Análise - A liberdade no mundo entrou em quarentena. Entenda como e por que, por Antonio Lavareda*
27/11/2024
remete sobretudo ao medo. Como o professor Sul-coreano-alemão, Chul Han, descreve,
“a liberdade não é possível onde reina o medo. Medo e liberdade se excluem
mutuamente”.
O medo aprisiona a sociedade
Contraposto ao espírito da esperança ,
sobretudo à esperança ativa, comprometida com movimentos de busca do progresso,
ele a deixa em permanente quarentena.
Por certo, isso não significa esquecer o fato de que há diversos países no hemisfério que
enfrentam essa questão na dimensão mais concreta, dura, primitiva - de histórica
privação de liberdades públicas. Países onde nunca houve instituições propriamente
democráticas, a exemplo entre outros de Zimbábue, Ruanda, Gabão ou Burundi. Outros
há em que elas existiram mas foram interrompidas por revoluções autodenominadas
democratizantes, ma...
remete sobretudo ao medo. Como o professor Sul-coreano-alemão, Chul Han, descreve,
“a liberdade não é possível onde reina o medo. Medo e liberdade se excluem
mutuamente”.
O medo aprisiona a sociedade
Contraposto ao espírito da esperança ,
sobretudo à esperança ativa, comprometida com movimentos de busca do progresso,
ele a deixa em permanente quarentena.
Por certo, isso não significa esquecer o fato de que há diversos países no hemisfério que
enfrentam essa questão na dimensão mais concreta, dura, primitiva - de histórica
privação de liberdades públicas. Países onde nunca houve instituições propriamente
democráticas, a exemplo entre outros de Zimbábue, Ruanda, Gabão ou Burundi. Outros
há em que elas existiram mas foram interrompidas por revoluções autodenominadas
democratizantes, mas que se corromperam em regimes autoritários como Cuba,
Venezuela e Nicarágua.

Em todos esses países
Na ausência quase absoluta da liberdade, o medo do sistema,
o temor aos tiranos, está incorporado permanentemente ao kit de sobrevivência mental
dos indivíduos na esfera pública.
Mas não é desse medo que cogito aqui. Tampouco se trata do “medo líquido” de que
fala Bauman, cujas raizes são as incertezas relacionadas aos múltiplos riscos da
“globalização negativa”. Sejam os desastres climáticos e ambientais, as crises
econômicas, as pandemias, ou o terror
Dirijo a lente
Para o sentimento que tem prosperado nesse primeiro quartil do século XXI, difundido regular e sistematicamente - com organização, disciplina e método- , pela extrema direita, em suas diferentes versões nacionais. Um medo “arquitetado”.
Assim, às velhas formas de supressão das liberdades vem se somar agora a estratégia
do iliberalismo, promovida pela ultra direita internacional. Nela, a democracia é corroída por dentro, conforme o modelo exitoso da Hungria, de Viktor Orbán.
O sucesso dessa estratégia se baseia na promoção desenfreada do medo.
O medo que assume caráter coletivo é polarizador. Magnifica as divisões dentro da
sociedade. Politiza e aprofunda diferenças que antes se viam pouco valorizadas, eram toleráveis e conciliáveis. Ele produz e dissemina uma sensação de instabilidade que
termina por se materializar efetivamente, estimulando descontentamento e protestos,
conflitos e até derrubadas de governos.
Esse medo redesenha o debate público
E leva os eleitores a abandonarem seus partidos e lideranças tradicionais, galvanizando o apoio
a outsiders, em geral líderes autoritários que lhes acenam com segurança e proteção. O medo justifica, por fim, as políticas repressivas, desde a aceitação da restrição de direitos até mesmo o aplauso à hipótese de governos totalitários, como resposta ao que Hanna Arendt já conceituara como “inimigos objetivos" geradores de suspeitas generalizadas e
discriminada, sobre os quais se determinava o “uso da mentira”, administrado primeiro pelo partido e depois pela máquina do Estado.
Nos tempos atuais, para promovê-lo e fazer adoecer a democracia representativa os
venenos são atualizados, bem como a posologia adotada. Envolve doses elevadas de
desinformação deliberada e disseminação maciça de fake news na internet.

