Entrevista — Analista político Marcelo Tognozzi*: “O Brasil aprisionou a prosperidade”
07/03/2026
O Poder — O senhor lembrou, em um artigo recente, que algo parecido com o que se observa hoje no Brasil foi previsto em 1840. Que previsão foi essa e feita por quem?
Marcelo S. Tognozzi — Em 1840, Alexis de Tocqueville terminou o segundo volume de ‘A Democracia na América’ descrevendo o que seria o Brasilzão de Lula. Falou de uma tirania não violenta, que não prende e não tortura, apenas tutela. Não quebra nem confronta vontades, as amolece. Não destrói, mas impede o progresso. Um poder a manter os cidadãos numa infância perpétua, provendo o suficiente para não se revoltarem e deixando tudo no mesmo lugar. Tocqueville batizou de despotismo suave. No Brasil do século 21, virou política social.
O Poder — Por que o senhor avalia o Brasil dessa forma?
Marcelo S. Tognozzi — Em 2025 o desemprego foi de 5,1%, registrado como o menor da série histórica do IBGE, iniciada em 2012. O número é real? Depende. A pesquisa não i...
Marcelo S. Tognozzi — Em 1840, Alexis de Tocqueville terminou o segundo volume de ‘A Democracia na América’ descrevendo o que seria o Brasilzão de Lula. Falou de uma tirania não violenta, que não prende e não tortura, apenas tutela. Não quebra nem confronta vontades, as amolece. Não destrói, mas impede o progresso. Um poder a manter os cidadãos numa infância perpétua, provendo o suficiente para não se revoltarem e deixando tudo no mesmo lugar. Tocqueville batizou de despotismo suave. No Brasil do século 21, virou política social.
O Poder — Por que o senhor avalia o Brasil dessa forma?
Marcelo S. Tognozzi — Em 2025 o desemprego foi de 5,1%, registrado como o menor da série histórica do IBGE, iniciada em 2012. O número é real? Depende. A pesquisa não inclui quem desistiu de procurar emprego ou está entre os beneficiários de programas sociais, mais da metade dos brasileiros. Por baixo desse número pulsa outro terrível: a produtividade do brasileiro está travada há 40 e tantos anos. Dados publicados pelo Portal Poder 360 na sexta-feira (06/03) mostram a realidade nua e crua: nosso trabalhador produz quatro vezes menos do que o americano. Chilenos, uruguaios e argentinos produzem mais que nós. Num ranking de 131 países, o Brasil amarga um medíocre 78º lugar. Está na segunda divisão da estagnação.
O Poder — Poderia detalhar melhor o motivo pelo qual chegou a essa conclusão com dados comparativos?
Marcelo S. Tognozzi -Não se trata de mera tabela do campeonato mundial de produtividade, mas uma longa marcha à ré de 46 anos. Em 1950, a produtividade do trabalhador brasileiro era 24,5% da americana, maior que a de hoje. Em 1980, chegou a 46%. Em 2023, retornamos ao patamar de 1950, ou seja: regredimos 73 anos. Quase 1 século. Voltamos ao Brasil de Dutra, Getúlio e JK. Entre 2010 e 2023, a produtividade por hora trabalhada no Brasil cresceu apenas 0,3% ao ano. Só o agronegócio se salvou, com alta anual de 5,8%. O tal agro rotulado de fascista e atrasado.
O Poder — Mas o país tem um leque de benefícios sociais que ajudam a população a sair da linha da pobreza. Isso não melhora a condição de vida, não pode levar ao aumento da produtividade e, consequentemente, à prosperidade?
Marcelo S. Tognozzi — A profecia de Tocqueville virou realidade por aqui 186 anos depois. Em 2024, o Bolsa Família custou R$ 168,3 bilhões dados a 20,7 milhões de famílias. Deveria ser ajuda temporária até a pessoa largar as muletas do Estado. O Benefício de Prestação Continuada (BPC), de 1 salário-mínimo mensal, custou R$ 75,8 bilhões até julho de 2024. Em 2025 engordou 40% e foi a R$ 119,1 bilhões. Somente o Bolsa Família cresceu 500% nos últimos 20 anos, descontada a inflação. De 2020 até o fim de 2025, o Governo Federal pagou quase R$ 1,6 trilhão em benefícios assistenciais, mais do dobro do PIB da Argentina (US$ 633,27 bilhões em 2024). A pobreza continua sendo ativo político de primeira. O resultado é tocquevilleano: relação entre governante e governado não é representação, mas clientelismo. O benefício vira voto e garante o mandato. O mandato perpetua o benefício. O círculo se fecha e aprisiona a prosperidade. Adeus riqueza.
