Especial — Confederação do Equador: A Angústia de Frei Caneca numa Goiana deserta
14/09/2024
Há 200 anos, a vila de Goiana vivenciou uma cena inédita e angustiante. Ninguém saberia disto se não houvesse um relato escrito (CANECA, 2001, p.573-575). Frei Caneca e alguns confederados, fugindo dos ataques da tropa imperial, que bombardeava com canhoneios a partir da frota no porto, chegou a Goiana, depois de atravessar de Olinda a Igaraçu. Vinha camuflado, se escondendo pelo mato com três ou quatro companheiros paisanos e alguns soldados. Chegou tarde da noite e a vila dormia no seu remanso ainda colonial, pois não havia nenhum sinal físico da Independência no arruado urbano. Apenas o novo era a igreja da Conceição, consagrada por volta do começo daquele século. Por onde teria vindo o frade, como atravessara o Tracunhaém, principalmente à noite? Falta ainda um mapa físico e mental de Goiana destes dias. Vamos ao que o frade relatou.
Deserta
“Chegamos a esta vila (Goiana, em 18 de setembro de 182...
Há 200 anos, a vila de Goiana vivenciou uma cena inédita e angustiante. Ninguém saberia disto se não houvesse um relato escrito (CANECA, 2001, p.573-575). Frei Caneca e alguns confederados, fugindo dos ataques da tropa imperial, que bombardeava com canhoneios a partir da frota no porto, chegou a Goiana, depois de atravessar de Olinda a Igaraçu. Vinha camuflado, se escondendo pelo mato com três ou quatro companheiros paisanos e alguns soldados. Chegou tarde da noite e a vila dormia no seu remanso ainda colonial, pois não havia nenhum sinal físico da Independência no arruado urbano. Apenas o novo era a igreja da Conceição, consagrada por volta do começo daquele século. Por onde teria vindo o frade, como atravessara o Tracunhaém, principalmente à noite? Falta ainda um mapa físico e mental de Goiana destes dias. Vamos ao que o frade relatou.
Deserta
“Chegamos a esta vila (Goiana, em 18 de setembro de 1824) à meia-noite, e não foi pequeno o nosso espanto, quando sem esperarmos a achamos deserta inteiramente. O escuro da noite e o medonho silêncio em que estava sepultada a vila, os uivos dos cães, tudo cooperou para nos encher de terror, e nos julgarmos nos maiores perigos. Corremos várias ruas em busca das pessoas do nosso conhecimento, mas tudo foi baldado; porque a ninguém achamos”.
Duas casas
“Nesta circunstância deparamos com duas casas, em que por estarem com luz acesa nos falaram; mas foi para maior embaraço nosso. Em uma, um soldado cheio de maior terror por ver-nos, e talvez supor-nos inimigos, balbuciava, e nada dizia que fosse coerente; e ainda assim nos informou que toda a tropa já se havia retirado pela estrada da Conceição. Mas outro, que em outra rua nos falou, traiu-nos dizendo-nos que a tropa tomara a estrada de Goiana Grande: era o mesmo que entregar-nos aos ceroulas [provavelmente, ironia popular que queria dizer gente de Milícias e Ordenanças, que lutavam sem farda] de João Baptista Rego, que já haviam tomado o ponto de Pitimbu, e era natural estarem naquelas fronteiras”.
Topografia ignorada
“Os nossos companheiros, que ignoravam a topografia da vila e não sabiam e nem podiam conhecer o laço que nos armava o segundo informante, desconfiados do modo trepidante do primeiro, fiaram-se na segurança com que falou o segundo; e assim assentaram que tomássemos o caminho de Goiana Grande (devia ser a estrada para a Paraíba). Ponderamos-lhes o que sabíamos, dirigindo-nos a mostrar-lhes que jamais podia a força de Goiana seguir aquele destino; mas foi em vão: teimaram os nossos amigos no seu entendimento, e nós por contemporizar seguimo-los; e, ao passar pela frente do Convento do Carmo, nos dirigimos a ele, para que lá tomássemos informação do estado das coisas; mas tudo foi sem fruto”.

Ilusão
“O convento estava aberto e às escuras, ainda assim pelo tino, que nos fazia lembrar dos seus arranjos, por termos por anos habitado aquela casa, nos arriscamos a entrar e subir até o seu antecoro; e por mais que gritamos a chamar quem lá estivesse, ninguém nos respondeu”.
Caráter contemporizador
“Aqui os nossos amigos, que haviam ficado fora, nos chamaram e fizeram-nos acompanhá-los pra Goiana Grande. Sempre tivemos um caráter de contemporizador com os nossos amigos; e, fazendo reflexão sobre os trabalhos porque havíamos passado em nossos dias, conhecemos que tudo devíamos a conselhos alheios; e por este motivo, depois de haverem chegado aos lameirões de Goiana Grande, tomamos a resolução de não nos sacrificar a conselhos sem fundamento algum e inteiramente opostos à nossa salvação. Por isso, fazendo notar aos amigos que eles por não saberem as direções das estradas se iludiram com a aparente segurança do segundo soldado, e que até aquele momento mesmo nós sempre havíamos padecido por sermos escravos da vontade dos nossos amigos, declaramos que fazíamos ponto ali, e começávamos a usar do nosso entendimento; pelo que os não acompanhávamos”.
