É Findi - Pega! Crônica, por AJ Fontes*
10/05/2025
Ressoava uma das tantas músicas que ouvimos no show de Paulinho da Viola no Classic hall, ao chegarmos em um bar participante do Comida de Buteco, próximo ao Mercado da Encruzilhada.
Meio aos nacos do salgado principal da casa, goles de caipirinha, cerveja e rum com coca-cola, o prezado compositor e cantor Nuca Sarmento percebeu que estávamos no Antiquário. Era esse o nome do bar, nos idos de 1970, onde o amante da boa música cantava acompanhado de seu violão.
Ele recordou uma das muitas noites que tocou e cantou lá. Tomava os últimos goles de rum misturado, depois da apresentação, enquanto o amigo e proprietário tentava convencê-lo de dormir no sofá do escritório. Nuca agradeceu, mas queria mesmo era encostar a cabeça no seu travesseiro. Guardou o instrumento, colocou nas costas e disse até logo.
Cabeça baixa, seguiu pela calçada do mercado, alheio ao vazio da noite, contando de cabeça os cruzeiros guardado...
Ressoava uma das tantas músicas que ouvimos no show de Paulinho da Viola no Classic hall, ao chegarmos em um bar participante do Comida de Buteco, próximo ao Mercado da Encruzilhada.
Meio aos nacos do salgado principal da casa, goles de caipirinha, cerveja e rum com coca-cola, o prezado compositor e cantor Nuca Sarmento percebeu que estávamos no Antiquário. Era esse o nome do bar, nos idos de 1970, onde o amante da boa música cantava acompanhado de seu violão.
Ele recordou uma das muitas noites que tocou e cantou lá. Tomava os últimos goles de rum misturado, depois da apresentação, enquanto o amigo e proprietário tentava convencê-lo de dormir no sofá do escritório. Nuca agradeceu, mas queria mesmo era encostar a cabeça no seu travesseiro. Guardou o instrumento, colocou nas costas e disse até logo.
Cabeça baixa, seguiu pela calçada do mercado, alheio ao vazio da noite, contando de cabeça os cruzeiros guardados no bolso e se dava por satisfeito ter o suficiente para a passagem e meia carteira de minister.
Espantou-se quando sentiu um peso sobre os ombros. Quis se afastar, mas não conseguiu. Um sujeito segurou com firmeza, encostou a boca no ouvido dele.
— Se aperrei não. Só quero o dinheiro.
— Bicho, sobrou o da passagem de ônibus.
— Faça isso não com seu irmão. Preciso levar algum pra casa.
No meio da conversa do que parecia ser de dois amigos no fim de uma farra, o sujeito passou a mão no couro às suas costas e fez nosso amigo se encolher, fechar os olhos. Rápido buscou desviar a atenção.
- Cara, tem gente em algum lugar com dinheiro.
Não teve jeito. Com os olhos fixos e um sorriso se abrindo.
— É um violão, né?
— É com ele que faturo algum. Faz isso não.
— Então...
O sorriso se completou e ele esfregou os dedos na altura dos olhos.
Choroso, olhando as pedras da calçada, entregou o dinheiro amassado, continuou andando. O silêncio fez Nuca voltar a cabeça para o lado e não viu mais o sujeito. Parou, deu meia volta para o bar. Três passos adiante e percebeu alguém caminhando ao lado.
— Passa o dinheiro, senão leva.
O cantor abriu os braços.
— Porra! Acabei de ser assaltado.
— Foi mesmo. Eu vi. Parados no meio da rua, sob o facho da luz do poste, o novato escaneia Nuca.
— O quê é isso aí no bolso?
Desalentado, Nuca retira uma carteira amassada com o último cigarro.
— Aí, velho, te manda que é perigoso andar por aqui.
Em um passe de mágica, as sombras o engoliram.
O autor do frevo Pernambucana, estático, parecia contar as folhas caídas das árvores quando viu chegar um par de pés descalços.
— Moço, tem um dinheiro aí?
— Você tá brincando, né?
— Tá certo, eu vi tudo. Aperrei não que eu levo o senhor no bar.
À maneira dos anteriores, também se escafedeu.
Nuca resolveu encarar as risadas do amigo, no Antiquário. Encostou o pinho em uma cadeira e embarcou no sofá de onde acordou com o sol na cara, saindo de um sonho e gritando.
— Pega ladrão!

*AJ Fontes, contista e cronista, engenheiro aposentado, e eterno estudante na arte da escrita, publicou o livro de contos: ‘Mantas e Lençóis’.
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É Findi - No Beco dos Cachorros - Fábula - Por Romero Falcão*
25/07/2026
Um reduto de cães de rua rebeldes que se nega a virar pets. Os animais levantam a bandeira do cão raiz, enfrentando as dificuldades de viver sem teto nem comida certa: catando lixo, debaixo de chuva e sol, escapando dos carros nas movimentadas avenidas.
— Se os humanos conseguem viver feito bicho pelas ruas, por que nós não conseguimos? Se o homem não tem piedade do homem, por que devemos aceitar seu amor em troca da nossa humanização? — late alto o líder da cachorrada, Bala Ferro, perante ouvidos e faros atentos no Beco dos Cachorros.