O pior
É que não há antídotos cem porcento eficientes. Não há como evitá-los de todo.
A emergência das redes sociais tornou isso impossível. Mas é necessário coibí-los.
Limitá-los em alguma medida. Sobretudo pela regulação das plataformas, como fez a União Europeia. As deepfakes criadas por inteligência artificial e os milhões de usuários e bots, que distribuem informação apócrifa em redes criptografadas de ponta a ponta,
agravaram o problema. Elevando o desafio a um patamar bem superior ao que foi no passado o de controlar a propaganda política em jornais, rádios e TVs.
Ocorre que
Em países como Brasil e Estados Unidos, há uma enorme resistência à
regulação de plataformas e redes. A extrema direita paralisa essa agenda nos respectivos congressos. Afinal, é difundindo o medo, e a partir dele agredindo ora as minorias, ora o establishment, mesmo quando estão claramente associados aos
interesses das elites econômicas, é com essa fórmula que os novos populistas se valem dos algoritmos das redes para conquistar apoio eleitoral. A combinação dos interesses
econômicos das plataformas e da força da ultra direita nesses países torna muito difícil caminhar nessa direção.
A expectativa do mundo
Se volta nesses dias para tentar prever o que acontecerá na
principal potência, os Estados Unidos da América, a partir de 20 de janeiro do ano
próximo. Mas a rigor não é necessário qualquer exercício adivinhatório. Basta reler os discursos e rever a propaganda da campanha. Até o momento, temos um show de coerência. Os nomes anunciados para o novo gabinete, por mais bizarros que pareçam a muitos, são perfis totalmente congruentes com a retórica do então candidato.
Portanto, é mais que justificado o temor de um retrocesso significativo na agenda de combate ao aquecimento global, numa quadra em que se multiplicam os desastres climáticos; do anunciado distanciamento dos líderes europeus, agravado pelo maior
alinhamento com a Rússia; e o temor de uma redução substancial do apoio à OTAN, e
especialmente à Ucrânia, que será levada à paz de joelhos. Na agenda interna, haverá
deportações em massa de indocumentados; perseguição a funcionários que no
passado não foram complacentes com iniciativas ilegais; demissões em massa de servidores públicos, a pretexto de reduzir a burocracia; posturas negacionistas na
condução da saúde pública; e até mesmo a extinção do Departamento Federal de Educação. Tudo isso sob a direção e batuta ideológica da Direita-Tech representada
por Elon Musk e J.D. Vance.

