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Mobilidade - Governo quer retomar ferrovia abandonada que cruza todo o Ceará

30/10/2024

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O governo federal anunciou que pretende retomar as negociações para reconstrução dos trilhos abandonados da malha ferroviária nacional que cruza todo o Ceará no Nordeste brasileiro. Segundo a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), no Estado, as linhas que são objeto do pedido de devolução da concessionária Ferrovia Transnordestina Logística (FTL) para a União coincidem com o eixo da nova ferrovia que está sendo construída pela TLSA, a nova Transnordestina.

A retomada

A retomada dos trechos, conforme a Agência Nacional de Transportes Terrestres, geraria também uma indenização. Porém, o valor, ainda conforme a ANTT, está sendo apurado pelo DNIT, "responsável pelo cálculo, visto que é o proprietário dos bens herdados da antiga Rede Ferroviária Federal S/A".


A malha

Uma das formas de reutilização dessa malha que estaria subaproveitada ou completamente abandonada seria para o transporte de passageiro...

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O governo federal anunciou que pretende retomar as negociações para reconstrução dos trilhos abandonados da malha ferroviária nacional que cruza todo o Ceará no Nordeste brasileiro. Segundo a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), no Estado, as linhas que são objeto do pedido de devolução da concessionária Ferrovia Transnordestina Logística (FTL) para a União coincidem com o eixo da nova ferrovia que está sendo construída pela TLSA, a nova Transnordestina.

A retomada

A retomada dos trechos, conforme a Agência Nacional de Transportes Terrestres, geraria também uma indenização. Porém, o valor, ainda conforme a ANTT, está sendo apurado pelo DNIT, "responsável pelo cálculo, visto que é o proprietário dos bens herdados da antiga Rede Ferroviária Federal S/A".


A malha

Uma das formas de reutilização dessa malha que estaria subaproveitada ou completamente abandonada seria para o transporte de passageiros. A ANTT afirmou que "a destinação final das linhas que vierem a ser devolvidas é uma definição de política pública a cargo do Ministério dos Transportes".


Grupo

O Ministério dos Transportes criou um grupo de trabalho, por meio da Portaria nº 386/2024, para buscar uma solução consensual para a otimização da malha outorgada à FTL e, entre as possibilidades em análise, está a devolução de parte desta infraestrutura à União.


Empresa

Paralelamente, de acordo com o ministério, o Governo Federal, via Infra S.A. (empresa pública, sob a forma de sociedade por ações, controlada pela União através do Ministério da Infraestrutura, com foco na prestação de serviços de planejamento, estruturação de projetos, engenharia e inovação para o setor de transportes) conduz uma série de estudos para avaliar o potencial da malha ferroviária existente e as novas vocações das áreas de operação. 


São Francisco

Em outra frente de trabalho, o Governo Federal deu início recentemente aos testes do primeiro trecho do Ramal do Apodi, uma obra hídrica do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).


A fase

A fase de testes começou na Paraíba, com a água saindo da Barragem de Caiçara e percorrendo até o Rápido Arruído, para verificar o funcionamento das estruturas recém-construídas.

O Ramal

O Ramal do Apodi é uma obra estratégica para garantir a segurança hídrica nas regiões do semiárido, beneficiando diretamente os estados da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.

Extensão

Com uma extensão de 115,5 km, a obra começa na Barragem Caiçara, na Paraíba, e se estende até o reservatório da Barragem Angicos, em José da Penha, no Rio Grande do Norte. Ao todo, 54 cidades serão atendidas, beneficiando aproximadamente 750 mil pessoas.

Eixo Norte

O projeto faz parte da expansão do Eixo Norte do Projeto de Integração do Rio São Francisco, com o primeiro trecho do ramal 100% concluído, entrando agora na fase de testes e com previsão de entrega para novembro. (O Poder)

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Arte Na Política, Tempos Bons - Por Walmir Chagas*

21/08/2026

Havia um tempo em que política vinha com trombone, confete e promessa de cotidiano. O comício não era só discurso; era espetáculo, e aquele espetáculo tinha elenco. Tinha o Véio Mangaba, com seu andar de quem conhecia a cidade inteira pelo som da sandália; tinha o Mané da China, figura torta e direta, capaz de desmontar vernáculos eleitorais com uma só careta; e tinha o tal do Reginaldo Rossi — que, quando pegava o microfone, transformava debate em refrão e prometia até eleição no ritmo do brega. A praça virava novela com intervalo comercial de saudade.



Agora tudo virou folder. A propaganda oficial entrou no ar como se fosse receita de bolo: foto do candidato, logo, slogan pronto pra mastigar. Nas ruas, santinhos: montanhas de papel que mais lembram lixo do que lembrança. Bandeira? Só se for de algum time de amigo invisível. O que antes era conversa acesa, cheia de riso e puxão de orelha, hoje é mensagem engessada — igual a remédio sem bula que ninguém to...

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Havia um tempo em que política vinha com trombone, confete e promessa de cotidiano. O comício não era só discurso; era espetáculo, e aquele espetáculo tinha elenco. Tinha o Véio Mangaba, com seu andar de quem conhecia a cidade inteira pelo som da sandália; tinha o Mané da China, figura torta e direta, capaz de desmontar vernáculos eleitorais com uma só careta; e tinha o tal do Reginaldo Rossi — que, quando pegava o microfone, transformava debate em refrão e prometia até eleição no ritmo do brega. A praça virava novela com intervalo comercial de saudade.



