1960.
As sessões de cinema foram, por várias décadas, no Recife um dos “pontos de encontro” mais importantes, responsáveis por românticos namoros tanto reais, nas salas, e redondezas como irreais, nas telas. Os reais eram continuados nas sorveterias e nos parques. Os irreais, através de revistas e de notícias hollywoodianas das “mocinhas”e principalmente, dos galãs: Rodolfo Valentino, [Clark] Glabe, Tony Kurtis e Elvis Presley, entre outros.
O cinema teve nos “animatógrafos”, um de seus ancestrais. As primeiras salas de projeção das películas cinematográficas no Recife surgiram, por volta de 1909, com as inaugurações na Rua Nova dos três primeiros:
O Royal, o Pathe e o Vitória
Conforme declara Edvaldo Arrelio em “Recife de ontem e de hoje”- "Embora houvesse boa doze de ceticismo por parte do povo, quanto ao sucesso da sétima arte entre nós, meses depois da inauguração do “Pathe”, o primeiro cinema permanente do Recife, foi inaugurado também na Rua Barão da Vitória, hoje Nova, o Cinema Royal e logo após surgiu o Cine Vitória, destinado a um público menos exigente.
Cineteatro-helvética
Misto de teatro, café concerto e bar-restaurante, foi inaugurado em 26 de junho de 1910. Localizava-se no prédio número 50 da Rua da Imperatriz e era propriedade de “Girot & Cia”. Local dos mais “chics” e bem frequentados da época, durante a primeira metade do século, testemunho de grandes acontecimentos sociais e políticos como o atentado seguido de morte do Jornalista Trajano Chacon, durante a campanha Dautista X Rosista, em 1913.
No final da tarde de 9 de janeiro de 1920, sofreu um grandioso incêndio que causou sérios danos ao estabelecimento. Após as necessárias reformas foi reaberto. Por volta de 1928 era o Cineteatro novamente restaurado e entregue ao público, com pomposa festa, exibindo na oportunidade o filme “The Big Parade” de King Vedor.
Finalmente em 24 de março de 1930 era essa casa transformada no “Cemegal” um centro de diversões. O Helvética, com modificações em suas atividades, funcionou até o início da década de 60.
Cine Polytheama
Inaugurado em 25 de outubro de 1911 era dirigido por Eustórgio Vanderley. Se localizava na Rua Barão de São Borja. Em 1932, quando já pertencia a Empresa Severiano Ribeiro, inaugurou seu aparelho sonoro, o Kenetophone.
Cine Moderno
Inaugurado em 15 de maio de 1913, na Praça da Concórdia, depois Praça Joaquim Nabuco, pertenceu inicialmente ao Coronel Agostinho Bezerra Cavalcanti (homônimo do herói da Confederação do Equador) e a Carneiro da Cunha. No começo funcionava apenas como teatro, depois como cineteatro, em 1915 instalou o Kinetophone ou a máquina falante, como era popularmente conhecida.
Em 1933 o Moderno pertencia à firma Fernandes Marques & Cia (Cinearte VII – 1933, página 37). Segundo o Sr. Alcides Pimentel, antigo representante da U.F.A no Nordeste, possivelmente o segundo proprietário desse estabelecimento foi a firma Libório & Risdel quando surgiu a edição do “Moderno Jornal”.
Nos anos 20, o Moderno passava para as mãos de novos proprietários: Alfredo e Tancredo Bandeira. Nessa ocasião, mais precisamente em 19 de julho, o Moderno realizava o primeiro espetáculo cinematográfico, promovido pelo “The Noving Picture Exibition of Bristish Industries”.
Em 1929, houve um desentendimento entre Bandeira e Alfredo, tendo o segundo se afastado para tentar (e conseguiu) o arrendamento do Teatro do Parque, por um período de 25 anos (Fonte Diário de Pernambuco de 12/04/1929).
