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Folclore Brasileiro: essência da identidade nacional – por Ana Maria Castelo Branco *

21/08/2024 -

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O folclore brasileiro, rico em lendas, crenças, provérbios e tradições é a essência da identidade nacional. Este patrimônio imaterial, transmitido oralmente de geração em geração, tem sido, por vezes, relegado ao esquecimento ou à descrença. No entanto, essas narrativas e costumes carregam em si a sabedoria popular e refletem a diversidade cultural de um país continental como o nosso.
O folclore brasileiro é um tesouro cultural que nos ajuda a entender quem somos. Ele reflete a miscigenação de povos que formou o Brasil, integrando elementos indígenas, africanos e europeus em uma só narrativa. Mais do que simples histórias ou tradições, o folclore é uma fonte de identidade e coesão social, um fio condutor que une diferentes gerações em torno de valores e experiências compartilhadas.
Vejamos, em tópicos, como o folclore molda quem somos e por que sua preservação e perpetuação é tão importante.

Lendas e Crenças

As lendas brasileiras são mais do que histórias contadas para assustar ou entreter. Elas são manifestações culturais que refletem a relação do povo com o meio ambiente, suas angústias, medos e esperanças. As lendas alimentam o nosso imaginário popular. No entanto, a descrença crescente nessas histórias reflete uma desconexão com nossas raízes e uma perda de respeito pela natureza, tendo consequências diretas no modo como tratamos nosso ambiente natural.

Provérbios

Os provérbios, essas frases curtas e incisivas que encapsulam a sabedoria popular, são outro aspecto vital do folclore brasileiro. Expressões como "Quem conta um conto, aumenta um ponto", "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura", “De grão em grão, a galinha enche o papo”, “Deus ajuda quem cedo madruga” carregam lições de vida que, embora simples, são profundas em sua aplicabilidade cotidiana. Porém, a modernidade e a globalização têm ameaçado o uso e a relevância desses provérbios, substituídos por jargões e expressões importadas que, muitas vezes, não capturam a essência das nossas experiências.





Brincadeiras Infantis

As brincadeiras tradicionais, como a amarelinha, o pião e a ciranda, são muito mais do que entretenimento para crianças. Elas são ferramentas de socialização e aprendizado, ensinando valores como cooperação, respeito às regras e criatividade. Em um mundo onde a tecnologia domina o lazer infantil, brincadeiras como estas estão se tornando cada vez mais raras nas escolas, e com elas, perdemos uma parte essencial do desenvolvimento social e emocional das crianças.
Algumas brincadeiras cantadas, como “atirei o pau no gato” e “o cravo brigou com a rosa,” são manifestações culturais que combinam música, movimento e narrativa. Elas não apenas divertem, mas também educam, introduzindo as crianças ao ritmo, à rima e às tradições orais do país. Com a redução dessas práticas, em parte devido a preocupações com o conteúdo das canções e em parte devido à substituição por entretenimento digital, perde-se também um importante canal de transmissão cultural e uma forma de engajamento lúdico com a língua e a música.

Trava-Línguas

Os trava-línguas, com suas sequências de palavras difíceis de pronunciar, não são apenas um passatempo divertido, mas um exercício linguístico que desafia e aprimora as habilidades verbais. Eles são uma celebração da riqueza e complexidade da língua portuguesa falada no Brasil. A perda do hábito de recitar trava-línguas entre as novas gerações é sintomática de uma cultura que está se afastando da oralidade em favor da comunicação digital abreviada e empobrecida. Lembro-me do quanto era divertido ficar brincando com os colegas das escolas e os adultos da família falando um trava-língua como por exemplo: “o rato roeu a roupa do rei de Roma; a rainha rapidamente remendou”; “eu tenho um prato de papa num papo de uma pata de prata”; “o original não se desoriginaliza”, “a aranha arranha a rã, a rã arranha a aranha. Nem a aranha arranha a rã, nem a rã arranha a aranha....






Brincadeiras Tradicionais

Brincadeiras como “esconde-esconde,” “pega-pega,” “mãe da rua”, “cadê o grilo”, “passa-anel” e tantas outras, fomentavam o senso de comunidade entre as crianças, fortalecendo laços sociais e promovendo a empatia. Esses jogos dependem da presença física e do contato humano, características que estão cada vez mais escassas no mundo virtual e individualista que as novas gerações estão herdando. Ao perdermos essas brincadeiras coletivas, perdemos também uma parte fundamental da capacidade das crianças de se conectarem emocionalmente com seus pares.
As brincadeiras ensinam habilidades sociais essenciais, como a importância de seguir regras, trabalhar em equipe, e respeitar o espaço do outro. Além disso, essas atividades físicas são fundamentais para o desenvolvimento motor e a saúde física. No entanto, com o aumento do uso de dispositivos eletrônicos desde a infância, essas brincadeiras ao ar livre estão se tornando raridades, levando a uma infância mais sedentária e menos interativa.