Por que Trump volta à Casa Branca?
Porque que o medo já estava suficientemente
instalado na alma dos americanos ao tempo da votação.
A poucos dias da eleição, uma pesquisa do jornal New York Times, em conjunto com o Siena College, mostrava a vitória de Trump no voto nacional por um ponto percentual (Trump, 47%, Harris, 46%) . Como sabemos, o resultado não foi muito diferente: Trump teve no voto total 50%, e Harris 48.4%.Uma diferença de + 1.6.
Aquela pesquisa
Mostrou que 76% dos americanos acreditavam que a democracia no
país estava sob ameaça. Uma opinião disseminada em todos os níveis de renda e
escolaridade. Com presença simétrica nos dois contingentes eleitorais (com 77% entre os eleitores de Harris, e 76% entre os de Trump). Por seu lado, em outro levantamento, o
Instituto Gallup revelou que o medo dos imigrantes havia assumido grandes
proporções . Para um inédito percentual de 82% dos eleitores republicanos, a imigração
aparecia como questão super importante para ser levada em conta na eleição.
Os norte americanos
Foram às urnas sob dois signos combinados: o do medo generalizado de que sua democracia estivesse em perigo; e um segundo, potencializado
pelo primeiro, o da ansiedade específica movida sobretudo pelo descontentamento com o governo do dia, com 62% acreditando equivocadamente que a economia estava
piorando e 46% insatisfeitos com sua situação econômica contra apenas 25% de satisfeitos.
Perdeu o partido no poder. O que tem ocorrido com frequência no pós pandemia em
diversos outros países que enfrentaram dificuldades, especialmente no capítulo de
inflação e juros elevados. Como prescreve a “teoria da inteligência afetiva”, a ansiedade gerada na base eleitoral dos partidos incumbentes cria uma abertura que é usada para
encorajar a defecção de eleitores na quantidade suficiente para mudar a correlação de
forças em favor dos desafiantes.
Porém
Cabe enfatizar que, se a economia jogou mais uma vez um papel central no
voto, o descontentamento com ela ocorreu dessa vez agravado por um clima de medo,
propelido por fake news poderosas, pervasivas, mesmo quando desmentidas de forma contundente pelos fatos.
“Haitianos comendo gatos” e “votando em massa”; vídeos produzidos na Rússia
denunciando “operações irregulares do FBI”; “democratas apoiando o aborto até depois do nascimento”; Estados Unidos ocupado por “hordas de estrangeiros criminosos
importados pelo governo das masmorras do terceiro mundo”. Todas, notícias falsas.
Somente as postagens de Elon Musk com alegações falsas e vídeos adulterados
acumularam bilhões de visualizações segundo o Grok, concorrente do ChatGPT. Grok
que é do mesmo Elon Musk, que doou 200 milhões de dólares e fará parte do governo
Trump.
Concluindo
O certo é que a inflação aliou-se ao medo, e os americanos deram lugar - com o novo governo Trump majoritário na Câmara e no Senado, e respaldado pela
maioria conservadora nos Suprema Corte - a uma era de incerteza como poucas vimos
antes. Nesse momento, não é exagero afirmar, voltando à metáfora de Chul Han, que a
liberdade do mundo entrou em quarentena.
*Antonio Lavareda é cientista político e sociólogo, IPESPE/ UFPE. Presidente de Honra da ABRAPEL -
Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais.
(Palestra proferida na Conferência
Internacional “O Porto da Liberdade”. Promovida pelo Instituto Português de História e
Cultura Local. Porto. Portugal. 26/11/2024).
Leia outras informações
É Findi - A Mãos-cheias - Poema - Por, Eduardo Albuquerque*
28/03/2026
Na literatura
Nela maturo
Derrubo muros
A aberturas
Sem agruras
Aventuras
Sem censuras
Saia da clausura
Veja a conjuntura
Espelhe cultura
Com desenvoltura
Um pouco de doçura
Curta sutis leituras!
*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor.
Novas leituras
Na literatura
Nela maturo
Derrubo muros

A aberturas
Sem agruras
Aventuras
Sem censuras

Saia da clausura
Veja a conjuntura
Espelhe cultura

Com desenvoltura
Um pouco de doçura
Curta sutis leituras!
*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor.