Retaguarda da força
“Esta nossa resolução salvou a todos, porque eles, dando peso ao nosso juízo, voltaram conosco pela estrada da Soledade; e depois de havermos andado o resto da noite, fomos encontrar com a retaguarda da força duas léguas acima da vila. Aqui já cansados dos trabalhos antecedentes e fatigados do espírito, descansamos em uma casa muito velha; pelo que havia dentro supusemos ser de ladrões; por este fundamento não houve maneira de conciliarmos sono, e passamos no campo, ora assentados, ora deitados, ora passeando até o romper da aurora. Raiando esta, nos pusemos em marcha para chegarmos a Goianinha, onde havia dormido o presidente temporário da Paraíba. A poucos passos fomos encontrando por toda a estrada muitas pessoas do nosso conhecimento, entre as quais foi o tenente-coronel Manuel Inácio de Melo, que no dia antecedente fora aclamado em Goiana comandante-geral daquela força. Da prática que tivemos com ele, não fizemos bom conceito daquela força, e não julgamos segurança alguma no meio dela, por nos ser descrita com uma multidão confusa, sem ordem, sem subordinação e inteiramente anárquica”.

Dia seguinte
“Chegamos afinal a Goianinha, e ali achamos o grosso da divisão e um povo numeroso com algumas famílias honestas; cumprimentamos o presidente (temporário da Paraíba, Felix Antônio Ferreira de Albuquerque, aclamado por cinco das nove vilas paraibanas): desde logo fomos agregados à sua família, e tomamos quartel na mesma morada”. Caneca termina o relato desta noite de medo, narrando o dia seguinte, quando chegou à povoação de Goianinha “que é uma povoação não pequena, e representa ter algum comércio dos gêneros de lavoura. Tem uma igreja pequena; ela e as casas da povoação são de má ou de nenhuma arquitetura; à exceção de mui poucas, as outras são de palhas”.
Presos políticos
Ainda registraria o frade jornalista a sua passagem de volta, na caravana dos presos políticos da Confederação do Equador vindos do sertão do Ceará, em 15 de dezembro de 1824. A guarnição evitou a vila, pernoitando no engenho Bujari. Ia preso, para ser submetido a uma corte marcial, pois seu destino já estava traçado numa portaria imperial de julho daquele ano.
Itinerário
Frei Caneca relatou este momento em seu Itinerário: “(...) fomos chegar a Goiana pelas onze horas da manhã, onde querendo o major Pastorinha (da Paraíba) ficar, resolveu-se, afinal a irmos aquartelar no engenho de Bujari, a meia légua da vila, cuja propriedade pertence ao padre João Álvares de Souza, que nos acolheu muito bem. Aqui fomos visitados por muitos homens liberais de Goiana, que de propósito nos foram abraçar, e oferecer-nos os seus serviços, e nos presentearam com bom peixe e para cearmos, vinho, queijos, frutas e doces. Aí pernoitamos e, sobre a madrugada querendo-nos aprontar para seguirmos a viagem, demos por falta de alguns companheiros nossos. Ao depois de alguma diligência, não se podendo descobrir os fugitivos, saímos ao amanhecer do dia 16 (...)” (CANECA, 2001, p.602/3). Apesar de sua contundente defesa, seu destino já estava traçado pelo português D. Pedro I. Foi fuzilado, no Recife, em 13 de janeiro de 1825.
*Josemir Camilo de Melo é historiador
Leia outras informações
Um mar de gente. Convenção de João Campos mostra força popular, unidade política e alinhamento nacional
01/08/2026
Os senadores
Humberto Costa, do PT, é antigo aliado e escudeiro de Lula. Marília Arraes, uma guerreira, que carrega tradição familiar mas construiu seus próprios caminhos. Têm perfis diferentes mas olham na mesma direção política e se completam.
O alinhamento
Lula não veio mas enviou o seu vice, Geraldo Alckmin, para não deixar dúvi...
Foi um dia glorioso para João Campos, Humberto Costa e Marília Arraes. A convenção, realizada hoje, sábado, 1o de agosto de 2026, revelou muita coisa além da festa. Em primeiro lugar, a Frente Popular, unidade construída desde os anos 1960 pelo bisavô de João Campos, Miguel Arraes, continua firme, forte e moderna. Sobreviveu à ditadura e a muitas adversidades. Construiu uma história, que tem como ícone Eduardo Campos, pai de João. A Frente Popular continua na vanguarda da politica pernambucana. Representa o novo, não apenas na idade, mas principalmente nos propósitos e compromissos.
Os senadores
Humberto Costa, do PT, é antigo aliado e escudeiro de Lula. Marília Arraes, uma guerreira, que carrega tradição familiar mas construiu seus próprios caminhos. Têm perfis diferentes mas olham na mesma direção política e se completam.
O alinhamento
Lula não veio mas enviou o seu vice, Geraldo Alckmin, para não deixar dúvidas de que a chapa de João tem rumo e sintonia. Desautorizado qualquer maluco desavisado a falar em Lula para tentar confundir no palanque de Raquel, amanhã.
