
Ópera Selvagem - Escândalos, aplausos e paixões, por Zé da Flauta* 27/08/2025
27/08/2025 -
Gabriella Besanzoni não veio ao Brasil por amor. Veio por raiva. Veio fugida de intrigas operísticas, de rivais invejosas, de um maestro italiano que a traíra com uma mezzo-soprano desafinada. Veio bufando, com vestidos de veludo, partituras de canto em francês e uma voz que fazia cristais estilhaçarem em teatros de cinco andares. E foi no palco do Municipal do Rio que Enrique Lage a viu pela primeira vez. E tremeu. Um magnata calejado de aço e navios, acostumado a dobrar empresários como papel, viu-se dobrado por um dó de peito.
Quintal com tucano
Gabriella não queria saber de homem nenhum, muito menos de brasileiros excêntricos com bigodes cheios de cifrões. Mas Enrique tinha uma carta na manga. Não um buquê. Não uma joia. Mas um delírio. Mandou desenhar, pedra por pedra, uma mansão que fosse metade Versalhes, metade floresta encantada. Contratou um arquiteto italiano, rival do maestro canalha e mandou erigir um palacete aos pés do Cristo, como se dissesse: “olha aqui, tua ópera agora é minha, e tem quintal com tucano”.

Sobrevivência
Ela riu. Riu de desdém. Mas aceitou. E ali começou a guerra mais bela que o Rio já viu. Ela colocava sua cama no meio do salão só pra a acústica ficar melhor. Ele mandava cavar lagos e plantar palmeiras imperiais só pra vê-la cantar de madrugada à beira d’água. Discutiam em quatro idiomas.
Ensaiar
Ela queria uma ala para ensaiar Wagner, ele queria silêncio e mistérios no jardim. Mas resistiram. Entre escândalos, aplausos e paixões rasgadas, construíram mais do que uma casa: fundaram um território de sobrevivência do afeto.
Até hoje
Hoje, quem anda pelo Parque Lage não vê só beleza. Vê feridas cicatrizadas. Vê notas musicais escorrendo pelos vitrais. Vê um amor que não foi doce, mas foi profundo. E que mesmo depois das mortes, do esquecimento e da especulação imobiliária, se recusa a desaparecer. É por isso que o parque ainda respira. Porque foi feito com raiva, orgulho, reconciliação… e uma voz que ainda ecoa pela mata, dizendo: “a ópera ainda não acabou”.
Até a próxima!
*Zé da Flauta é músico, compositor, filósofo e escritor.