— Mas, Bala Ferro, não seja radical. Há humanos de coração bom. Se são cruéis com eles mesmos e amorosos conosco, que seja assim. Quem sabe o Deus deles faça de nós instrumentos para tentar modificá-los? — questiona a cachorra Piaba.
...
O guabiru passeia rente aos pés de um mendigo enrolado num pano imundo. Um cão cor de mostarda observa a cena. A lua cheia clareia a madrugada no Beco dos Cachorros.
Um reduto de cães de rua rebeldes que se nega a virar pets. Os animais levantam a bandeira do cão raiz, enfrentando as dificuldades de viver sem teto nem comida certa: catando lixo, debaixo de chuva e sol, escapando dos carros nas movimentadas avenidas.
— Se os humanos conseguem viver feito bicho pelas ruas, por que nós não conseguimos? Se o homem não tem piedade do homem, por que devemos aceitar seu amor em troca da nossa humanização? — late alto o líder da cachorrada, Bala Ferro, perante ouvidos e faros atentos no Beco dos Cachorros.
— Mas, Bala Ferro, não seja radical. Há humanos de coração bom. Se são cruéis com eles mesmos e amorosos conosco, que seja assim. Quem sabe o Deus deles faça de nós instrumentos para tentar modificá-los? — questiona a cachorra Piaba.
— Chega de filosofar, Piaba. Daqui a pouco você vai querer mudar de nome, transformar-se em Patrícia e, mais adiante, em Patricinha. É assim que a metamorfose começa, e ninguém sabe como termina — diz Bala Ferro, de cara feia.
Na reunião daquela noite de vento quente, Querosene pede a palavra.
— Eu sempre concordei com o nosso guia, Bala Ferro, mas acho que está na hora de sermos mais inteligentes. Não permitir que os humanos tirem tudo de nós, mas também tirar uma casquinha do conforto de uma cobertura. Já que agora os vira-latas têm vez no mundo carente das madames.
— O que custa fazer companhia a uma vovozinha esquecida por filhos e netos ou ajudar no tratamento da moça de dezoito anos que só vive trancada dentro do quarto, desde que nos ofereçam do bom e do melhor? Deixar uma socialite nos vestir de grife, presentear-nos com uma coleira de ouro. Qual o sacrifício nisso? Afinal, depois que aquilo virar um tédio insuportável, a gente cai fora.
Um dos participantes, após levantar a pata para uma mijada, pergunta:
— Querosene, cadê a fidelidade canina? Lembre-se de que as madames cobram até as últimas consequências. E não é fácil fugir do décimo quinto andar. Uma prisão, ainda que de luxo, pode custar um preço alto. Outro dia ouvi no rádio de Louro da Barraca: um cão cometeu suicídio. Jogou-se de uma torre num bairro chique.
Querosene sacode o rabo, abre a boca, mostra a língua. Aproveita a chegada de um carrapato para encher de sangue a cabeça do medo.
No calor dos focinhos, a comunidade está dividida: uns do lado de Bala Ferro; outros entre Piaba e Querosene. Chegou a hora da eleição. Cada qual mostrará seu programa de governo.
Bala Ferro endurece. Os bichos ficam de orelha em pé.
— Quem votar em mim, fique certo de que modificarei o Código Animal:
O cão que habitar um prédio e receber nome de gente será banido do Beco dos Cachorros.
O cão que usar roupa, deitar em cama ou calçar sapato terá uma pata amputada. A pena será agravada se as vestes forem de marca. Nesse caso, duas patas serão arrancadas.
O cão que frequentar shopping, festa de aniversário, comer à mesa ou dormir na cama entre um casal de humanos será condenado à pena de morte.
Nesse instante, alvoroço, uma tropa de cães late feroz e eufórica. Bate palmas, grita:
— Esse me representa!
— Muito bem! É assim que se faz com cachorro vagabundo que quer virar gente! — berra Carabina, um cão velho e doente.
Então é a vez de Piaba propor sua agenda de governo.
— Cachorros e cachorras deste sagrado Beco, todas e todos sabem do meu instinto conciliador. Manter uma boa convivência com o animal humano é ganho para os dois lados. Isso não mata um cão de raiva. O que mata é mordida por mordida, rosnado por rosnado. Além do mais, cães de fé, o Deus dos homens nos delegou uma missão: resgatar a humanidade perdida do homem pelo homem. Sabem o que é isso?

A turma de Bala Ferro começa a vaiar.
— Tira essa cadela daí! — rosna Carabina.
Os simpatizantes de Piaba rebatem:
— Respeitem uma fêmea e o Deus dos humanos, bando de cachorros!
É a vez de Querosene expor suas ideias.
— Dona Piaba falou bonito, mas esqueceu de dizer que o Deus dos homens quer ver a gente bem: livre de pulgas e carrapatos, tomando banho com xampu e sabonete antissarna. E, se merecermos de verdade, num carrão com motorista. Não seria justo darmos os nervos, a saúde psíquica, para o melhoramento da natureza humana e continuarmos de patas vazias.
Um dos correligionários encosta a boca na orelha de Querosene e cochicha:
— E cachorro tem fé?
— Em época de eleição, Deus é cão. E fecha essa boca, porra! — diz Querosene, quase mordendo.
