Quando a polarização tenta colonizar o cuidado
A civilização começa quando o cuidado resiste à vingança.
1. Introdução — quando o cuidado deixa de ser silencioso
A ética médica sempre pertenceu a uma zona anterior à disputa. Antes do Estado, da ideologia e da linguagem política, o cuidado surgiu como resposta imediata ao sofrimento humano. O corpo ferido e a dor concreta impunham um silêncio ético que suspendia julgamentos, identidades e culpas. Cuidar não era concordar. Era reconhecer um limite civilizacional.
Esse silêncio, porém, vem sendo rompido.
A polarização esquerda-direita deixou de ser apenas um conflito de ideias para se tornar uma gramática moral totalizante. Ela já não organiza apenas o debate público ou a leitura da história, mas pretende colonizar campos que lhe eram estranhos, exigindo que tudo escolha lado, inclusive a ética. Nesse ambiente, a medicina começa a ser pressionada a justificar não apenas como cuida, mas por que cuida, e a quem concede dignidade.
Quando isso ocorre, a ética deixa de ser fundamento e passa a ser instrumento.
A medicina, que deveria operar como espaço de suspensão da disputa, passa a ser observada por tribunais simbólicos que perguntam menos pela condição clínica do paciente e mais por sua identidade política, seu histórico público ou sua utilidade narrativa. O cuidado torna-se ruidoso, vigiado e moralmente administrado.
Esse deslocamento não é trivial. Ele sinaliza uma inflexão profunda: quando a ética médica precisa perguntar quem é o paciente antes de decidir como tratá-lo, algo essencial já foi perdido. Substitui-se a pergunta sobre o sofrimento pela pergunta sobre a filiação. E toda vez que isso acontece, a civilização se afasta um passo da ética e se aproxima, ainda que bem-intencionada, da barbárie.
2. A ética antes da política: o nascimento civilizacional do cuidado
A ética médica não nasce da política. Ela a antecede. Surge no ponto exato em que a vida humana se apresenta frágil demais para ser tratada como meio, argumento ou exemplo. Antes que existissem Estados, partidos ou programas ideológicos, já havia o gesto elementar de cuidar, não como ato de concordância moral, mas como reconhecimento de um limite que nenhuma causa pode atravessar sem se desfigurar.
Esse dado é frequentemente esquecido porque a política moderna se habituou a falar em nome de tudo. Mas há esferas que não lhe pertencem. O corpo doente é uma delas. Nele, a abstração cede lugar à urgência, e a biografia moral perde centralidade diante da evidência do sofrimento. A ética médica nasce exatamente dessa suspensão provisória do juízo, desse intervalo em que a pergunta não é quem o outro foi, mas o que a condição humana exige naquele instante.
Por isso, a tentativa de submeter o cuidado a critérios ideológicos representa uma inversão grave. Quando a política passa a determinar os contornos da compaixão, a ética deixa de ser princípio e se converte em extensão do poder. O cuidado deixa de ser resposta ao sofrimento e passa a funcionar como validação simbólica de pertencimento.
Não se trata de negar a existência do conflito político nem de idealizar a neutralidade. Trata-se de reconhecer que há um patamar anterior ao conflito, sem o qual nenhuma sociedade se sustenta. A ética médica ocupa esse patamar. Ela não absolve, não condena, não legitima nem combate. Ela cuida.
Quando essa ordem se inverte, quando a política reivindica precedência sobre a ética, o que se perde não é apenas a integridade da medicina, mas o próprio sentido de civilização. Pois toda civilização começa quando aceita que há limites que nem mesmo as causas mais justas estão autorizadas a ultrapassar.
3. Polarização e colonização moral: quando tudo vira identidade
A polarização contemporânea já não opera apenas como divergência política. Ela se tornou uma lógica de ocupação total do mundo. Tudo passa a ser interpretado como sinal de pertencimento ou traição, e nenhuma esfera permanece imune à exigência de alinhamento. Ideias, gestos, silêncios e até princípios passam a ser lidos não pelo que são, mas pelo lado que supostamente favorecem.
Nesse ambiente, a ética deixa de funcionar como critério e passa a operar como marcador identitário.
A política, quando absolutizada, não tolera zonas neutras. Ela transforma valores em bandeiras e virtudes em instrumentos de disputa. O que antes era princípio torna-se senha; o que era limite converte-se em arma simbólica. A moral já não orienta a ação, apenas legitima o grupo. E aquilo que não se deixa capturar por essa lógica é imediatamente suspeito.
