Um preto velho no Lollapaloosa, crônica por Romero Falcão*
02/04/2024 - Jornal o Poder
Dia desses à noite
Por volta das 23h, estirei a carcaça na cama, com a televisão ligada, para variar passando bobagem. O sono chegava de mansinho, as pálpebras pedindo descanso. De repente, ouço a voz de Gil cantando “Realce”- para mim, o disco mais genial dos geniais. Na hora o sono pulou fora, uma alerta alegre me tomou po...

Dia desses à noite
Por volta das 23h, estirei a carcaça na cama, com a televisão ligada, para variar passando bobagem. O sono chegava de mansinho, as pálpebras pedindo descanso. De repente, ouço a voz de Gil cantando “Realce”- para mim, o disco mais genial dos geniais. Na hora o sono pulou fora, uma alerta alegre me tomou por inteiro. Ele estava lá, um preto velho empunhando sua guitarra no palco do Lollapalooza. A cabeça e a barba branca num corpo que vai completar nos próximos meses, 82 anos.

A voz
Já não atinge os agudos que atingia quando compôs Realce, salvo engano, em 1978. Mas a família Gil no coral ajuda a manter o brilho, a purpurina, a vitalidade, a energia que faz de sua apresentação uma luz que se eleva, eletriza , encanta.

Gilberto Gil
É do meu signo, Câncer - receptivo, emotivo, fluido- cujo elemento é a água. No entanto, o Orixá do músico é Xangô, que é do fogo. Esse fogo eterno que eterniza Gilberto Gil. Continuei com os olhos pregados na tela grande, esqueci da pequena. Na sequência ele cantou “Vamos Fugir’ e depois “Palco”. Sua alma continua nova como uma nave que atravessa gerações, “cheirando a talco como bumbum de bebê”. Seu semblante é sereno, sábio. Pura magia negra que ilumina nossa escuridão.
*Romero Falcão é cronista e capricha nos detalhes.
Leia outras informações
EUA anunciam sanções contra brasileiros por suposta ligação com o PCC
01/07/2026
Foco da ação
A ação tem como foco uma rede que, segundo o Tesouro, explora o sistema financeiro americano para lavar recursos do tráfico de drogas. O PCC é descrito como a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental, com expansão global e presença significativa nos Estados Unidos, especialmente na Flórida. A ação foi tomada com base nas Ordens Executivas 14059 (combate à proliferação de drogas ilícitas) e 13224 (combate ao terrorismo e seus apoiadores).
Alvos
Victor Henrique de Oliveira Shimada (Shimada), de Santos (SP), nascido em 11 de fevereiro de 1985; Stella Stefanie Nunes Henri...
O Departamento do Tesouro dos EUA, por meio do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, OFAC, designou hoje duas pessoas físicas brasileiras, três empresas brasileiras e uma empresa portuguesa por supostas ligações com o Primeiro Comando da Capital, o PCC, principal organização criminosa da América Latina.
Foco da ação
A ação tem como foco uma rede que, segundo o Tesouro, explora o sistema financeiro americano para lavar recursos do tráfico de drogas. O PCC é descrito como a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental, com expansão global e presença significativa nos Estados Unidos, especialmente na Flórida. A ação foi tomada com base nas Ordens Executivas 14059 (combate à proliferação de drogas ilícitas) e 13224 (combate ao terrorismo e seus apoiadores).
Alvos
Victor Henrique de Oliveira Shimada (Shimada), de Santos (SP), nascido em 11 de fevereiro de 1985; Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira (Stella), de São Paulo (SP), nascida em 21 de março de 1992; Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda. (São Paulo); Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda. (São Paulo); Wave Construções Inteligentes Ltda. (Santos); Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda. (Setúbal, Portugal).
Implicações
Como resultado, todos os bens e interesses em propriedade das pessoas e empresas designadas nos EUA ou sob controle de pessoas americanas estão bloqueados. Transações envolvendo esses alvos por pessoas ou entidades sujeitas à jurisdição dos EUA são proibidas, salvo autorizações específicas. Instituições financeiras estrangeiras também podem enfrentar sanções secundárias por transações significativas com os designados.

