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Artigo – O jornalista Ricardo Rodrigues* escarafuncha pormenores do atentado em Moscou

02/04/2024 - Jornal o Poder

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O terrível atentado terrorista no Teatro Crocus de Moscou no último dia 22 de março certamente permanecerá envolto em mistério por algum tempo. Dificilmente se saberá com certeza quem planejou e financiou o covarde ato de selvageria que tirou a vida de 144 pessoas. Todos os fatos desvendados até o momento dizem respeito à sua execução. Sabe-se, por exemplo, que o atentado foi perpetrado por quatro terroristas oriundos, todos, do Tajiquistão. Sobre isso não pairam dúvidas, até porque as forças militares russas os capturaram em menos de 24 horas após o atentado. Sabe-se também que o ISIS, de Khurosan, assumiu a autoria do atentado.

Suspeitas

Ora, essas duas informações deveriam ser suficientes para barrar o aparecimento de teorias alternativas sobre o planejamento do atentado. Foram bastante para a maior parte da mídia impressa e eletrônica em todo mundo. Mas, não bastaram para o governo russo e, pasmem, nem para alguns renomados analistas de geopolítica, a exemplo de Pepe, do Pepe Café.
O Kremlin suspeitar do envolvimento da inteligência ucraniana no planejamento do atentado é até compreensível. Afinal, Rússia e Ucrânia estão em plena guerra. Além disso, segundo as forças militares russas, os terroristas foram presos quando tentavam chegar à fronteira com a Ucrânia. Mas por que estariam analistas independentes suspeitando que poderia haver mais jogadas nesse tabuleiro de xadrez do que vem sendo repercutido na imprensa internacional?

Fatos que alimentam dúvidas

Alguns fatos que antecederam o atentado alimentam as dúvidas dos analistas sobre a existência e origem de supostos mandantes. Cabe aqui esmiuçá-los, para melhor compreender as dúvidas que pairam quanto a ter ou não havido participação dissimulada de aparato de inteligência militar de algum país ou países no planejamento de um atentado cuja execução ficaria inteiramente a cargo de operativos do ISIS. Evidências sugerem que o atentado do dia 22 pode ter sido, em realidade, a execução de um Plano B. Como assim?

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Alerta da Embaixada

A Embaixada dos Estados Unidos em Moscou divulgou em sua página da internet um alerta de segurança para seus compatriotas relativo antes do atentado. Segundo o alerta, “extremistas tinham um plano iminente de atacar grandes aglomerações em Moscou, incluindo shows (concerts), e cidadãos americanos deveriam evitar aglomerações pelas próximas 48 horas”. Esse alerta da Embaixada foi emitido no dia 7 de março e valeria até o dia 9 de março.
Depreende-se desse alerta que o governo dos Estados Unidos sabia da existência de uma ameaça terrorista a um algum show ou concerto em Moscou, com grande aglomeração. Será que apenas errou a data, já que o atentado aconteceu no dia 22 e não entre os dias 7 e 9 de março? Para o jornal Washington Post, a resposta é sim. Segundo o jornal, a Embaixada avisou sobre o ataque duas semanas antes. Entretanto, para alguns analistas, não é bem assim. O alerta do governo americano tinha uma data de validade bem específica: 9 de março.

O Nacionalista Shaman

Cabe aqui observar que um dos mais populares cantores da atualidade na Rússia tinha um show programado no Teatro Crocus precisamente no dia 9 de março. Refiro-me ao cantor Shaman. Jovem, bonito, e de cabeleira “nevada”, Shaman é, simplesmente, um fenômeno da música popular russa, desfrutando de grande popularidade nas redes sociais. Além de milhões de seguidores, o vídeo de seu mais recente sucesso já foi visto por mais de 45 milhões de fãs. Mais importante, talvez, seja o fato de Shaman ser um fervoroso nacionalista. Sua canção mais festejada é um “rock” intitulado “Sou Russo” (I am Russian).
Ora, um atentado terrorista no show de Shaman causaria um enorme impacto na Rússia, atingindo dois objetivos de uma só vez. Primeiro, amplificaria o número de vítimas, dada a grande popularidade do cantor. Segundo, infligiria uma grande humilhação ao regime de Putin, levando o terror a um local no qual uma multidão de jovens russos celebrava o sentimento nacionalista, embalados no “rock” de Shaman.

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Plano B?

O alerta dos americanos certamente levou a segurança do show de Shaman a ser devidamente fortalecida. Isso, pode ter inviabilizado a execução do atentado naquele dia. Uma vez abortado o plano A, partiu-se para um plano B: atacar o mesmo teatro, mesmo sem o Shaman, mas durante um outro show que também atraísse uma grande audiência, mas, sem a segurança do show do Shaman. Isso teria acontecido no dia 22.

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Negação Plausível?

Para alguns dos analistas que mencionei, é possível que estejamos diante de um caso de negação plausível por parte dos principais “players” da Guerra da Ucrânia. De acordo com a Wikipedia, o termo, aplicado à política internacional e à espionagem, se refere à habilidade de um importante “player” ou agência de inteligência de transferir a responsabilidade por uma iniciativa, e assim evitar a responsabilização por suas consequências, ao providenciar que uma determinada ação seja executada em seu benefício por um terceiro com o qual não mantém relações ostensivas.
Se é esse o caso ou não, somente o tempo e as investigações das autoridades russas poderão confirmar.

*Ricardo Rodrigues é jornalista e cientista político. Ele escreve sobre temas internacionais.

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