O Suicídio narrativo, por Jorge Henrique de Freitas Pinho *
09/02/2026
“Toda narrativa que se recusa a ouvir o Logos acaba sendo desmentida por ele.”
1. O falso consenso como patologia do intelecto
A falha central de boa parte da esquerda contemporânea não reside apenas em equívocos estratégicos ou escolhas políticas malsucedidas, mas numa disfunção mais profunda: o fenômeno do Falso Consenso.
Trata-se de uma patologia cognitiva coletiva na qual a repetição interna de ideias, slogans e valores passa a ser confundida com evidência de verdade.
Quando todos à volta concordam, o grupo deixa de submeter suas crenças ao crivo do logos e passa a tratá-las como axiomas morais autoevidentes.
Nesse estágio, a divergência deixa de ser um dado da condição humana e passa a ser interpretada como desvio, ignorância ou perversidade ética.
Essa dinâmica cria câmaras de eco tão densas que a linguagem...
“Toda narrativa que se recusa a ouvir o Logos acaba sendo desmentida por ele.”
1. O falso consenso como patologia do intelecto
A falha central de boa parte da esquerda contemporânea não reside apenas em equívocos estratégicos ou escolhas políticas malsucedidas, mas numa disfunção mais profunda: o fenômeno do Falso Consenso.
Trata-se de uma patologia cognitiva coletiva na qual a repetição interna de ideias, slogans e valores passa a ser confundida com evidência de verdade.
Quando todos à volta concordam, o grupo deixa de submeter suas crenças ao crivo do logos e passa a tratá-las como axiomas morais autoevidentes.
Nesse estágio, a divergência deixa de ser um dado da condição humana e passa a ser interpretada como desvio, ignorância ou perversidade ética.
Essa dinâmica cria câmaras de eco tão densas que a linguagem perde sua função comunicativa e assume caráter litúrgico. Não se fala para compreender o mundo, mas para confirmar pertencimentos.
Logos
O logos, entendido como razão ordenadora e princípio de inteligibilidade, é substituído por uma gramática fechada, autorreferente e impermeável à experiência concreta.
O pensamento empobrece, passa a girar em torno de si mesmo e perde a capacidade de reconhecer sinais externos que contrariem suas premissas.
E com isso, o erro deixa de ser corrigido porque já não é percebido como erro. Ele se converte em virtude compartilhada.

2. Quando o logos é trocado pela gramática ideológica
Historicamente, o papel do intelectual sempre esteve ligado à mediação entre o mundo e a linguagem: interpretar, traduzir, iluminar zonas de sombra da experiência humana.
O que se observa hoje, porém, é uma mutação dessa função.
O intelectual militante abandona a escuta do logos para assumir a pretensão de editor moral do mundo. Em vez de compreender a realidade simbólica, social e antropológica, tenta reescrevê-la conforme uma gramática ideológica previamente definida.
Essa inversão é sutil, mas devastadora. O logos, que deveria preceder a narrativa, passa a ser moldado por ela. A linguagem deixa de apontar para algo que a transcende e passa a criar um universo fechado de significados autorreferentes.
Nesse ambiente, fatos deixam de ser interrogados e passam apenas a ser enquadrados. Experiências humanas complexas são reduzidas a categorias morais simplificadas.
A vida concreta, com suas ambiguidades, contradições e necessidades primárias, torna-se um obstáculo a ser superado pela retórica. O resultado é uma crescente incapacidade de leitura do mundo.
Ao perder contato com o logos, a narrativa ideológica passa a operar no vazio, acreditando-se universal enquanto se torna progressivamente sectária.
O que se apresenta como consciência crítica revela-se, na prática, uma forma refinada de cegueira coletiva.
3. O povo como abstração retórica
Um dos efeitos mais visíveis dessa ruptura com o logos é a transformação do “povo” em abstração retórica. Invocado constantemente como sujeito moral da história, o povo real raramente é ouvido.
Em seu lugar, constrói-se um personagem idealizado, alinhado às expectativas e valores da elite cultural que afirma representá-lo.
Esse povo imaginário reage como se espera, sofre como se descreve e deseja o que a narrativa determina que ele deva desejar.
O povo concreto, porém, opera sob outras chaves. Sua relação com o mundo é mediada por necessidades imediatas: segurança, trabalho, sobrevivência e ordem mínima para a vida cotidiana. Não se trata de ignorância ou atraso, mas de uma hierarquia natural de prioridades.