Em 1930, após um breve período de desativação, é reintegrado em 17 de junho, e, nessa ocasião, foi exibido, pela primeira vez, um filme sonoro “Folies 1929”. Em 1934, esse cinema foi arrendado a Luiz Severiano Ribeiro.
Cine Ideal
Era situado no Pátio do Terço, nº 61, Bairro de São José, pertencia a Manoel S. Ramos, foi inaugurado em 15 de novembro de 1915. Esse cinema tinha uma peculiaridade interessante, possuía 1ª classe, com 250 assentos e 2ª classe com 217.
Em 1930, pertencia ao Sr. Álvaro Ferreira Leite. Foi o primeiro cinema de classe popular a aparelhar-se para a exibição de filmes sonoros, o que ocorreu em julho de 1930 com o filme “Inocentes em Paris”.
Cinema do Parque
Sobre essa casa de diversões tratamos, quando dissertamos sobre os Teatros no Recife. Essa abordagem, no entanto, é feita sob o ponto de vista cinematográfico. Inaugurado em 24 de novembro de 1921, localizado como vimos na Rua do Hospício nº 81. A sua festa de inauguração angariou fundos para construção de uma maternidade. Em 1929 foi reformado pela empresa Luiz Severiano Ribeiro, a quem passou a pertencer. É um dos mais antigos do Recife, sendo contemporâneo ao Helvética na Rua da Imperatriz e ao Royal e o Pathe, da Rua Nova.
A edição do Jornal Pequeno de 22 de fevereiro de 1930, notícia o grande sucesso alcançado pelo Parque com a sincronização às canções do filme “Volga Volga”, com uma eletrola Victor. Esta eletrola, segundo Fernando Spencer, era do modelo igual ao do Cine Polyteama que substituiu, definitivamente, a orquestra controlada.
Cine Glória
Das salas de projeção, esta era sem dúvidas, a mais popular e tradicional, entre os cinemas do centro do Recife. Famoso pelas suas sessões da tarde, tinha seu público bastante influenciado pelos freqüentadores do Mercado de São José e da Praça D. Vital. Foi inaugurado em 4 de setembro de 1926 com a exibição do filme “Flores Mulheres e Perfumes” e possuía 233 lugares.
Localizado na Rua Direita, 123/127, Bairro de São José, com sua frente voltada para a Praça D. Vital, teve seu edifício tombado em 28 de fevereiro de 1983 pelo Patrimônio Histórico Estadual, através de decreto estadual.
Em 1990, já sob a administração da filha de seu fundador, Maria José Ferreira Leite, era quase um empreendimento familiar, mantendo tradições há muito desaparecidas, como o “programa duplo”, a exibição de fitas de gosto popular à preferência de espectadores locais.
O tombamento do Cinema Glória, segundo equipe de exame técnica da Fundarpe, visou garantir a permanência daquela antiga casa de exibição do Recife, ameaçada de extinção, como ocorreu com 32 cinemas da cidade nos últimos 25 anos.
Cinemas do Recife em 1922
A partir do início do ano de 1922 funcionavam no Recife os seguintes cinemas: Parque, na Rua do Hospício; Moderno, na Praça Joaquim Nabuco; Helvética, na Rua da Imperatriz; Royal, na Rua Nova com dois salões: Salão das Rosas e Salão Chrsysonthemos; Polythema na Rua Barão de São Borja; Ideal, no Largo do Terço; e São José, no Largo de São José.
Em 2 de novembro de 1932, a Revista Cinearte divulgava a existência de 15 cinemas a saber: Glória, São José, Parque, Moderno, Royal, Polytheama, Espinheirense, Encruzilhada, Pina, Central, Real, São Paulo, Casa Forte e Ideal, todos sonoros. No entanto, começaram a surgir novos cinemas, principalmente no centro do Recife.
Art Palácio
Inaugurado em 16 de maio de 1940, de propriedade de Hugo Sorrentei, localizado na rua da Palma, durante sua inauguração se fizeram presentes o governador Agamenon Magalhães e o Prefeito Novais Filho. Nessa ocasião foi exibido o filme “Noites Anadaluzes” da U.F.A. Lamentavelmente, no entanto, a exemplo de tantos outros, essa casa de projeção fechou, no ano de 1993.