É Findi - E Agora, Brasil! - Poema, por Maria Inês Machado*
28/03/2026
Vejo a esperança de novo país esvaziar-se
em quimeras forjadas pela ambição desmedida.
Nós, teus filhos, ainda sonhamos
hastear a tua linda bandeira
e cantar o hino da liberdade tão desejada...
Mas as cores das matas, do ouro e da prata
foram manchadas pelo luto,
e vejo as lágrimas brotarem em tua face
diante da dor provocada por teus filhos.
Assisto à indiferença triunfar.
A ciência é amordaçada,
a corrupção avança,
e corpos tombam
em covas rasas de cemitérios improvisados.
Vejo tuas florestas devastadas
clamarem por socorro;
mas a ambição desenfreada
cega o bom senso, e a imoralidade persiste.
Ah, meu Brasil, meu Brasil brasileiro!
Até quando serás estrangeiro
nas mãos inescrupulosas dos teus algozes?
Percebo o poder em seu jogo subliminar:
“as crias” são blindadas,
e o vel...
Brasil, sinto a dor invadir teu seio varonil.
Vejo a esperança de novo país esvaziar-se
em quimeras forjadas pela ambição desmedida.
Nós, teus filhos, ainda sonhamos
hastear a tua linda bandeira
e cantar o hino da liberdade tão desejada...
Mas as cores das matas, do ouro e da prata
foram manchadas pelo luto,
e vejo as lágrimas brotarem em tua face
diante da dor provocada por teus filhos.
Assisto à indiferença triunfar.
A ciência é amordaçada,
a corrupção avança,
e corpos tombam
em covas rasas de cemitérios improvisados.
Vejo tuas florestas devastadas
clamarem por socorro;
mas a ambição desenfreada
cega o bom senso, e a imoralidade persiste.
Ah, meu Brasil, meu Brasil brasileiro!
Até quando serás estrangeiro
nas mãos inescrupulosas dos teus algozes?
Percebo o poder em seu jogo subliminar:
“as crias” são blindadas,
e o velho “toma lá, dá cá” se perpetua
como marca indelével.
Já não importam os meios,
pois dizem que os fins tudo justificam.
Brasil, pátria amada,
negam-te os respiradores da esperança e da liberdade,
e te vejo, na UTI, perecer, asfixiado,
pela ausência do oxigênio da ética.
*Maria Inês Machado é psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Intervenção Psicossocial à família. Possui formação em contação de histórias pela FAFIRE e pelo Espaço Zumbaiar. Gosta de escrever contos que retratam os recortes da vida. Autora do livro infantojuvenil 'A Cidade das Flores'.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Bom dia, Crônica, por AJ Fontes*
28/03/2026
Eu fico aqui, na varanda, arrumando minhas tarefas na cabeça. O cheiro do café me arrasta para a primeira.
Na mesa, entre colheradas de mamão, rolo a telinha do celular e respondo a alguns bons dias.
A saudação marca o início de um ciclo. Só isso? O melhor é que não. Desde o primeiro bocejo na cama dizendo que começou, tenho consciência da minha presença, mas o que entendo ser o mais importante é o reconhecimento da minha participação nesse molho de acontecimentos. Eu e os amigos físicos, virtuais, físico-virtuais; meus irmãos, de sangue e de coração; minha mulher; filhos biológicos e de coração e mais tantos outros seres invisíveis para mim, mas também participantes.
Cada célula do corpo e da alma (se ela as tem) se inunda de felicidade. Não importa a grandeza da interação participativa. Pode ser um fio...
Ouço o cumprimento de meu vizinho que segue pela estrada levando um saco de capim nas costas para alimentar suas vaquinhas.
Eu fico aqui, na varanda, arrumando minhas tarefas na cabeça. O cheiro do café me arrasta para a primeira.
Na mesa, entre colheradas de mamão, rolo a telinha do celular e respondo a alguns bons dias.
A saudação marca o início de um ciclo. Só isso? O melhor é que não. Desde o primeiro bocejo na cama dizendo que começou, tenho consciência da minha presença, mas o que entendo ser o mais importante é o reconhecimento da minha participação nesse molho de acontecimentos. Eu e os amigos físicos, virtuais, físico-virtuais; meus irmãos, de sangue e de coração; minha mulher; filhos biológicos e de coração e mais tantos outros seres invisíveis para mim, mas também participantes.
Cada célula do corpo e da alma (se ela as tem) se inunda de felicidade. Não importa a grandeza da interação participativa. Pode ser um fio de linha fiado em um único encontro, físico ou virtual, desses em que há interesse em ganhos e perdas; pode ser uma grossa corda fiada ao longo de aniversários, seguidos de agrados e desagrados quando acontecem afagos e safanões. A tecitura acontece em bons ou nem tão bons dias.
Isso é a riqueza da construção, quando reconhecemos as diferenças nas cores a evidenciar a alegria pelo nascimento e a tristeza pelo luto; nos cruzamentos distintos da trama com a urdidura nos ensinando diferentes maneiras de montar o tecido. Aqui e acolá existem nós dissonantes, falhas a nos mostrar outros encaminhamentos.
Observando os erros e acertos, continuamos tecendo em conjunto, entrelaçando as mãos, sentindo a suavidades e asperezas, fugacidades e longevidades, firmezas e fraquezas. Aquelas que estão por um fio de se irem e as que com um fio se chegam.
Já não vejo o início da empreitada, apenas tenho ciência através das marcas mostradas: multicoloridas, primaveris, festivas; monocromáticas em tons de terra, branco de neve, negro da morte e, bastante, vermelho da guerra.
Vê-se que o tecido é infindável. Somos nós que temos participação mais ou menos longa. Eu, por exemplo, conto que estarei nessa lida por mais outro tanto do tempo que tenho aqui. Pretendo estar junto com boa parte daqueles que falei: minha mulher, meus filhos, irmãos e amigos.
Tomara que lembre bem deles e desse escrito.
Então.
Bom dia!
*AJ Fontes, contista e cronista, engenheiro aposentado, e eterno estudante na arte da escrita, publicou o livro de contos: ‘Mantas e Lençóis’.