Quando a linguagem militante ignora esse logos da experiência vivida, produz-se um abismo entre discurso e recepção. Aquilo que se apresenta como libertação soa, muitas vezes, como afronta.
Essa desconexão explica a incapacidade crônica de certos setores em prever a recepção de suas obras e discursos fora da bolha.
Ao falar para um povo imaginado, o intelectual militante perde contato com o povo real e transforma-se num pregador que já não convence, apenas reafirma a fé dos convertidos.

4. Tropa de Elite e o colapso da intenção moral
Poucos exemplos ilustram tão bem essa falha hermenêutica quanto Tropa de Elite. A intenção autoral era clara: denunciar a violência policial, expor a brutalidade institucional e provocar repulsa moral.
No entanto, ao ignorar o logos da experiência social brasileira, a narrativa produziu o efeito oposto. O Capitão Nascimento foi lido não como vilão, mas como resposta desesperada a um ambiente de caos, impunidade e abandono estatal.
Esse descompasso revela algo fundamental: a ética abstrata não sobrevive quando se divorcia das condições concretas da vida. Para aqueles que observa a violência à distância, ela pode ser analisada como problema moral. E para quem vive sob ameaça constante, ela se apresenta como questão de sobrevivência.
O logos da ordem, ainda que imperfeito e duro, fala mais alto do que a retórica de gabinete.
O fracasso não está na obra em si, mas na incapacidade de seus criadores de reconhecer que a narrativa não controla o sentido quando ignora o logos que estrutura a recepção.
A tentativa de impor uma leitura moral fechada resultou numa humanização involuntária do personagem. A narrativa suicidou-se ao romper com o princípio que deveria orientá-la.
5. Humor e música: quando o ataque cria identificação
O mesmo mecanismo se repete no campo do humor e da música. A paródia, concebida como arma de deslegitimação, frequentemente produz o efeito inverso quando ignora o logos psicológico e simbólico do público.
Melodias envolventes, refrões simples e imagens caricatas possuem força própria. Quando combinadas com deboche elitista, podem transformar o alvo da crítica em objeto de identificação.
O humor militante parte do pressuposto de superioridade moral e intelectual. Ri-se do outro, não com o outro. Esse riso, longe de gerar constrangimento, frequentemente desperta empatia.
O público, por sua vez, não vê ali um poderoso sendo desmascarado, mas alguém semelhante a si sendo ridicularizado por quem se julga acima. O ataque estético, em vez de destruir, humaniza.
Nesse processo, a crítica perde o logos e se transforma em performance autorreferente. O humor deixa de ser instrumento de revelação e passa a funcionar como mecanismo de autoafirmação grupal.
O resultado é um efeito bumerangue: aquilo que deveria cancelar passa a engajar. O riso da elite converte-se em combustível simbólico para seus adversários.
6. O deboche como linguagem de desprezo
Quando o deboche se torna linguagem dominante, ele deixa de ser recurso crítico e assume função social clara: marcar distância e desprezo.
O problema não está na ironia em si, mas no uso sistemático do riso como forma de hierarquização moral.
Quem ri se coloca acima; quem é alvo do riso é rebaixado. Essa dinâmica rompe qualquer possibilidade de diálogo, pois destrói o espaço comum do logos.
O público percebe esse movimento com precisão instintiva. Não se trata de incapacidade de compreensão, mas de recusa a aceitar a humilhação simbólica.
Ao ver seus valores, sua linguagem e sua forma de vida tratados como sinais de atraso ou estupidez, o homem comum não se sente interpelado, mas atacado. A resposta natural não é adesão, mas rejeição.
Nesse ponto, a narrativa militante já não fala para convencer, mas para sinalizar virtude interna. O logos comum é abandonado em favor de uma linguagem de pertencimento.
A consequência é de todo previsível: quanto mais se deboche, mais se consolida a oposição. O desprezo não educa; ele radicaliza.
7. Cultura pop e a falência do protocolo de virtude
A ruptura com o logos não se limita ao contexto nacional; ela atravessa a cultura pop global. O caso do filme Coringa é emblemático.
Antes mesmo da estreia, setores da crítica progressista tentaram enquadrá-lo como obra perigosa, capaz de incitar violência. O chamado “protocolo de virtude” entrou em ação, substituindo análise por rotulação preventiva.