É assim que o cuidado, por natureza silencioso e anterior à disputa, passa a ser interpretado como gesto político. Tratar alguém deixa de ser um dever ético para se tornar uma declaração ideológica. A compaixão é escrutinada, vigiada e, em certos casos, denunciada como cumplicidade. Não importa mais o sofrimento concreto, mas o lugar simbólico que o sofredor ocupa no tabuleiro moral do momento.
Esse processo é corrosivo porque dissolve a distinção entre princípios universais e estratégias de poder. Quando tudo vira identidade, nada mais é verdadeiramente ético. Há apenas escolhas tribais disfarçadas de virtude. A humanidade deixa de ser um dado comum e passa a ser um atributo concedido ou retirado conforme a narrativa dominante.
A colonização moral operada pela polarização não empobrece apenas o debate público. Ela rebaixa a própria ideia de ética, transformando-a em extensão da trincheira. E toda vez que isso ocorre, o humano deixa de ser o ponto de partida e passa a ser apenas mais um recurso disponível na disputa pelo sentido.
4. Quando o chicote muda de mão: o poder moral e a tentação da impiedade
A história ensina que a crueldade não pertence a uma ideologia específica, mas a uma disposição humana que emerge sempre que o poder se acredita moralmente absolvido. Ainda assim, há um traço recorrente nos movimentos que se apresentam como portadores do bem: quando deixam a condição de crítica e assumem posições de autoridade, tendem a ser mais severos, pois já não se veem apenas como governantes, mas como agentes de correção do mundo.
É nesse ponto que a polarização contemporânea revela sua face mais perigosa.
Parte significativa da esquerda atual não opera apenas como força política, mas como instância moral superior. Não se limita a disputar projetos ou ideias; pretende definir quem é digno de voz, de cuidado e, em certos casos, de humanidade. Quando esse campo passa a influenciar instituições, discursos e mecanismos de legitimação simbólica, a punição deixa de ser apenas jurídica ou política e assume caráter pedagógico: não se corrige a conduta, expurga-se o sujeito; não se julga o ato, neutraliza-se o símbolo.
Esse processo se agrava porque a impiedade se apresenta sob linguagem virtuosa. A perseguição é chamada de zelo democrático. A exclusão, de defesa da humanidade. A negação de direitos, de proteção do bem comum. O indivíduo concreto desaparece, substituído pela figura abstrata do inimigo moral que precisa ser contido para que a narrativa permaneça intacta.
Quando essa lógica invade a ética médica, o risco se multiplica. O cuidado passa a ser condicionado não apenas por critérios técnicos, mas por juízos morais totalizantes. O paciente deixa de ser alguém que sofre e passa a representar aquilo que deve ser combatido. O sofrimento perde seu poder de suspender o ódio. E a medicina, que deveria ser último reduto do humano, converte-se em extensão da disputa.
Reconhecer
Não se trata de absolver abusos cometidos por outros campos ideológicos nem de recorrer a simetrias fáceis. Trata-se de reconhecer um dado recorrente da experiência histórica: o poder que se acredita moralmente puro tende a ser mais impiedoso, porque não admite limites. Quando o chicote muda de mão acompanhado da convicção de superioridade ética, a violência já não se reconhece como tal. Ela se chama justiça.
E toda vez que isso ocorre, a ética deixa de proteger o humano para servir à causa. A barbárie, então, não se anuncia com brutalidade explícita, mas com intenções nobres, linguagem elevada e a certeza tranquila de que tudo o que se faz, por mais duro que seja, é feito em nome do bem.
5. A falácia da ética condicionada: quando a dignidade se torna prêmio
Há um ponto em que a ética deixa de ser ética sem que isso seja imediatamente percebido. Ocorre quando ela passa a depender de condições externas ao próprio princípio que afirma defender. Quando a dignidade humana já não é reconhecida como dado ontológico, mas concedida como recompensa simbólica, a ética se transforma em instrumento de gestão moral.
Essa é a falácia da ética condicionada.
Segundo essa lógica, não basta ser humano para merecer cuidado. É preciso antes preencher requisitos implícitos: aderir à narrativa correta, ocupar o lugar certo no mapa moral do tempo, não representar aquilo que a causa definiu como intolerável. O sofrimento deixa de ser critério suficiente. A dor passa a ser filtrada por juízos prévios. E a compaixão, antes de se manifestar, pede autorização à ideologia.
O problema dessa operação não está apenas em sua injustiça, mas em sua incoerência profunda. Uma ética que seleciona destinatários já não é ética; é estratégia. Direitos que dependem de alinhamento deixam de ser direitos e se convertem em favores revogáveis. O humano, então, perde sua centralidade e passa a valer apenas enquanto confirma a narrativa dominante.