Cadê o Senso Crítico na Copa do Mundo? - Crônica - Por Romero Falcão*
01/07/2026
Bem que os narradores poderiam mudar a cantiga. Poderiam falar, por exemplo, do gosto literário de Carlo Ancelotti, fã de Ítalo Calvino. O nosso técnico também escreveu livros. Em O Sonho, lançado no Brasil pela Editora Planeta, narra sua trajetória como jogador e treinador, convivendo com craques como Zico, Zidane, Kaká e Ronaldo. O locutor poderia revelar ainda que existem outras jogadas intelectuais fora das quatro linhas, como as de Héctor Bellerín, da Espanha, que participa de um clube de leitura e aprecia autores como Hermann Hesse, Han Kang e Naomi Klein.
Mas o que mais chama atenção nas transmissões é a ausência de senso crítico quando o assunto é...
Pense num troço que me aborrece nessa Copa do Mundo: as estatísticas. O jogador que fez mais gols na primeira partida, o que mais marcou em todas as Copas, a bola que mais bateu na trave em todos os Mundiais, o atleta que demorou mais tempo no chuveiro do vestiário... E por aí vai um rosário de chatices.
Bem que os narradores poderiam mudar a cantiga. Poderiam falar, por exemplo, do gosto literário de Carlo Ancelotti, fã de Ítalo Calvino. O nosso técnico também escreveu livros. Em O Sonho, lançado no Brasil pela Editora Planeta, narra sua trajetória como jogador e treinador, convivendo com craques como Zico, Zidane, Kaká e Ronaldo. O locutor poderia revelar ainda que existem outras jogadas intelectuais fora das quatro linhas, como as de Héctor Bellerín, da Espanha, que participa de um clube de leitura e aprecia autores como Hermann Hesse, Han Kang e Naomi Klein.
Mas o que mais chama atenção nas transmissões é a ausência de senso crítico quando o assunto é a Canarinha. Tenho o hábito de tirar o som da televisão e deixar apenas a imagem, para não ficar com a impressão de que estou assistindo a outra partida. Tamanha é a narrativa — palavra da moda — distorcida. Assim como, nos grupos de WhatsApp, existem bolhas que confirmam aquilo em que acreditamos e vídeos que douram a pílula do político de estimação, também há, nas transmissões da Copa do Mundo, um jogo de espelhos.

Para mim, por exemplo, o goleiro Alisson falhou no gol do Japão. Foi um chute sem potência, de longa distância. Os comentaristas, porém, ignoraram o lance. Mudei de canal e nada: continuavam passando pano para as luvas do arqueiro. Entretanto, num vídeo na internet, Gerson, o Canhotinha de Ouro, foi categórico: Alisson não poderia ter tomado aquele gol.
Também gosto de ler a coluna de Tostão, na Folha de S.Paulo. É lúcido, crítico, tem uma leitura de jogo inteligente e não alivia. Juca Kfouri e Casagrande também não têm papas na língua nem poupam ninguém.
E assim é em tudo: na política, no futebol e no entretenimento das massas. Não é recomendável tomar água no mesmo pote nem comer no mesmo cocho. Por mais fortes que sejam nossas convicções, é preciso furar as bolhas, impedir que o lodo se forme numa única percepção.
O time da França é um espetáculo, uma beleza de ver. Tem tudo para conquistar o tricampeonato. Mas, como o futebol não é lógica — graças aos deuses —, nem sempre o mais forte vence. Quem sabe o Brasil bate na trave... e a bola entra para o hexa.
*Romero Falcão é cronista e poeta. Articulista de O Poder. @romerocoutinhodearruda

NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.
Prefeitura do Jaboatão deu início às obras de banheiros públicos na orla, com investimento do Governo Federal
01/07/2026
Governo Federal
A iniciativa representa um investimento público de R$ 2 milhões do Governo Federal, por meio do Ministério do Turismo, e da Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes. O projeto prevê a implantação de dez unidades de banheiros ao longo da orla de Piedade, Candeias e Barra de Jangada.
Falou o prefeito Mano Medeiros
O prefeito Mano Medeiros tem cobrado a requalificação da infraestrutura da orla. "Trabalhamos por um orla cada vez mais acessível e acolhedora. Os banheiros públicos representam conforto para quem frequenta as nossas praias e fortalece o turismo, um importante vetor de geração de emprego e renda no município", destacou o prefeito Mano...
A Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes deu início, na segunda-feira, 30/06, às obras de implantação de banheiros públicos ao longo da orla. O ato simbólico, em frente à Igrejinha de Piedade, marcou a execução do primeiro equipamento do projeto.
Governo Federal
A iniciativa representa um investimento público de R$ 2 milhões do Governo Federal, por meio do Ministério do Turismo, e da Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes. O projeto prevê a implantação de dez unidades de banheiros ao longo da orla de Piedade, Candeias e Barra de Jangada.