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Agora tudo virou folder. A propaganda oficial entrou no ar como se fosse receita de bolo: foto do candidato, logo, slogan pronto pra mastigar. Nas ruas, santinhos: montanhas de papel que mais lembram lixo do que lembrança. Bandeira? Só se for de algum time de amigo invisível. O que antes era conversa acesa, cheia de riso e puxão de orelha, hoje é mensagem engessada — igual a remédio sem bula que ninguém toma.

O engraçado é que a proibição de artista em palanque, ou a burocracia que transforma criatividade em papel timbrado, não resolveu nada; só tirou do povo o remédio que ele sabia melhor digerir. Quando o Véio Mangaba subia na caixa d’água improvisada e começava a falar, o candidato não podia escapar: as verdades vinham com piada, e a piada vinha com memória. Mané da China, com seu "ôxe" torto e olhar de quem já tinha comido muita lorota, fazia o cidadão rir e, no riso, entender. Reginaldo? Ah, o cara fazia até promessa virar samba-enredo — e quando a gente cantava, começava a acreditar, ou pelo menos a discutir entre os vizinhos sobre qual verso era mais furado.

Dizem que showmício era teatro demais. Dizem que o artista vendia a palavra. Mentira. O que se vendia era atenção. O artista dava corpo à ideia; transformava abstrato em cena. Enquanto o candidato falava "programa de governo", o Véio Mangaba mostrava uma fila no posto de saúde, com uma avó segurando receita rasgada. A política deixava de ser estatística e virava assunto de mesa-de-bar. E nisso havia cuidado: a sátira ensinava, a caricatura denunciava, a canção punha no ouvido. Não era mercadoria — era pedagogia de rua.

Hoje, em vez de personagem, tem bandeira sem sentido. Bandeiras com letras que parecem ter sido feitas por quem nunca viu uma tipografia decente, cores que brigam entre si, imagens que não dizem nada. A cidade vira tapete de papel, as calçadas se entopem, e o eleitor passa batido, pé no chão, pensando em outra coisa: "Quem é esse mesmo?" Ninguém lê; ninguém retém; só se faz limpa na praça depois, quando o caminhão de lixo coleta a vergonha impressa.

E o que dizer da proibição de atores? Um absurdo típico de quem pensa política como controle de catálogo.



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Trancam o artista fora do palanque e chamam isso de ordem. Só que, na prática, o que se perde é linguagem. A arte dialoga com as falhas do poder com linguagem popular: trocadilho, graça, exagero. Tirar o palco é tirar o manual de instruções que o povo entende. Resultado: sobram boletins frios e faltam rostos que expliquem como as coisas batem no bolso.

Não estou pedindo que voltem os palhaços com patacoadas. Nem quero bandeira em cada poste. O recado é outro: a política precisa de personagens. Um personagem bem feito — não atorismo barato, mas construção de sentido — põe uma política na boca do povo. A sátira desmonta promessa vazia; a farsa aponta contradição; a conversa dramática mostra o problema sem precisar de jargões. E quando a cidade canta junto, quando a praça ri junto, a memória se forma; e memória é o que faz a gente lembrar na hora de votar.

Tem também o lado comercial — óbvio — de quem transformou showmício em mercadão de votos. Bandas que vinham por cachê, fogueira de brindes, candidato em cima do trio com o dedo em riste. Isso tinha excesso, claro; a linha que separa ato cultural de mercado é fina. Mas trocar o palco pelo panfleto é pior: o panfleto não discute, só exige. Nenhuma anedota, nenhum refrão, nenhuma pergunta que faça o sujeito voltar pra casa e contar a história pro vizinho. O panfleto se joga no chão e vira lixeira que nomeia a própria política: descartável.

Lembro de uma eleição que eu acompanhei — eu, atento como se fosse público de teatro — em que o Véio Mangaba, com um lenço no bolso e uma denúncia na ponta da língua, conseguiu desarmar um candidato que vinha com discurso pronto. O homem riu, o candidato se atrapalhou, e a promessa foi revista. No outro dia, a feira inteira falava nisso. Isso é educação política: a arte vira pergunta pública. Não é espetáculo vazio; é escola de rua.

Por isso proponho um pouco de insolência criativa: que se abra espaço, com regras claras, para quadros que ensinem e provoquem. Que se pague direito aos artistas locais, que se financiem roteiros curtos que expliquem propostas com humor e com peito. Que se troque parte do santinho por rádio de bairro, por microprograma que conte caso. E, por favor, menos bandeira, mais personagem. Menos lixo na calçada, mais história na cabeça.

No fim das contas, pode ser que a política precise mesmo de artista. Não para embelezar mentira, nem para fazer espetáculo vazio. Mas porque o artista tem o dom de transformar promessa em história — e história, meu amigo, é o que gruda na memória. A cidade precisa disso. Ou queremos que nossos filhos aprendam democracia lendo santinho no chão?



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Se os velhos palcos voltarem, que voltem com sabedoria. E se o Véio Mangaba aparecer, que ochemos primeiro, porque o velho não conta história à toa. Ele conta voto, e às vezes, com um punhado de risada e um refrão do Reginaldo, a gente aprende o preço do que promete.


