Imprensa, diplomacia e a moral seletiva do nosso tempo
“A pior forma de injustiça é aquela que se apresenta com aparência de justiça.”
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1 — A comparação impossível
Há momentos em que uma simples leitura de jornal é suficiente para provocar perplexidade intelectual. Foi exatamente essa sensação que experimentei ao ler a reportagem publicada pela BBC intitulada “Israel lança novos ataques contra Líbano e Irã; base da missão de paz da ONU é atingida: o que aconteceu até agora no 7º dia da guerra”.
(Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp9r3v7y7n8o).
À primeira vista, o texto apresenta o que parece ser uma cobertura equilibrada do conflito envolvendo Irã e Israel. Relatos de civis assustados, descrições de explosões, números de mortos e declarações diplomáticas aparecem em sequência, criando a impressão de neutralidade jornalística. No entanto, basta uma leitura um pouco mais atenta para perceber algo profundamente estranho: diferenças fundamentais entre as ações dos atores envolvidos simplesmente desaparecem da narrativa.
O leitor é conduzido a concluir que estamos diante de mais um capítulo de uma guerra indistinta em que ambos os lados ocupam posições moralmente equivalentes. Israel ataca, o Irã responde, e o ciclo da violência se repete. Tudo parece caber dentro de uma mesma categoria moral indiferenciada.
Mas essa equivalência narrativa levanta uma pergunta inevitável. Quando ataques são dirigidos deliberadamente contra cidades e populações civis, enquanto operações militares são declaradamente orientadas contra infraestrutura estratégica e instalações militares, ainda faz sentido tratar ambas as ações como se pertencessem à mesma categoria moral?
É precisamente nesse ponto que a filosofia precisa intervir. Quando distinções fundamentais desaparecem sob o peso de uma narrativa aparentemente equilibrada, o pensamento crítico tem o dever de recuperar aquilo que a narrativa dissolveu: a capacidade de distinguir. Sem distinção, não existe julgamento. E sem julgamento, a própria ideia de responsabilidade moral começa a desaparecer.
2 — A engenharia narrativa da imprensa
Se a reportagem da BBC citada acima serve como ponto de partida, ela também revela algo mais profundo do que um simples problema de redação jornalística. Ela expõe um fenômeno recorrente da comunicação contemporânea: a engenharia narrativa através da qual fatos reais são organizados de maneira a conduzir o leitor a uma determinada interpretação.
Observe-se, por exemplo, a estrutura da matéria. O texto começa afirmando que o conflito atual teria sido desencadeado após o assassinato do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, em um ataque atribuído a Israel e aos Estados Unidos. Ao fazer isso, a narrativa estabelece imediatamente um ponto de partida específico para a história: o momento da ação israelense.
No entanto, conflitos internacionais raramente começam no ponto em que uma reportagem decide iniciar sua narrativa. Eles possuem antecedentes, tensões acumuladas, rivalidades ideológicas e estratégias regionais que se desenvolvem ao longo de décadas. Quando a história começa no momento da resposta militar de um dos atores, todo o contexto anterior desaparece da consciência do leitor.
Outro aspecto chama atenção. Grande parte dos testemunhos humanos presentes na reportagem descreve o sofrimento de civis no Irã ou no Líbano. Essas vozes são importantes e merecem ser ouvidas. Mas a ausência de relatos equivalentes de civis israelenses sob ataque cria uma distribuição assimétrica de empatia.
Nada disso exige falsificação de fatos. Basta escolher onde a história começa, quem fala e quais emoções são enfatizadas. Assim, a narrativa permanece aparentemente neutra, enquanto a interpretação do leitor já foi cuidadosamente orientada.
3 — A simetria moral artificial
É neste ponto que a narrativa jornalística começa a produzir um dos fenômenos mais perigosos do debate público contemporâneo: a simetria moral artificial. Trata-se de uma forma de apresentação dos fatos que coloca ações profundamente diferentes dentro de uma mesma categoria moral indistinta.