Falou o prefeito Mano Medeiros
O prefeito Mano Medeiros tem cobrado a requalificação da infraestrutura da orla. "Trabalhamos por um orla cada vez mais acessível e acolhedora. Os banheiros públicos representam conforto para quem frequenta as nossas praias e fortalece o turismo, um importante vetor de geração de emprego e renda no município", destacou o prefeito Mano Medeiros.
Dois modelos e acessibilidade
Os novos banheiros serão construídos em dois modelos, com áreas de 61,98 metros quadrados e 39,66 metros quadrados. Os dois modelos terão estrutura acessível para pessoas com deficiência (PcD), atendendo às normas técnicas de acessibilidade.
Reforço à requalificação da orla
Com a implantação dos novos banheiros públicos, a Prefeitura reforça as ações de requalificação da orla, ampliando a infraestrutura turística, promovendo mais conforto e acessibilidade aos frequentadores das praias e contribuindo para o fortalecimento do desenvolvimento econômico do município.
Em meio a especulações após mudança partidária, Anderson Monteiro descarta ida à base do governo e reafirma apoio a Cícero
01/07/2026
O parlamentar negou que sua mudança do MDB para o Partido Verde represente uma aproximação com a base do governador Lucas Ribeiro (PP) e descartou qualquer possibilidade de integrar o bloco governista na Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB).
Durante entrevista ao programa Correio Debate, da rádio Correio 98 FM, Anderson afirmou que nunca manteve conversas com lideranças do grupo de Lucas Ribeiro. “Nunca conversei com Lucas Ribeiro, nunca conversei com Aguinaldo Ribeiro e nem com Hugo Motta”, declarou.
Segundo o deputado, a saída do MDB gerou interpretações equivocadas nos bastidores políticos. Ele disse que a troca de legenda foi vista por alguns setores com...
Em meio às especulações sobre uma possível aproximação com o grupo governista, o deputado estadual Anderson Monteiro (PV) reafirmou hoje, quarta-feira, 01/07, seu apoio à pré-candidatura do ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB), ao Governo da Paraíba nas eleições deste ano.
O parlamentar negou que sua mudança do MDB para o Partido Verde represente uma aproximação com a base do governador Lucas Ribeiro (PP) e descartou qualquer possibilidade de integrar o bloco governista na Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB).
Durante entrevista ao programa Correio Debate, da rádio Correio 98 FM, Anderson afirmou que nunca manteve conversas com lideranças do grupo de Lucas Ribeiro. “Nunca conversei com Lucas Ribeiro, nunca conversei com Aguinaldo Ribeiro e nem com Hugo Motta”, declarou.
Segundo o deputado, a saída do MDB gerou interpretações equivocadas nos bastidores políticos. Ele disse que a troca de legenda foi vista por alguns setores como um sinal de rompimento com a oposição, mas garantiu que seu posicionamento permanece o mesmo.
A filiação ao PV aconteceu em abril, após quatro anos no MDB, em um movimento que Anderson classificou como parte de uma reorganização política visando o próximo ciclo eleitoral. (O Poder com PoliticadaParaíba)
A misteriosa “venda ao contrário” da Ligth - Da Série: Mistérios do aquém – Por Natanael Sarmento*
01/07/2026
Crimes da ditadura
A ditadura que sangrou o Brasil durante 21 anos, cedeu anéis e conservou os dedos. Negociou por cima uma “abertura lenta, gradual”, segura para os torturadores e sicários do regime. Carrascos beneficiado com “anistia” como se fossem vítimas. Mistério do aquém!
Corrupção
Tampouco responderam criminalmente os corrutos dos desfalques bilionários da Nação. Livres e lépidos, permanecem impunes, ou morreram de causas naturais.
Jabá da Light
No apagar das luzes do governo do ditador Ernesto Geisel o Brasil pagou à vista US$ 380 milhões em valores de 1979 num negócio obscuro. A estatal Eletrobrás adquiria 83% das ações da empresa canadense Brancon – anti...
Quando os nazistas perderam a guerra, vários figurões do 3º Reich foram julgados no Tribunal de Nuremberg. Mas seriam os juízes que sentariam nos bancos do réus se por infelicidade Hitler tivesse vencido a guerra.
Crimes da ditadura
A ditadura que sangrou o Brasil durante 21 anos, cedeu anéis e conservou os dedos. Negociou por cima uma “abertura lenta, gradual”, segura para os torturadores e sicários do regime. Carrascos beneficiado com “anistia” como se fossem vítimas. Mistério do aquém!
Corrupção
Tampouco responderam criminalmente os corrutos dos desfalques bilionários da Nação. Livres e lépidos, permanecem impunes, ou morreram de causas naturais.
Jabá da Light
No apagar das luzes do governo do ditador Ernesto Geisel o Brasil pagou à vista US$ 380 milhões em valores de 1979 num negócio obscuro. A estatal Eletrobrás adquiria 83% das ações da empresa canadense Brancon – antiga Light - Brazilian Traction, Light and Power.
Mistério
Nem todos os geradores da Light em ação esclarecem por que o governo brasileiro pagava 170 milhões de dólares a mais que o capital da Brascon declarado no Banco Central do Brasil.
Detalhe histórico
Tratava-se de empresa estrangeira concessionária de serviço público de eletrificação em atuação no Brasil desde o século XIX.
Herança
Com a “compra” o governo brasileiro herdava a dívida de US$ 780 milhões dos passivos da empresa. E abdicava de cobrar a dívida de US$ 56,4 milhões de impostos devidos pela Brascon. Tudo sopesado e medido, ativos, passivos, tretas tributárias, um rombo no Tesouro Nacional em torno de US$ 1,3 bilhão.
Para além desses mistérios...
O governo adquiria a empresa concessionária que no final do contrato seria incorporada a custo zero. Não fossem os “prementes e relevantes interesses nacionais” envolvidos na negociata escandalosa. Isso mesmo, não custaria um centavo aos cofres públicos!
Cláusula de reversão
No direito brasileiro, há a cláusula de reversão contratual das concessões. Os entes federativos concedentes – União, Estados, Municípios – incorporam, sem indenizações, os ativos (patrimônio)- das empresas concessionários, ao término do contrato. Justificável pelo equilíbrio contratual. O montante dos valores investidos pelos concessionários são compensados pelos anos de exploração do serviço e pelos lucros atrativos das taxas cobradas em serviços monopolizados.
Secular
O contrato da “Light”, depois de 90 anos de serviços precários e taxas altas, faltava 10 anos para expirar e todo patrimônio da empresa passar graciosamente ao governo do Brasil.
Muita pressa
A negociata bilionária foi coisa de cachorro grande, coturno alto, costas largas. Em tempo recorde se acertam as tratativas dirigidas por Shigeaki Ueki, Ministro das Minas e Energia defensor dos termos da Brascan, o presidente Ernesto Geisel avalista do negócio e o presidente da Eletrobrás, Antônio Carlos Magalhães. O–ACM aliás, logo depois do “negócio” assume a governança da Bahia nomeado, biônico da “eleição indireta”.
Ensina a sabedoria popular que a “pressa é inimiga da perfeição”. No caso da “venda ao contrário” da Light, tudo indica que a “pressa é amiga da corrupção”.
*Natanael Sarmento é professor e escritor, e integrante do Diretório Nacional da UP. @sarmentonatanael