*Romero Falcão é cronista e poeta. Articulista de O Poder. @romerocoutinhodearruda

É Findi – Apreciaremos a Dose Dupla de Xico Bizerra*
25/07/2026
O dia estrebuchando e Zeca de Dôra a enfiar bufa em saco de feira, com toda a displicência que a tarefa exige. Do franzido da testa aos alicerces do calcanhar, uma fome danada e seu pensamento só se endereçando para o bode posto à mesa, prontinho para matar quem estava lhe matando. Língua chocalhando no céu da boca sem ter com quem conversar. Era um Julho em agonia, já quase virando Agosto.
Eis que chega a visita da amiga Maria José Bezerra Carneiro Leão, Mariinha de Zé Camelo (seu nome mais parecia um jardim zoológico), exímia na arte do nada fazer e também enfiadora de bufa, aposentada como Zeca. Resolveram espalhar a perna e dar uma andada pelo sítio.
E foram, andando e jogando conversa fora. Afinal de contas era um tempo em que as ventosidades caladas, também conhecidas por peidos silenciosos, podiam ser tranquilamente expelidas e enfiadas num saco de feira sem o risco de um assaltante q...
Ensacadores de Bufas - Croniconto
O dia estrebuchando e Zeca de Dôra a enfiar bufa em saco de feira, com toda a displicência que a tarefa exige. Do franzido da testa aos alicerces do calcanhar, uma fome danada e seu pensamento só se endereçando para o bode posto à mesa, prontinho para matar quem estava lhe matando. Língua chocalhando no céu da boca sem ter com quem conversar. Era um Julho em agonia, já quase virando Agosto.
Eis que chega a visita da amiga Maria José Bezerra Carneiro Leão, Mariinha de Zé Camelo (seu nome mais parecia um jardim zoológico), exímia na arte do nada fazer e também enfiadora de bufa, aposentada como Zeca. Resolveram espalhar a perna e dar uma andada pelo sítio.
E foram, andando e jogando conversa fora. Afinal de contas era um tempo em que as ventosidades caladas, também conhecidas por peidos silenciosos, podiam ser tranquilamente expelidas e enfiadas num saco de feira sem o risco de um assaltante que as levasse. Sim, porque hoje em dia até isto se rouba na falta de um celular ou de uma carteira recheada de cédulas e cartões. Ladrões de bufas é o que são.
E aí, tão boa a conversa virou que a lua, descompromissada com as nuvens, deu-lhes a dica de que o ponteiro do relógio já cortejava as 11 horas da noite.
- E o bode?, pergunta Mariinha.
- Isso lá é hora de comer bode, sô! Amanhã nóis come – combinou Zeca.
De barrigas ocas foram dormir com seus sacos de feira repletos de bufas.

O Pavão e o Espanador - Croniqueta
O espanador estava ali, jogado a um canto, empoeirado. Cumprira sua missão diária de espanar o pó, a poeira, o sujo. Ninguém sequer olhava para ele. Antes, enquanto penas do pavão bonito, a ave imodesta julgava-se a maior e tratava mal as outras aves, por não serem tão belas quanto. Não imaginava, em seus desvarios, que também a beleza pode ser passageira, que a boniteza das cores pode ser efêmera se não tratada com a dignidade e com o respeito que merecem seus pares.
Depreciou o galo, por não ter toda a sua boniteza colorida. Achava que o capote, em seu branco e preto nada colorido, só agradava a meia dúzia de outros capotes que lhe cercavam e lhe dedicavam amizade. Fazia-se belo para o mundo esquecendo sua origem humilde e tratava com arrogância quem dele discordasse. Pobre pavão. Hoje é apenas um espanador, sujo, que se limita a tentar limpar a sujeira por ele mesmo deixada.
O capote, em preto e branco, continua no terreiro, alegrando os companheiros do sem-cor. E o galo canta todas as manhãs.
*Xico Bizerra, é compositor, poeta e escritor. @bizerraxico

É Findi - Premissas do Amor - Conto - Por Maria Inês Machado*
25/07/2026
Foi então que Malu ouviu a voz da mãe.
— Filha, venha aqui um instante.
Ao entrar na sala, encontrou dona Luiza séria, embora afetuosa.
— Vamos arrumar a mala. Seu pai já está esperando na garagem. Você vai estudar em colégio interno.
Malu arregalou os olhos.
— Mãe... assim, de repente? O que aconteceu?
Com calma, dona Luiza explicou os motivos da decisão. A menina ouviu tudo em silêncio. Não discutiu. Apenas aceitou. Tinha apenas doze anos e aprendera, desde cedo, que obedecer aos pais fazia parte da vida.
O colégio ficava em cidade serrana.
Durante...
Anos 60. A alegria do carnaval pulsava pelas ruas. O terraço da casa de Malu tornava-se pequeno para acomodar todos os que buscavam o melhor lugar para assistir ao desfile dos maracatus. Serpentinas coloriam o ar e o lança-perfume, que ainda não era proibido, chegava aos espectadores em meio aos risos e às brincadeiras respeitosas dos passistas.
Foi então que Malu ouviu a voz da mãe.
— Filha, venha aqui um instante.
Ao entrar na sala, encontrou dona Luiza séria, embora afetuosa.
— Vamos arrumar a mala. Seu pai já está esperando na garagem. Você vai estudar em colégio interno.
