Brasil No Espelho - Por Elimar Pinheiro do Nascimento*
09/02/2026
Resenha do livro de Felipe Nunes
O Brasil é um país de transições. Sofremos profundas mudanças nos últimos 50 anos. Deixamos de ser um pais rural, assistimos a desaceleração do crescimento populacional e um acentuado envelhecimento. Nos industrializamos e já adentramos uma economia digital. As mulheres ganharam autonomia e protagonismo, hoje a maioria no sistema escolar, que era para poucos. A família tradicional, monogâmica e patriarcal, conhece novos formatos. Nossas ruas transformaram-se em áreas de perigo, quando antes eram espaços de socialização. De um país sob regime ditatorial, nos transformamos em um país democrático, embora precário. Somos uma potência alimentar, energética, com a modernização de nossa agricultura, da infraestrutura e dos transportes. Adotamos um sistema único de saúde de uma dimensão inexistente no mundo. Na digitalização financeira, inventamos o PIX e na ampliação democrática, a urna eletrônica.
Nossa imagem no mundo ta...
O Brasil é um país de transições. Sofremos profundas mudanças nos últimos 50 anos. Deixamos de ser um pais rural, assistimos a desaceleração do crescimento populacional e um acentuado envelhecimento. Nos industrializamos e já adentramos uma economia digital. As mulheres ganharam autonomia e protagonismo, hoje a maioria no sistema escolar, que era para poucos. A família tradicional, monogâmica e patriarcal, conhece novos formatos. Nossas ruas transformaram-se em áreas de perigo, quando antes eram espaços de socialização. De um país sob regime ditatorial, nos transformamos em um país democrático, embora precário. Somos uma potência alimentar, energética, com a modernização de nossa agricultura, da infraestrutura e dos transportes. Adotamos um sistema único de saúde de uma dimensão inexistente no mundo. Na digitalização financeira, inventamos o PIX e na ampliação democrática, a urna eletrônica.
Nossa imagem no mundo também mudou: não somos mais o país do carnaval ou do futebol; somos o país do PIX e do vídeo (novela, publicidade, filmes). A imagem de um povo preguiçoso, indolente e ignorante é, aos poucos, substituída pela imagem de um povo consumidor de novidades e ansioso por aprendizagem. Um Brasil de cultura e valores contraditórios por excelência; um país ambíguo, como dizia Roberto DaMatta em seus escritos das décadas de 1970/1980.
Em face dessas mudanças nada mais natural que nos perguntemos o que somos, quais as nossas especificidades e os valores que nos guiam. Enfim, o que nos define? É a essas questões que tenta responder o livro Brasil no Espelho.
Publicado em novembro de 2025, o livro de Felipe Nunes, socio fundador da Quaest, ocupou, na lista geral do Nielsen-PublishNews de 14 de dezembro de 2025, o 17º lugar, e, na lista de não ficção especialista, o quinto. Neste caso, perde ainda para o incansável Byung-Chul Han com seu livro A Sociedade do Cansaço — autor que já publicou no Brasil cerca de 30 livros nos últimos 10 anos. No ranking da Veja de 19/12/2025, no segmento de não ficção, o livro do sócio fundador da Quaest (3º lugar) ganha do livro do filósofo sul-coreano (7º lugar).
Como tudo no livro, o lançamento em novembro, às vésperas da Black Friday e perto do Natal, foi planejado. Contudo, a pressa é inimiga da perfeição, o que propiciou "cochilos" dos revisores. Por algumas poucas vezes, o texto e a tabela comentada não são condizentes. Na apresentação dos nove segmentos sociais em que o autor descreve o Brasil, o número 9 não aparece na listagem, em troca da repetição do 8.
Nada disso, no entanto, retira a qualidade do livro financiado e publicado pela Globo, que analisa um survey de 9.994 questionários aplicados em 340 municípios nas 27 entidades subnacionais. Contudo, um survey, por maior que seja, não consegue produzir um "imagem de alta definição" do Brasil — um país continental, diverso e complexo. Nenhuma boa imagem do Brasil pode esquecer os povos originários e as comunidades tradicionais com suas múltiplas facetas, dos pescadores artesanais aos quilombos. Infelizmente, ausentes no livro. Apesar destes representarem um percentual populacional maior do que o segmento de extrema-direita (3%).