*Walmir Chagas, é multiartista e livre pensador.



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NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.




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É Findi - O Fauno Dançante! - Por Ina Melo*

21/08/2026

É sempre nesse Jardim, entre flores e Deuses do Olimpo, que eu gosto de descansar das longas caminhadas que faço nesse cidade da minha paixão! Em todas as épocas que por aqui passei o encantamento continua. A primeira vez, foi numa manhã de Primavera quando a vida me sorria. Embriagada de Paris, deixei o pequeno Hotel da Rue des Ecoles e, leve como uma pluma levada pelo vento, fui parar nos Jardins de Luxemburgo. Indiferente aos passantes nas suas caminhadas matinais, flanava sem rumo e a sensação que tive foi de estar no Olimpo, pois a minha volta, moldados no frio mármore, estavam vários deuses meus conhecidos. Mas, um em especial, despertou a minha atenção naquela manhã primaveril. Era um jovem magro empunhando uma flauta e, não sei se alucinação ou não, ouvi uma música suave e fui ao seu encontro naquele pedestal! Logo estávamos dançando ao som de Vivaldi, numa consagração a Primavera! Desde então, costumo ir visita-lo, pois só assim retorno a um tempo perdido chamado juventude....

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É sempre nesse Jardim, entre flores e Deuses do Olimpo, que eu gosto de descansar das longas caminhadas que faço nesse cidade da minha paixão! Em todas as épocas que por aqui passei o encantamento continua. A primeira vez, foi numa manhã de Primavera quando a vida me sorria. Embriagada de Paris, deixei o pequeno Hotel da Rue des Ecoles e, leve como uma pluma levada pelo vento, fui parar nos Jardins de Luxemburgo. Indiferente aos passantes nas suas caminhadas matinais, flanava sem rumo e a sensação que tive foi de estar no Olimpo, pois a minha volta, moldados no frio mármore, estavam vários deuses meus conhecidos. Mas, um em especial, despertou a minha atenção naquela manhã primaveril. Era um jovem magro empunhando uma flauta e, não sei se alucinação ou não, ouvi uma música suave e fui ao seu encontro naquele pedestal! Logo estávamos dançando ao som de Vivaldi, numa consagração a Primavera! Desde então, costumo ir visita-lo, pois só assim retorno a um tempo perdido chamado juventude. Hoje, atravessando o outono invernoso da vida, entre folhas mortas e brumas, vejo-me saindo de uma tela de Monet, para ir ao encontro do Fauno Dançante!


*Ina Melo, é jornalista. Publicou poemas, contos e crônicas na Revista de Cultura do Estado do Ceará e em diversas antologias como "Crônicas e contos inesquecíveis" e "Contistas do Terceiro Milênio". Graduada pela UFPE, com especialização em Antropologia Cultural, faz parte da Academia Internacional de Literatura e Artes. É autora dos livros: "Simone de Beauvoir - Mulher lúcida e livre", "Sonhos em dueto" e, pela Confraria do Vento, "Cartas de Paris". @inamelo2016



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É Findi - Foice e Martelo - Por Marcelo Mário de Melo*

21/08/2026

Faço da foice e martelo
interrogações que exclamam
exclamações que interrogam
cicatrizes que declamam.

Queimo cartilhas mofadas
clareio temor e espanto
recolho frutos saudáveis
e os envolvo num manto.

Ponho no arquivo morto
todo o caldo transitório
datado e localizado
repelente e inglório.

Passando o pente fino
que predomine o presente
em ciranda e mutirão
numa espiral crescente.

Que a foice e o martelo
exclamando e interrogando
lavrem em novas colheitas
semeando agora o quando.


*Marcelo Mário de Melo, ex-preso político, jornalista e poeta. Seu lema é: "Só ultrapasse pela esquerda". @marcelommm



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Faço da foice e martelo
interrogações que exclamam
exclamações que interrogam
cicatrizes que declamam.

Queimo cartilhas mofadas
clareio temor e espanto
recolho frutos saudáveis
e os envolvo num manto.

Ponho no arquivo morto
todo o caldo transitório
datado e localizado
repelente e inglório.

Passando o pente fino
que predomine o presente
em ciranda e mutirão
numa espiral crescente.

Que a foice e o martelo
exclamando e interrogando
lavrem em novas colheitas
semeando agora o quando.


*Marcelo Mário de Melo, ex-preso político, jornalista e poeta. Seu lema é: "Só ultrapasse pela esquerda". @marcelommm



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É Findi - Catarse - Poema - Por Eduardo Albuquerque*

21/08/2026

Poesia, poesias!
Sois fantasias!?
Fantasmagorias?
Sossegas, me alivia!

Oh! mente vazia:
dual dicotomia,
sofro afasias,
melancolias...



Ah! o dia a dia!
a sós, bizarrias,
dores, arrepios.

Sem azo, apropio,
Exangue, frio,
Desfio, desfio!


*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor. @eduardoalbuquerque99



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Poesia, poesias!
Sois fantasias!?
Fantasmagorias?
Sossegas, me alivia!

Oh! mente vazia:
dual dicotomia,
sofro afasias,
melancolias...



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Ah! o dia a dia!
a sós, bizarrias,
dores, arrepios.