Malu arregalou os olhos.
— Mãe... assim, de repente? O que aconteceu?
Com calma, dona Luiza explicou os motivos da decisão. A menina ouviu tudo em silêncio. Não discutiu. Apenas aceitou. Tinha apenas doze anos e aprendera, desde cedo, que obedecer aos pais fazia parte da vida.
O colégio ficava em cidade serrana.
Durante a viagem, seu Pedro procurava amenizar a tristeza da filha. Apontava a vegetação, as montanhas cobertas de verde, as flores às margens da estrada. Tentava transformar a despedida em passeio.
Mas havia paisagens que Malu já não conseguia enxergar.
Ao chegarem, foram recebidos pela irmã Zenaide, responsável pelas atividades diárias.
As lágrimas insistiam em não cair. Permaneciam presas no coração.
Enquanto acompanhava a freira pelas amplas dependências do internato, seu Pedro mostrava entusiasmo.
— Veja o clima é agradável... Olhe esses jardins... Aqui você vai ficar muito bem.
Malu apenas observava, indiferente.
Na memória ainda desfilavam os maracatus, as serpentinas e os abraços apressados das amigas, despedidas sem tempo para perguntas.
Antes de partir, o pai a abraçou demoradamente.
— Filha, fomos informados de que as saídas acontecem apenas uma vez por semestre. Mas haverá dias de visita para a família. Este lugar é um pedacinho do céu. Repare nas flores, nas árvores... Tudo aqui inspira paz.
Dona Luiza completou:
— Está vendo aquela imagem de Nossa Senhora da Conceição, no fim do corredor? Sempre que sentir saudade, lembre-se dos nossos terços em família.
As palavras dos pais eram carregadas de carinho.
Mas a saudade já havia chegado antes delas.
Aos doze anos, o mundo de Malu ainda era feito de sonhos, brincadeiras e liberdade. No íntimo, seu coração escrevia uma história diferente daquela que os adultos imaginavam.
Suas tias também haviam estudado naquele internato. Para a família, era uma tradição. Para Malu, recomeço inesperado.
A irmã Zenaide explicou a rotina:
— As demais alunas chegarão na próxima semana. Enquanto isso, seu horário flexível. As primeiras orações acontecem cedo, ao toque da sirene. Depois teremos a missa com o capelão. Em seguida, café da manhã, estudos, biblioteca, almoço, recreação, terço na capela às cinco da tarde e recolhimento às oito da noite.
Também mostrou a piscina, os banheiros, o refeitório, a biblioteca, os jardins e cada dependência do colégio.
Era uma escola grande, mas acolhedora.
Existem dores que nenhuma palavra consegue traduzir.
Parece que o vocabulário humano, por mais rico que seja, nunca alcança certos sentimentos.
Há tristezas que apenas o coração registra.
Dias depois, o internato ganhou vida com a chegada das novas alunas.
As aulas começaram.
Na primeira reunião, todas foram organizadas em filas para ouvir a madre superiora.
Após as boas-vindas, veio a leitura do regimento interno.
As regras eram rígidas.
Três advertências significavam a suspensão das visitas familiares. Qualquer ato de indisciplina, individual ou coletivo, resultaria em castigos proporcionais à falta cometida.
Na convivência em grupo, aprenderam rapidamente que assumir erro era também gesto de respeito para com todas as colegas.
Foi nesse ambiente que nasceu uma amizade inseparável.
Malu, Joana e Cíntia.
Amigas. Confidentes. Cúmplices.
Joana tinha quinze anos e carregava uma história diferente.
Era a única filha mulher entre quatro irmãos. Seu pai, fazendeiro viúvo, a havia colocado no internato para afastá-la de Manoel.
Castigo pelo namoro proibido, idas à fazenda foram suspensas.
Recebia apenas as visitas do pai.
Certo dia, aproximou-se das amigas segurando um envelope cuidadosamente dobrado.
— Malu, preciso da sua ajuda. Vou lhe dar o endereço da loja de Manoel. Leve esta carta para ele.
Sem fazer perguntas, Malu aceitou a missão.
Dias depois, retornou das férias trazendo a resposta.
Assim que reconheceu a letra no envelope, Joana sentiu o coração acelerar.
Leu cada palavra lentamente.
Depois reuniu as amigas.
— Manoel quer me encontrar. Não vou perder essa oportunidade. Marieta, minha amiga externa, que mora na cidade, colocará minha carta no correio. Agora preciso da ajuda de vocês.
Com serenidade, explicou o plano.
Malu e Cíntia permaneceriam próximas à entrada interna do auditório, observando qualquer movimentação das freiras.
Se alguém se aproximasse, bastava um sinal.
As portas do auditório davam acesso ao jardim externo.
Seria ali, protegido pela sombra das árvores e pelo silêncio da tarde, que Manoel aguardaria.
Naquele internato, as sirenes marcavam o início das orações, das aulas, das refeições e do recolhimento.
Mas existia outra sirene.
Aquela que ninguém conseguia calar.
A sirene do amor que acorda o coração e vence o medo.
E ela falava mais alto do que qualquer regra.
A coragem de Malu e Cíntia transformou amizade em lealdade.
Graças às duas, outros encontros aconteceram.