É Findi – Colheitas do Bem – Croniqueta, por Xico Bizerra*
28/03/2026
Os versos se dependurarão na sombra dos sonetos, se juntarão às rimas, enfeitando pomares da ventura e alegrando o paladar dos homens de bem. Estrofes de um vento feliz se espalharão pelos ares.
Que passe o mal, que a cura não se demore, que os ventos sejam de felicidade plena. Os abraços reclamam e o sorrir precisa libertar-se de máscaras. O bem há de prevalecer. A gente merece ser feliz.
Que o vinho amargo seja derramado e a Paz vencedora vença o canhão, como digo no meu samba Léos, Vinas e Bernardos.
Plantemos o Bem!
*Xico Bizerra, é compositor, poeta e escritor.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.
Toda semente plantada por um Poeta há de se transformar em frondosa árvore que frutifica sabores diversos, doces e saudáveis. Nem importa o tempo da gestação pela certeza da colheita num tempo de luz e paz.
Os versos se dependurarão na sombra dos sonetos, se juntarão às rimas, enfeitando pomares da ventura e alegrando o paladar dos homens de bem. Estrofes de um vento feliz se espalharão pelos ares.

Que passe o mal, que a cura não se demore, que os ventos sejam de felicidade plena. Os abraços reclamam e o sorrir precisa libertar-se de máscaras. O bem há de prevalecer. A gente merece ser feliz.
Que o vinho amargo seja derramado e a Paz vencedora vença o canhão, como digo no meu samba Léos, Vinas e Bernardos.
Plantemos o Bem!
*Xico Bizerra, é compositor, poeta e escritor.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - O Bote do Tigre - Crônica - Por, Romero Falcão*
28/03/2026
Brutalidade e Beleza
Dentro do ônibus, com a cara na janela, torço para encontrar, nos sebos do centro do Recife, a obra do peso pesado da literatura brasileira, Raimundo Carrero — escritor potente, de personagens áridos, densos, ambivalentes. Só um artista da envergadura de Carrero é capaz de jogar o leitor no ringue da vida, no meio de tensão, contradição, brutalidade e beleza. Estilo e linguagem 'gracilianos'. Texto enxuto, econômico. Diz o que precisa ser dito. Resolve numa pancada. Não espere um Carrero linear. Os grandes escritores não escrevem com a lógica que o homem...
Lambuzo a face de protetor solar. Dirijo-me à parada de ônibus. Encontro duas mulheres aguardando a onça dura, quente. Passo a vista. Varro o ambiente. Pressinto desgraça. Dois elementos numa moto se aproximam; a velocidade diminui. Busco abrigo, posição, como manda a boa técnica. O cronista com cara de alesado agora é sangue no olho. Felizmente, não foi dessa vez. Alarme falso.
Brutalidade e Beleza
Dentro do ônibus, com a cara na janela, torço para encontrar, nos sebos do centro do Recife, a obra do peso pesado da literatura brasileira, Raimundo Carrero — escritor potente, de personagens áridos, densos, ambivalentes. Só um artista da envergadura de Carrero é capaz de jogar o leitor no ringue da vida, no meio de tensão, contradição, brutalidade e beleza. Estilo e linguagem 'gracilianos'. Texto enxuto, econômico. Diz o que precisa ser dito. Resolve numa pancada. Não espere um Carrero linear. Os grandes escritores não escrevem com a lógica que o homem de bem pede e aprova.
Farejou o Lucro do Dia
Na primeira loja, recebo a negativa; na segunda, também um não. Persisto, de porta em porta. Até que um único exemplar me esperava. Dizem que os livros aguardam pacientemente pelo leitor. Cheguei com muita sede ao pote. O vendedor farejou o lucro do dia, cravou a dentada. Nem pechinchei, fiz o pix. Ele enfiou Carrero no saco plástico. Botei debaixo do braço.