O efeito foi imediato e inverso ao desejado. A tentativa de interdição funcionou como marketing gratuito. O público ignorou o selo moral e encontrou no personagem não um manifesto ideológico, mas o retrato de um indivíduo esmagado por um sistema burocrático, indiferente e hipócrita.
Ironicamente, esse sistema se assemelha cada vez mais àquele defendido por quem tentou cancelar o filme.
O logos da experiência humana falou mais alto do que a sinalização moral. O espectador reconheceu ali não um chamado à violência, mas uma denúncia do vazio institucional.
A narrativa militante, ao tentar controlar o sentido, revelou sua própria incapacidade de escuta.

8. Conclusão — Quando o logos não aceita edição
O percurso deste ensaio revela um mesmo erro estrutural repetido em campos distintos: política, arte, humor e cultura pop.
Sempre que a narrativa se emancipa do logos — entendido como razão ordenadora, escuta da experiência humana e limite ontológico — ela se torna autorreferente, moralizante e, por fim, estéril.
O que se apresenta como consciência crítica degenera em engenharia simbólica incapaz de prever seus próprios efeitos.
Ao tentar editar o mundo em vez de compreendê-lo, a estética militante rompe com hierarquias fundamentais da vida: sobrevivência precede abstração; ordem antecede discurso; dignidade concreta vale mais que virtude performada.
Quando esses princípios são ignorados, a linguagem perde aderência e o público se afasta não por ignorância, mas por lucidez prática.
É nesse ponto que ocorre o suicídio narrativo propriamente dito. A crítica já não interpreta; acusa. O humor já não revela; corrige. A arte já não provoca; vigia.
O resultado não é derrota imposta de fora, mas isolamento autogerado. O círculo encolhe porque o logos não se curva à edição
moral. Ele permanece silencioso, desmentindo aquilo que tenta substituí-lo.
9. Epílogo — O riso que escuta o logos
O riso autêntico nasce do reconhecimento, não da tutela. Ele pressupõe uma igualdade simbólica mínima entre quem ri e quem é objeto do riso, ainda que momentaneamente suspensa pelo exagero, pela ironia ou pela caricatura.
Por isso, o humor funciona quando observa o humano em suas contradições e fracassa quando tenta corrigi-lo.
Os humoristas que hoje alcançam maior adesão popular não o fazem por alinhamento ideológico, mas porque preservam essa escuta elementar do logos do riso. Zombam do poder, do absurdo, da hipocrisia e, sobretudo, de si mesmos.
Não falam a partir de um "lugar de fala" ou de de um púlpito moral; falam do chão da experiência comum. O público percebe essa simetria e responde com adesão.
Quando o humor se converte em catequese, o riso se retrai. Não por censura, mas por asfixia. O espectador já não se sente convidado a rir, mas convocado a concordar.
E o riso, por sua natureza, não aceita convocação. Onde há vigilância moral, ele se cala.
10. Pós-escrito — Liberdade criativa, doutrina e o riso interditado
Antes do exemplo, é preciso compreender o fenômeno. O humor exige liberdade criativa real: liberdade para errar, exagerar, flertar com o mau gosto ocasional e atravessar zonas ambíguas da experiência humana.
Essa liberdade não é compatível com limitações doutrinárias rígidas, sobretudo quando estas definem previamente quem pode ser alvo do riso e quem deve ser protegido por blindagem moral.
É aqui que se estabelece o contraste central. O humor de matriz progressista contemporânea opera sob um regime de restrições internas: listas implícitas de temas proibidos, alvos intocáveis e conclusões obrigatórias.
O comediante já entra em cena com o desfecho moral decidido. A piada perde risco, perde surpresa e, com isso, perde vida.
O humor associado à direita, por sua vez, não é mais “agudo” por natureza; é menos regulado. Ele aceita o desconforto, o erro e a ambiguidade. Ri do politicamente correto, mas também do politicamente incorreto. Não promete redenção, apenas exposição.
Essa assimetria explica a diferença de impacto.
A título de exemplo, temos o declínio do Porta dos Fundos ilustra esse processo. Ao assumir progressivamente uma identidade ideológica explícita, o grupo reduziu sua própria margem criativa.
A máscara caiu, o horizonte estreitou e o público percebeu que o riso fora substituído por alinhamento. Não houve censura externa; houve autolimitação doutrinária.
