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A Verdadeira História por Trás de 'The Doctor' a Pintura Vitoriana que Emocionou o Mundo.

29/03/2025 -

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(The Doctor, Sir Luke Fildes, 1891, Tate Gallery)

Por Gustavo Carvalho*, com apoio do Amigo Intelligence.

E com um silêncio, tudo começou...

Não o silêncio confortável, do repouso, mas o silêncio opressivo, de um quarto onde a vida pendia por um fio. Em 1877, Sir Luke Fildes, pintor consagrado da era vitoriana, segurava o vazio enquanto assistia seu filho Philip, de apenas 7 anos, morrer, aos olhos consternados e impotentes da medicina da época.
Mas havia ali um homem - o médico - que permaneceu. Que não salvou, mas ficou.
Sem pressa. Sem promessas. Sem milagres.
Apenas uma presença firme diante do inevitável.

Philip

Uma criança outrora normal e saudável, adoeceu subitamente e veio a falecer em poucos dias, vitimado pela febre tifóide, que na época, era uma doença fulminante, especialmente em crianças. O filho de Fields foi a óbito durante uma dessas longas vigílias noturnas, em que o médico permaneceu impotente ao lado da sua cama — uma imagem que se tornou a semente emocional e estética de sua mais famosa obra.
Esse curto, porém devastador episódio marcou profundamente a vida de Fildes, que nunca esqueceu a dedicação silenciosa daquele médico.

Dr. Gustavus Murray

Fildes tinha profunda admiração por ele - não necessariamente pela eficácia clínica, já que a medicina da época era bastante limitada contra febre tifóide - mas pela dedicação silenciosa, constante e humana. Em uma de suas cartas, Fildes escreveu: "Dr. Murray nunca deixou o quarto de Phillip, permanecendo ao lado do meu filho por noites inteiras, observando, vigiando, esperando, mesmo sabendo que possivelmente não poderia reverter o desfecho."
Embora o nome do Dr. Murray não apareça na obra, a figura imortalizada na pintura é, antes de tudo, uma homenagem a ele - ao cuidado que persiste, mesmo quando a cura já não é mais possível.

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A imagem

Do médico, imóvel e atento ao pequeno paciente, ficou gravada em Fildes com tamanha força emocional que, mais de uma década depois, foi a inspiração para pintar The Doctor.

Anos mais tarde

Henry Tate - industrial brilhante, visionário e filantropo - aproximou-se de Fildes com uma proposta simples e grandiosa: “Pinte para mim o que quiser.”
Tate, que havia feito fortuna com o refino de açúcar e introduzido o açúcar em cubos ao mercado britânico, agora queria adoçar o espírito do seu povo com cultura. E não hesitou em investir: pagou adiantado £1.200 libras esterlinas, uma fortuna na época, para que Fildes criasse uma obra-prima.
Mas o que Fildes decidiu pintar não era ficção. Era sua memória.

Durante quase dois anos

O artista lutou contra a própria dor ao pintar.
Cada pincelada era um reencontro com o quarto da morte do seu filho. Cada esboço, um novo funeral da criança. Em suas cartas, confessava:
“Estou afogado neste quadro. Há noites em que ouço a respiração do meu filho, e não consigo levantar o pincel.”

Ele pensou em parar

Mas continuou.
Porque sabia que, ao dar forma à presença silenciosa daquele médico, o Dr. Murray, estaria salvando algo. Se não seu filho, ao menos a essência da compaixão humana, a alma da medicina.

E então nasceu The Doctor

A cena é simples e dilacerante: no centro repousa a criança enferma, deitada numa cama improvisada feita com duas cadeiras irregulares. Seu corpo frágil está coberto por um cobertor espesso, mas sua pele pálida denuncia a luta silenciosa que trava contra a terrível febre tifóide. Seu braço repousa inerte, a cabeça tombada para o lado — entre o sono e o limiar da morte. Talvez ainda respire, talvez não. Mas ali, suspensa no tempo, repousa toda a inocência em risco. Atrás dela, está a mãe, curvada sobre uma mesa de madeira. O rosto escondido nos braços, como se quisesse desaparecer do mundo. Ela não assiste à cena, ela sente a cena. A sua posição de desespero e oração, é o retrato da rendição total. A mulher que gerou vida agora apenas roga para que ela não se apague. Sua figura, encolhida e submersa na sombra, ecoa a dor do abandono pela esperança.