Na reportagem da BBC que mencionamos anteriormente, os ataques atribuídos a Israel aparecem lado a lado com as acusações do Irã sobre vítimas civis e destruição urbana. A sequência narrativa sugere que ambos os lados estariam engajados em práticas equivalentes dentro de uma mesma lógica de violência.
Mas essa equivalência ignora diferenças fundamentais. O regime iraniano construiu ao longo de décadas uma estratégia regional baseada no uso de milícias e grupos armados que operam deliberadamente a partir de áreas civis e que frequentemente dirigem ataques contra cidades israelenses. Mísseis disparados contra centros urbanos não têm como alvo quartéis ou instalações militares. Seu alvo é a população que vive nessas cidades.
Israel, por sua vez, declara explicitamente que suas operações militares são dirigidas contra infraestrutura estratégica, depósitos de armas, centros de comando e posições militares. Isso não significa que não existam tragédias humanas ou vítimas civis — guerras urbanas são tragicamente complexas. Mas significa que existe uma diferença essencial de princípio entre atacar deliberadamente populações civis e atacar instalações militares mesmo quando elas se encontram em áreas densamente povoadas.
A filosofia moral sempre insistiu que a intenção da ação importa. Quando essa distinção desaparece da narrativa pública, a análise deixa de ser moral e passa a ser apenas retórica. Sem distinguir quem toma civis como alvo e quem afirma buscar objetivos militares, a própria ideia de responsabilidade desaparece.
4 — A redução economicista da guerra
Uma explicação que aparece com frequência em debates políticos, reportagens e comentários acadêmicos procura reduzir conflitos internacionais a uma única causa: os interesses econômicos da indústria bélica. Segundo essa interpretação, guerras existiriam essencialmente porque empresas produtoras de armamentos lucram com a venda de armas e, portanto, teriam interesse em perpetuar conflitos.
Essa narrativa tornou-se particularmente popular em determinados ambientes intelectuais e políticos, onde funciona quase como uma explicação automática para qualquer crise internacional. Sempre que um conflito irrompe, surge rapidamente a mesma interpretação: tudo não passaria de mais um capítulo do negócio global das armas.
O problema dessa explicação não é apenas sua simplicidade. É sua incapacidade de explicar a realidade histórica.
Guerras existiam muito antes da existência de qualquer indústria moderna de armamentos. O Império Persa guerreou com as cidades gregas séculos antes de existir qualquer fabricante de mísseis. As Cruzadas mobilizaram reinos inteiros da Europa medieval por motivações religiosas e estratégicas que nada tinham a ver com mercados industriais. Mesmo no século XX, conflitos devastadores foram impulsionados por ideologias políticas, rivalidades nacionais e projetos de poder muito mais amplos do que qualquer cálculo comercial.
No caso específico do regime de Irã, a hostilidade declarada contra Israel não nasceu de interesses da indústria militar ocidental. Ela deriva de uma ideologia revolucionária consolidada após a Revolução Islâmica de 1979, que passou a tratar a eliminação do chamado “regime sionista” como parte de sua identidade política e estratégica.
Reduzir esse tipo de conflito a interesses econômicos é ignorar aquilo que a filosofia política sempre soube: guerras são frequentemente movidas por ambição, crença, identidade e projetos de poder. O dinheiro pode financiar a guerra, mas raramente explica sua origem.
Quando a análise abandona essas dimensões humanas e históricas, o resultado não é esclarecimento, mas simplificação. E simplificações confortáveis raramente ajudam a compreender conflitos complexos.
5 — O silêncio seletivo e a moral condicionada
Se a imprensa frequentemente constrói narrativas que produzem equivalências artificiais, a diplomacia internacional muitas vezes reforça essa confusão através de um fenômeno igualmente perturbador: o silêncio seletivo diante de certos regimes. Esse silêncio raramente é fruto apenas de prudência diplomática. Muitas vezes ele revela alinhamentos ideológicos que acabam condicionando a aplicação de princípios morais.