Toda vez que um artista arranca a máscara e declara sua missão moral, ocorre um dissenso silencioso. Parte do público se afasta não por discordar politicamente, mas por reconhecer que o logos do humor foi sacrificado. O riso não foi vencido. Ele apenas se retirou.
(*) O autor é advogado, Procurador do Estado aposentado, ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas e membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

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03/04/2026
Procurei me informar, com o meu conterrâneo Walmiré Dimeron, sobre esses e descobri que a tal cuscuzeira tem quatro metros de altura e capacidade para fazer um cuscuz com 600 quilos, só de flocos de milho. E que existe a variação: o maior “quarenta” do mundo (cuscuz nordestino que mistura fubá com charque, linguiça e outros ingredientes). Nosso recordista leva 300 quilos só de carne. Existem outros exageros culinários: canjica gigante (feita com três mil espigas de milho), maior pamonha (300kg), maior xerém (200kg), maior pé de mol...
Dia desses fui a Caruaru e peguei um engarrafamento danado. Levei trinta minutos para percorrer menos de cem metros, até conseguir fazer um retorno e me livrar daquele trânsito. Motivo do transtorno: uma carreta transportando uma cuscuzeira gigante, seguida por um trio elétrico, cheio de forrozeiros, e um carro de som anunciando a festa do maior cuscuz do mundo. Ocorreu-me, então, relacionar os inúmeros recordes da minha terra.

Procurei me informar, com o meu conterrâneo Walmiré Dimeron, sobre esses e descobri que a tal cuscuzeira tem quatro metros de altura e capacidade para fazer um cuscuz com 600 quilos, só de flocos de milho. E que existe a variação: o maior “quarenta” do mundo (cuscuz nordestino que mistura fubá com charque, linguiça e outros ingredientes). Nosso recordista leva 300 quilos só de carne. Existem outros exageros culinários: canjica gigante (feita com três mil espigas de milho), maior pamonha (300kg), maior xerém (200kg), maior pé de moleque (15 metros), maior bolo de milho (250kg), maior bolo de macaxeira (160kg), maior cozido de espigas de milho (2.200 unidades), maior quentão (300 litros), maior chocolate quente (450 litros de leite e 100 quilos de chocolate), maior pipoca (12.300 saquinhos), maior festival de tareco e mariola (100kg de biscoito e 2.000 docinhos), maior arroz doce (360kg) e a maior tapioca doce (100kg). Fora essas calorias, temos a maior fogueira do Nordeste (madeira de reflorestamento) e as maiores “drilhas” (grupos de danças juninas modernas), que, juntas, somam 20 mil componentes.
Em 2011, durante o Festival de Fogueteiros, os participantes, mostrando seus trabalhos, pipocaram, durante duas horas, a maior girândola do mundo. No dia 24 de junho, a maior concentração de bacamarteiros do mundo desfila pela cidade. Cerca de 700 homens, vestidos a caráter, portando seus bacamartes, festejam o seu dia. Dispomos, ainda, do maior número de bandas de pífanos, sendo, atualmente, a de maior evidência a do Mestre João do Pife, que já se apresentou em mais de 30 países.

Todos esses recordes, junto com a multidão que lota nosso mega pátio de forró Luiz Gonzaga, fazem o maior São João do mundo. Além desses inusitados e divertidos recordes, lembrei de outros não juninos: a maior feira ao ar livre do mundo, a Feira de Caruaru, patrimônio imaterial do Brasil, famosa também pela música do compositor caruaruense Onildo Almeida, gravada pelo Rei do Baião. Somos a cidade do interior mais cantada do país, segundo pesquisa feita, em 2010, pelo Dr. Emanuel Leite, que identificou 1.020 músicas que citam Caruaru em suas letras. O Alto do Moura, lugar de Vitalino, o Mestre do Barro, é considerado o mais importante centro de arte figurativa do Brasil. Temos o jornal mais antigo do interior do Brasil, que circula, sem interrupção, desde 1º de maio de 1932: Vanguarda, fundado pelo jornalista caruaruense José Carlos Florêncio.

Sem bairrismos, mas lembrando dos inúmeros filhos talentosos da Capital do Forró, conhecidos nacional e internacionalmente, acho que, como cidade do interior, também somos recorde. Mas, isso é assunto para outro artigo. Vixe! Em se tratando de bater recordes, o País de Caruaru parece até uma Olimpíada. Inté!