Breves. Discretos. Porém suficientes para fortalecerem sentimentos que a distância, os muros do internato e a vigilância constante conseguiram apagar.
O tempo, realizou aquilo que a imposição jamais conseguiu.
O fazendeiro compreendeu que não existia muro alto o bastante para separar dois corações apaixonados.
Resistir tornou-se inútil.
Restou-lhe aceitar o que amor já havia decidido.
Os anos passaram.
A notícia espalhou-se rapidamente pela cidade.
Joana e Manoel iriam se casar.
A cerimônia foi celebrada com toda a imponência das tradicionais famílias de fazendeiros da época.
A igreja Ornamentada. Belos arranjos florais.
Parentes, amigos e autoridades prestigiaram a celebração.
A festa atravessou a madrugada entre música, fartura e alegria.
Entre os convidados estavam Malu e Cíntia.
Quando viram os noivos diante do altar, trocaram sorrisos silenciosos.
Sabiam que, muito antes das assinaturas no livro de registro do casamento, aquela união já havia sido registrada nas páginas do coração pela coragem, amizade e fidelidade de três jovens que acreditaram no amor.
Porque, quando o amor é verdadeiro, sempre encontra caminhos férteis para florescer.
*Maria Inês Machado é psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Intervenção Psicossocial à família. Possui formação em contação de histórias pela FAFIRE e pelo Espaço Zumbaiar. Gosta de escrever contos que retratam os recortes da vida. Autora do livro infantojuvenil 'A Cidade das Flores'. @mariainesmachadopsi
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Angústia - Poema - Por Ana Pottes*
25/07/2026
Todas as portas
Janelas...
Todas as frestas.
Nada de luz
Brilho
Matiz
Ou cores que alegrem.
Quero o breu.
O negrume
Do vazio
Da angústia...
Desejo a escuridão.
O frio
Da solidão.
O nada.
*Ana Pottes, psicóloga, gosta de escrever crônicas, contos e poemas sobre as interações emocionais com a vida. Autora do livro de poemas: Nem tudo são flores, mas... elas existem! @ana_pottes
Que se fechem
Todas as portas
Janelas...
Todas as frestas.
Nada de luz
Brilho
Matiz
Ou cores que alegrem.
Quero o breu.
O negrume
Do vazio
Da angústia...
Desejo a escuridão.
O frio
Da solidão.
O nada.
*Ana Pottes, psicóloga, gosta de escrever crônicas, contos e poemas sobre as interações emocionais com a vida. Autora do livro de poemas: Nem tudo são flores, mas... elas existem! @ana_pottes

É Findi - Felipe Bezerra* vem trazendo Dois Poemas
25/07/2026
Na sela, sobre o dorso
do meu cavalo de raça,
com a rédea, eu domo o tempo,
transitando do passo para a marcha,
avanço no perfeito compasso
de tríplice apoio, encantador.
O tempo é potro que não se amansa
com ansiedade e violência,
mas com alívio e pressão na dose exata,
para não desequilibrar a sua dança,
na velocidade rápida e intensa,
da cavalgada sobre a existência.
Seguimos a dissociação do universo,
sangrando a velha estrada da Via Láctea,
onde a poeira estelar deixa seu rastro,
de magia, encanto e esplendor,
sabendo que é mais leve nossa jornada
na sela do mangalarga marchador.
É certo que ao final da cavalgada,
a onça castanha nunca se atrasa,
traz consigo a inevitável sentença,
sem distinção de raça ou cor,
seja em palácio, casebre ou praça,
a...
A Viagem - Poema
Na sela, sobre o dorso
do meu cavalo de raça,
com a rédea, eu domo o tempo,
transitando do passo para a marcha,
avanço no perfeito compasso
de tríplice apoio, encantador.
O tempo é potro que não se amansa
com ansiedade e violência,
mas com alívio e pressão na dose exata,
para não desequilibrar a sua dança,
na velocidade rápida e intensa,
da cavalgada sobre a existência.
Seguimos a dissociação do universo,
sangrando a velha estrada da Via Láctea,
onde a poeira estelar deixa seu rastro,
de magia, encanto e esplendor,
sabendo que é mais leve nossa jornada
na sela do mangalarga marchador.
É certo que ao final da cavalgada,
a onça castanha nunca se atrasa,
traz consigo a inevitável sentença,
sem distinção de raça ou cor,
seja em palácio, casebre ou praça,
a vida é passeio, que acaba em dor.
Aos que permanecem, é seguir a marcha,
respeitando exemplo de quem já foi,
pois, nessa viagem, é tudo rápido,
não se deixa nada para depois,
com a certeza que não existe acaso:
tudo é propósito de nosso Senhor!
O Mundo e o Verso - Poema
A Pedro e Bruno Pragana
Tenho sempre esquecido
de largar as áridas correntes,
às margens do rio da vida.
Nos ombros, o peso e o brilho,
para que não seja esquecida
a chama d'Arte, pedra divina.
A luminosidade do fogo
ressoará sobre o tempo,
tornando-o inútil tentativa.
*Felipe Bezerra, advogado e poeta. @felipebezerradesouza

É Findi - Aos Netos do Mundo - Por Ricardo Braga*
25/07/2026
Bem nesses dias, surge um Vozinha, então desconhecido do mundo. Em Cabo Verde ele é respeitado e modelo para muitos, não só debaixo dos três paus do gol, também pela transmissão de solidariedade, modéstia e afirmação de valores que parecem esquecidos no futebol mundial, sobretudo nos campos iluminados pelo neocolonialismo.