Sem azo, apropio,
Exangue, frio,
Desfio, desfio!


*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor. @eduardoalbuquerque99



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É Findi - Série História de Pernambuco - O Brasil Holandês era maior que Pernambuco? - Por Alfredo Cabral de Melo*

21/08/2026

Enquanto Recife se transformava sob Nassau, a Companhia das Índias Ocidentais controlava territórios muito diferentes entre si. Olhar para além de Pernambuco ajuda a compreender a dimensão, e os limites, daquela conquista.

Quando se fala no Brasil Holandês, é quase inevitável pensar em Pernambuco. Foi aqui que a Companhia das Índias Ocidentais encontrou uma de suas principais bases de atuação, em uma região onde a produção de açúcar tinha enorme importância econômica e onde, durante o governo de Maurício de Nassau, Recife passou por transformações que marcariam a história da cidade.

Mas o domínio neerlandês não terminava em Pernambuco.

A partir da conquista iniciada em 1630, os holandeses avançaram sobre outros territórios do Norte. Paraíba, Rio Grande do Norte, Itamaracá e, posteriormente, áreas mais ao sul e ao norte passaram, em diferentes momentos, a fazer parte da área de atuação da Companhia. O Maranhão foi ocupado em 1641, embora sua...

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Enquanto Recife se transformava sob Nassau, a Companhia das Índias Ocidentais controlava territórios muito diferentes entre si. Olhar para além de Pernambuco ajuda a compreender a dimensão, e os limites, daquela conquista.

Quando se fala no Brasil Holandês, é quase inevitável pensar em Pernambuco. Foi aqui que a Companhia das Índias Ocidentais encontrou uma de suas principais bases de atuação, em uma região onde a produção de açúcar tinha enorme importância econômica e onde, durante o governo de Maurício de Nassau, Recife passou por transformações que marcariam a história da cidade.

Mas o domínio neerlandês não terminava em Pernambuco.

A partir da conquista iniciada em 1630, os holandeses avançaram sobre outros territórios do Norte. Paraíba, Rio Grande do Norte, Itamaracá e, posteriormente, áreas mais ao sul e ao norte passaram, em diferentes momentos, a fazer parte da área de atuação da Companhia. O Maranhão foi ocupado em 1641, embora sua experiência sob domínio neerlandês tenha sido breve.

Isso significa que não existiu uma única experiência chamada simplesmente de “Brasil Holandês”. Havia territórios com economias, populações, condições militares e importância estratégica diferentes. A historiografia mais recente tem ampliado justamente o estudo das chamadas Capitanias do Norte, mostrando que a compreensão desse período não pode permanecer restrita ao Recife, mas tendo Pernambuco ao centro.

A importância de Pernambuco não foi casual. A região reunia uma expressiva produção açucareira, engenhos, portos e uma estrutura econômica que interessava diretamente à Companhia.

Depois da conquista, os neerlandeses concentraram sua presença no Recife, que oferecia melhores condições de defesa e acesso ao porto. A produção dos engenhos, entretanto, permanecia espalhada pelo território e dependia do controle de uma área muito mais ampla.

A conquista, portanto, não podia significar apenas ocupar uma cidade. Era necessário controlar caminhos, rios, áreas produtoras, pontos de defesa e populações espalhadas pelo território. Foi nesse processo que outras capitanias passaram a ter importância.

Paraíba: mais que uma extensão de Pernambuco

A Paraíba estava próxima do núcleo pernambucano e possuía uma economia vinculada à produção açucareira. Sua conquista fez parte da expansão territorial neerlandesa nos primeiros anos da ocupação. Ocorre que a experiência paraibana não foi simplesmente uma repetição da pernambucana.

A ocupação de um território não significava automaticamente o controle completo de sua população e de seus espaços rurais. A guerra, as alianças e as resistências continuavam presentes, enquanto a Companhia precisava distribuir homens e recursos por uma área cada vez maior. Assim, novo território significava, portanto, novas necessidades de defesa, abastecimento e administração.

Rio Grande: quando o território também importava

No Rio Grande do Norte, encontramos uma realidade que ajuda a perceber essa diversidade.

Ali, a presença neerlandesa não pode ser compreendida apenas pela lógica dos engenhos. A posição territorial, as comunicações, a circulação e as possibilidades de abastecimento também tinham importância. É justamente essa diversidade que pode desaparecer quando toda a história é contada a partir do Recife.

O Brasil Holandês era uma conquista extensa, mas extensão territorial não significava ocupação homogênea. Ademais, controlar uma fortificação, uma cidade ou um ponto estratégico era diferente de exercer controle efetivo sobre todo o território ao redor e essa diferença seria importante nos anos seguintes.

E o Maranhão? O avanço para o norte mostra até onde chegou à expansão da Companhia.

Em 1641, os neerlandeses ocuparam São Luís, no Maranhão. A presença, porém, foi breve, e os portugueses retomaram a região em 1644, no mesmo ano em que Nassau deixou o governo do Brasil Holandês. Tendo este episódio revelado uma característica importante daquela expansão: conquistar novos territórios significava também assumir novas necessidades de defesa, abastecimento e administração, ou seja, quanto mais extensa era a área alcançada, mais complexa se tornava sua manutenção.