*Valéria Barbalho é filha do escritor e historiador Nelson Barbalho. É médica pediatra, cronista.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Viva O Meu País - Crônica, por AJ Fontes*
03/04/2026
Cá entre nós, pernambucanos, o calor sentido no peito nesse instante tem um cheirinho de coentro fresco no feijão e cuscuz com ovo no café da manhã.
Junto ao gosto de usar a bandeira estampada em tudo quanto é lugar, o de cantar nosso hino foi elevado aos pícaros lá pelos anos de 1970, com publicidades televisivas. Desde então, é bastante ouvir o primeiro verso que o segundo, o terceiro e o restante saltarão nas vozes dos tantos de nós presentes; independente do lugar onde estejamos. Os assuntos e atenções serão desviados, nesse momento, pelo hino de Pernambuco.
É gostoso pertencer a um grupo nacional fortalecido por seus símbolos. Os nossos estão presentes desde 1817. Chegou e ficou cravado no coração de cada pernambucano e transborda para os quatrocentos cantos do mundo cantado e explicado na pint...
Não foi a primeira vez, o povo brasileiro completou o hino depois do som ser cortado. Quem assistiu Brasil X Croácia na última terça-feira sabe.
Cá entre nós, pernambucanos, o calor sentido no peito nesse instante tem um cheirinho de coentro fresco no feijão e cuscuz com ovo no café da manhã.
Junto ao gosto de usar a bandeira estampada em tudo quanto é lugar, o de cantar nosso hino foi elevado aos pícaros lá pelos anos de 1970, com publicidades televisivas. Desde então, é bastante ouvir o primeiro verso que o segundo, o terceiro e o restante saltarão nas vozes dos tantos de nós presentes; independente do lugar onde estejamos. Os assuntos e atenções serão desviados, nesse momento, pelo hino de Pernambuco.
É gostoso pertencer a um grupo nacional fortalecido por seus símbolos. Os nossos estão presentes desde 1817. Chegou e ficou cravado no coração de cada pernambucano e transborda para os quatrocentos cantos do mundo cantado e explicado na pintura que representa o meu Estado e foi a bandeira cravada no chão de uma nação.
Trouxemos o sentimento de pátria para todos, responsáveis pela formação desse povo: originários e europeus, africanos, asiáticos chegados nesse canto do novo mundo, nas mais distintas condições. Construímos uma gente nova, diferente, capaz de inventar palavras, habitações, comidas, músicas, danças e sentimentos. Há quem chame de brasilidade.
Somos brasileiros de várias estaturas, cores e sotaques. Amamos, sentimos e arengamos, cada qual com seu jeito. Somos pernambucanos: brancos, galegos, negros ou de olhos puxados, mas inseridos em nossa pátria e dispomos, aos irmãos, nossos altos coqueiros para defesa que se faça necessária ou para, tomando as palavras de um baiano famoso, o refrigério de nossas praias.
Isso tudo é nada, apenas alguns ditos de um sujeito do povo mais bairrista em linha reta do mundo.
*AJ Fontes, contista e cronista, engenheiro aposentado, e eterno estudante na arte da escrita, publicou o livro de contos: ‘Mantas e Lençóis’.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Chuvas no Sertão! - Poema - Por, Eduardo Albuquerque*
03/04/2026
Bençãos que caem no chão
Ardente, ressequido do verão,
Aplacando a vil sede malsã
Do sertanejo, a sós, em seu afã.
A esperança se faz presente.
Agora tudo será diferente:
De manhã, já se vê toda gente
Que, talvez, se pense indolente,
Numa animação fremente!
Pouco antes do Sol nascente,
Se dirige qual inusitada corrente:
Filhos, noras, mãe e o pai à frente;
No caminho da roça, seu oásis,
Aquela que lhes trará a doce paz!
A comida no prato será abundante,
Roupa no corpo, sorriso exultante.
Antes de tudo um forte ... que gente!
Não importam eventuais senões:
Esquecem-nos ... chova no sertão!
*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.
Chuvas torrenciais no sertão!
Bençãos que caem no chão
Ardente, ressequido do verão,
Aplacando a vil sede malsã
Do sertanejo, a sós, em seu afã.

A esperança se faz presente.
Agora tudo será diferente:
De manhã, já se vê toda gente
Que, talvez, se pense indolente,
Numa animação fremente!