O Poder — Poderia dar exemplo de outros países que conseguiram virar esse jogo?
Marcelo S. Tognozzi — Um exemplo desbotado de tanto uso, mas que segue válido é a Coreia do Sul, que em 1960 era pobre. Apostou em educação de excelência, indústria de alto valor agregado e exposição à competição internacional. Hoje, sua produtividade a fez rica. O Vietnã vai pelo mesmo caminho. A Irlanda igual. Os governos do PT, entre 2003 e 2016, desprezaram oportunidades reais. O boom das commodities dos anos 2000 injetou muito dinheiro na economia brasileira. Ao invés de transformar a estrutura produtiva do país, como fez a Noruega com o petróleo, gastaram na expansão do consumo, subsídios a indústrias ineficientes via BNDES e assistencialismo. Quando o ciclo das commodities terminou, a recessão de 2014 revelou a fragilidade estrutural escondida debaixo do tapete.
O Poder — O que fez com que o Brasil não tivesse um crescimento maior?
Marcelo S. Tognozzi - O mais revelador desses dados é o aspecto salarial: empregados com carteira assinada tiveram ganhos reais de apenas 6,39% desde 2019. No mesmo período, informais e autônomos viram seus rendimentos subirem entre 25% e 31%. Para quem quer melhorar de vida, melhor ser MEI, Uber ou camelô.
O Poder — Mas isso passa por falta de formação técnica e profissional, não?
Marcelo S. Tognozzi — Sim. No Brasil, a maioria esmagadora da população tem baixa escolaridade, baixa capacidade cognitiva e baixa renda (menos de US$ 500 por mês em média). A cada eleição, a escolha racional de quem depende de um benefício foi votar em quem o mantém. Andamos para trás sem nos darmos conta. É a democracia delegada do cientista político argentino Guillermo O’Donnell: o eleitor entrega poder total ao eleito e a relação entre governante e governado é de tutela, não de representação. Os donos do poder agem como se tivessem direito natural ao governo, como se representar os pobres fosse um mandato permanente. As urnas apenas ratificam.
O Poder — Ao seu ver, o Brasil falhou na educação, então?
Marcelo S. Tognozzi — Não somente isso. O Brasil aprisionou a prosperidade. Escolheu encarcerá-la. Prosperidade é fruto de uma conjunção de fatores do ciclo de riqueza: educação, produtividade e crescimento. Formamos jovens que saem da faculdade sem saber português, incapazes de falar outras línguas e sem conseguir interpretar um texto. Não passariam num ditado. Tremenda pobreza num mundo onde a riqueza passou a ser o conhecimento. Estamos condenados à estagnação num mundo onde os povos se dividem entre prósperos e estagnados. Prosperidade é a riqueza permanente, sustentável (palavrinha muito na moda, mas mal-usada), capaz de gerar mais riqueza e assim sucessivamente. Estagnação é pobreza perene.
O Poder — Quais as grandes consequências dessa “estagnação” citada pelo senhor?
Marcelo S. Tognozzi — Ao retornamos aos patamares de 1950 viramos o refugo da História. Naquela época, o Brasil tinha mais jovens do que velhos, hoje é o contrário. Éramos 52 milhões, hoje somos 213 milhões. O mundo ouvia rádio, TV era um sonho, telefone coisa de rico e os jornais de papel. Sem prosperidade, iremos ao fundo do poço da subserviência aos donos do conhecimento. Se os portugueses seduziram nossos índios com espelhinhos e ferramentas, agora somos seduzidos pelas redes sociais, celulares e carros elétricos dos países prósperos. O texto de Tocqueville de tão realista dá arrepios: “É em vão que se pode encarregar esses mesmos cidadãos, tornados tão dependentes do poder central, de escolher os representantes desse poder. Esse emprego tão importante, não impedirá de perderam pouco a pouco a faculdade de pensar, de sentir e de agir por si mesmos, nem de caírem gradualmente abaixo do nível da humanidade”.
*Marcelo S. Tognozzi é jornalista, consultor e profissional de Relações Inter-Governamentais - RIG.
NR: Entrevista feita a partir de texto publicado no Poder 360