*Alfredo Cabral de Melo, é Advogado, Historiador, Jornalista, e Membro do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP) e do Instituto Histórico do Maranhão (IHGM). @alfredo.cabral.de.melo



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É Findi - Depois - Crônica - Por Ana Pottes*

21/08/2026

Impossível resistir à verdade de que nossa única certeza chega devagar. Ela não avisa nem manda recados. Somos pegos por um tênue fio de cabelo no momento do nosso surgir. No trajeto da vida ele vai se alongando e esticando até onde der. Quando toca no limite, retesa forte e, sem qualquer elasticidade ou sustentação, arrebenta. Se parte. Curioso é que, desse jeito, a gente nem se dá conta do tamanho do tempo. No mais das vezes, jogamos fora doces e sagrados minutos por medo, por pura ignorância ou mesmo por vaidades tolas.
O imponderável é o caminho deles a se esvair por entre os nossos dedos. Lembra da ampulheta? Aquele objeto antigo, tal o sinal do infinito que quase nos faz acreditar em nosso poder de recuperar os grãos de areia e, da mesma maneira, o próprio tempo. Afinal, basta virar para se encher novamente. A realidade é diferente, pois os grãos vão se soltando, de pouquinho, e a gente se perde neles, olhando para eles, e os tempos se vão.

É um tanto malu...

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Impossível resistir à verdade de que nossa única certeza chega devagar. Ela não avisa nem manda recados. Somos pegos por um tênue fio de cabelo no momento do nosso surgir. No trajeto da vida ele vai se alongando e esticando até onde der. Quando toca no limite, retesa forte e, sem qualquer elasticidade ou sustentação, arrebenta. Se parte. Curioso é que, desse jeito, a gente nem se dá conta do tamanho do tempo. No mais das vezes, jogamos fora doces e sagrados minutos por medo, por pura ignorância ou mesmo por vaidades tolas.
O imponderável é o caminho deles a se esvair por entre os nossos dedos. Lembra da ampulheta? Aquele objeto antigo, tal o sinal do infinito que quase nos faz acreditar em nosso poder de recuperar os grãos de areia e, da mesma maneira, o próprio tempo. Afinal, basta virar para se encher novamente. A realidade é diferente, pois os grãos vão se soltando, de pouquinho, e a gente se perde neles, olhando para eles, e os tempos se vão.

É um tanto maluco esse pensar!

Essa levada temporal implacável me fez lembrar de pessoas amigas com quem não falo há tempos, sem ter porquês. As ligações foram escasseando, os chamados para um programa desaparecendo. Antes, eram presenças constantes e, aos pouquinhos, foram se tornando ausências. Quase a ponto de a memória esquecer os jeitos e trejeitos delas, perdidos lá no fundo do baú das recordações.

Indago: isso é a ausência de amizade? Falta de gostar? Penso que não. Continuo amiga, nutro a mesma admiração de antes, e, às vezes, sinto falta daquele passeio, daquele final de tarde num café, das risadas soltas sobre um fato ou um acontecido, das conversas sobre o dia a dia, da ligação só para saber como as coisas estão. É uma saudade miúda chovendo sobre mim. Mas o rodopio da vida traçou outras trilhas para os nossos pés.

Assim refletindo, eis que surge outra dúvida. E se acontecer de dona Parca chamar para seguir com ela naquele caminho? Aquele do qual nada sabemos tampouco queremos saber. Se o chamado for bem no meio do despencar lentificado da ampulheta, cujo nome é agora, qual lembrança ficará marcada? Qual palavra não falada, presa na garganta? Que abraço e carinho terão permanecido suspensos no ar?

Tanta coisa deixamos em estado de suspensão pelo hábito simples de dizer: “Depois a gente fala”.

Depois?


*Ana Pottes, psicóloga, gosta de escrever crônicas, contos e poemas sobre as interações emocionais com a vida. Autora do livro de poemas: Nem tudo são flores, mas... elas existem! @ana_pottes



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É Findi – Meu Amigo Jardineiro - Croniqueta - Por Xico Bizerra*

21/08/2026

Tenho uma pata-de-elefante enfeitando a entrada de minha casinha em Gravatá. Foi presente do meu jardineiro preferido. Ele, agrônomo por formação, gosta de plantas e de música. Cuidou de alguns jardins até se dedicar a sua segunda paixão, montando uma loja de discos que só vendia disco bom. Não adiantava procurar CDs de forrozeiros plastificados ou de sertanejos de araque: na loja do meu amigo não tinha esse tipo de lixo. Samba travestido de pagode, também não. Preconceito? Não sei. Acho que era apenas questão de bom gosto musical. Foi lá onde lancei quase todos os meus discos e livros, encontrando amigos para jogar conversa alma adentro.

Além das plantas e da boa música meu amigo jardineiro também gosta de Poesia. Aliás, com certo orgulho e vaidade, confidenciou-me ser sobrinho-neto de João Cabral de Melo Neto. Como não gostar de Poesia tendo nas veias a correr sangue de tão ilustre Poeta? Mas voltando ao assunto: com a virtualidade do sistema e o surgimento das plataf...