Pouco antes do Sol nascente,
Se dirige qual inusitada corrente:
Filhos, noras, mãe e o pai à frente;
No caminho da roça, seu oásis,
Aquela que lhes trará a doce paz!

A comida no prato será abundante,
Roupa no corpo, sorriso exultante.
Antes de tudo um forte ... que gente!
Não importam eventuais senões:
Esquecem-nos ... chova no sertão!
*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Florescer - Poema, por Maria Inês Machado*
03/04/2026
o clarão da noite envolve o aposento.
As lágrimas percorrem caminho
silencioso.
Saudade de um tempo pulsante,
quase tangível, que respira na alma.
Os pensamentos sussurram, ecoam,
mas algo dentro os silencia.
Uma voz firme, ergue alegria entre ruínas.
Não há cárcere.
Nem angústia.
Só alça voo
quem prepara as próprias asas.
O passado, às vezes, pesa.
Mas o presente chama.
Desperto. A vida acelera.
Conforme afirmação do poeta/cantor Gonzaguinha,
Fé na vida.
E no que virá.
*Maria Inês Machado é psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Intervenção Psicossocial à família. Possui formação em contação de histórias pela FAFIRE e pelo Espaço Zumbaiar. Gosta de escrever contos que retratam os recortes da vida. Autora do livro infantojuvenil 'A Cidade das Flores'.
...
A janela da sala entreaberta,
o clarão da noite envolve o aposento.
As lágrimas percorrem caminho
silencioso.
Saudade de um tempo pulsante,
quase tangível, que respira na alma.
Os pensamentos sussurram, ecoam,
mas algo dentro os silencia.
Uma voz firme, ergue alegria entre ruínas.
Não há cárcere.
Nem angústia.
Só alça voo
quem prepara as próprias asas.
O passado, às vezes, pesa.
Mas o presente chama.
Desperto. A vida acelera.
Conforme afirmação do poeta/cantor Gonzaguinha,
Fé na vida.
E no que virá.
*Maria Inês Machado é psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Intervenção Psicossocial à família. Possui formação em contação de histórias pela FAFIRE e pelo Espaço Zumbaiar. Gosta de escrever contos que retratam os recortes da vida. Autora do livro infantojuvenil 'A Cidade das Flores'.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Ocaso - Crônica em Prosa Poética - Por, Ana Pottes*
03/04/2026
Um fogaréu se deita por entre portas, janelas, prédios e árvores, refletido nas vidraças dos edifícios mais altos e se adensa, despretensioso, por entre as nuvens.
Ainda é possível ver roupas brancas e multicoloridas, finas e esvoaçantes, dançando nos varais.
Lá de cima, um mundo em observação: ruas por onde vidas passam alheias, regressam rápidas, buzinas cantam ansiedades, correrias. Nos parques, por entre galhos frondosos, trinam canções; favelas, concretos, palafitas – concretude da existência esbarrando em tortas antenas das aldeias globais.
Há um inspirar e expirar ofegante em vidas condensadas. Os verdes teimam em se mostrar por entre os cinzas que, a cada segundo, crescem, e as chamas segu...
Há momentos em que o espírito se desliga e se deixa conduzir por entre poeiras do pensamento. O corpo fica estático, os olhos em pesquisa, enquanto um novo mundo explode. São cores, sons, texturas, sabores, tudo em sinestésicas percepções.
Um fogaréu se deita por entre portas, janelas, prédios e árvores, refletido nas vidraças dos edifícios mais altos e se adensa, despretensioso, por entre as nuvens.
Ainda é possível ver roupas brancas e multicoloridas, finas e esvoaçantes, dançando nos varais.
Lá de cima, um mundo em observação: ruas por onde vidas passam alheias, regressam rápidas, buzinas cantam ansiedades, correrias. Nos parques, por entre galhos frondosos, trinam canções; favelas, concretos, palafitas – concretude da existência esbarrando em tortas antenas das aldeias globais.
Há um inspirar e expirar ofegante em vidas condensadas. Os verdes teimam em se mostrar por entre os cinzas que, a cada segundo, crescem, e as chamas seguem amainando: sombras despertam, se espreguiçam, resmungam em outros passos; aromas e essências envolventes emanam das janelas das casas. O belo e o encantado ocupam espaços comuns em lusco-fusco.
Um segue se esvaindo e o outro renasce em brilhos suaves, iluminando o ocaso.