NR - Os textos assinados expressam a opinião dos autores.
PSD de Raquel lança Kassab para vice de Caiado
01/07/2026
O anúncio
O anúncio da chapa Caiado-Kassab acontece 20 dias antes do início das convenções partidárias, marcado para o próximo dia 20.
O Poder
O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) anunciou, hoje. quarta-feira (01/06) em Brasília, o presidente nacional de seu partido, Gilberto Kassab, como candidato a vice-presidente em sua chapa que disputará o Palácio do Planalto em outubro.
O anúncio
O anúncio da chapa Caiado-Kassab acontece 20 dias antes do início das convenções partidárias, marcado para o próximo dia 20.
O Poder
Faz escuro mas eu canto, por Carlos Alberto Marinho*
01/07/2026
Entretanto
Apesar da escuridão a que ainda me vejo submetido, continuo a cantar. Canto não apenas pela casa e por sua memória, mas também pelo reconhecimento que recebo daqueles que me cercam, observam e admiram a dedicação, a perseverança e o compromisso com a preservação. Se o reconhecimento oficial tarda, permanece vivo o reconhecimento humano, cotidiano e sincero — e é nele que encontro a força para seguir cantando.<...
Como disse o poeta Thiago de Melo, “faz escuro, mas eu canto”. Foi sob esse espírito que evoquei a minha casa, adquirida há cerca de 46 anos no SHO, aprimorada, preservada e cuidadosamente conservada ao longo de toda essa trajetória. Escrevi textos sofridos sobre suas fechaduras, suas portas e suas janelas, em um canto triste e, ao mesmo tempo, resistente, diante da ausência de reconhecimento, pelos órgãos de preservação, do esforço exemplar empreendido para manter a salvo esse patrimônio e a história que ele abriga.

Entretanto
Apesar da escuridão a que ainda me vejo submetido, continuo a cantar. Canto não apenas pela casa e por sua memória, mas também pelo reconhecimento que recebo daqueles que me cercam, observam e admiram a dedicação, a perseverança e o compromisso com a preservação. Se o reconhecimento oficial tarda, permanece vivo o reconhecimento humano, cotidiano e sincero — e é nele que encontro a força para seguir cantando.

*Carlos Marinho é médico e morador de Olinda desde sempre.
NR - Carlos comprou uma casa em ruínas, há muitas décadas, restaurou com esmero. O imóvel foi elogiado nacionalmente e apontado pelo Iphan como referência para cidades históricas. Agora, coincidentemente após criticar as gestões Lupércio/ Mirella, que estão devastando a cidade histórica, vem enfrentando a má vontade absurda do órgão municipal que controla o patrimônio histórico. Uma pena que, enquanto casarões desabam por descuido, quem zela seja alvo de perseguições. Ao médico, a solidariedade de O Poder.