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Tenho uma pata-de-elefante enfeitando a entrada de minha casinha em Gravatá. Foi presente do meu jardineiro preferido. Ele, agrônomo por formação, gosta de plantas e de música. Cuidou de alguns jardins até se dedicar a sua segunda paixão, montando uma loja de discos que só vendia disco bom. Não adiantava procurar CDs de forrozeiros plastificados ou de sertanejos de araque: na loja do meu amigo não tinha esse tipo de lixo. Samba travestido de pagode, também não. Preconceito? Não sei. Acho que era apenas questão de bom gosto musical. Foi lá onde lancei quase todos os meus discos e livros, encontrando amigos para jogar conversa alma adentro.

Além das plantas e da boa música meu amigo jardineiro também gosta de Poesia. Aliás, com certo orgulho e vaidade, confidenciou-me ser sobrinho-neto de João Cabral de Melo Neto. Como não gostar de Poesia tendo nas veias a correr sangue de tão ilustre Poeta? Mas voltando ao assunto: com a virtualidade do sistema e o surgimento das plataformas meu amigo viu-se obrigado a fechar sua loja e ir viver dedicado às plantas e ao sossego em meio às orquídeas, jasmins, bromélias e helicônias que com ele e a mulher habitam o apartamento no Espinheiro (até o bairro em que mora faz menção às coisas da natureza).

Música, já não existe no formato antigo. Uma pena! Conforta saber que ainda há pessoas sensíveis, que, sem CDs para tocar, se deixam tocar pelos perfumes e cores do verde. Jardineiros que resistem à frieza do asfalto e do cimento, da internets e afins. É a forma que meu amigo jardineiro encontrou para fazer brotar poesia da terra.


*Xico Bizerra, é compositor, poeta e escritor. @bizerraxico



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É Findi - Romero Falcão* chegando em Dose Dupla

21/08/2026

Frida Faz Cinco Anos - Poema


Hoje, Frida faz cinco anos.
Não haverá bolo de aniversário,
minha cadela não vestirá saiote,
nem tampouco lacinhos, fitas,
para sair numa ridícula foto.

Hoje, Frida faz cinco anos,
criada feito os cães das antigas
livre das neuroses humanas,
longe das suas feridas.

Hoje, Frida faz cinco anos,
sem a corrente do amor dos homens
que aperta, exige, cobra,
carente com todas as sobras.

Hoje, Frida faz cinco anos,
com seu olhar sempre aceso,
altivo, verde, cortante, de vidro,
caçando lagartixas no quintal,
forçando a borboleta a se esquivar
do seu bote fatal.

Hoje, Frida faz cinco anos,
preservada no seu instinto animal,
pupila intacta de um lobo que me olha
com sua beleza primitiva, ancestral.

Hoje, Frida faz cinco anos.
Não a q...

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Frida Faz Cinco Anos - Poema


Hoje, Frida faz cinco anos.
Não haverá bolo de aniversário,
minha cadela não vestirá saiote,
nem tampouco lacinhos, fitas,
para sair numa ridícula foto.

Hoje, Frida faz cinco anos,
criada feito os cães das antigas
livre das neuroses humanas,
longe das suas feridas.

Hoje, Frida faz cinco anos,
sem a corrente do amor dos homens
que aperta, exige, cobra,
carente com todas as sobras.

Hoje, Frida faz cinco anos,
com seu olhar sempre aceso,
altivo, verde, cortante, de vidro,
caçando lagartixas no quintal,
forçando a borboleta a se esquivar
do seu bote fatal.

Hoje, Frida faz cinco anos,
preservada no seu instinto animal,
pupila intacta de um lobo que me olha
com sua beleza primitiva, ancestral.

Hoje, Frida faz cinco anos.
Não a quero pelúcia,
adorno na sala de estar.
Frida, tu és força translúcida,
jamais irei te deformar.

Hoje, Frida faz cinco anos.
Ela não é minha filha,
é meu bicho de estimação.
Jamais irei humanizá-la.
Quero amá-la com toda
a natureza de cão.



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Essa Mudança me Atordoa - Crônica


Li um artigo na Folha de S.Paulo: “Os gatos estão ficando mais mansos ou são as pessoas que estão mudando?”. O questionamento me lembrou uma conversa que tive com uma veterinária. Na época, eu perguntava: será que vão conseguir fazer com os gatos o que estão fazendo com os cães?

Bate Três Vezes na Madeira

Por exemplo: dar-lhes um banho de loja, vesti-los com todas as mazelas e vaidades humanas? Enchê-los de bugigangas que o mercado oferece ao mundo pet? A veterinária bateu três vezes na madeira e disse:

— Deus, tomara que não.

Criador Deslocado

Sempre criei cachorro, desde a infância. Hoje, porém, sou um criador deslocado, talvez até malvisto pela indústria e pelo marketing que alçaram nossos companheiros ao consumismo de luxo. Criam-se “necessidades” — com muitas aspas — para os pets, ou melhor, para os pais dos bichos.



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Vazio Emocional

Não tenho psicologia para criar gato. Mas admiro sua essência, ainda intocada. Não sei até quando resistirão. Eles são confundidos com individualistas, interesseiros, indiferentes, porque não cedem aos seus cuidadores — ou, para usar o politicamente correto, aos seus tutores. Não admitem ser tratados como bebês. Muito menos parecem dispostos a fazer das tripas o coração para tapar o vazio emocional da madame, como fazem os cachorros.