João
Chegou e saiu nos braços do povo. Fez um discurso forte. Disse, metaforicamente, que vai derrubar as grades que separam o Palácio do povo. Assumiu compromissos claros, viáveis, factíveis. Estabeleceu contrastes claros com a sua competidora e saiu aclamado.
A platéia
A disputa, todo mundo sabe, está equilibrada no momento. Quem foi ou acompanhou a convenção, saiu energizado e confiante em uma vitória consagradora.
É Findi - Os Engenhos que os Holandeses Encontraram em Pernambuco - Alfredo Cabral de Melo*
01/08/2026
Quando os holandeses chegaram a Pernambuco, em 1630, encontraram muito mais do que uma terra fértil e uma posição estratégica no Atlântico. Encontraram uma economia açucareira já estruturada, com engenhos, canaviais, escravizados, proprietários, comerciantes, crédito e uma rede de circulação que ligava o interior ao Recife e, dali, aos mercados internacionais.
Esse detalhe é fundamental para entender o chamado Brasil holandês.
O engenho não era simplesmente uma propriedade rural. Era, ao mesmo tempo, unidade de produção, patrimônio, fonte de renda, objeto de crédito e centro de relações sociais. Em torno dele se organizava boa parte da vida econômica pernambucana.
É essa estrutura que permite compreender por que Pernambuco despertava tanto interesse dos neerlandeses.
A Companhia das Índias Oci...
Antes de Nassau, já havia aqui uma poderosa economia do açúcar, e foi justamente ela que tornou Pernambuco tão cobiçado.
Quando os holandeses chegaram a Pernambuco, em 1630, encontraram muito mais do que uma terra fértil e uma posição estratégica no Atlântico. Encontraram uma economia açucareira já estruturada, com engenhos, canaviais, escravizados, proprietários, comerciantes, crédito e uma rede de circulação que ligava o interior ao Recife e, dali, aos mercados internacionais.
Esse detalhe é fundamental para entender o chamado Brasil holandês.
O engenho não era simplesmente uma propriedade rural. Era, ao mesmo tempo, unidade de produção, patrimônio, fonte de renda, objeto de crédito e centro de relações sociais. Em torno dele se organizava boa parte da vida econômica pernambucana.
É essa estrutura que permite compreender por que Pernambuco despertava tanto interesse dos neerlandeses.
A Companhia das Índias Ocidentais não atravessou o Atlântico em busca apenas de território. O açúcar estava entre as razões essenciais da conquista. E havia uma contradição desde o início: os holandeses precisavam controlar uma economia que a própria guerra havia ajudado a desorganizar.
A conquista provocou destruição, deslocamentos e abandono de propriedades. Engenhos foram atingidos e a produção sofreu. José Antônio Gonsalves de Mello, em Tempo dos Flamengos, mostra como os primeiros anos da ocupação alteraram profundamente a vida colonial e atingiram diretamente o trabalho nos engenhos. A desorganização também favoreceu fugas de escravizados e o crescimento de quilombos.
O problema, portanto, não era apenas conquistar Pernambuco. Era fazê-lo voltar a produzir.
Para que um engenho funcionasse, não bastava plantar cana, era necessário dispor de terras, mão de obra, animais, equipamentos, crédito, transporte e mercado. O açúcar precisava ser fabricado e levado até o porto. O Recife, por sua vez, precisava dessa produção para sustentar sua função comercial.
O engenho estava no centro dessa engrenagem.
E havia uma realidade que não pode ser esquecida: a riqueza açucareira estava assentada sobre a escravidão. A produção dependia do trabalho de homens e mulheres submetidos à escravização, e a guerra alterava também essa relação de poder.
Para o proprietário, a destruição de um engenho significava perda de patrimônio e de renda. Para quem financiava a produção, podia significar o comprometimento de um crédito. Para os escravizados, a desorganização da guerra podia abrir oportunidades de fuga e resistência.
A mesma guerra, portanto, tinha significados muito diferentes para os diversos grupos que viviam naquele Pernambuco.
- Nassau e a reconstrução
É nesse cenário que Maurício de Nassau assume o governo.
A imagem de Nassau costuma estar associada às transformações urbanas do Recife, às artes, à ciência e à tolerância religiosa. Tudo isso faz parte da história. Mas havia uma questão ainda mais urgente: recuperar a economia que sustentava a ocupação.
Os engenhos precisavam voltar a produzir e com isso exigia reconstrução, mão de obra, crédito e estabilidade.
A administração neerlandesa, portanto, precisou lidar com proprietários e comerciantes, credores e devedores, interesses econômicos que nem sempre coincidiam. O engenho tornou-se também uma questão financeira.
E aqui a pesquisa de Evaldo Cabral de Mello é especialmente esclarecedora.
Em O Bagaço da Cana, o historiador examina os engenhos do período e demonstra que a recuperação ocorrida durante o governo de Nassau não significou o retorno da produção açucareira ao nível existente antes da invasão. Mesmo em seu momento de maior expansão, a atividade não alcançou o patamar anterior a 1630.
Isso ajuda a colocar o período em perspectiva, pois, Houve reconstrução, crescimento e uma notável transformação do Recife.