Fina Feito Hóstia
Dei uma pernada até a tradicional padaria Santa Cruz. Ao passar pelo Pátio de Santa Cruz, contemplo Reginaldo Rossi em pedra, sob o sol de março. Nunca apreciei o brega, mas a alegria que o “Garçom” levou ao povo merece aplausos e respeito. Na padaria, peço a torrada mais gostosa da Veneza Brasileira, fina feito hóstia. No balcão, a vitrine de doces. Um cliente comenta:

— Não posso comer doce.
Outro diz:
— Tudo tem açúcar.
Eu arremato:
— Até mulher tem açúcar.
Os dois caem na risada.
Escreve Meu Mestre
De volta à minha toca, no sacolejo do ônibus, abro as páginas de História de Bernarda Soledade — A Tigre do Sertão. O Tigre dá o bote. Escreve meu mestre: “Na verdade, eu estava querendo escrever sobre o poder — o poder supremo, o poder absoluto. Um livro político e armorial, ao mesmo tempo. Mas não queria usar generais e coronéis, queria metáforas. Por isso fui buscar personagens femininas.” De cara, fui mordido pela Tigre do Sertão.
*Romero Falcão é cronista e poeta. Articulista de O Poder.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi – Iluminação Pública - Por, Carlos Bezerra Cavalcanti*
28/03/2026
Dezessete anos depois (1839), surgiu a proposta para se implantar o novo sistema de iluminação a gás carbônico, como, de certo, já existia em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Vem dessa época a figura do Acendedor do Lampião de Gás protagonizada por escravos. O poeta Jorge de Lima, vendo-o tantas e tantas vezes, na sua faina crepuscular, nele inspirou-se e fez o seu célebre Alexandrino:
Lá vai o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, imperturbavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua.
Quando a sombra da noite enegrece o presente.
Um, dois, três lampiões acende e continua
...
Antes, muito antes da criação da Companhia de Eletricidade de Pernambuco (CELPE), no ano da Independência do Brasil (1822), os lampiões de azeite de carrapateira começaram a iluminar as noites recifenses, cabendo ao Inspetor de Obras Públicas a incumbência desse serviço que, até então, se limitava às freguesias centrais.
Dezessete anos depois (1839), surgiu a proposta para se implantar o novo sistema de iluminação a gás carbônico, como, de certo, já existia em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Vem dessa época a figura do Acendedor do Lampião de Gás protagonizada por escravos. O poeta Jorge de Lima, vendo-o tantas e tantas vezes, na sua faina crepuscular, nele inspirou-se e fez o seu célebre Alexandrino:
Lá vai o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, imperturbavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua.
Quando a sombra da noite enegrece o presente.
Um, dois, três lampiões acende e continua
Ou mais a acender ininterruptamente
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente
Triste ironia, atroz que senso humano irrita
Ele que doira a noite e ilumina a cidade
Talvez não tenha luz na choupana em que habita
Tanta gente, também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como o acendedor de lampiões de rua.
Em 26 de abril de 1858 foi finalmente inaugurada a iluminação a gás do Recife abastecida pelo Gasômetro, instalado nas proximidades da atual Casa da Cultura.
Em 1914, muitos progressos chegaram à capital de Per-nambuco, as obras de modernização do porto, e do Bairro do Recife estavam bem adiantadas. Assim, neste mesmo ano, rece-beria o Recife a sua iluminação à luz elétrica, com as lâmpadas de filamento que, posteriormente, foram substituídas pelas de vapor de mercúrio implantadas em 1965, pelo então prefeito Augusto Lucena. Nessa época, o Recife, de tão iluminado, era chamado de “Cidade Luz”, (a Paris brasileira).
A Companhia de Eletricidade de Pernambuco (CELPE) foi criada justamente nessa época, 10 de fevereiro de 1965, com se-de na esquina das ruas da Aurora e Princesa Isabel, (atual Polícia Civil) vindo ocupar o seu atual prédio na Av. João de Barros nº 111, dez anos depois.
*Carlos Bezerra Cavalcanti, Presidente Emérito da Academia Recifense de Letras