À direita da mãe

De pé, está o pai. Ele não chora. Ele vigia. Seus ombros estão tensos, seu corpo rígido, os olhos cravados na filha. Uma das mãos toca levemente o encosto da cadeira, talvez buscando equilíbrio, talvez apoio. Sua expressão é de quem deseja controlar o incontrolável. Ele é o pilar da casa, que já trinca por dentro. É o homem esmagado pelo destino de não poder salvar o que mais ama, sua pequena filha.

Entre todos

Como um eixo invisível, está o médico. Sentado à beira da cama, inclinado para frente, o cotovelo apoiado no joelho, o queixo sustentado pela mão.
Ele não tem estetoscópio, nem instrumentos cirúrgicos.
Tem apenas olhos atentos, mãos firmes e um coração acordado.
Ele não toca a criança, mas a observa com uma intensidade que toca mais do que qualquer instrumento. Seu rosto carrega cansaço, compaixão e uma silenciosa urgência. Ele não é um salvador divino, é apenas um homem. Um homem que escolheu estar ali quando ninguém mais poderia fazer nada.
A medicina do século XIX não lhe dá muitos recursos, mas ele oferece o mais raro: a sua presença.

Ao redor deles

O ambiente é pobre e austero. As paredes nuas, os móveis improvisados, a toalha gasta sobre a mesa. Um copo, um frasco de remédio, alguns papéis no chão. Cada objeto reforça a precariedade daquela vida. A cama não é cama. O quarto é cozinha, sala e hospital.

E então

Num toque quase divino, entra a luz.
Uma luz suave, dourada, fruto de um alvorecer que teima invadir o ambiente insalubre.
A luz toca o rosto da criança e avança até o médico.
É a luz da esperança, que sinaliza não apenas o início de um novo dia, mas a possibilidade de um novo desfecho.
Na medicina vitoriana, a noite era temida: era na escuridão da noite quando as febres matavam. Mas quem sobrevivia até o amanhecer, tinha alguma chance.
Por isso, essa luz não é apenas poética.
Ela é esperança real e biológica, renascimento clínico, milagre natural.
Ela diz: ainda poderá haver vida.

E nesse instante

Suspenso entre a morte e a manhã que chega, que The Doctor nos lembra, às vezes, o maior ato médico é simplesmente não ir embora.
A vigília é um gesto de amor.
E a luz, é mais que uma promessa, é esperança de vida real.
É o sol tentando dizer: “Ela resistiu.”

O rosto da criança

Ainda está abatido, mas banhado por essa luz que, ao tocar sua pele, parece reacender a centelha vital.
A noite passou. O pior passou.

E o médico

Observa atento, com os olhos firmes, mas agora com um leve traço de alívio no olhar.
Ele sabe. Ainda há esperança.

A obra

Foi exibida em 1891 e causou comoção imediata.
Mais de um milhão de cópias foram vendidas só nos Estados Unidos antes de 1900. Hospitais, escolas, lares: todos quiseram aquela imagem onde a esperança veste um terno escuro e se senta ao lado da cama de uma criança doente.
Henry Tate, com seu gesto filantrópico, doou não só The Doctor, mas toda a sua coleção para a nova galeria que ele mesmo financiou: a Tate Gallery.
Não o fez por vaidade. Mas por gratidão.
Por acreditar que a arte tem o poder de ensinar o que a ciência, às vezes, esquece: a importância de simplesmente estar presente.

Hoje

Na Tate Britain, The Doctor ainda vigia. Os visitantes se aproximam, silenciosos, e sentem.
Sentem muito.
Sentem o peso da noite. Sentem a luz da manhã.
Sentem que, mesmo diante da morte, existe um gesto maior: o de não abandonar, nunca.

E ali, naquela pintura imortal

Fildes e Tate se encontram. O pai que perdeu e o filantropo que doou, unidos pela arte que cura e pela esperança que jamais se extingue, transformando a dor em profunda beleza. Porque a luz da manhã não é só a metáfora.
É a vida que retorna.
É a fé que amanhece.
É a arte que cura.

*Gustavo Carvalho, MD, MBA, MSc PhD é cirurgião geral, professor adjunto de Cirurgia Geral da UPE, pós graduado em Cirurgia Digestiva pela Universidade KEIO no Japão e consultor de Inteligência Artificial da Amigo Tech.
Instagram: doutorgustavocarvalho


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