Mas Pernambuco continuava carregando as marcas de uma guerra que havia atingido a base de sua riqueza.
E é justamente nesse ponto que a história dos engenhos começa a se transformar em uma história de dívidas, patrimônio, interesses políticos e guerra.
Na próxima semana: como a crise dos engenhos se relacionou com a Restauração Pernambucana e por que a expulsão dos holandeses não pode ser compreendida apenas pelas batalhas.
Referências:
MELLO, José Antônio Gonsalves - Tempo dos Flamengos / José Antônio Gonsalves de Mello - São Paulo: Topbooks, 2002.
MELLO, Evaldo Cabral de – O Bagaço da Cana / Evaldo Cabral de Mello - São Paulo: Penguin, 2022.
*Alfredo Cabral de Melo, Advogado, Parecerista, Especialista em Direito de Família e Sucessões, Direito Civil e Processo Civil, Membro da ISFL - International Society of Family Law, Membro da Comissão de Direito Eleitoral - OAB/PE, Membro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/PE, Criador e apresentador do Podcast Jurídico - "Cláusula Aberta" pelo YouTube (Link: http://www.youtube.com/@clausulaaberta). @alfredo.cabral.de.melo

É Findi - Guaxinins - Poema - Por Eduardo Albuquerque*
01/08/2026
a família de guaxinins:
pai, mãe, três filhotes
divertem-se ... que sorte!
Ter um parque só p’ra si,
brincar e se divertir,
sem riscos de predador,
seu inimigo assustador.
Correm p’ra lá e p’ra cá,
sob o vigilante olhar,
de seus pais, a lhes criar.
E ainda têm alimentos,
em quaisquer momentos,
p’ra seu contentamento.
*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor. @eduardoalbuquerque99
Uma festa no jardim,
a família de guaxinins:
pai, mãe, três filhotes
divertem-se ... que sorte!
Ter um parque só p’ra si,
brincar e se divertir,
sem riscos de predador,
seu inimigo assustador.

Correm p’ra lá e p’ra cá,
sob o vigilante olhar,
de seus pais, a lhes criar.
E ainda têm alimentos,
em quaisquer momentos,
p’ra seu contentamento.
*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor. @eduardoalbuquerque99

É Findi - Série Prédios Ícones de Pernambuco - Edifício Duarte Coelho: Um Transatlântico Ancorado no Rio Capibaribe - Por Paulo Cunha*
01/08/2026
O edifício Duarte Coelho, “o maior do Norte do País” — era assim que diziam os anúncios do em...
É nas horas escuras da madrugada, quando o trânsito praticamente estancou e os únicos movimentos parecem se reduzir aos homens de farda laranja que jogam sacos negros no caminhão de coleta de lixo, e quando os sem-teto já dormem enrolados em caixas de papelão nas calçadas, que o Edifício Duarte Coelho recupera seu aspecto de bela, fantasmagórica e impenetrável melancolia. Que seja observado do outro lado do rio Capibaribe, desde a rua do Sol, ou da sua própria calçada da rua da Aurora, o prédio fascina pela massa compacta que ocupa um quarteirão inteiro do bairro da Boa Vista. Dá para imaginar que, de tão sólida, a construção resistiria até a um improvável terremoto que destruísse o Recife. No térreo, sobrevivendo ao tempo e às crises, o Cinema São Luiz igualmente resiste, ainda projetando filmes numa cidade que abandonou progressivamente a necessidade de cuidar do seu centro.
O edifício Duarte Coelho, “o maior do Norte do País” — era assim que diziam os anúncios do empreendimento publicados nos jornais do Recife —, teve sua pedra fundamental lançada na tarde do sábado 16 de fevereiro de 1946. Um acontecimento tão importante que contou com a participação do Interventor Federal em Pernambuco, José Domingues e do Prefeito do Recife, Pelópidas da Silveira. Projetado desde 1943, ocupou o terreno da antiga Igrejinha dos Ingleses, construída em 1838 e demolida justamente para dar lugar ao prédio. A Imobiliária Recife Ltda. e a Sociedade Construtora Jogentil prometeram entregar o prédio no prazo de dois anos: três blocos, cada um deles com catorze pavimentos de uso misto (lojas no térreo e apartamentos residenciais nos pisos superiores), incluindo “um luxuoso e moderno cinema da Empresa Luiz Severiano Ribeiro”. O projeto foi coordenado pelo engenheiro-arquiteto Américo Campelo, com a colaboração de Maurício Coutinho e Pedro Correia de Araújo, para ser um ícone das modernidade cultural e urbanística do Recife. Mesmo transcorrendo sem grandes interrupções, o prazo da construção se estendeu por seis anos, até 1952, e era acompanhada com atenção pelos jornalistas. Em 30 de agosto de 1951, a coluna Coisas da Cidade, no Diario de Pernambuco, já dava conta dos trabalhos finais do acabamento:
“Lula Cardoso Aires está acabando a decoração do Cinema São Luiz. Vimo-lo ontem, tal e qual simples operário, agarrado com os pinceis, lambuzado de tinta, comendo ali mesmo no trabalho, como se fosse um pintor de paredes. […] O belo painel que projetou à entrada do cinema reflete num panorama a vida do Recife; evoca o seu passado, com as torres de suas igrejas, as cumeeiras de seus velhos sobrados, os seus maracatus, os seus frevos, as suas cenas de carnaval.”