Manoel Messias: o caruaruense que viveu o golpe militar no Chile e enfrentou três ditaduras na América do Sul, por Tavares Neto*
01/07/2026
Fixou residência
Depois de deixar o Brasil, Manoel Messias fixou residência no Chile, onde participou de movimentos de esquerda durante o governo do presidente Salvador Allende. Nesse período, atuou ao lado do padre canadense Eduardo, ligado à Igreja Católica, que também desenvolvia atividades políticas e sociais no país.
Democraticamente
Em 11 de setembro de 1973, o governo democraticamente eleito de Salvador Allende foi derrubado por um golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet. A partir daquele momento, teve início uma intensa perseguição aos militantes de esquerda, sindicalistas e apoiadores do governo deposto.
Diant...
O economista caruaruense Manoel Messias é uma das figuras mais marcantes da história da esquerda política em Pernambuco. Assessor do então governador Miguel Arraes, foi perseguido após o golpe militar de 1964 no Brasil, preso pela ditadura e, posteriormente, exilado no exterior.
Fixou residência
Depois de deixar o Brasil, Manoel Messias fixou residência no Chile, onde participou de movimentos de esquerda durante o governo do presidente Salvador Allende. Nesse período, atuou ao lado do padre canadense Eduardo, ligado à Igreja Católica, que também desenvolvia atividades políticas e sociais no país.
Democraticamente
Em 11 de setembro de 1973, o governo democraticamente eleito de Salvador Allende foi derrubado por um golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet. A partir daquele momento, teve início uma intensa perseguição aos militantes de esquerda, sindicalistas e apoiadores do governo deposto.
Diante da repressão, Manoel Messias e o padre Eduardo buscaram refúgio na Embaixada do Canadá, onde permaneceram por cerca de um mês sob proteção diplomática. Posteriormente, conseguiram asilo político e seguiram para o Canadá.
Anos seguintes
Ao longo dos anos seguintes, Manoel Messias também passou pela Argentina e pelo Uruguai, países que igualmente viveram golpes militares e regimes autoritários durante a década de 1970. Mais tarde, estabeleceu-se na Europa, onde permaneceu até a aprovação da Lei da Anistia no Brasil.
Em 1979, retornou ao país no mesmo período em que Miguel Arraes também regressou do exílio, retomando sua vida em Pernambuco.
Reside
Nascido em Caruaru, em 1940, Manoel Messias reside atualmente em Olinda e completa 85 anos de idade em 2025.
Ele é irmão do compositor caruaruense Carlos Fernando, que também foi perseguido pela Ditadura Militar brasileira, sendo preso e submetido a sessões de tortura em razão de sua atuação política.
Manoel Messias mantinha forte amizade com o comerciante Abdias Bastos Lé, então presidente do Partido Comunista em Caruaru. Assim como muitos militantes da época, Abdias também foi preso durante a ditadura.

Proprietário
Abdias era proprietário da Banca de Revistas Yuri Gagarin, localizada na Rua da Matriz, em Caruaru. O estabelecimento comercializava livros de literatura de esquerda, jornais de circulação nacional e outras publicações consideradas subversivas pelos grupos anticomunistas da época.
Na madrugada de 1963, antes mesmo do golpe militar de 1964, a banca foi incendiada por criminosos.
O episódio
O episódio é considerado por pesquisadores e memorialistas um dos primeiros ataques contra um estabelecimento identificado com a esquerda política no Brasil, antecipando o clima de violência e perseguição que se intensificaria nos anos seguintes.
Abertura política
Vale lembrar que, anos depois, durante o processo de abertura política iniciado no governo do presidente Ernesto Geisel e consolidado com a Lei da Anistia, sancionada no governo de João Figueiredo, também ocorreram atentados contra bancas de jornais e livrarias em diversas cidades brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Antiga Banca
A antiga Banca Yuri Gagarin recebeu esse nome em homenagem ao cosmonauta soviético Yuri Gagarin, o primeiro ser humano a viajar ao espaço, em 1961, símbolo que, na época, era frequentemente associado aos ideais socialistas.
*Tavares Neto é jornalista e radialista em Caruaru.

Polícia de Raquel tenta retomar operação ilegal para espionar e investigar adversários
01/07/2026
Repercussão nacional
O caso chocou a imprensa nacional. Articulistas como Natuza Nery, Reinaldo Azevedo e Otávio Guedes chegaram a mencionar que a Secretaria de Defesa Social...
Passados seis meses, novos casos de arapongagem do governo Raquel Teixeira Lyra podem vir à tona, novamente. A resposta sobre o emblemático caso da arapongagem, à pergunta feita pelo UOL/Folha de S.Paulo para a governadora, por esses dias, só mostrou o quanto o tema incomoda. Revelado com exclusividade aqui, pelo Jornal O Poder, o caso trouxe à tona o uso sem precedente da polícia com objetivo de vigiar adversários, parlamentares da oposicão e até pessoas da sociedade. Configurando um impensavel abuso de autoridade. Comprovado por prints de um grupo de WhatsApp, com a presença da alta cúpula da inteligência da polícia. No caso concreto constatado, a polícia perseguia um auxiliar do prefeito João Campos sem nenhum Boletim de Ocorrência ou registro formal.

Repercussão nacional
O caso chocou a imprensa nacional. Articulistas como Natuza Nery, Reinaldo Azevedo e Otávio Guedes chegaram a mencionar que a Secretaria de Defesa Social estaria abusando da inteligência dos pernambucanos ao afirmar que só estavam ali para investigar, mesmo sem qualquer autorização judicial. Seis meses depois do caso, com a Polícia Federal investigando, ainda fica a dúvida sobre quem deu a ordem para a 'arapongagem', incluindo o uso de rastreadores, que foram alvo de reportagem nacional no Domingo Espetacular, da Rede Record.