É Findi – Meu Mundo é a Roça - Por, Poeta Pica-Pau*
28/03/2026
Conheço a terra que é do plantio
Sei da semente, do sol e do frio
Planto o roçado, limpando o mato
Meus pés calejados, nunca usaram sapato
Meu transporte, é um burro de sela
Minha TV, é a paisagem tão bela
Vivo assim ,e sou satisfeito
Meu mundo é bonito, mais que perfeito
E da vida não tenho, o que reclamar dela.
Sou filho da roça, vivo contente
No cantar do galo, começa o meu dia
O sol me acorda,trazendo alegria
Na lida da terra, eu sigo em frente
A fé em Deus, é quem guia a gente
No céu vejo, a nuvem singela
O vento balança, a rama amarela
A vida é simples , mais tem seu valor
Quem mora na roça, tem mais amor
É só alegria, pra quem mora nela
*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE.
Sou filho da roça, caboclo pacato
Conheço a terra que é do plantio
Sei da semente, do sol e do frio
Planto o roçado, limpando o mato
Meus pés calejados, nunca usaram sapato
Meu transporte, é um burro de sela
Minha TV, é a paisagem tão bela
Vivo assim ,e sou satisfeito
Meu mundo é bonito, mais que perfeito
E da vida não tenho, o que reclamar dela.

Sou filho da roça, vivo contente
No cantar do galo, começa o meu dia
O sol me acorda,trazendo alegria
Na lida da terra, eu sigo em frente
A fé em Deus, é quem guia a gente
No céu vejo, a nuvem singela
O vento balança, a rama amarela
A vida é simples , mais tem seu valor
Quem mora na roça, tem mais amor
É só alegria, pra quem mora nela
*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE.

É Findi - Malude Maciel* Chegando Em Dose Tripla Mais Uma Vez
28/03/2026
Abraço é coisa tão boa
Imensamente capaz
De destruir as arestas
Na vida, com muita paz
O abraço é poderoso
Transmite grande energia
Importante e prazeroso
Cura e dá alegria
Eleva a alma carente
Acaba com a melancolia
Dá fim às desavenças
Promove a harmonia.
Omissão - Um poemeto da Aprendiz
Não deixe o carinhoso beijo
Sem dar,
Nem a boa palavra
Sem pronunciar,
Se há um abraço
Por que não abraçar?
E que o sorriso gostoso
Pra tudo iluminar...
Venha brilhar.
A gente se omite,
Se oprime,
Se acovarda,
E o tempo passa
Sem nenhum retorno
Nem favor.
Aproveitemos, pois
Cada instante,
Fazendo de cada gesto,
Ato de amor.
<...
Abraço - Ainda pelo Dia Internacional da Poesia
Abraço é coisa tão boa
Imensamente capaz
De destruir as arestas
Na vida, com muita paz
O abraço é poderoso
Transmite grande energia
Importante e prazeroso
Cura e dá alegria
Eleva a alma carente
Acaba com a melancolia
Dá fim às desavenças
Promove a harmonia.
Omissão - Um poemeto da Aprendiz
Não deixe o carinhoso beijo
Sem dar,
Nem a boa palavra
Sem pronunciar,
Se há um abraço
Por que não abraçar?
E que o sorriso gostoso
Pra tudo iluminar...
Venha brilhar.
A gente se omite,
Se oprime,
Se acovarda,
E o tempo passa
Sem nenhum retorno
Nem favor.
Aproveitemos, pois
Cada instante,
Fazendo de cada gesto,
Ato de amor.

O outono da Vida - Poema
Vinte de março
Chegada do outono
Oficialmente
Como no ano
A vida tem suas estações
Passamos delicadas transições
Quase imperceptível mente
Dá primavera
Ao verão
Depois o outono
E o inverno, finalmente.
Aos poucos
Compreendemos
Que o tempo
Faz-nos amadurecer
Mudar não é fracassar,
Não é perder,
É prosseguir
E transformar
No outono da vida,
Safra colhida,
A alma recorda-se
Da partida,
Do passado bem vivido.
Com gratidão,
No silêncio,
Tudo tem novo sentido.
Um sábio coração
Entende a necessária
E intransferível
Modificação.
O mistério profundo
Dá existência
É aceitar com maturidade
O declínio da idade
E favorecer o nascimento
De outras maneiras de crescimento.
Há quatro estações
Na vida,
Semelhante às dos anos
Se em algumas há flores,
Em outras há desenganos.
*Malude Maciel, Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras, ACACCIL, cadeira 15 pertencente à professora Sinhazina.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