O sucesso do livro deve-se não apenas a uma das maiores investigações sociológicas recentes do país — inédita por sua amostra e vastidão de questões abordadas —, mas também ao prestígio de seus promotores (Globo/Quaest) e de seu autor, cujo livro anterior, escrito com o jornalista Thomas Traumann, Biografia do Abismo, teve boa repercussão. Acrescente-se a equipe de bons profissionais participantes na condução e análise da pesquisa.
Os achados principais da investigação são resumidos na conclusão em 12 traços da sociedade brasileira que podem ser adensados em 10:
1. Fé e apego familiar: Deus acima de tudo (96%), fé acima da ciência (86%) e família em primeiro lugar, sendo reconhecida gradativamente em seus múltiplos formatos.
2. Pluralização evangélica: que substitui serviços estatais e influencia agendas morais, sobretudo nas periferias urbanas.
3. Ordem estatal e punitivismo: o desejo de ordem é estatal, mas o punitivismo generalizado baseia-se no medo e na desconfiança na Justiça e no próximo — a falta de confiança entre os brasileiros é um obstáculo ao desenvolvimento.
4. O "jeitinho brasileiro": é uma instituição nacional com diversas interpretações, visto em geral como negativo, mas valorizado como criatividade em determinadas circunstâncias.
5. Autoidentificação ideológica: é geral (96%), mas sem compromissos programáticos.
6. Moral do merecimento: apoia as políticas sociais — ajudar quem merece é visto como um dever da sociedade e do Estado.
7. Racismo: o Brasil é hoje reconhecido como um país racista, e os mais jovens abominam este racismo, defendendo políticas de ações afirmativas.
8. Insegurança e cansaço: a insegurança pública, o medo e o cansaço são traços marcantes do cotidiano dos brasileiros, diz o autor.
9. Ambiente digital: os brasileiros anseiam por informações e buscam aprender, mas são levados a enganos em ambientes digitais confusos, alimentados pela intensa polarização política.
10. Nova moldura analítica: é preciso uma nova tipologia que combine valores, crenças e experiências singulares, por vezes contraditórias, para entender o País.
Para melhor aproveitar a leitura do livro o leitor deve desconfiar de afirmações genéricas e singulares como "a sociedade", "o povo" ou "os jovens são isso e aquilo", que são sempre alavancas para uma visão simplista e falsa da realidade, comum no jornalismo e no livro. Como deve se prevenir dos modismos de dividir as gerações em segmentos de valores comuns. Se um indivíduo nasceu em 1963 é da geração Bossa Nova, mas se nasceu em 1965 é da geração Ordem e Progresso, segundo o livro. O que tem de comum alguém que nasceu em 1963 com alguém que nasceu em 1946 para serem agrupados? Afinal, gerações não são grupos sociais mas categorias sociais. Diferença essencial.
Os modelos são instrumentos que auxiliam a pensar o real, complexo e contraditório. Facilitam, mas deformam. Como as estatísticas que revelam por vezes coisas que não conhecemos, mas que podem esconder o essencial ou dizer coisas que não têm muito sentido. Se a margem de erro de uma pesquisa dessa magnitude é boa, o mesmo não ocorre quando a fragmento. Por exemplo, em afirmações peremptórias sobre cada uma das 27 unidades da Federação brasileira. Convido o leitor a fazer o cálculo para saber quantos questionários foram feitos no Amapá.
O livro contém uma síntese interessante de nossas percepções sobre o nosso País, mas está repleto de falsos ineditismos. Muitos dos achados, apresentados como inéditos, são há muito conhecidos e objetos de estudos das ciências sociais (aqui ausentes). Por exemplo: o sentimento de insegurança urbana, o crescimento das correntes evangélicas, a ambiguidade do jeitinho, a ajuda estatal meritocrática, o racismo estrutural, o aumento do empreendedorismo, a desconfiança social, a desigualdade (esta tida como "natural"), a adesão política sem cunho programático, a hegemonia do conservadorismo e a precarização do trabalho, entre outros.