Tomemos como exemplo recente as declarações do presidente francês Emmanuel Macron. Ao comentar acontecimentos no Oriente Médio, Macron não hesitou em condenar publicamente ações militares atribuídas a Israel e reafirmar a necessidade de respeitar a soberania dos países da região. Esse tipo de posicionamento aparece frequentemente no discurso diplomático europeu e é apresentado como defesa consistente do direito internacional.
O problema surge quando se observa o contraste. O mesmo vigor moral raramente aparece quando se trata de denunciar a estratégia regional do regime de Irã, que há décadas financia e arma milícias que operam fora das estruturas formais do Estado e que frequentemente conduzem ataques contra populações civis.
Esse contraste torna-se ainda mais significativo quando consideramos o contexto político mais amplo. A postura internacional de Macron tem sido marcada por uma tentativa constante de afirmar autonomia estratégica europeia em relação à política externa dos Estados Unidos, especialmente sob governos que adotam posições mais firmes em relação ao regime iraniano. Nesse cenário, a crítica a Israel torna-se politicamente conveniente enquanto a condenação direta do Irã tende a ser suavizada.
Do ponto de vista filosófico, o problema não está no cálculo diplomático — ele sempre existiu na política internacional. O problema surge quando esse cálculo passa a determinar quais princípios morais serão invocados e quais serão silenciosamente ignorados.
Quando
a moral se torna dependente da conveniência ideológica, ela deixa de orientar a política e passa a servi-la. E nesse momento os princípios universais deixam de ser universais. Tornam-se apenas instrumentos retóricos de uma disputa política mais ampla.
6 — O pragmatismo diplomático e o verniz moral
Diante das inconsistências da narrativa internacional, muitos defensores da diplomacia contemporânea recorrem a um argumento conhecido: o pragmatismo político. Segundo essa visão, Estados não podem agir apenas guiados por princípios morais abstratos. Eles precisam considerar interesses nacionais, equilíbrio regional e riscos estratégicos. Essa lógica foi descrita de forma clássica por pensadores como Nicolau Maquiavel e continua a orientar grande parte da política internacional.
O problema não está no pragmatismo em si. O problema aparece quando esse cálculo estratégico passa a ser apresentado ao público sob a forma de uma moral universal que não corresponde à prática real.
Um exemplo recente ilustra essa contradição. Tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Emmanuel Macron têm recorrido com frequência à linguagem do direito internacional e da proteção de civis para criticar operações militares de Israel. Esse discurso aparece em fóruns internacionais, pronunciamentos diplomáticos e entrevistas à imprensa.
No entanto, a mesma intensidade moral raramente aparece quando se trata de denunciar um elemento central da instabilidade regional: o apoio do regime de Irã a organizações armadas classificadas internacionalmente como terroristas, entre elas o Hezbollah e o Hamas. Esses grupos não escondem que seus ataques frequentemente têm como alvo populações civis e centros urbanos israelenses.
Esse contraste revela algo importante. O pragmatismo diplomático continua existindo, mas ele é revestido por uma linguagem moral seletiva. Certos princípios são invocados com vigor quando se trata de determinados atores, enquanto diante de regimes que patrocinam organizações terroristas o discurso se torna cauteloso ou silencioso.
Do ponto de vista filosófico, a consequência é clara. Quando princípios universais passam a depender da conveniência política do momento, eles deixam de orientar a política e passam apenas a justificá-la. O verniz moral permanece, mas a coerência desaparece.
7 — A lição de Sócrates e a coragem da verdade
Quando observamos as contradições entre discurso moral e prática política, a tradição filosófica oferece um exemplo que continua profundamente atual. A figura de Sócrates permanece um símbolo duradouro da coragem intelectual diante das conveniências do poder.