Disse tá dito "Fui eleito pra resolver, não pra resmungar" alfinetou João Campos
27/03/2026
Prefeito do Recife, João Henrique Campos (PSB), na inauguração da Ponte Júlia Santiago, hoje sexta-feira, 27/03). A ponte é uma importante obra que, segundo o prefeito, representa o sentimento de trabalho da sua gestão no Recife. Segundo ele, era um projeto que moradores dos bairros de Areias e da Imbiribeira aguardavam há cerca de cinco décadas.
Ele disse que fez os cálculos e usou da força política para garantir a liberação de mais de R$ 500 milhões.
A Ponte Júlia Santiago tem 300 metros de extensão e foi construída com quatro faixas de rolamento. O trajeto entre Areias e a Imbiribeira, que levava cerca de uma hora, passa a ser em minutos com o novo equipamento.
Foto: Rafa...
"Não fiquei resmungando, enfim, apontando problemas, terceirizando responsabilidade. Sempre busquei fazer o dever de casa. A gente foi eleito para estar aceitando ‘isso não dá para fazer’, ‘sempre foi assim’. A gente está aqui para fazer e buscar o sim”.
Prefeito do Recife, João Henrique Campos (PSB), na inauguração da Ponte Júlia Santiago, hoje sexta-feira, 27/03). A ponte é uma importante obra que, segundo o prefeito, representa o sentimento de trabalho da sua gestão no Recife. Segundo ele, era um projeto que moradores dos bairros de Areias e da Imbiribeira aguardavam há cerca de cinco décadas.
Ele disse que fez os cálculos e usou da força política para garantir a liberação de mais de R$ 500 milhões.
A Ponte Júlia Santiago tem 300 metros de extensão e foi construída com quatro faixas de rolamento. O trajeto entre Areias e a Imbiribeira, que levava cerca de uma hora, passa a ser em minutos com o novo equipamento.
Foto: Rafael Vieira/DP
O relato de quem viu demais - O massacre que não cabia na República, por Zé da Flauta
27/03/2026
Encontro
Quando chegou ao sertão, o que viu começou a rachar suas certezas. Guerra de Canudos não era uma simples operação militar, era um esmagamento. Homens, mulheres e crianças vivendo com fé, miséria e resistência, enfrentando um exército muito mais forte. Aquilo não parecia uma guerra justa, parecia outra coisa, algo mais difícil de nomear. A terra seca, o sofrimento e a coragem daquele povo começaram a mexer com ele de um jeito que nenhum livro tinha preparado.
Quebra
Ele foi com a cabeça cheia de certezas. Euclides da Cunha acreditava que estava indo ao encontro de um erro que precisava ser corrigido, um foco de atraso que ameaçava a ordem da jovem República. Foi como jornalista, mas também como homem de seu tempo, carregando ideias prontas, convicções firmes e uma confiança quase ingênua na versão oficial dos fatos. Canudos, para ele, antes da viagem, era mais um problema a ser explicado do que um povo a ser compreendido.
Encontro
Quando chegou ao sertão, o que viu começou a rachar suas certezas. Guerra de Canudos não era uma simples operação militar, era um esmagamento. Homens, mulheres e crianças vivendo com fé, miséria e resistência, enfrentando um exército muito mais forte. Aquilo não parecia uma guerra justa, parecia outra coisa, algo mais difícil de nomear. A terra seca, o sofrimento e a coragem daquele povo começaram a mexer com ele de um jeito que nenhum livro tinha preparado.
Quebra
A cada dia, a narrativa que ele carregava por dentro ia se desfazendo. O que era para ser um relato de vitória virou testemunho de brutalidade. O que era para ser progresso revelou-se violência crua. Euclides viu de perto o que acontece quando o poder decide não ouvir. E ali, no meio do sertão, talvez tenha percebido que a verdade não mora nos discursos, mora nos olhos de quem sofre.
Retorno
Ele voltou diferente. Não apenas decepcionado, mas marcado. Trouxe consigo um país que não cabia mais nas explicações simples. Em seu silêncio e depois em suas palavras, especialmente em Os Sertões, ficou o registro de um pesadelo que não era só dele, era de todos nós. Porque às vezes a maior tragédia não é a guerra em si, é descobrir tarde demais que se estava do lado errado da história.
Até a próxima!
Zé da Flauta é compositor e cronista