O que se comenta
Nos bastidores da Secretaria de Defesa Social, segundo informações confiáveis obtidas por O Poder, é que, depois do esfriamento do caso, as máquinas da espionagem estariam novamente ligadas. Segundo uma parede com ouvidos afiados, um alto membro da corporação disse alto e bom som: “Como não houve ainda a punição da PF, vamos voltar com tudo”.

Fato
Apenas um dia depois da entrevista da Governadora Raquel Teixeira Lyra, uma investigação que envolvia contratos com as prefeituras de Caruaru, Altinho e até com o próprio Governo de Pernambuco, tem apenas a Prefeitura do Recife como alvo da Polícia Civil, que voltou supostamente a ser acionada para ações com objetivos políticos. O movimento, às vésperas da eleição, parece indicar que a polícia pode não ter dono, mas que o passado lembra os indícios reais de ingerência. Os corredores policiais já falam que novas investidas estariam sendo cogitadas, sempre buscando atacar adversários políticos da Governadora, que tem experiência de delegada da Polícia Federal e parece ter incorporado as piores práticas do muito minoritário lado podre da PF.
Defesa da Democracia
A questão está muito acima de política partidária. Envolve valores pétreos da democracia. A defesa da liberdade. A isenção da polícia.
A postura, tão combatida pela imprensa nacional, pode seguir como prática reiterada, caso não haja intervenção da PF ou do STF. Cabe aos políticos, à imprensa, à sociedade civil e às autoridades aumentarem a vigilância sobre quem deveria vigiar mas age no sentido contrário.
Assista ao vídeo a seguir
Indignado, nosso diretor, o publicitário, historiador e acadêmico José Nivaldo Junior, ex-preso político na ditadura, dá a sua opinião sobre o caso.
A exaustão do materialismo, por Jorge Henrique de Freitas Pinho*
01/07/2026
Sempre que uma civilização transforma seus meios em deuses, cedo ou tarde começa a sacrificar o homem a quem esses meios deveriam servir.
O mundo atual está cansado. Não apenas pelo peso dos músculos, pelas horas mal dormidas ou pela pressão cotidiana das contas, dos compromissos e das obrigações.
Há um cansaço mais fundo, que parece atravessar o corpo e alcançar a própria estrutura do espírito.
Trabalha-se muito, corre-se muito, paga-se muito, produz-se muito. Respondem-se mensagens, acumulam-se responsabilidades, consomem-se distrações sem cessar.
Cresce a sensação
Ainda assim, cresce a sensação de que o tempo de viver escapa entre os dedos, como areia que se recusa a permanecer na mão que a aperta.
Não se trata da exaustão da matéria, mas do materialismo como princípio organizador da existência. A ma...
Quando o homem trabalha para pagar uma vida que já não consegue viver
Sempre que uma civilização transforma seus meios em deuses, cedo ou tarde começa a sacrificar o homem a quem esses meios deveriam servir.
O mundo atual está cansado. Não apenas pelo peso dos músculos, pelas horas mal dormidas ou pela pressão cotidiana das contas, dos compromissos e das obrigações.
Há um cansaço mais fundo, que parece atravessar o corpo e alcançar a própria estrutura do espírito.
Trabalha-se muito, corre-se muito, paga-se muito, produz-se muito. Respondem-se mensagens, acumulam-se responsabilidades, consomem-se distrações sem cessar.
Cresce a sensação
Ainda assim, cresce a sensação de que o tempo de viver escapa entre os dedos, como areia que se recusa a permanecer na mão que a aperta.
Não se trata da exaustão da matéria, mas do materialismo como princípio organizador da existência. A matéria continua necessária; o dinheiro, útil; o trabalho, digno; a técnica, importante; o conforto, desejável.
O desvio começa quando esses meios deixam de servir à vida e passam a exigir dela uma devoção total, como se tudo devesse ser sacrificado à produtividade, ao consumo, à eficiência, à aparência e ao desempenho.
O materialismo contemporâneo não fracassou por falta de eficiência. Talvez nunca tenha sido tão eficiente. Multiplicou instrumentos, acelerou processos, ampliou recursos, encurtou distâncias, conectou pessoas e criou possibilidades inimagináveis para as gerações anteriores.
Fracasso
Seu fracasso está em outro lugar: transformou a eficiência em finalidade. Esqueceu que todo meio carrega em si a vocação de servir a algo que o transcende. Separada da sabedoria, a técnica começa a conduzir em vez de servir; desligado da vocação, o trabalho se converte em desgaste; arrancado de sua condição de instrumento, o dinheiro assume a forma de senhor; e a política, quando ultrapassa seu limite diante da alma, passa a tratar a pessoa como peça de um projeto abstrato.
Nesse ponto, o homem já não habita o mundo como presença livre e responsável: funciona dentro dele como engrenagem.
Essa inversão não nasceu ontem. Desde a Revolução Industrial, a modernidade revelou sua extraordinária capacidade de transformar instrumentos legítimos em poderes quase sagrados.