Sócrates viveu em uma Atenas que se orgulhava de sua democracia e de sua liberdade de pensamento. Ainda assim, foi justamente essa cidade que o condenou à morte. Seu crime não foi conspirar contra o Estado nem incitar violência. Seu crime foi algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais perturbador: fazer perguntas que revelavam as contradições entre aquilo que os homens diziam defender e aquilo que realmente faziam.
O método socrático consistia precisamente em expor incoerências. Ele interrogava políticos, oradores e cidadãos influentes até que suas próprias palavras revelassem inconsistências internas. Não atacava pessoas por paixão ou ressentimento. Limitava-se a mostrar que certos discursos públicos não resistiam ao exame racional.
Essa postura acabou tornando-se intolerável para muitos dos que ocupavam posições de poder. Quando a verdade começa a desmontar narrativas convenientes, ela se transforma rapidamente em ameaça.
A lição de Sócrates permanece essencial porque nos lembra de algo que frequentemente esquecemos: a filosofia não existe apenas para produzir conceitos abstratos. Ela existe para examinar a vida pública e revelar quando princípios proclamados deixam de coincidir com a realidade.
Quando líderes invocam direitos humanos seletivamente, quando a imprensa dissolve distinções morais evidentes e quando a diplomacia prefere o silêncio à coerência, o espírito socrático nos recorda que a primeira tarefa do pensamento é simplesmente dizer aquilo que muitos preferem não ouvir.
8 — O dever do filósofo: nomear o erro à luz de princípios objetivos
Chegados a este ponto, a questão que permanece não pode ser reduzida a uma simples disputa de opiniões. A distinção entre ações legítimas e ilegítimas em conflitos armados não é uma invenção retórica de comentaristas ou filósofos. Ela está codificada em princípios objetivos do direito internacional humanitário, desenvolvidos ao longo de séculos e formalizados nas Convenções de Genebra.
Entre esses princípios, um dos mais fundamentais é o princípio da distinção: combatentes devem distinguir entre alvos militares e populações civis. Ataques deliberados contra civis não são apenas moralmente questionáveis; eles constituem violações diretas das normas que procuram limitar a barbárie da guerra.
Quando organizações armadas como Hamas ou Hezbollah dirigem ataques contra centros urbanos ou operam deliberadamente a partir de áreas civis, essas ações entram em conflito direto com esse princípio. O fato de esses grupos receberem apoio político, financeiro ou militar do regime de Irã torna essa realidade ainda mais relevante para qualquer análise séria do conflito regional.
Essas constatações não dependem de simpatias ideológicas nem de preferências políticas. Elas derivam de normas reconhecidas pela própria comunidade internacional. O problema surge quando essas normas passam a ser invocadas seletivamente, conforme o ator envolvido.
É precisamente nesse ponto que o papel do pensamento filosófico se torna indispensável. O filósofo não cria esses princípios; ele apenas lembra que eles existem e pergunta por que deixam de ser aplicados com consistência.
Sem essa exigência de coerência, o direito internacional torna-se linguagem diplomática vazia e a moral pública se dissolve em narrativas convenientes. E quando isso acontece, o que desaparece não é apenas a clareza do debate — é a própria autoridade das normas que pretendem proteger a vida humana em tempos de guerra.
9 — Guerra justa e Sharia: quando uma tradição é desvirtuada
Um dos equívocos mais recorrentes nas análises contemporâneas sobre o Oriente Médio consiste em tratar o conflito apenas como uma disputa geopolítica ou econômica. Essa abordagem ignora um elemento essencial: diferentes civilizações desenvolveram, ao longo dos séculos, princípios morais destinados a limitar a violência da guerra.
Na tradição ocidental, esses limites foram sistematizados na teoria da guerra justa, elaborada por pensadores como Santo Agostinho e Tomás de Aquino. Entre seus princípios centrais está a obrigação moral de distinguir entre combatentes e civis e a proibição de ataques deliberados contra populações inocentes.