Essa falácia costuma se apresentar sob linguagem elevada. Fala-se em responsabilidade histórica, em proteção da democracia, em defesa de valores maiores. Mas o mecanismo é sempre o mesmo: substituir o princípio pelo critério, o universal pelo circunstancial, a dignidade pelo merecimento. A ética deixa de limitar o poder e passa a justificá-lo.
Quando esse raciocínio alcança a ética médica, suas consequências são particularmente graves. O cuidado, que deveria ser resposta imediata ao sofrimento, passa a ser avaliado à luz de considerações morais externas à prática médica. O paciente já não é visto apenas como alguém que necessita de atenção, mas como alguém que precisa ser julgado antes de ser tratado. O silêncio ético que protegia o cuidado é rompido por uma triagem simbólica.
A dignidade humana, porém, não admite adjetivos nem condicionantes sem se autodestruir. Ou ela vale para todos, inclusive para aqueles que nos repugnam, ou não vale como princípio. Toda vez que se aceita relativizá-la em nome de uma causa, abre-se a porta para que outras causas façam o mesmo. E, nesse ponto, a ética já não protege o humano; apenas organiza a exclusão com aparência de virtude.
6. Entre o tribunal da opinião e o silêncio do cuidado: o último reduto do humano
O médico contemporâneo passou a atuar sob dupla pressão. De um lado, a exigência técnica, que permanece inegociável. De outro, um tribunal difuso, informal e implacável, formado pela opinião pública militante, pelas redes sociais e por narrativas morais que julgam não apenas o resultado do cuidado, mas a intenção atribuída a quem cuida. Nesse ambiente, tratar deixa de ser um gesto profissional e passa a ser interpretado como tomada de posição.
Essa mudança é profunda e perigosa.
A medicina sempre operou em um espaço de contenção simbólica. Ali, o juízo moral era suspenso em favor da urgência humana. O sofrimento funcionava como limite intransponível. Hoje, porém, esse limite vem sendo corroído. O cuidado é observado, vigiado e reinterpretado à luz de disputas que lhe são externas. Pergunta-se menos se o tratamento é adequado e mais se ele é moralmente aceitável dentro da narrativa dominante.
Quando isso acontece, o médico deixa de ser guardião do cuidado e passa a ser réu potencial. A ética, em vez de protegê-lo, é instrumentalizada para constrangê-lo. O silêncio necessário à prática médica cede lugar ao ruído do julgamento permanente. E o corpo do paciente, que deveria ser centro, transforma-se em campo simbólico de disputa.
É nesse ponto que a ética sem adjetivos se revela como último reduto do humano. Não uma ética neutra, mas uma ética consciente de seus limites. Não uma ética indiferente, mas uma ética que se recusa a servir como arma. O cuidado não absolve, não legitima, não endossa. Ele apenas cuida. E exatamente por isso sustenta a civilização.
Quando a medicina aceita ser colonizada pelo tribunal da opinião, ela abdica de sua função mais alta. Quando resiste, preserva algo que vai além da técnica: preserva a ideia de que há esferas da vida humana que não podem ser submetidas à lógica da vingança moral sem que tudo o mais se perca.
Essa tensão não é apenas médica. Ela é civilizacional. Pois a maneira como uma sociedade trata aqueles que considera indignos revela não sua força, mas seus limites. E é a partir desse ponto que se impõe a pergunta final: o que ainda estamos dispostos a preservar quando tudo exige alinhamento, julgamento e punição?
7. Conclusão — onde a ética ainda resiste
A ética médica permanece como um dos últimos espaços onde a civilização pode se reconhecer sem máscaras. Não porque seja perfeita, mas porque impõe limites. Ela lembra que há sofrimentos que não admitem juízo, dores que não pedem autorização ideológica e cuidados que não podem ser negociados em nome de causas, por mais nobres que se apresentem.
Quando a polarização tenta colonizar o cuidado, o que está em jogo não é apenas a prática médica, mas a própria ideia de humanidade compartilhada. Uma sociedade que pergunta quem o paciente é antes de decidir como tratá-lo já iniciou um processo silencioso de desumanização. Pode chamá-lo de zelo democrático, responsabilidade histórica ou justiça simbólica. O efeito, porém, é sempre o mesmo: a dignidade deixa de ser princípio e passa a ser exceção.
A ética, quando verdadeira, não escolhe lados. Escolhe limites. Não absolve nem condena. Suspende. Protege. Resiste. É precisamente essa resistência que a torna incômoda em tempos de trincheira, pois ela lembra que nem tudo pode ser reduzido a narrativa, identidade ou punição exemplar.
Defender uma ética médica sem adjetivos não é neutralidade covarde. É compromisso civilizacional. É afirmar que, mesmo quando o mundo exige alinhamento, ainda há espaços onde o humano deve permanecer anterior à política. Se esses espaços forem perdidos, não será a medicina a adoecer primeiro. Será a própria sociedade, que já não saberá distinguir justiça de vingança, nem cuidado de poder.