<...
Tive duas vozinhas maravilhosas e diferentes. Uma era o silêncio comedido, marcado pelo perfil do meu avô; a outra, era expansiva, falava um pouco de francês, tocava piano e de comportamento matriarcal. Mas as duas foram vozinhas no sentido mais explícito da palavra: acolhedoras e profundamente empáticas com seus netos. Conheço pessoas que não tiveram a sorte de pais assim, mas encontraram em sua vozinha o que precisavam para caminhar na vida e vencer obstáculos. Em sociedades originais africanas, as vozinhas são pilares da comunidade, são conselheiras e guardiãs da memória e da ancestralidade, educam crianças sobre respeito e coragem.
Bem nesses dias, surge um Vozinha, então desconhecido do mundo. Em Cabo Verde ele é respeitado e modelo para muitos, não só debaixo dos três paus do gol, também pela transmissão de solidariedade, modéstia e afirmação de valores que parecem esquecidos no futebol mundial, sobretudo nos campos iluminados pelo neocolonialismo.
Estaria cumprindo uma missão atávica das vozinhas pelo mundo, não só da África?
Assisti o 2x2 de Cabo Verde contra a Argentina no tempo regulamentar, e vi no rosto dos hermanos, o medo de perder o brilho final, a pompa de campeões do mundo e os dólares fugindo das suas bolsas. Na face dos negros do outro time, observei o brilho do suor, a determinação de confrontar – sem medo –, um gigante. Quem sabe, pensando na alegria dos que deixaram no seu menor país. Foi necessária uma ansiosa prorrogação para, no finalzinho, um terceiro gol restaurar a festa em toda a Buenos Aires e na cabeça do presidente da FIFA. Imagine perder um player desse, para uma equipe desconhecida de neguinhos, sem futuro no mercado mundial.
Mas a lição está dada a todos os netos do mundo.
*Ricardo Braga, é biólogo, ambientalista e escritor. Autor dos livros de literatura Ecologia do Cotidiano, A Flor Lilás e outros Contos (prêmio Cepe Nacional de Literatura), Sangue Doce e Como as Águas do Rio. @ricardobragaescritor
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Pernambuco em Mim - Poema - Por Poeta Tony Antunes de Palmares*
25/07/2026
Onde o sol faz renda no branco do luar;
Meu peito é um rio nordestinante,
Que aprende cantiga sem nunca cansar.
Pernambuco é farol do meu destino,
É o chão onde aprendi a sonhar.
A bandeira tremula feito esperança,
Costurando bordados no céu de anil;
Minha alma pernambuqueia contente,
Feito um abraço que envolve o Brasil.
Quem pisa esse chão nunca vai embora,
Leva esse amor por um fio sutil.
Ô, Pernambuco, bate forte o tambor!
Meu coração virou ponte de flor.
Tem frevo na veia, tem maracatu,
Tem coco, ciranda, perfume de azul.
Se perguntarem de onde eu vim,
Direi sorrindo: Pernambuco mora
[em mim.
Luiz Gonzaga ascendeu a sanfona,
Alceu virou vento cantando no ar;
E Santana soltando sua voz
Fazem a poesia mais longe alcançar.
...
Nasci no terreiro do vento ligeiro,
Onde o sol faz renda no branco do luar;
Meu peito é um rio nordestinante,
Que aprende cantiga sem nunca cansar.
Pernambuco é farol do meu destino,
É o chão onde aprendi a sonhar.
A bandeira tremula feito esperança,
Costurando bordados no céu de anil;
Minha alma pernambuqueia contente,
Feito um abraço que envolve o Brasil.
Quem pisa esse chão nunca vai embora,
Leva esse amor por um fio sutil.
Ô, Pernambuco, bate forte o tambor!
Meu coração virou ponte de flor.
Tem frevo na veia, tem maracatu,
Tem coco, ciranda, perfume de azul.
Se perguntarem de onde eu vim,
Direi sorrindo: Pernambuco mora
[em mim.
Luiz Gonzaga ascendeu a sanfona,
Alceu virou vento cantando no ar;
E Santana soltando sua voz
Fazem a poesia mais longe alcançar.
Meu sorriso gonzagueia saudades,
Como um passarinho querendo voltar.
Poeta Pica-pau planta estrelas,
Vital Corrêa faz o verso florir;
Admmauro Gommes acende o silêncio,
Feito uma lua querendo sorrir.
Minha palavra versolumeia,
E faz o sertão inteiro florir.
Quando o pífano chama Caruaru,
Até o vento começa a dançar;
Lampião relampeja na memória,
Maria Bonita ensina a amar.
Xaxado, xote, baião e alegria,
Ninguém consegue esse povo parar.
Ô, Pernambuco, meu sonho maior!
És meu poema, meu canto, meu amor.
Sou nordestino de alma e verdade,
Filho da fé e da liberdade.
Enquanto houver um céu azul anil,
Cantarei teu nome por todo o Brasil.