“Milhões de Seguidores”

O artigo citado no primeiro parágrafo diz: “Há cerca de 15 anos, criei uma página no Facebook para minha gata, Sandi. Meus amigos acharam isso estranho. Hoje, contas de redes sociais dedicadas a gatos atraem milhões de seguidores, gatos viajam em mochilas e carrinhos de bebê, e pesquisas mostram consistentemente que a esmagadora maioria dos donos considera seus animais de estimação como parte da família.”

Engajamento nas Redes

Claro que o capitalismo farejou a oportunidade. Salvo engano, existe até carro com a cor do cão caramelo.

É comum, nas novelas, um cachorro passar de braço em braço em várias cenas. Cai muito bem, para efeito de emocionar os convidados, um cãozinho no colo do autor na noite de autógrafos. O livro pode ser ruim, mas a presença do cão é ótima para o merchandising e o engajamento nas redes. Já um gato é bem capaz de se recusar a participar de tal teatro.

“Menos Filhos”

Retiro outro trecho da referida matéria: “Ao longo do último século, o modo de vida de muitas pessoas mudou significativamente. Em grande parte do mundo, as taxas de fertilidade caíram drasticamente, de quase cinco filhos por mulher em 1950 para pouco mais de dois atualmente. As pessoas estão tendo menos filhos, adiando a maternidade e a paternidade, vivendo sozinhas por mais tempo e contando cada vez mais com animais de companhia para suprir necessidades emocionais que antes eram atendidas por relações familiares próximas.”

Visita de Médico

Isso é claramente perceptível. Converso com pessoas que tiveram um ou dois filhos, que já partiram de casa para fazer suas próprias vidas. Cada vez têm menos tempo para visitar os pais. Por sua vez, os netos, quando arrumam um tempinho, fazem visita de médico.

Boia de Salvação

Quem supre o apartamento vazio? Um cachorrinho, um gato. Uma boia de salvação para a solidão.

E, quando morrem, ouve-se:

— Não perdi minha gata. Perdi uma filha.

Perplexo

Soube que já se constroem apartamentos com quarto para o pet, destinados a recém-casados que optaram, em vez de ter uma criança, por ser pais de pet.

A explicação de um jovem chinês, lá na China, deixou-me perplexo:

“Os filhos crescem e depois vão embora, deixam os pais. Já os cães são diferentes: eles ficam com você até a morte.”

Nessa história toda, o que me deixa intrigado é que, cada vez mais, estamos humanizando os animais e desumanizando os homens.

Essa mudança me atordoa.


*Romero Falcão é cronista e poeta. Articulista de O Poder. @romerocoutinhodearruda



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O É Findi é uma coluna semanal de cultura e lazer. Exclusiva de O Poder. Através de qualquer matéria, você acessa as demais. Boas leituras. Leia e compartilhe.




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É Findi – O Piqui da Mangaeira - Por Pica-Pau*

21/08/2026

Eu fui na feira
Comprar umas bujinganga
Comprei umbú comprei manga
Jabuticaba e caquí

Fui procurando e ao chegar no fim da feira
Comprei a uma mangaeira uma duzia de piquí

Era uns piquí tão grande,os piquí da mangaeira

Eu perguntei de onde veio esses piquí
Q’eu nunca vi por aqui
Uns piquí tao grande assim

Eita! qui piquí tão grande, veja qui piquí tão grande

Olha qui piquí tão grande
O piqui da mangaeira


*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE. @poeta.picapau



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Eu fui na feira
Comprar umas bujinganga
Comprei umbú comprei manga
Jabuticaba e caquí

Fui procurando e ao chegar no fim da feira
Comprei a uma mangaeira uma duzia de piquí

Era uns piquí tão grande,os piquí da mangaeira

Eu perguntei de onde veio esses piquí
Q’eu nunca vi por aqui
Uns piquí tao grande assim

Eita! qui piquí tão grande, veja qui piquí tão grande

Olha qui piquí tão grande
O piqui da mangaeira


*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE. @poeta.picapau



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É Findi - O CEHM - Crônica - Por Valéria Barbalho*

21/08/2026

A trajetória do Centro de Estudos de História Municipal (CEHM) tem origem no ideal visionário de Luiz Maria de Souza Delgado, cuja dedicação às causas municipais e à valorização da história local lançou as bases de uma iniciativa pioneira em Pernambuco. Após sua atuação inicial, foi seu filho, José Luiz Marques Delgado, quem deu continuidade ao projeto, transformando um sonho em realidade concreta.

Em 1961, no Instituto Histórico de Olinda, Luiz Delgado propôs a criação de uma Associação Intermunicipal de História, com o objetivo de reunir estudiosos e pesquisadores do passado pernambucano residentes em cidades que não possuíam institutos históricos ou entidades semelhantes. Embora a proposta não tenha sido concretizada à época, representou a primeira semente do que viria a ser o CEHM.

Anos depois, em 1968, durante a 41ª reunião do Conselho Estadual de Cultura, foi sugerida a criação de uma Comissão de História Local. Instituída ainda naquele ano, a comiss...

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A trajetória do Centro de Estudos de História Municipal (CEHM) tem origem no ideal visionário de Luiz Maria de Souza Delgado, cuja dedicação às causas municipais e à valorização da história local lançou as bases de uma iniciativa pioneira em Pernambuco. Após sua atuação inicial, foi seu filho, José Luiz Marques Delgado, quem deu continuidade ao projeto, transformando um sonho em realidade concreta.