*Ana Pottes, psicóloga, gosta de escrever crônicas, contos e poemas sobre as interações emocionais com a vida. Autora do livro de poemas: Nem tudo são flores, mas... elas existem!
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi – Casamento Matuto – Contículo, por Xico Bizerra*
03/04/2026
O cabra do Cartório, já meio invocado com o lero-lero do vigário, falando da riqueza e da pobreza, da doença e da saúde, aquele papo que rola em todo casório, a tudo assistia por dever de ofício. Foi quando Padr...
O fato aconteceu no Cartório de Registro Civil de uma cidadezinha chamada Crato, lá pras bandas do sul do Ceará, na beira da Serra do Araripe. Era semana pré-carnavalesca e o Anjo da Guarda de Bastião, ainda que de ressaca, nesse dia ‘tava' de prontidão vigiando os foliões retardatários. Foi ele quem segurou a mão de seu Bené de Dora, já se coçando em procura da lambe-suvaco amolada, um monte de polegadas nos cós, deixando à mostra só o cabo da bendita. O ‘bigodim de beiço de gato mijado' do caba fazedor da mal à filha de Seu Bené chega arrepiou-se todinho, imaginando aquela peixeira fina nas brenhas de seu intestino grosso. E Francisquim, ali quieto no útero de Ceiça, embuchado que fora já há cinco meses, só assistindo, de camarote, à solenidade.

O cabra do Cartório, já meio invocado com o lero-lero do vigário, falando da riqueza e da pobreza, da doença e da saúde, aquele papo que rola em todo casório, a tudo assistia por dever de ofício. Foi quando Padre Luiz, afinal, perguntou se tinha alguém contra aquele casamento. Francisquim arretou-se, levantou a venta, e de dedo em riste dentro do bucho da buchuda, cutucou o umbigo de Ceiça, a mãe menininha do Crato, e gritou em alto e bom som pra todo o sertão do Araripe escutar: 'tem não, seu Pade, e se avexe, acabe logo esse babado' que eu ‘tô querendo descansar um tiquim'. Descansou por mais quatro meses, e, sonolento e preguiçoso, desembuchou. Faz quase 20 anos e hoje está aí, contando história, fazendo poesia bonita que só a gota serena e aumentando a prole. Benedito Neto que o diga. E até hoje Bigodim e Ceiça são felizes que só a mulesta! Seu Bené, bisavô igual nunca se viu!
*Xico Bizerra, é compositor, poeta e escritor.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi – Lolita - Por, Carlos Bezerra Cavalcanti*
03/04/2026
Seu apelido vem do clássico “Lolita”, que fez sucesso com a exibição cinematográfica, aqui no Recife
Na realidade, tratava-se de — Ivo Alves da Silva, de quem, através de reportagem do Jornal da Cidade, publicada em 6 de julho de 1975, tem...
Figura pitoresca da chamada Z B M - Zona do Baixo Meretrício, que costumava dizer – quem não conhece Lolita, não conhece o Recife! Fazia, rotineiramente, imitações bem humoradas de cantoras como Ângela Maria, na frente, principalmente, da estudantada - será que sou feia? - não é não senhor. - então eu sou linda? - você é um amor... Para o deleite dos estudantes. No entanto, quando estava “zangada”, costumava desafiar e brigar com uma guarnição inteira da Rádio Patrulha, sendo, logicamente massacrado. Conta-se que em determinada ocasião, nas costumeiras arruaças que provocava, principalmente depois de bêbado e drogado, gritou para o policial que o surrava: Bate! Bate neste corpo que já foi teu... Para o delírio dos transeuntes...
Seu apelido vem do clássico “Lolita”, que fez sucesso com a exibição cinematográfica, aqui no Recife
Na realidade, tratava-se de — Ivo Alves da Silva, de quem, através de reportagem do Jornal da Cidade, publicada em 6 de julho de 1975, temos as seguintes informações:
Veio ainda adolescente para o Recife, onde passou a trabalhar como servente e cozinheiro. Por sua irreverência, e dotes, passou a participar de alguns programas de calouro na Rádio local, porém, adquiriu sua verdadeira popularidade quando caiu nas graças da estudantada.

Homossexual assumido, era a estrela das meretrizes
Viveu vários anos cantando e dando pequenos shows pelas ruas do Recife, aglomerando curiosos e fãs, motivo normalmente da presença de truculentos policiais que subiam as escadas das pensões que funcionavam, geralmente, nos andares superiores aos bares, chamados para contê-lo.