O cinema consolidou o impacto do Edifício Duarte Coelho e surgiu na expansão da cadeia de Luiz Severiano Ribeiro, cuja estratégia era precisamente a abertura de cinemas monumentais (como o São Luiz no Recife e o São Luiz do Largo do Machado, no Rio de Janeiro); a expansão para bairros populosos e zonas residenciais de classe média, garantindo a proximidade com o público; a integração com a Atlântida Cinematográfica e suas incríveis chanchadas e a formação de um cartel com a empresa exibidora de Lívio Bruni, que permitiu negociar melhores condições, taxas e exclusividade na exibição de grandes produções.
A primeira sessão do Cinema São Luiz, exclusiva para convidados, autoridades civis e militares, clero e intelectuais, aconteceu no dia 31 de agosto de 1952. A Atlântida Cinematográfica registrou tudo num curta ainda hoje disponível. A abertura ao público, com exibição do já manjado O Falcão dos Mares (The Sea Hawk), de Raoul Walsh, lançado em 1940 e estrelado por Errol Flynn, foi um dos maiores acontecimentos culturais dos anos 1950 no Recife, com as plateias se espantando com o luxo arquitetônico, o mural de Lula Cardoso Aires, a exibição em Technicolor, o fosso para eventuais apresentação com orquestra e os belíssimos vitrais laterais da tela, que iluminavam o início de cada sessão (criação da vitralista recifense Aurora de Lima). Tudo pensado pelo decorador Pedro Correia de Araújo, que, a pedido de Severiano Ribeiro, homenageou a corte do rei francês Luís IX, com adornos e relevos com o símbolo da flor de lis. Nos anos seguintes, para frequentar o São Luiz, manteve-se a exigência de terno e gravata para os homens e trajes finos para as mulheres.
O novo edifício Duarte Coelho e seu famoso cinema vieram consolidar o processo de modernização do bairro da Boa Vista, numa transformação que durou duas décadas. O centro do Recife adotou as ideias do “urbanismo higienista”, desde o plano do arquiteto Nestor de Figueiredo, no final da década de 1920: a cidade deveria “superar” suas formas coloniais ao criar um “eixo retilíneo” largo e moderno. Começou com a abertura da Avenida Guararapes (1937-1940), com financiamento direto do Estado Novo de Getúlio Vargas: dezoito quarteirões de sobrados coloniais dos séculos XVII e XVIII foram completamente destruídos, assim como a Igreja do Paraíso e o Hospital São João de Deus. Antes conhecida como Rua Formosa, um corredor de casarões, surge em 1946 a Avenida Conde da Boa Vista, estabelecendo uma via contínua para conectar o centro histórico às zonas Norte e Oeste do Recife. A velha rua Formosa — assim denominada por conta da beleza de suas residências — mudou de nome para homenagear Francisco do Rego Barros, o Conde de Boa Vista, presidente da província de Pernambuco, que em 1840 aterrou o mangue existente no local para expandir o centro da cidade.
Ao longo de mais de oito décadas de história, o Edifício Duarte Coelho e o Cinema São Luiz foram palco de muitas histórias. Noites de gala e de estreia de filmes americanos; as matinês de Bossa Jovem aos sábados, com centenas de secundaristas urrando na plateia; a estreias de Baile Perfumado de 1996, celebrando a retomada do cinema pernambucano; as filas gigantescas dos longas dos Trapalhões ou de Tubarão; o entorno do prédio como cenário de O Agente Secreto; e até um assasinado político chocante em frente ao cinema na noite de estreia do filme O Canto do Mar, de Alberto Cavalcanti, em outubro de 1953. Nos apartamentos, vivendo histórias que não couberam em filmes, famílias construíram suas trajetórias observando das janelas o movimento de O Cão sem Plumas.
As décadas também testemunharam a decadência da Boa Vista. As grandes empresas (bancos, magazines, restaurantes) abandonaram o bairro em busca das novas centralidades urbanas, sobretudo a Zona Sul e alguns trechos privilegiados da Zona Oeste. O transporte público degradou-se. O ambiente tornou-se hostil, inseguro, reativo aos caminhantes. Agora a vida urbana só acontece com deslocamentos em automóveis. Sem segurança, com poucos estacionamentos e iluminação inadequada, quase ninguém se arrisca a passear à noite. O footing terminou, levando parte das memórias. Como guerrilheiros, alguns ciclistas ainda lutam contra o descaso. Dezenas de cinemas do antigo centro fecharam ou se trancaram nos Shopping Centers — menos o belo São Luiz, com suas 992 poltronas (eram 1260 na inauguração), que teima em abrilhantar a fachada degradada do Edifício Duarte Coelho.
*Paulo Cunha é jornalista e professor titular aposentado da UFPE.