A fábrica
A fábrica, a produção, o lucro, a disciplina do tempo e a organização racional do trabalho trouxeram progresso material inegável.
Ao mesmo tempo, mostraram como o ser humano pode ser reduzido a peça de uma máquina quando a economia perde de vista a dignidade da pessoa.
Não por acaso, Karl Marx percebeu nesse modelo uma ferida real: o trabalhador alienado, separado do fruto de seu trabalho, de sua interioridade e, em última instância, de sua própria humanidade.
O drama é que a resposta marxista, permanecendo prisioneira do mesmo horizonte materialista que pretendia superar, terminou por agravar a doença que denunciava. Ao trocar o mercado pelo Estado, o lucro pela revolução, a pessoa pela classe e a consciência pela estrutura, não devolveu o homem ao espírito; apenas mudou o nome do altar diante do qual ele seria sacrificado.
Convertido
Convertido em poder histórico, esse método produziu experiências ainda mais catastróficas: campos de trabalho forçado, coletivizações que esmagaram camponeses em nome da planificação, a fome chinesa provocada pela coerção produtiva e pela industrialização revolucionária, além do delírio agrário do Khmer Vermelho, que tentou recriar o homem pela violência absoluta. A promessa de libertação, em todos esses casos, terminou convertida em nova servidão.
O ponto central, portanto, não é demonizar a matéria, o dinheiro, o trabalho ou a técnica. Todos ocupam lugar legítimo na arquitetura da existência humana. O problema está na inversão silenciosa pela qual aquilo que deveria servir ao homem passou, pouco a pouco, a governá-lo.
O dinheiro
O dinheiro, que deveria ser instrumento de dignidade, transformou-se em medida de valor pessoal. O trabalho, quando perde sua dimensão de vocação ou serviço, converte-se em combustão da alma. O consumo deixa de responder a necessidades reais e passa a anestesiar vazios que nenhuma mercadoria consegue preencher.
A técnica, por sua vez, já não apenas amplia a vida: administra seus ritmos, seus impulsos e suas urgências.
Basta olhar para o drama concreto do homem comum. Ele acorda cansado, trabalha pressionado, enfrenta trânsito, metas, mensagens, boletos, cobranças, comparação social, redes, medo de envelhecer e medo de perder a renda que sustenta sua aparente estabilidade.
Mesmo quando melhora de vida, nem sempre melhora de existência. Ganha mais e deve mais; compra mais e descansa menos; conecta-se mais e se sente mais só; acumula recursos e perde presença.
Em muitos casos, já não trabalha apenas para viver, mas para financiar uma vida que não tem tempo, silêncio nem alma para experimentar.
Nova pobreza
Surge daí uma nova pobreza. A pobreza material continua existindo e deve ser levada a sério por qualquer reflexão honesta sobre a condição humana.
Mas, ao lado dela, aparece outra, menos visível e por isso mais insidiosa: a pobreza de finalidade. É possível ter casa, salário, telefone, internet, plano de saúde, viagens e entretenimento, e ainda assim sentir que algo essencial permanece ausente. Trata-se da pobreza do “para quê?”. Para que tanta pressa, tanta exposição, tanta comparação, tanto acúmulo, se a alma continua vazia?
O homem suporta muitos sofrimentos quando encontra sentido, mas suporta muito pouco conforto quando perdeu a razão de viver. Quem possui um porquê capaz de sustentar a existência atravessa dores, privações e perdas sem se quebrar por completo, porque o sentido funciona como a coluna invisível que mantém de pé o edifício inteiro da vida. Sem esse eixo, nenhum conforto consola, por mais refinado que seja, justamente porque o conforto não foi feito para responder à pergunta que atormenta a alma.
Sintomas
Por isso, tantos sintomas do nosso tempo não podem ser compreendidos apenas como problemas individuais isolados, embora exijam cuidado clínico, respeito e prudência. Ansiedade, pânico, depressão, exaustão, irritabilidade, compulsões, vícios e insônia também revelam uma desordem mais ampla. O corpo começa a falar quando a alma foi silenciada por demasiado tempo.
A ansiedade pode expressar excesso de futuro; a depressão, colapso de sentido; o pânico, grito do organismo diante de uma vida que ultrapassou os limites da presença; a compulsão, tentativa de preencher pela repetição aquilo que somente o sentido poderia ordenar.
A matéria, em si, não é inimiga do espírito. O pão, a casa, o corpo, o trabalho, o dinheiro, a propriedade, a família, a mesa e a memória pertencem à ordem legítima da vida. O problema jamais esteve na matéria, mas na matéria separada do sentido que a justifica.