7. Pós-escrito — quando a narrativa substitui a humanidade
O ensaio que antecede trata de princípios. O Pós-escrito trata de fatos e de personagens.
Este Pós-escrito opta deliberadamente por nomear personagens públicos. Não por personalismo, nem por ajuste de contas, mas por uma razão histórica elementar: a ética se manifesta em fatos concretos, praticados por agentes reais, em contextos determinados. Textos que recusam os nomes em nome de uma abstração excessiva condenam o leitor futuro à arqueologia interpretativa e enfraquecem o próprio juízo moral que pretendem sustentar.
A história não se escreve apenas com estruturas. Escreve-se com homens.
Durante a pandemia, um recorte específico de um discurso do então presidente Jair Bolsonaro, retirado de seu contexto e repetido exaustivamente, foi convertido em prova moral definitiva de desumanidade. Esse fragmento passou a operar não como documento histórico, mas como sentença simbólica. A partir dele, construiu-se uma narrativa impermeável a fatos posteriores, revisões, nuances ou correções.
Pouco importou que vacinas tenham sido posteriormente disponibilizadas à população, que políticas públicas tenham sido implementadas ou que hoje esteja comprovado que parte da grande imprensa inflou, manipulou ou tratou números de mortos como instrumento político, como se a totalidade das consequências pudesse ser imputada pessoalmente ao governo. A narrativa já havia cumprido sua função central: desumanizar o personagem. E, uma vez desumanizado, tudo se torna permitido.
Esse método revela seus efeitos no presente.
Hoje, Jair Bolsonaro encontra-se preso, idoso e com histórico médico amplamente conhecido. A postergação de seu direito a tratamento médico adequado vem sendo tratada por parte significativa da opinião pública com indiferença, ironia ou aprovação explícita. Tal postura encontra respaldo institucional em decisões e condutas associadas ao ministro Alexandre de Moraes, que não esconde a lógica exemplar de sua atuação penal: não apenas punir, mas demonstrar poder, produzir temor e oferecer o corpo do réu como advertência simbólica.
Esse comportamento deveria causar indignação universal. Mas não causa.
O contraste moral torna-se ainda mais evidente quando se observa a assimetria de reações. Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofreu uma queda recente e bateu a cabeça, não houve, salvo exceções marginais, ironia, escárnio ou desejo de morte por parte dos veículos e vozes associadas à direita. Houve silêncio respeitoso e reconhecimento da fragilidade humana. O corpo ferido voltou a ser limite.
O mesmo não ocorreu em sentido inverso.
Quando Jair Bolsonaro sofreu uma tentativa de assassinato em 2018, publicamente documentada, o próprio Lula afirmou tratar-se de fingimento. A violência física foi dissolvida em cinismo narrativo. A dor foi deslegitimada. O corpo deixou de ser limite e passou a ser instrumento retórico. O mesmo padrão reaparece quando quedas, enfermidades ou fragilidades do adversário são tratadas com sarcasmo por jornalistas, comentaristas e formadores de opinião alinhados ao campo moral dominante.
Aqui não se trata de santificar Bolsonaro nem de demonizar Lula. Trata-se de registrar uma diferença objetiva de postura diante do sofrimento físico do adversário político. Esse é um critério ético simples e implacável. Quem preserva o silêncio respeitoso diante da vulnerabilidade humana mantém fidelidade ao princípio. Quem responde com ironia revela que a ética já foi substituída pela narrativa.
O ponto central, contudo, não é nenhum desses nomes isoladamente. É o precedente histórico que eles ajudam a revelar.
Quando a humanidade deixa de ser princípio e passa a depender da posição política do indivíduo, ninguém está protegido. Hoje o método recai sobre Jair Bolsonaro. Amanhã, poderá recair sobre qualquer outro cidadão que ocupe o lugar errado no momento errado, diante de uma composição específica do Supremo Tribunal Federal que confunde justiça com pedagogia do medo.
A história
A história mostra que a desumanização não começa com a violência explícita. Ela começa com a suspensão seletiva da empatia, com a crença confortável de que “desta vez é diferente”, com a ideia de que o sofrimento do outro é exceção justificável.
Quando uma sociedade aceita que alguém seja tratado de forma desumana porque “merece”, ela já abriu mão do critério que a protegia. E quando percebe, tarde demais, descobre que a ética que deixou de defender não era um favor ao adversário político, mas a última garantia de si mesma.
(*) O autor é advogado, Procurador do Estado aposentado, ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas e membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.
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