O que raramente aparece no debate público é que a tradição jurídica islâmica também desenvolveu princípios semelhantes. Juristas muçulmanos clássicos estabeleceram limites claros para a condução da guerra, incluindo a proibição de matar mulheres, crianças, idosos e religiosos que não participassem das hostilidades. Essas normas aparecem em diferentes escolas da jurisprudência islâmica e mostram que a preocupação em conter a barbárie da guerra não pertence a uma única civilização.
É justamente por isso que a estratégia regional do regime de Irã levanta uma questão ainda mais grave. Ao financiar e armar organizações como Hezbollah e Hamas, cujas operações frequentemente atingem centros urbanos e populações civis, o regime iraniano não entra apenas em choque com normas do direito internacional moderno. Ele também se afasta de princípios reconhecidos pela própria tradição jurídica islâmica.
O problema, portanto, não é um choque inevitável entre civilizações. O problema é a distorção política de tradições morais que originalmente buscavam limitar a violência.
Quando uma tradição religiosa ou filosófica é reinterpretada para justificar estratégias que ignoram deliberadamente a distinção entre combatentes e civis, aquilo que se perde não é apenas coerência jurídica. Perde-se também a autoridade moral da própria tradição invocada.
10 — Conclusão: restaurar a distinção moral
Ao longo deste ensaio procuramos examinar um fenômeno que se tornou cada vez mais frequente no debate público contemporâneo: a dissolução das distinções morais fundamentais na análise dos conflitos internacionais.
Vimos como certas narrativas jornalísticas, mesmo quando baseadas em fatos reais, podem organizar esses fatos de maneira a produzir equivalências artificiais entre ações profundamente diferentes. Observamos também como a diplomacia contemporânea frequentemente recorre à linguagem universal dos direitos humanos enquanto aplica esses mesmos princípios de forma seletiva, conforme conveniências políticas momentâneas.
Esse fenômeno torna-se ainda mais problemático quando confrontado com normas objetivas já reconhecidas pela própria comunidade internacional. O direito humanitário consolidado nas Convenções de Genebra estabelece com clareza um princípio central: a obrigação de distinguir entre combatentes e populações civis.
Essa distinção não é um detalhe técnico. Ela representa uma das últimas barreiras morais erguidas pela civilização para limitar a violência da guerra.
Quando organizações como Hamas e Hezbollah dirigem ataques contra centros urbanos, ou quando populações civis se tornam deliberadamente instrumentos estratégicos em conflitos armados, essas ações entram diretamente em choque com esse princípio fundamental. E quando regimes como o do Irã financiam e armam essas estruturas, essa realidade não desaparece apenas porque certas narrativas preferem ignorá-la.
Ao mesmo tempo, quando operações militares dirigidas contra infraestrutura estratégica são automaticamente colocadas na mesma categoria moral que ataques deliberados contra civis, aquilo que desaparece
não é apenas a precisão do debate. Desaparece a própria capacidade de julgar.
A história da filosofia sempre insistiu que o primeiro passo da justiça é a distinção. Desde Aristóteles sabemos que julgar exige reconhecer diferenças reais entre ações diferentes. Quando tudo passa a parecer igual, responsabilidade e culpa tornam-se indistinguíveis.
É precisamente nesse ponto que a tarefa do pensamento filosófico se torna indispensável. Não para simplificar conflitos complexos nem para substituir a análise política pela indignação moral, mas para preservar aquilo que torna o julgamento humano possível: a capacidade de distinguir.
Sem essa distinção, a linguagem moral da política internacional torna-se apenas retórica. Com ela, ainda permanece aberta a possibilidade de que princípios universais voltem a orientar o mundo em vez de apenas justificar suas contradições.
Quando a distinção moral desaparece, a injustiça não precisa mais se esconder. Ela passa a se disfarçar na linguagem da própria justiça.
(*) O autor é advogado, Procurador do Estado aposentado, ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas e membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.