Apresentado por:
*Silvio Amorim, foi Diretor da Rede Federal de Educação Tecnológica do MEC. É membro do IAHGP. Foi subchefe da Casa Civil do governador Marco Maciel e secretário de Educação do prefeito Roberto Magalhães. @silvio.amorim.pe
NR - Os artigos assinados refletem a opinião dos seus autores.

É Findi - To Be Or Not To Me? - Por Felipe Bezerra*
01/08/2026
A pergunta infinita,
é quem mais habita
as estradas e os becos
de dentro de mim.
É preciso perceber
quando o mal se agita,
quando avança o medo,
para domá-los a tempo
de não se permitir.
A mente é labirinto,
com desvios e recomeços.
Nas encruzilhadas da vida,
a melhor saída
é não travar e agir.
*Felipe Bezerra, advogado e poeta. @felipebezerradesouza
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.
- Quem está ai?
A pergunta infinita,
é quem mais habita
as estradas e os becos
de dentro de mim.
É preciso perceber
quando o mal se agita,
quando avança o medo,
para domá-los a tempo
de não se permitir.
A mente é labirinto,
com desvios e recomeços.
Nas encruzilhadas da vida,
a melhor saída
é não travar e agir.
*Felipe Bezerra, advogado e poeta. @felipebezerradesouza
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Sonhos Felinos - Por AJ Fontes*
01/08/2026
O focinho apontava para um canto do chão. Voltei uns passos, procurei e encontrei, no meio da folhagem encharcada, encolhido, um pequeno graveto peludo, branco com manchas alaranjadas; tremia e tinha os olhos esbodegados fixos em nada.
Segurei, com as pontas dos dedos, pelo pescoço e levei para casa.
Três anos a diante, tomo meu café da manhã e observo Félix deitado na cadeira ao lado: sete quilos, a cabeça tem o tamanho do próprio naquela época e o corpo mal cabe no assento.
Treme uma pata traseira. Será que sonha? A IA logo respondeu que a evidência científica sugere fortemente que sim, embora não saibamos como o quê. Creem, os estudiosos, que revivem perseguições a uma presa, interação com o tutor ou com outr...
Um estalo sob os pés me fez retornar do silêncio. Parei e procurei Paçoca, minha companheira de caminhadas. Estava com as quatro patas enfiadas na lama da estrada chovida entre os sítios e fazendas da Serra das Russas.
O focinho apontava para um canto do chão. Voltei uns passos, procurei e encontrei, no meio da folhagem encharcada, encolhido, um pequeno graveto peludo, branco com manchas alaranjadas; tremia e tinha os olhos esbodegados fixos em nada.
Segurei, com as pontas dos dedos, pelo pescoço e levei para casa.
Três anos a diante, tomo meu café da manhã e observo Félix deitado na cadeira ao lado: sete quilos, a cabeça tem o tamanho do próprio naquela época e o corpo mal cabe no assento.
Treme uma pata traseira. Será que sonha? A IA logo respondeu que a evidência científica sugere fortemente que sim, embora não saibamos como o quê. Creem, os estudiosos, que revivem perseguições a uma presa, interação com o tutor ou com outros felinos. Pessoalmente não acredito em uma memória elástica suficiente para estar novamente na frente de bichos enormes e estranhos como eu e Paçoca no meio do mato.
Nós também sonhamos; e nem precisamos estar dormindo.
Passando os olhos nas janelas e varandas dos edifícios em torno percebo um jovem vindo para a pequena varanda. Acende um cigarro e mergulha na fumaça em busca da moça bela que habita seus libidinosos instantes e o fazem atravessar mais um dia entre tantas outras provas de pertencer e estar nas altas esferas do grupo ao qual pertence.
Alguns passos e percebo, por trás de um filó esvoaçante, o contorno bem delineado de uma mãe quase composta sobre a cama, sem os filhos, sem o marido. Esperando. Dá para ver o sorriso enquanto alisa os cabelos no travesseiro. As ondas que vem e vão, Trazem e levam imagens, formas, cheiros e arrepios, mas só até o choro do caçula a alcançar.
Quase não vejo um senhor de tão encolhido em uma cadeira de balanço, na réstia de luz que resta no quarto penumbrado. Para ele não importa se claro ou escuro, se frio ou quente, perfumado ou azedo. Não há sonhos, porque não há pensamentos, apenas um respiro curto, um olhar perdido em um eterno nada.
Félix ronrona nos meus pés e espano essas visões com a cabeça. Compreendo, surpreso, que implanto sonhos em gente desconhecida. Desconfortável, olho para os lados, procurando por espiões de meus pensamentos. Vou à cozinha, tomo um pouco de água, respiro e bisbilhoto os labirintos dos meus miolos em busca da razão dos meus devaneios.
Encontrei!
Buscava histórias para contar.
*AJ Fontes, contista e cronista, engenheiro aposentado, e eterno estudante na arte da escrita, publicou o livro de contos: ‘Mantas e Lençóis’. @aj.fontes
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi – Dom Poético - Por Pica-Pau*
01/08/2026
versa o céu, e a terra, estrela, planeta e lua,
versa distrito e cidade, avenida, beco e rua.
O que ainda não achou, o que achou, o que perdeu.
Com qem tá vivo ou doente, também com quem já morreu.