*Poeta Tony Antunes, é natural de Recife, mas palmarino há quarenta anos. É Professor de Teoria da Literatura na Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul, no Curso de Letras. É membro da Academia Palmarense de Letras. @poetaprosador_tony_antunes
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - A Onça da Esperança - Por Marcelo Mário de Melo*
25/07/2026
a Esperança no ataque
em vez de esperar o lance
pega a bola dá o saque
entoa o grito de alerta
toca corneta e atabaque.
Afia as garras e parte
removendo entulho e tralha
ferrugem mofo zinhavre
lacuna trava e falha
coloca véus e vestidos
arranca trapo e mortalha.
A Esperança agora
atiça o amanhecer
vai a campo e observa
o que faz esmorecer
os descaminhos nas mentes
e nos modos de fazer.
Para o sonho avançar
é preciso trilha certa
semente sã e cuidado
janela ampla e aberta
o sol da veracidade
aceno e grito de alerta.
A Esperança é uma malha
feita em ampla tecelagem
uma colcha de retalhos
de persistência e coragem
juntando peça por peça
em gesto ação e linguagem.
A onça da Esperança
depende assim dess...
Entrando em corpo de onça
a Esperança no ataque
em vez de esperar o lance
pega a bola dá o saque
entoa o grito de alerta
toca corneta e atabaque.
Afia as garras e parte
removendo entulho e tralha
ferrugem mofo zinhavre
lacuna trava e falha
coloca véus e vestidos
arranca trapo e mortalha.
A Esperança agora
atiça o amanhecer
vai a campo e observa
o que faz esmorecer
os descaminhos nas mentes
e nos modos de fazer.
Para o sonho avançar
é preciso trilha certa
semente sã e cuidado
janela ampla e aberta
o sol da veracidade
aceno e grito de alerta.
A Esperança é uma malha
feita em ampla tecelagem
uma colcha de retalhos
de persistência e coragem
juntando peça por peça
em gesto ação e linguagem.
A onça da Esperança
depende assim desses fios
por isso ela observa
nascentes brotos pavios
o mar querendo saber
se correm certos os rios.
A força da Esperança
se constrói na pedra dura
no olho desamarrado
no combate à impostura
na peneira onde se lavam
o erro e a amargura.
Ela não é menininha
princesa em conto de fada
madame ou cortesã
inocente namorada
mas mulher experiente
subterrânea e alada.
A Esperança exigente
quer ver o ponto no nó
alicerces e estacas
a mistura a massa o pó
a ferramenta afiada
quem afia e a pedra-mó.
*Marcelo Mário de Melo, ex-preso político, jornalista e poeta. Seu lema é: "Só ultrapasse pela esquerda". @marcelommm

É Findi – O Poeta Pica-Pau* chegando em Dose Dupla
25/07/2026
O caboclo quando envelhece
Precisa agradecer
O que a vida lhe oferece,
Se caso ele padece
A doença vem afetar
Procure se consultar
Vá depressa ao doutor
Porque para qualquer dor
Tem remédio pra curar
Mas se esse se encostar
Dizendo está sem jeito
A dor começa no peito
Vai até o calcanhar
Começa se lamentar
Com tudo fica zangado
Nada é do seu agrado
No fogo não tem nem cinza
Fica um velho ranzinza
Vivendo só no passado
Palmares: o Sabor da Cultura
Se fosse pra transformar
Palmares em uma comida
Dentro da gastronomia
Um belo prato eu fazia
pra reinar pra toda vida
O sabor que ia ter
Pela sustança que dá
Colocaria um cartaz
Pelas redes sociais
Para o mundo apreciar
...
Viva Bem
O caboclo quando envelhece
Precisa agradecer
O que a vida lhe oferece,
Se caso ele padece
A doença vem afetar
Procure se consultar
Vá depressa ao doutor
Porque para qualquer dor
Tem remédio pra curar
Mas se esse se encostar
Dizendo está sem jeito
A dor começa no peito
Vai até o calcanhar
Começa se lamentar
Com tudo fica zangado
Nada é do seu agrado
No fogo não tem nem cinza
Fica um velho ranzinza
Vivendo só no passado

Palmares: o Sabor da Cultura
Se fosse pra transformar
Palmares em uma comida
Dentro da gastronomia
Um belo prato eu fazia
pra reinar pra toda vida
O sabor que ia ter
Pela sustança que dá
Colocaria um cartaz
Pelas redes sociais
Para o mundo apreciar
Pegava a arte e cultura
Trazia pra culinária
Uma dose de teatro
Pitada de artesanato
Era a receita diária
Fazia uma sobremesa
Usando caldo de cana
Misturava a macaxeira
Com abacaxi da ribeira
E dosava com banana
As águas do rio Una
Eu botava pra ferver
Deixava cem por cento
De massa, sal e fermento
Para o comércio crescer
Trazia do agricultor
Batata, inhame, cará
Coco verde, melancia
Botava num tacho e fazia
Um caldo de incentivar
E saía por aí
Com uma receita de fato
Sem alimentar pigarro
Trazia na bagagem barro
Pra mesa do artesanato
Fazia até outra receita
Com a maior precisão
Bem parecida com essa
Que não ficasse em promessa
Ou só imaginação
Botava em uma panela
Um tiquinho de bem-querer
Um soro racional
Raiz de espanta-mal