Em 1961, no Instituto Histórico de Olinda, Luiz Delgado propôs a criação de uma Associação Intermunicipal de História, com o objetivo de reunir estudiosos e pesquisadores do passado pernambucano residentes em cidades que não possuíam institutos históricos ou entidades semelhantes. Embora a proposta não tenha sido concretizada à época, representou a primeira semente do que viria a ser o CEHM.

Anos depois, em 1968, durante a 41ª reunião do Conselho Estadual de Cultura, foi sugerida a criação de uma Comissão de História Local. Instituída ainda naquele ano, a comissão passou a se reunir regularmente, promovendo a produção e divulgação de estudos históricos municipais, inclusive por meio da publicação dos “Cadernos de História Local”. Essa iniciativa consolidou o interesse pela historiografia municipal e evidenciou a necessidade de um organismo permanente voltado a essa finalidade.

Com o falecimento de Luiz Maria de Souza Delgado, em 1974, coube a José Luiz Marques Delgado, com apoio de gestores públicos e instituições culturais, dar continuidade ao projeto. Assim, em 14 de agosto de 1976, foi oficialmente criado o Centro de Estudos de História Municipal, vinculado à Fundação Instituto de Administração Municipal (FIAM), com o propósito de apoiar, articular e valorizar os historiadores e cronistas dos municípios pernambucanos.

Desde sua criação, o CEHM assumiu uma missão singular: preservar, sistematizar e divulgar a história municipal, reconhecendo que é nos municípios que se constrói a base da identidade histórica e cultural do Estado. Mais do que um centro de pesquisa, o CEHM tornou-se um elo entre estudiosos locais, promovendo encontros, debates, publicações e ações voltadas à valorização da memória local.

Ao longo de sua trajetória, o Centro desenvolveu diversas atividades, entre as quais se destacam a realização de reuniões periódicas, a promoção de palestras, o apoio a entidades preservacionistas, a participação em eventos culturais e a organização de encontros de historiadores municipais. Também estruturou um relevante acervo documental e incentivou a criação de uma biblioteca especializada, contribuindo significativamente para a pesquisa histórica em Pernambuco.

No campo editorial, o CEHM desempenhou papel fundamental, destacando-se a publicação da Revista de História Municipal, iniciada em 1977, além de coleções como a Biblioteca Pernambucana de História Municipal, Tempo Municipal, Documentos Históricos Municipais, Cronologia Pernambucana e História da Imprensa de Pernambuco. Essas iniciativas permitiram registrar e disseminar informações essenciais sobre diversos municípios, evitando a perda de um patrimônio histórico que, de outra forma, poderia desaparecer.

Apesar de sua relevância e de cinco décadas de atuação contínua, o CEHM enfrentou — e ainda enfrenta — sérias dificuldades estruturais, especialmente relacionadas à escassez de recursos financeiros e à ausência de políticas públicas permanentes de incentivo. Diversos projetos deixaram de ser executados, e iniciativas importantes foram interrompidas ou limitadas por falta de apoio institucional adequado.

Nesse contexto, torna-se imprescindível destacar a insuficiente colaboração do Estado e de outros órgãos públicos para a manutenção e fortalecimento do Centro. É paradoxal que uma instituição única no Brasil, dedicada à preservação da história municipal e à valorização da identidade cultural pernambucana, não receba o reconhecimento e o suporte compatíveis com sua importância.

A ausência de investimentos contínuos compromete não apenas a expansão das atividades do CEHM, mas também coloca em risco a preservação de um vasto patrimônio imaterial. A história dos municípios — base da formação histórica do próprio Estado — depende diretamente de iniciativas como esta, que atuam de forma descentralizada e próxima às comunidades.



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Valorizar o CEHM é reconhecer que a construção da história de Pernambuco não se dá apenas nos grandes centros, mas sobretudo nas pequenas cidades, nas memórias locais e nos registros produzidos por aqueles que vivenciam o cotidiano de suas comunidades. Ignorar ou negligenciar esse trabalho significa permitir o apagamento progressivo de identidades culturais fundamentais.

Atualmente, o CEHM integra a estrutura da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de Pernambuco, estando vinculado à Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (CONDEPE/FIDEM). Ainda assim, mesmo inserido formalmente na estrutura estatal, o Centro carece de maior visibilidade, reconhecimento e suporte efetivo para cumprir plenamente sua missão.

Diante disso, impõe-se a necessidade urgente de fortalecimento institucional do CEHM, por meio de políticas públicas consistentes, financiamento adequado e valorização de seu papel estratégico. Preservar a história municipal é preservar a própria essência de Pernambuco.

O CEHM não é apenas um centro de estudos: é um guardião da memória, um articulador de saberes e um instrumento fundamental para a construção da identidade cultural do Estado. Seu fortalecimento não deve ser visto como opção, mas como compromisso com a história, a cultura e o futuro de Pernambuco.



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Foto: José Ernani Souto Andrade (Mestrinho), professor Aragão, Napoleão Barroso Braga, Nelson Barbalho, Eleny e Amaury de Barros Correia.


*Valéria Barbalho é filha do escritor e historiador Nelson Barbalho. É médica pediatra, cronista. @valeria.barbalho.5



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