A dor, sofrimento, angústia, alegria, choro e mágoa.
Escreve tudo que quer até que a tinta deságua.
Quando vem inspiração, ele chega a meditar.
Quem tem poesia no peito atravessa até o mar.
Quem não tem o dom de ter, se afoga no copo d'água."__
*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE. @poeta.picapau
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.
"Quem nasce pra ser poeta com o dom que Deus lhe deu,
versa o céu, e a terra, estrela, planeta e lua,
versa distrito e cidade, avenida, beco e rua.
O que ainda não achou, o que achou, o que perdeu.
Com qem tá vivo ou doente, também com quem já morreu.
A dor, sofrimento, angústia, alegria, choro e mágoa.
Escreve tudo que quer até que a tinta deságua.
Quando vem inspiração, ele chega a meditar.
Quem tem poesia no peito atravessa até o mar.
Quem não tem o dom de ter, se afoga no copo d'água."__
*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE. @poeta.picapau
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi – Os Clubes Sociais - Por Carlos Bezerra Cavalcanti*
01/08/2026
Sobre esse assunto assim se reporta Rostand Paraíso: (Ob cit pág 167): “...Naqueles fins da década de 40 e início da de 50, além dos assustados em casa de famílias havia, no Recife, muitas outras ocasiões para encontros festivos e dançantes.
Nossos principais clubes sociais mantinham uma programação visando atrair a turma jovem da cidade: no Português havia um “sorvete-dançante” aos domingos e no Internacional, nas noites de sábado animadas boates e “jantares dançantes. Essas festas ganhavam um colorido diferente, tornando-se bem mais concorridas, quando havia alguma atração especial como por exemplo, a chegada ao nosso porto de navio-escola da...
Os locais mais interessantes, como ponto de encontro são, ou pelo menos eram, os Clubes Sociais e entre eles temos os mais antigos e tradicionais da cidade do Recife: O “Clube Internacional”, o “Clube Português”, O “Britshy Country Club”, O “Clube Náutico Capibaribe”, O “Sport Club” e o “Santa Cruz Futebol Clube”.
Sobre esse assunto assim se reporta Rostand Paraíso: (Ob cit pág 167): “...Naqueles fins da década de 40 e início da de 50, além dos assustados em casa de famílias havia, no Recife, muitas outras ocasiões para encontros festivos e dançantes.
Nossos principais clubes sociais mantinham uma programação visando atrair a turma jovem da cidade: no Português havia um “sorvete-dançante” aos domingos e no Internacional, nas noites de sábado animadas boates e “jantares dançantes. Essas festas ganhavam um colorido diferente, tornando-se bem mais concorridas, quando havia alguma atração especial como por exemplo, a chegada ao nosso porto de navio-escola da nossa Marinha de Guerra, seus oficias sendo habitualmente convidados especiais daqueles dois clubes.
No Internacional, encontrávamos sempre nesses momentos a simpática figura de Isnar Mariano – Isnar que também tocava para o almoço, no Restaurante Leite, era um excepcional pianista que costumava nos brindar com os sucessos das orquestras americanas do após-guerra. Dizia até, tal o seu virtuosismo, que quem ainda não tivesse dançado COKTAIL FOR TWO, com Isnar Mariano ao piano, não teria vivido..."
O Náutico tinha seus “Sorvetes dançantes”, nos domingos a noite. O Clube da Aeronáutica promovia, em sua sede em Piedade, bailes com nomes sugestivos, “Vamos Voar Juntos”, Mamãe, Eu Quero Voar”, atraindo para os seus salões os moradores e veranistas da Zona Sul. O Sargento Wolff organizava também animadas soirées. Os Clubes mais modestos, o Madeiras do Rosarinho, o Cachorro do Homem do Miúdo, o Batuta de São José e tantos outros, também tinham uma vida social intensa, sendo inclusive, procurados com frequência pelos estudantes de nossas escolas superiores que ali encontravam um ambiente amigo e descontraído para seus momentos de lazer.
Nos próximos artigos abordaremos cada um desses festejados "pontos de encontro" do nosso Recife.
*Carlos Bezerra Cavalcanti, Presidente Emérito da Academia Recifense de Letras.

É Findi - Dose Dupla de Crônica Poética - Por Romero Falcão*
01/08/2026
João Cabral impressiona
a alta literatura.
Sua estrutura é peça de estaleiro:
sob medida, pesada, exata;
ferro que fere de espanto,
lâmina que perfura o canto.
Ocuparia a cabeceira de Fernando Pessoa;
o intelectual de rede social, nem tanto.
Por mais que tentem se aproximar
de seu estilo inimitável,
João não deixou herdeiro literário.
Isso mostra que, em sua obra,
não há vaga
nem para o mais hábil operário.
Sim, eu sei: sou medíocre leitor.
Meus olhos pedem conforto, adorno, flor.
A espada de João não me atravessa,
embora eu a veja
tão afiada, espessa.
Faltam-me dedicação, estudo, preparo.
Não aprofundo, não me aplico.
Confesso: permaneço obtuso
para conseguir decifrar
o poeta raro, claro, agudo, erud...
João Ramos e Graciliano Cabral - Crônica Poética
João Cabral impressiona
a alta literatura.