*Carlos Bezerra Cavalcanti, Presidente Emérito da Academia Recifense de Letras
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Fui Condenado a Comprar um Terno - Crônica - Por, Romero Falcão*
03/04/2026
Subiu de Paletó
Nunca tive um terno, nunca me interessou a vestimenta dos homens da lei. Dizem que dá um ar de respeito, probidade, retidão. Nas poucas ocasiões em que meu pescoço foi laçado por uma gravata, contei com o auxílio de um amigo gentil, que me emprestava o casacudo vestuário. No entanto, um facínora mandou meu amigo para o céu. Certamente subiu de paletó.
Cheio de Pompa
Agora estou desamparado: sem amigo, sem terno. Resta partir para o aluguel ou juntar minhas economias e comprar um daqueles estilosos, com flor na lapela, cheio de pompa —...
Nunca me vi metido dentro de um terno, meu corpo reage como se estivesse preso a uma armadura de luxo. Peço encarecidamente a quem me jogar no buraco, por favor, não me vista com a mortalha de paletó e gravata que me apertará por toda a eternidade. Facilitem o apetite dos vermes: ponham-me uma calça jeans surrada e uma camisa de pano simples.
Subiu de Paletó
Nunca tive um terno, nunca me interessou a vestimenta dos homens da lei. Dizem que dá um ar de respeito, probidade, retidão. Nas poucas ocasiões em que meu pescoço foi laçado por uma gravata, contei com o auxílio de um amigo gentil, que me emprestava o casacudo vestuário. No entanto, um facínora mandou meu amigo para o céu. Certamente subiu de paletó.

Cheio de Pompa
Agora estou desamparado: sem amigo, sem terno. Resta partir para o aluguel ou juntar minhas economias e comprar um daqueles estilosos, com flor na lapela, cheio de pompa — como se fôssemos alguma coisa importante. “Uma gravata bem atada é o primeiro passo sério na vida”, disse Oscar Wilde.
High Society
Fui condenado a comprar um terno e entrar numa igreja para um casamento de família high society. Não posso recusar a solene encomenda. A noiva, grande amiga, contou-me a história dos pombinhos — como se conheceram, os altos e baixos do relacionamento e, por fim, as alturas, decidiram voar juntos, felizes.

Sem Paletó
Daí me pediu que colocasse no papel uma síntese com doses de lirismo, romantismo e pitadas de irreverência — é aí que mora o perigo. Que Deus me ajude na empreitada e, um dia, me receba sem paletó.
*Romero Falcão é cronista e poeta. Articulista de O Poder.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi – Colheita de Esperança - Por, Poeta Pica-Pau*
03/04/2026
A semente que plantei
O tempo que esperei
Fez o amor renascer
Se a chuva aparecer
Pra chover nosso roçado
O mundo é transformado
E entre lágrimas e sorriso
Forma-se um jardim de riso
Ao relembrar o passado
Quem planta com esperança
Sabe colher com amor
Se no peito tinha dor
Hoje só resta lembrança
Dentro da perseverança
A fé é quem ganha espaço
No viver não há fracasso
Pra quem vive pra amar
É só pra comemorar
E correr para o abraço
Delegando minha história
Seguindo a passo lento
Reguei com o pensamento
Para florir na memória
Festejando uma vitória
Que o coração conquistou
Pois a dor que já passou
Virou perfume pra vida
E a esperança florida
Foi o amor que ficou
*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE.
Quando eu vi florescer
A semente que plantei
O tempo que esperei
Fez o amor renascer
Se a chuva aparecer
Pra chover nosso roçado
O mundo é transformado
E entre lágrimas e sorriso
Forma-se um jardim de riso
Ao relembrar o passado
Quem planta com esperança
Sabe colher com amor
Se no peito tinha dor
Hoje só resta lembrança
Dentro da perseverança
A fé é quem ganha espaço
No viver não há fracasso
Pra quem vive pra amar
É só pra comemorar
E correr para o abraço
Delegando minha história
Seguindo a passo lento
Reguei com o pensamento
Para florir na memória
Festejando uma vitória
Que o coração conquistou
Pois a dor que já passou
Virou perfume pra vida
E a esperança florida
Foi o amor que ficou
*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE.