Quando se afasta do Logos, tudo aquilo que deveria servir à vida começa a pesar sobre ela. O trabalho perde sua dimensão de vocação e se converte em opressão; o dinheiro deixa de ser instrumento e assume a forma de senhor; o prazer, privado de medida, já não repousa a alma, apenas a cansa; a liberdade, desligada da verdade, transforma-se em dispersão; até a abundância, divorciada do sentido, termina por produzir vazio.
A matéria
A matéria, então, deixa de ser templo e se converte em cárcere. Não porque seja má em si mesma, mas porque a luz que nela habitava foi soterrada pela perda de finalidade. É essa transformação silenciosa — a passagem da matéria iluminada pelo sentido para a matéria reduzida a objeto de uso — que explica grande parte do mal-estar contemporâneo.
Também a liberdade foi atingida por essa inversão. O mundo atual fala muito em liberdade, mas frequentemente entrega dependência sob esse mesmo nome: dependência de aprovação, consumo, telas, performance, crédito, status e estímulos rápidos que se sucedem sem permitir repouso à atenção.
O homem se imagina livre porque pode escolher entre inúmeros produtos, opiniões, distrações e identidades, mas perdeu, no meio dessa abundância de opções, a liberdade mais profunda: governar a si mesmo. Livre não é quem faz tudo o que deseja, mas quem não se torna escravo daquilo que o domina.
A primeira resistência a esse processo não é ideológica. É doméstica. Começa na casa, na mesa, na conversa, na escuta, na presença, na memória familiar, no cuidado com os filhos, no respeito aos pais, no amor conjugal e na amizade verdadeira.
O materialismo desorganiza o tempo humano, fragmentando-o em tarefas e urgências; a família, quando preservada em sua dignidade, reorganiza esse tempo em torno do que verdadeiramente importa.
O mundo exige produção; a casa devolve pertencimento. O mercado impõe comparação; a família recorda o nome. A técnica acelera; a presença ensina a permanecer.
Reordenar a vida
Não se trata, portanto, de abandonar o mundo nem de negar os bens legítimos que ele oferece. Trata-se de reordenar a vida segundo uma hierarquia que o materialismo havia invertido: ganhar dinheiro sem vender a alma, trabalhar sem sacrificar tudo ao trabalho, consumir sem fazer do consumo uma religião, progredir sem perder a interioridade, usar a técnica sem ser usado por ela, descansar sem transformar o descanso em simples estratégia para render mais depois.
Contemplar, estudar, amar e agradecer são modos de recuperar algo que pertence ao homem por direito de nascença.
Estamos diante de uma encruzilhada.
A civilização pode transformar esse cansaço em anestesia, oferecendo distrações mais refinadas, estímulos mais rápidos, entretenimentos mais imersivos, algoritmos mais íntimos e técnicas cada vez mais sofisticadas para administrar o vazio. Nesse caminho, a engrenagem não será superada; apenas se tornará mais confortável, mais invisível e mais difícil de contestar.
O mesmo cansaço, contudo, pode tornar-se conversão. Pode obrigar o homem a interromper a marcha automática e perguntar novamente
pelo fim de seus esforços. Pode ensiná-lo a distinguir necessidade de idolatria, conforto de sentido, liberdade de dispersão, progresso de sabedoria. Pode reconduzi-lo ao essencial: à casa, à família, ao silêncio, à oração, à cultura, à amizade, ao trabalho com vocação, ao limite aceito com humildade e à presença vivida como forma de amor.
A exaustão
A exaustão do materialismo não significa que a matéria tenha perdido seu valor. Significa apenas que ela já não consegue justificar sozinha a existência. A matéria pede sentido. O trabalho pede alma. O dinheiro pede medida. A liberdade pede verdade. E o homem, depois de tanta pressa, tanto ruído e tanta distração, começa a pedir significado.
A esperança, por isso, nem sempre começa quando tudo melhora por fora. Muitas vezes nasce de uma reorganização interior quase silenciosa.
Descobre
O homem descobre que ainda pode dizer não ao excesso; a mulher percebe que sua alma não precisa pedir licença para existir; o pai compreende que sua presença vale mais do que sua performance; a mãe recorda que não é apenas sustentação invisível de todos, mas também pessoa, mistério e dignidade; o jovem deixa de transformar a própria vida em vitrine; o idoso volta a ser reconhecido como memória viva, e não como sobra do mundo produtivo.
Nasceu
O homem não nasceu apenas para funcionar. Não veio ao mundo para atravessar os dias como peça útil de uma engrenagem invisível, administrando a própria sobrevivência como se isso bastasse. Há nele uma profundidade que nenhuma planilha alcança, uma sede que nenhum consumo sacia, uma dor que nenhuma distração resolve e uma grandeza que nenhum sistema consegue medir.
No fim, é exatamente isso que o materialismo jamais conseguiu compreender: o homem não nasceu apenas para durar. Nasceu para significar — isto é, para transformar a própria vida em presença, sentido e amor, cultivando valores, virtudes e sabedoria.
O autor é advogado e ensaísta.