Adivinhações

As adivinhações são expressões lúdicas que integram o vasto repertório do folclore brasileiro. Sabe aquelas perguntas enigmáticas que desafiam a mente e provocam o raciocínio? Pois, elas são uma forma lúdica de exercitar o pensamento crítico e a criatividade. Expressões como "O que é, o que é: de dia tem quatro pés, de noite tem seis?" ou "O que é, o que é: quanto mais tira, maior fica?" são exemplos clássicos que fazem parte do imaginário popular.
Essas charadas não são apenas jogos de palavras; elas são ferramentas pedagógicas que estimulam o desenvolvimento cognitivo, a percepção e a lógica. Em uma era em que as respostas estão a um clique de distância, o ato de desvendar uma adivinhação ensina paciência, persistência e o valor do processo de descoberta.
Com o avanço da tecnologia e a predominância das formas digitais de entretenimento, as crianças, que antes aprendiam essas tradições nas escolas, nas ruas ou com suas famílias, agora estão cada vez mais imersas em jogos eletrônicos e redes sociais, o que diminui o espaço para essas práticas lúdicas tradicionais. Esse afastamento representa não apenas a perda de uma forma rica e divertida de aprendizado, mas também a desconexão com uma parte essencial da identidade cultural brasileira.





Plantas Medicinais

As plantas medicinais ocupam um lugar especial no folclore brasileiro, sendo reverenciadas não apenas por suas propriedades curativas, mas também por seu simbolismo cultural e espiritual. No vasto território do Brasil, onde as tradições indígenas, africanas e europeias se encontram, o uso das plantas para fins terapêuticos é uma prática ancestral que reflete a profunda conexão entre o povo e a natureza.
Desde tempos imemoriais, as plantas têm sido utilizadas como remédios naturais para tratar uma variedade de doenças e condições. Folhas, raízes, cascas e flores eram (e ainda são) coletadas e preparadas em forma de chás, infusões, pomadas e banhos. O conhecimento sobre as propriedades medicinais das plantas era transmitido de geração em geração, muitas vezes de forma oral, em comunidades rurais e indígenas. Plantas como a erva-cidreira, a babosa, o alecrim e a arruda são exemplos de vegetais amplamente usados na medicina popular, cada um com suas próprias indicações e modos de preparo.
A arruda, por exemplo, é frequentemente associada à proteção espiritual e ao afastamento do "mau-olhado." Lembro-me sempre da minha avó paterna cheirando manjericão para passar a sua dor de cabeça ou usando um galhinho de arruda atrás da orelha. Essas crenças são uma parte vital da cultura popular.

Crendices Populares

As crendices populares, aquelas crenças enraizadas no imaginário coletivo, fazem parte da vida cotidiana de muitas pessoas. Essas superstições, embora muitas vezes desconsideradas pela razão moderna, desempenham um papel significativo na cultura popular, refletindo os medos, desejos e a sabedoria acumulada de gerações. Algumas pessoas acreditam que cruzar com um gato preto na rua traz má sorte, uma superstição que, embora importada de culturas europeias, se enraizou profundamente no Brasil.
Outra crendice comum é a de que apontar para estrelas faz com que cresçam verrugas nos dedos; pular sete ondas no mar na noite de Ano Novo garante a boa sorte e abre caminhos no ano que se inicia; carregar um amuleto, como um trevo de quatro folhas ou uma figa de madeira, é outra prática que se acredita trazer proteção e fortuna. Essas crendices refletem o desejo universal de garantir um futuro próspero e a esperança de que pequenos gestos possam influenciar o destino.
Embora muitas dessas crendices sejam vistas como ultrapassadas ou irracionais, elas continuam a ser praticadas por muitas pessoas, seja por tradição, por brincadeira ou por uma verdadeira crença em seu poder.

Essência de nossa identidade cultural

Em tempos de globalização e de valorização excessiva do que vem de fora, é importante que resgatemos e valorizemos o folclore brasileiro. Ele não é apenas uma coleção de histórias antigas ou brincadeiras ultrapassadas, mas sim a essência de nossa identidade cultural. Negligenciá-lo é correr o risco de perder parte do que nos faz brasileiros, e isso é um preço que não podemos nos dar ao luxo de pagar.
Este artigo é um chamado à ação para que as escolas, as famílias e as instituições culturais renovem seus esforços na preservação e transmissão do folclore. Afinal, ao cuidar de nossas raízes, garantimos a força e a vitalidade dessa árvore imensa e frondosa que é a cultura brasileira.


*Ana Maria Castelo Branco é natural de Passira, Pernambuco, Brasil. Mestra em Letras pela UFPE, Professora da Educação básica, escritora, poetisa e contadora de histórias. Organiza e também participa de antologias e coletâneas. Possui nove livros de literatura infantojuvenil publicados. Em 2022 publicou o Cordel das Anas, homenageando todas as mulheres que se chamam Ana ou têm Ana em seus nomes. Já escreveu artigos de opinião para o Diário de Pernambuco, o jornal mais antigo em circulação da América Latina. Criou com o esposo um estilo de poema minimalista denominado CASTELOVERS. Ministra oficina de escrita literária e foi premiada diversas vezes com as suas poesias. Acredita em Deus, no Amor e na Vida Eterna. Instagram: @anamariacastelobranco1
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