Vide, por exemplo, a questão do modo de vida denominado pelo autor como "sobrevivência" como se fosse uma novidade, quando a literatura dos anos 1980 está repleta de estudos sobre "estratégias de sobrevivência". Literatura aqui ausente. Ou então, a afirmação de que o brasileiro ama o seu país e desconfia de seu povo. Achado inédito? Um “chiste” dos anos 50 já dizia isso: quando Deus concluiu a construção do mundo, os anjos reclamaram do país que não tinha ciclones, terremotos ou desertos, mas sim natureza abundante e água a rodo. "Uma injustiça", diziam os anjos. E Deus respondeu: "Esperem para ver o povinho que vou colocar lá". Outra falsa novidade é a apresentação do País dividido em dois tipos que podem ser relacionados a países. No caso o conservador e autoritário Zimbábue, e a liberal e democrática Suécia. Nenhuma novidade: Edmar Bacha já havia utilizado esse recurso metafórico na famosa "Belíndia" (Bélgica + Índia) na década de 1970.
O livro confirma, enfatiza e sintetiza noções que temos do Brasil. Porém, é aconselhável que o leitor não abdique da desconfiança natural em face das afirmações advindas de um questionário. É sabido que inquiridos respondem o que imaginam ser de "bom tom" ou evitam afirmações de contracorrente. A mais clássica dessas situações é aquela em que o/a entrevistado/a afirma que a sociedade brasileira é racista, mas eles, individualmente, não. Com um detalhe: a imensa maioria diz isso. Algo deve estar errado.
Não se pode esquecer que a ambiguidade, o contraditório e a desconfiança perpassam de maneira persistente muitas de nossas relações sociais, inclusive nas respostas a questionários. Lembro de um sociólogo que, estudando garotas de programa, decidiu fazer três entrevistas com cada uma, em três sucessivos meses, e comparar os resultados. Nas primeiras entrevistas tinham risos, nas últimas, choros.
Sinto falta da nova literatura historiográfica do Brasil, objeto de artigos acadêmicos e bons livros, como os de Jorge Caldeira (História da Riqueza do Brasil, 2017) ou de Rubem Barbosa Filho (Sinfonia Barroca: O Brasil que o povo inventou, 2025). Assim como, os inúmeros estudos sociológicos e antropológicos sobre o crescimento e a pluralidade dos evangélicos ou da criminalidade organizada que controla territórios e penetra nossas instituições, do parlamento ao judiciário. Aliás, crime organizado e crime superorganizado nas letras do professor Cristovam Buarque.
Mas, há uma verdadeira novidade — e, segundo o autor, sua maior contribuição: a segmentação do Brasil em nove categorias sociais, construídas a partir da análise de 197 variáveis: militante de esquerda (7%), progressista (11%), dependente do Estado (23%), liberal social (5%), conservador cristão (27%), empreendedor individual (5%), agro (13%), empresário (6%) e extrema-direita (3%). Proposta que merece ser analisada.
Contudo, não fica evidente por que o autor coloca na categoria "agro" tanto grandes proprietários modernos quanto trabalhadores rurais, nem por que os primeiros não estão com os "empresários". Não fica nítida também a distinção entre "empreendedor individual" e "liberal social", apesar das explicações. Assim como resta a dúvida sobre a função desta nova tipologia: substituir as clássicas divisões das categorias de idade, região, gênero e renda, ou apenas complementá-las? E, neste caso, o que se ganha?
Enfim, um livro que, apesar da abundância de marketing e escassez de literatura especializada, merece ser lido e discutido pelo volume de informações que contém. É uma bela síntese de muitas percepções conhecidas. Mas, com estatísticas novas, que retificam o que sabíamos ou amplia este conhecimento. Afinal, segundo o autor, a maioria dos brasileiros não conhece seu país. Embora sua base argumentativa (em 4 perguntas que não se sabe porque foram as escolhidas) seja frágil. Testei-o com 12 pessoas (jornalistas, acadêmicos e políticos), apenas uma acertou as 4 (uma jornalista). Muitos usaram a alternativa: Não sei.
*Elimar Pinheiro do Nascimento, é Sociólogo político e socioambiental. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação de Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília e do Programa de Pós-Graduação Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas.
