Sua estrutura é peça de estaleiro:
sob medida, pesada, exata;
ferro que fere de espanto,
lâmina que perfura o canto.
Ocuparia a cabeceira de Fernando Pessoa;
o intelectual de rede social, nem tanto.

Por mais que tentem se aproximar
de seu estilo inimitável,
João não deixou herdeiro literário.
Isso mostra que, em sua obra,
não há vaga
nem para o mais hábil operário.
Sim, eu sei: sou medíocre leitor.
Meus olhos pedem conforto, adorno, flor.
A espada de João não me atravessa,
embora eu a veja
tão afiada, espessa.
Faltam-me dedicação, estudo, preparo.
Não aprofundo, não me aplico.
Confesso: permaneço obtuso
para conseguir decifrar
o poeta raro, claro, agudo, erudito
Graciliano é criação dura,
anatomia insólita:
o fígado
no lugar do coração,
o cacto
no átrio da rosa.
Li certa vez:
“Se João fosse prosador, seria Graciliano Ramos.
Se Graciliano fosse poeta, seria João Cabral.”
Um pernambucano, outro alagoano:
duas facas na garganta contemporânea,
dois monstros emergindo
do meu lago banal.

Depois de Morto - Crônica Poética
Quem vier me confortar depois de morto,
por favor, faça com originalidade
Não me venha com os mesmos clichês:
"Descanse em paz". "Que Deus o tenha".
Escreva alguma coisa inesperada,
para o cadáver que se desmancha
um poema que arranque a carne podre,
alegre feito o verme que me lancha
Quem vier me visitar depois de morto,
por favor, pelo menos por um dia,
leia antes o anjo paraibano do escuro,
a acidez Augusta na positividade fria
Quem vier me visitar depois de morto,
faça de maneira simples e irreverente,
Não olhe o preço do caixão,
nem quantos estiveram presentes
Quem vier me visitar depois de morto
Bebam com desprezo o defunto
E saibam que, nos papéis kafkianos da morte,
é sorte não estar mais aqui
Quem vier me visitar depois de morto,
em vez de coroa de flores,
escreva uma pichação cheia de alma
"Já foi tarde. Ninguém sentirá falta"
E não esqueçam da minha lápide:
Jaz sem paz: não entrou para o Index da Igreja Católica
"Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho" (Augusto dos Anjos)
*Romero Falcão é cronista e poeta. Articulista de O Poder. @romerocoutinhodearruda
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Carta de Zeus para Bisa! - Por Ina Melo*
01/08/2026
Apesar das saudades que são muitas, passamos agora uma fase muito feliz. Luna, a minha irmã humana, ficou um tempão com aqui com a gente. Ah! Só faltou você querida Bisa. A casa virou de pernas pro ar, pois tinha sempre as crianças (Luisa e um menino levado) falando, brincando e correndo e eu no meu canto preferido, a sua cadeira, pois só meu pai senta nela. Apesar de todos os dias esperar a sua volta, ouço a conversa de que ainda vai demorar um pouco, por conta de um tal de vírus que desarrumou a vida de todo mundo. As vezes sonho em ir visitar essa casa dos gatos e gente feliz, que até Luna já foi e me disse que é uma mansão e tem até piscina, mas por lá vivem nove gatos e três cadelas enormes, ai o que é que eu tao pequeno vou fazer, se a patrulha felina/canina, não for com a minha cara? Ainda assim não perdi a esperança! Soube também que, de 15 em 15 dias, Nina e Bem, (que eu nao conheço, mas são também bisnetos/primos) vão pra lá e a farra é grande. Tenho certeza minha Bisa que, se dependesse de você eu estaria aí nesse paraíso verde. Nessa brincadeira, sao mais de 240 dias que você está longe de nós. A sua cama está vazia e eu não durmo lá, porque só gosto se for com você! O bom dessa tal de pandemia é que ninguém sai mais de casa e eu não fico sozinho. Meu pai só vai pra um tal de Forum, sei que é trabalho, pois sai todo elegante, como você gosta, mas volta logo, e não à noite, como era antes. Mas já estou feliz, por antecipação, pois ouvi falar que vamos todos passar as festas de fim de ano na casa de tia Paula! Não sei o que será de mim quando chegar lá e o gigante Nero me olhar com aquele ar de desprezo, que os grandes fazem quando veem um pequeno! Imagina, um Imperador incendiário e Zeus o poderoso Deus do Olimpo! Será que vamos nos entender? Pois é. Antes, porém quero ir nessa Mansão dos gatos! Volta Bisa, estamos morrendo de saudades! Zeus Marinho.
*Ina Melo, é jornalista. Publicou poemas, contos e crônicas na Revista de Cultura do Estado do Ceará e em diversas antologias como "Crônicas e contos inesquecíveis" e "Contistas do Terceiro Milênio". Graduada pela UFPE, com especialização em Antropologia Cultural, faz parte da Academia Internacional de Literatura e Artes. É autora dos livros: "Simone de Beauvoir - Mulher lúcida e livre", "Sonhos em dueto" e, pela Confraria do Vento, "Cartas de Paris". @inamelo2016