E uma dose de prazer
E você que é turista
Ao chegar em nossa área
Não é um caso de briga
Mas te pegava pela barriga
Com a nossa culinária
Depois ia te mostrar
As belezas naturais
Riquezas do Engenho Paul
A Barragem Serro Azul
E as fontes minerais
Você ia se embelezar
Com as belezas em geral
As praças e seus atrativos
E o complexo esportivo
É um lindo cartão-postal
Vem conhecer a sulanca
Na festa do forrómares
Muitos bares pra te servir
Muito vai se divertir
Na cidade de Palmares
Vem pra pré do carnaval
Os blocos acompanhar
Venha ser uma puara
Quando toda cidade para
Pra ver o bloco passar
Na flora você vai ver
Pau-ferro, jacarandá
Maçaranduba, ipê
Louro-amarelo e você
Vai ver até jatobá
Vem ver patrimônio histórico
Que tem aqui nesse solo
Estação ferroviária
E a visita necessária
Aí Cine Teatro Apolo
Se caso você quiser
Na cidade pernoitar
Tem pousada e restaurante
Tudo chique e elegante
Para você repousar
Então que venha o mundo
Se misturar a nossa gente
Que nós iremos servir
Na xícara, interagir
Um chazinho e café quente
Trazia os bacamarteiros
Pra ver pipoco zoar
Um grupo de capoeira
Com sua dança faceira
Dando cangapé no ar
Convidava músicos e poetas
Pra fazer um festival
Com Ascenso na memória
Íamos fazer história
Inclusive o Pica Pau
E em letras garrafais
Anunciava um lembrete
Com uma razão somente
De convidar toda gente
pra degustar o banquete
Pegue o cardápio e comece
A esse prato admirar
Com um môlhinho de pimenta
A receita é suculenta
Para o mundo degustar
Palmares está bem alí
Com seu valor e cacife
Vá passar um fim de semana
Na mata sul pernambucana
A 120 , km do Recife,
Parabenizo Palmares
Por adotar essa postura
E a gestão envolvida
Dando forças, dando vida
E tempero pra cultura
*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE. @poeta.picapau

É Findi – Série: Boêmios que Marcaram Época no Recife Noturno - Hugo da Peixa - Por Carlos Bezerra Cavalcanti*
25/07/2026
Dentre tantos boêmios Recife, o que mais se sobressaía por suas peraltices, foi sem dúvidas, Hugo Gonçalves Ferreira, carinhosamente, Hugo da Peixa.
... Convém ressaltar que esses boêmios não faziam parte da onda de “nouveau riche” ; não, muito pelo contrario, todos foram de boa origem, Hugo, por exemplo, é oriundo da alta aristocracia canavieira, filho de usineiro.
Hugo seria o “boêmio total” criativo de índole pacífica, bonachão, solidário, um bon vivant. Se as vezes era levado a certas bravatas, o fazia sempre por insinuações de terceiros, nunca por iniciativa própria.
Na atmosfera social em que viveu; severa, terrível, inquisitiva, ele, desligado de todo convencionalismo, deixara-se ficar, airosamente, horas a fio na calçada do Maxime no Pina degustando sua teutônia, bem geladinha.
Certa feita, foi terminar uma farra em Salvador, uns seis acompanhantes, todos...
Hoje falaremos sobre Hugo da Peixa
Dentre tantos boêmios Recife, o que mais se sobressaía por suas peraltices, foi sem dúvidas, Hugo Gonçalves Ferreira, carinhosamente, Hugo da Peixa.
... Convém ressaltar que esses boêmios não faziam parte da onda de “nouveau riche” ; não, muito pelo contrario, todos foram de boa origem, Hugo, por exemplo, é oriundo da alta aristocracia canavieira, filho de usineiro.
Hugo seria o “boêmio total” criativo de índole pacífica, bonachão, solidário, um bon vivant. Se as vezes era levado a certas bravatas, o fazia sempre por insinuações de terceiros, nunca por iniciativa própria.
Na atmosfera social em que viveu; severa, terrível, inquisitiva, ele, desligado de todo convencionalismo, deixara-se ficar, airosamente, horas a fio na calçada do Maxime no Pina degustando sua teutônia, bem geladinha.
Certa feita, foi terminar uma farra em Salvador, uns seis acompanhantes, todos por sua conta, hospedagem, comida, bebidas e... dinheiro; naturalmente, no melhor da festa faltou-lhe numerário, imediatamente, vendeu o Packard de luxo e despachou o motorista para o Recife para trazer mais dinheiro e outro carro.
Hugo herdou duas usinas que foram consumidas por suas farras perdulárias. Dizem que nas suas contas os garçons incluíam até a data do ano, mesmo recebendo regias gorjetas.
Outra bravata que se conta sobre Hugo da Peixa aconteceu durante as concorridas festas no Clube Internacional do Recife, ele compareceu com algumas "garotas" da Zona querendo entrar, alguns diretores do Clube não deixaram. Hugo, vc não pode entrar com essas mulheres "suspeitas" então ele, em alto e bom som, respondeu: Suspeitas são essas que estão aí dentro, essas aqui são putas mesmo! Carlos Bezerra Cavalcanti
*Carlos Bezerra Cavalcanti, Presidente Emérito da Academia Recifense de Letras.