Trianon
Inaugurado cinco anos depois do seu vizinho, o Art Palácio, localizado no início da Avenida Guararapes, teve como primeiro proprietário o mesmo Hugo Sorrentino. Durante as últimas décadas de sua existência era, justamente com o Art Palácio, os únicos cinemas de primeira linha, que não pertenciam ao grupo Severiano Ribeiro. Atualmente se cogita a construção de um “Shopping Center”, utilizando-se todo o prédio onde funcionava essa tradicional sala de projeção.
São Luís
Operando desde 6 de setembro de 1952 no térreo do edifício Duarte Coelho, na esquina da Rua da Aurora, com a Conde da Boa Vista, onde outrora existiu o Templo dos Ingleses, constitui-se na maior sala de projeção do Recife, com 1.400 poltronas. Um dos mais belos e majestosos cinemas de nossa capital é de propriedade do grupo Severiano Ribeiro. Até o início da década de 60, era obrigatório o uso de paletó entre os seus frequentadores.
Em suas dependências funcionava em meados da década de 60, o cinema de Arte, que exibia uma sessão com filmes de alto nível, nos sábados pela manhã, bastante frequentada por estudantes adolescentes.
Surgiram mais recentemente três cinemas no centro do Recife. O Cine Veneza, instalado num grande prédio da Rua do Hospício, 333. Também pertence ao grupo de Luiz Severiano Ribeiro, foi inaugurado em 15 de dezembro de 1970 com o filme “Äeroporto”. Foi um dos mais luxuosos e bem aparelhado do Recife, com 800 poltronas estofadas.
Posteriormente foram inaugurados mais dois, ambos na esquina da Rua do Hospício com a Avenida Visconde de Suassuna, são o Ritz e o Astor.
“Círculo do Recife”
Segundo informações colhidas em “Recife de Ontem e de Hoje”, de Edvaldo Arlego, diante do sucesso do cinema, o Recife se aventurou à empresa cinematográfica, criando o “Circulo do Recife”, quando várias produções locais foram realizadas e algumas delas chegaram a impressionar pela sua qualidade, como foi o caso do filme “A Filha do Advogado”, estreado por Jota Soares, que se tornou a figura mais expressiva de nossa cinematografia.
“Com o advento da TV e mais aproximadamente com o vídeo cassete as casas exibidoras sofreram grande abalo, chegando a acabar a maioria dos cinemas de bairro.
Cinemas que fecharam as portas
Assim, fecharam suas portas os cinemas: Real, Torre, Modelo, na Madalena; Dicui, no Monteiro; Eden, Encruzilhada; Espinheirense e Recife, na Encruzilhada; Beberibe no Bairro do mesmo nome; Rivoli, Casa Amarela; Luan, em Casa Forte; Império em Água Fria; Vera Cruz em Campo Grande; Coliseu na Tamarineira; Eldorado e Pathe, em Afogados; Cordeiro, Caxangá, Brasil e Iputinga, na Avenida Caxangá; e Boa Vista, Politeama e Soledade na Boa Vista.
Além dos cinemas São José e Ideal, no bairro de São José, Guararapes em Areias; Santo Amaro no bairro do mesmo nome e ainda o Olímpia, o Ipojuca, o Pompéia, o High Life e o Panteon, entre outros.
Mas, como Fênix a ressurgir das próprias cinzas, os exibidores adaptaram suas casas às novas condições criando salas menores, reduzindo o custo operacional de investimentos e, com isso, o cinema vem se revigorando, para o bem dos aficionados da “ sétima arte” (a.ob. cits.). (Neste capítulo recebemos valiosas informações de Fernando Spencer).
*Carlos Bezerra é Presidente Emérito da Academia Recifense de Letras e Membro Benemérito do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP)