Doutor - Crônica - Por, Romero Falcão*
09/03/2026
Na marcação da consulta, por telefone, avisou à atendente:
— Às 9h preciso estar na universidade.
— Não se preocupe, o senhor será o primeiro. O doutor fulano chega cedo, às 8h em ponto.
Quinze para as oito, o erudito estava na clínica. Às 8h, o médico atravessa a sala de espera e entra no consultório. Daí se passam dez, vinte, trinta minutos e nada. O professor se levanta, vai até o corredor, não bate na porta — abre com tudo:
— O que houve? O senhor passou mal? Estou agendado para às 8h e tenho compromisso.
— Eu primeiro vejo meus e-mails para depois começar a atender. E o senhor não entre assim, pois está diante de um doutor.
— O senhor tem doutorado ou é bacharel em medicina?
O médico baixou a crista. O professor não baixou a guarda, nem apelou para o surrado "estou pagando". Fo...
Na marcação da consulta, por telefone, avisou à atendente:
— Às 9h preciso estar na universidade.
— Não se preocupe, o senhor será o primeiro. O doutor fulano chega cedo, às 8h em ponto.
Quinze para as oito, o erudito estava na clínica. Às 8h, o médico atravessa a sala de espera e entra no consultório. Daí se passam dez, vinte, trinta minutos e nada. O professor se levanta, vai até o corredor, não bate na porta — abre com tudo:
— O que houve? O senhor passou mal? Estou agendado para às 8h e tenho compromisso.
— Eu primeiro vejo meus e-mails para depois começar a atender. E o senhor não entre assim, pois está diante de um doutor.
— O senhor tem doutorado ou é bacharel em medicina?
O médico baixou a crista. O professor não baixou a guarda, nem apelou para o surrado "estou pagando". Foi cirúrgico no calcanhar de Aquiles — a vaidade:
— Doutor, sou eu: tenho doutorado, e muito mais estudo do que o senhor.
O médico não esperava tal reação, porque a população geralmente se encolhe diante do molho na sala de espera — afinal, é o doutor. É o doutor.
Mas comigo aconteceu o inverso. Já na consulta, avistei nas costas do homem de gravata e jaleco uma placa pregada na parede fria: Doutor Fulano — e uma saraivada de títulos nacionais e internacionais. Especialista disso, mestre naquilo, doutor pela universidade de pantanho, cirurgião do diabo a quatro.
Ele observava meus olhos fixos no extenso currículo, até quê:
— Em que posso ajudá-lo?
— Espere, estou lendo seu invejável currículo.
Ele ficou todo, todo.
Mas o exame clínico não correspondeu à propaganda que dizem ser a alma do negócio. Nem sempre a moldura vistosa é sinal de um quadro de valor. Entretanto, pelo menos, o ego do doutor foi massageado — jamais curado.
*Romero Falcão é cronista e poeta. Articulista de O Poder.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

Leia outras informações
Ministério da Saúde: vírus 'Mpox' já registrou cerca de 90 casos e pode ser fatal para 3 ‘grupos de risco’
09/03/2026
Grupos de riscos
De acordo com o Ministério da Saúde, 3 grupos exigem atenção especial por apresentarem maior risco de complicações causadas pelo vírus. O primeiro é o de pessoas imunocomprometidas, como pacientes com HIV não controlado ou indivíduos em tratamentos que afetam o sistema imunológico. Nessas situações, o organismo...
Em 2026, o país já registrou cerca de 90 casos confirmados da doença, enquanto outros mais de 170 seguem em investigação. Especialistas reforçam que, apesar de muitos pacientes se recuperarem sem complicações, a evolução da mpox depende de fatores como a condição imunológica e a idade da pessoa infectada. A mpox, doença viral causada por um vírus da mesma família da varíola, voltou a acender o alerta das autoridades sanitárias no Brasil. Embora a maioria dos casos apresente evolução leve, o Ministério da Saúde destaca que a infecção pode se tornar grave e até fatal para alguns grupos específicos da população.

Grupos de riscos
De acordo com o Ministério da Saúde, 3 grupos exigem atenção especial por apresentarem maior risco de complicações causadas pelo vírus. O primeiro é o de pessoas imunocomprometidas, como pacientes com HIV não controlado ou indivíduos em tratamentos que afetam o sistema imunológico. Nessas situações, o organismo pode ter mais dificuldade para combater a infecção. As gestantes também estão entre os grupos de maior vulnerabilidade, já que a doença pode provocar complicações durante a gravidez e trazer riscos ao bebê. Outro grupo que demanda cuidado são as crianças, especialmente as mais novas, cujo sistema imunológico ainda está em desenvolvimento.

Os quadros mais graves da 'mpox'
Nos quadros mais graves, a mpox pode causar infecções secundárias, pneumonia e inflamações em diferentes órgãos. Por isso, as autoridades de saúde reforçam a importância de procurar atendimento médico diante de sintomas suspeitos e evitar o contato direto com lesões de pessoas infectadas. A transmissão ocorre principalmente por contato direto com lesões na pele, secreções corporais ou objetos contaminados, além de contato próximo e prolongado com pessoas infectadas. Entre os sintomas mais comuns estão febre, dores no corpo, cansaço, inchaço dos gânglios e o surgimento de lesões cutâneas que podem aparecer em diversas partes do corpo.
EUA quer classificar PCC e CV como 'organizações terroristas'. Governo brasileiro tenta barrar
09/03/2026
Vieira e Rubio
Diante d...
O Governo Federal iniciou uma ofensiva para reagir à possibilidade de os EUA classificarem o PCC e o Comando Vermelho, CV, como organizações terroristas. A medida, em análise pela gestão de Trump, preocupa o Palácio do Planalto e o Itamaraty por suas implicações jurídicas e de soberania. O governo teme o que poderia ampliar o alcance de sanções e permitir uma atuação mais agressiva de Washington no combate ao narcotráfico na região. Há o receio de que o enquadramento das facções como terroristas seja usado para justificar operações militares ou outras ações unilaterais fora do território norte-americano. A possível designação dos grupos brasileiros segue uma linha adotada recentemente pelo governo Trump em relação a outras organizações criminosas da América Latina. Nos últimos meses, Washington incluiu em sua lista de organizações terroristas estrangeiras cartéis e grupos envolvidos com narcotráfico na região.

Vieira e Rubio
Diante do avanço do tema em Washington, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou por telefone com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. O chanceler brasileiro buscou discutir o assunto diretamente e expressar a posição contrária do Brasil à classificação. A avaliação do governo é que PCC e CV são organizações criminosas voltadas ao lucro obtido com atividades ilícitas, sem motivação política ou ideológica, elemento associado à definição de terrorismo no direito internacional. Por isso, o Itamaraty argumenta que o enquadramento das facções como grupos terroristas não seria adequado.

Lula na Casa Branca ainda este mês?
A questão deve ser uma das pautas de uma possível reunião entre o presidente Lula e Trump na Casa Branca. O encontro ainda não tem data definida, mas é esperado ainda para este mês.
Trump sobre Mojtaba Khamenei: "Não vou dizer a vocês, mas não estou satisfeito com ele"
09/03/2026
Sobre o filho do aiatolá morto
Sobre Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá morto no primeiro dia de ataques dos EUA e Israel a Teerã, que foi validado como substituto do pai, Trump não quis comentar: "Não vou dizer a vocês, mas não estou satisfeito com ele". Em outra entrevista à NBC News, ele falou...
Donald Trump, o presidente dos EUA, disse hoje, segunda-feira, 09/03, que está "longe de" ordenar uma missão terrestre no Irã, mas que "não está feliz" com a escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do país, em entrevista ao "New York Post". Questionado se tinha planos para o envio de tropas americanas ao Irã com o objetivo de proteger as instalações subterrâneas de enriquecimento de urânio, Trump afirmou que falta consenso dentro de seu governo sobre que atitude tomar, mas revelou que uma missão terrestre não deve ocorrer em um futuro próximo. "Não tomamos nenhuma decisão sobre isso. Estamos longe de chegar a um acordo", admitiu.

Sobre o filho do aiatolá morto
Sobre Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá morto no primeiro dia de ataques dos EUA e Israel a Teerã, que foi validado como substituto do pai, Trump não quis comentar: "Não vou dizer a vocês, mas não estou satisfeito com ele". Em outra entrevista à NBC News, ele falou sobre a escolha e disse que é "cedo demais" para falar sobre a apreensão do petróleo do Irã, mas não descarta a possibilidade: "Acho que eles cometeram um grande erro".
Trump sobre o sucessor de Khamenei: "Ele vai ter que obter nossa aprovação”
Ontem, domingo, 08/03, antes de o regime iraniano nomear Mojtaba Khamenei como o sucessor de Ali Khamenei, Trump declarou que o próximo líder supremo do Irã não iria durar muito se Teerã não obtiver sua aprovação. "Ele vai ter que obter nossa aprovação”, disse Trump ao ABC News. "Se ele não obtiver nossa aprovação, não vai durar muito". “O filho de Khamenei é inaceitável para mim. Queremos alguém que traga harmonia e paz ao Irã. Eles estão perdendo tempo. O filho de Khamenei é um peso morto”.

"Civilização Ocidental, Guerras e crise da (pós) modernidade" - Por Jarbas Beltrão*
09/03/2026
Por muitos momentos pensemos nos limites de como abordar o tema da crise global da atualidade, como enxergamos a mesma. O cenário de polarização ideológica que se tem hoje, nos impõe esses limites, abordar fora de certos "patrões ideológicos, pode nos expor a reações de agressões às mais diversas.
Caminhos que devemos percorrer, devem ser aqueles de não sermos muito direto e que podem chegar no ponto de golpear a mentalidade de alguns, que já está chegando à muitos, dominados por uma " matrix" de ideologias dominadas por fanatismos.
Tomamos coragem e as ideias saíram da nossa cabeça. Vitória sobre nossos receios.
'Guerras'
É sobre guerra mundial que queremos falar. Chamamos de guerras mundiais aquelas confrontações bélicas, em solo, mar e ar, que se estendem com participação de muitos povos dos continentes.
Os motivos dessas guerras mundiais sempre nos foi mostrado como enf...
'Limites'
Por muitos momentos pensemos nos limites de como abordar o tema da crise global da atualidade, como enxergamos a mesma. O cenário de polarização ideológica que se tem hoje, nos impõe esses limites, abordar fora de certos "patrões ideológicos, pode nos expor a reações de agressões às mais diversas.
Caminhos que devemos percorrer, devem ser aqueles de não sermos muito direto e que podem chegar no ponto de golpear a mentalidade de alguns, que já está chegando à muitos, dominados por uma " matrix" de ideologias dominadas por fanatismos.
Tomamos coragem e as ideias saíram da nossa cabeça. Vitória sobre nossos receios.
'Guerras'
É sobre guerra mundial que queremos falar. Chamamos de guerras mundiais aquelas confrontações bélicas, em solo, mar e ar, que se estendem com participação de muitos povos dos continentes.
Os motivos dessas guerras mundiais sempre nos foi mostrado como enfrentamentos de interesses econômicos, predominanemente, o que não são errados e, significavam ambições quanto a conquistas territoriais e riquezas naturais.
1a. GM (1914-1918) na base daquele confronto encontramos as rivalidades entre Impérios Europeus na intenção de conquistas coloniais - Germânico, Britânico, Francês - e correndo pelas beiradas, os Impérios Russo e Otomano.
O final dessa chamada grande guerra foi o desaparecimento dos Impérios tradicionais com redefinição do mapa geopolítico do mundo (Europa, Ásia e África ).
2a. GM (1939 - 1945), Na base dos conflitos, encontramos: reconfiguração de fronteiras nacionais, ressentimentos gerados pelas soluções pós- 1a. GM, nacionalismos e totaltarismos.
Com o término da 2a. GM, o mapa geopolítico do mundo ganhou novo formato:
Bipolaridade (Socialismo X Capitalismo), guerra fria (militar, diplomática, cultural, ideológica, econômica).
A bipolaridade é encerrada em 1991 com desmonte da União Soviética. O desmonte representou o fim da guerra econômica, mas ainda sobreviveu a guerra cultural-ideológica.
"Fim da História e Choque das Civilizações"
Francis Fukuyama, pesquisador da Universidade de Harvard, chutou, falou o fim da Historia, com a queda do socialismo soviético e europeu. O chute nem na trave bateu, a bola foi pra fora.
Samuel Hutington , fez gol de placa, a luta de classes foi substituída pelo 'Choque das Civilizações', muitas civilizações.
O chamado "Fim da História" deixou em aberto a luta ideológia, padrão guerra fria. "Esquerda" e "direita", os lados não conseguem convivência pacífica. Sejamos realistas, esquerda marxista e extremada ("Com a direita nenhum diálogo", dizia um professor de nossas Universidades e até citava Bertold Brecht: "para os conservadores: uma boa arma, uma boa bala, um boa cova". A promessa, tá por aí segue cumprindo.
Quanto as Civilizações, não conseguem acomodar uma convivência pacífica. No fundamentalismo religioso que é base civilizacional e tendência dominante de uma civilização a convivência é dificultada, "No mundo só há lugar para um único Reino, o Reino de Alah".
Século XXI, 3a. (?) GM, uma combinação de guerra ideológica - padrão guerra fria - com o conflito de civilizações: Ocidente judáico-cristão versus Islamismo fundamentalista.
"Queda da bipolaridade"
Com a quebra da bipolaridade, e o desaparecimento da confrontação - padrão clássico guerra fria - Socialismo X Capitalismo, o espaço ficou vazio.
Surgiu uma unipolaridade americana no caso (Ocidente judáico-cristão) convivendo com muito ódio, vindo com uma guerra ideológica, cultural, tendo o Ocidente - alvo a ser atingido - um guerra que vai fundo no sentido de desmerecer a História de raízes judáico-cristãs.
"A cultura Ocidental é denunciada como a raiz de todo mal e, Estados Unidos guardião dessa 'cultura satânica".
O combate à civilização ocidental, vem de todos os lados.
'Guerra Cultural'
Esquerdismo, wokismo, feminismo, gayzismo, racismo, igualitarismo, são os movimentos anti-cultura judáico-cristã que surgem por dentro de um marxismo da pós-modernidade (Escola de Frankfurt), e a Teoria Crítico-Social
Imaginem, os pensadores dessa nova escola marxista, chamam a sociedade Ocidental de facista, mas se refugiaram nela em fuga contra o nazismo.
Imaginem, a Escola de Frankfurt (Adorno, Benjamin, Hockeheimer, Marcuse), viam fascismo no formato dos valores ocidentais burgueses-família, pátria, religião , propriedade, moral e por aí segue - Essa escola foi cunhada de Maxismo Cultural - o fundamento da teoria crítico-social.
Esse movimentos e chamado também de marxismo cultural, somado com o fundamentalismo islâmico resultou na arma perfeita para combater a hegemonia da cultura Ocidental; que pode ser entendida como o "softpower" do Ocidente.
A reação a cultura Ocidental judaico cristã é uma das bases do atual conflito que tem tendência de se espalhar pelo mundo.
Não assumimos uma posição sem fundamento ou mesmo leviana. Chamo atenção pra duas falas de políticos americanos de grande densidade: Marco Rubio (Secretário de Estado) e Donald Trump (Presidente dos Estados Unidos).

Rubio, em fevereiro deb 2026, na Conferência de Segurança de Munique, fez as seguintes chamadas:
Necessidade de uma ação dos líderes mundiais com formação de uma liderança transatlântica vp uma postura mais forte contra ameaças globais.
Não se deve em limitar-se em Alianças técnicas, mas sim, (uhn!) em defesa de um modo de vida e uma civilização (Ocidental).
A relação com a China deve ser com cautela, sempre priorizando interesses nacionais.
Em relação ao conflito da Ucrânia, criticou a Rússia (ficou calada) e apoiou a Ucrânia.
Defendeu controle das fronteiras americanas como exigência da soberania.
Reconstrução da indústria americana e ocidental.
Em relação a parceria EUA e Europa, o Secretário acentuou que a América é uma extensão da Europa, com suas conquistas e colonizações, das quais a América tem muito orgulho.
Bateu firme nas variáveis da Teoria Crítico Social do Marxismo Cultural. Destacou a importância cultural e histórica e o Ocidente não tem que se desculpar e sim se orgulhar da sua História.
Recado dado?

Vamos para Trump, na sua fala anual - Estado da União - no Capitólio, Presidente foi curto e grosso. O Estado Americano, existe para a defesa do cidadão americano e não para a defesa de imigrantes ilegais - reforçando, imigrantes ilegais.
Prosseguiu, quem concorda nesta Casa que fique de pé, quem não concorda permaneça sentado. Os do Partido Democrata, ficaram sentados. Trump reagiu: "Vocês são uma vergonha, traidores da nossa História".
Mais adiante, Trump resgatou a figura do "Herói Americano" com entregas de Honrarias. Homenagem a um Herói ainda centenário, combatente da 2a. GM e para um jovem soldado, ferido na invasão do Palácio Miraflores em Caracas, que capturou o ocupante de Miraflores, Nicolas Maduro; acusado de narcotraficante internacional.
Pois é a 3a.(?) GM, tem um forte traço cultural-ideológico.
A fala de Rubio e Trump são testemunhos que mesmo usando as armas o que está na base do conflito atual e a Guerra cultural, o Ocidente seu alvo.
Recado dado.
Tenho dito
*Jarbas Beltrão é Historiador, professor de História da UPE. Mestre em Educação pela UFPB. MBA em Política Estratégia Defesa e Segurança pela Adesg e Faculdade Metropolitana São Carlos/SP. Vinculado ao MBA em Geopolítica e Novas Fronteiras, Cibernética e Inteligência Artificial pela Adesg (Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra) e Instituto Venturo. Membro associado Academy Ventury de Política e Estratégia.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

Poema homenageando o grande escritor português António Lobo Antunes encantado dia 05 - Por, Eduardo Albuquerque*
09/03/2026
Na sagrada Igreja de Belém
Choram os sinos, blém, blém
Sem consolo toda sua gente
Se despede, sofrida, silente
Quatro décadas eternizadas
Sua literatura inda perturba Revolucionário escritor, soberbo
Vinte e nove romances, o legado
“Memória de Elefante”, “As Naus”
“Fado Alexandrino”, “Auto dos Danados”
“Cus de Judas”, “O Esplendor de Portugal”
“Manual dos Inquisidores”, “A Morte de Carlos Gardel”
Como ninguém jamais ousou
Mixou o romance psicológico
À narrativa do fato histórico
Esteta da palavra, a elevou!
*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor.
Adeus, António Lobo Antunes!
Na sagrada Igreja de Belém
Choram os sinos, blém, blém
Sem consolo toda sua gente
Se despede, sofrida, silente

Quatro décadas eternizadas
Sua literatura inda perturba Revolucionário escritor, soberbo
Vinte e nove romances, o legado
“Memória de Elefante”, “As Naus”
“Fado Alexandrino”, “Auto dos Danados”
“Cus de Judas”, “O Esplendor de Portugal”
“Manual dos Inquisidores”, “A Morte de Carlos Gardel”

Como ninguém jamais ousou
Mixou o romance psicológico
À narrativa do fato histórico
Esteta da palavra, a elevou!
*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor.

Entre engenhos e tabernas - A Guerra dos Mascates na boca do povo, por Zé da Flauta
09/03/2026
Tabernas
Nas tavernas do Recife, onde o açúcar virava conversa e a conversa virava fofoca, o povo acompanhava a disputa como quem assiste a uma peça de teatro. Cada noite surgia um boato novo, um comerciante tinha sido insultado, um senhor de engenho tinha perdido a paciência, alguém prometia vingança. Entre um gole de aguardente e outro, marinheiros estrangeiros vendiam histórias e às vezes até armas es...
A história costuma contar a Guerra dos Mascates como uma briga elegante entre senhores de engenho de Olinda e comerciantes do Recife, como se fosse duelo de gravata entre nobres ofendidos. Mas quem vivia nas ruas sabia que a história era bem mais barulhenta. No meio daquela disputa estavam carregadores do porto, carpinteiros de navio, vendedores de cachaça, escravos de ganho e toda a gente que fazia a cidade funcionar. Para essa gente simples, a guerra não era política, era confusão mesmo, daquelas que começavam em discurso e terminavam em empurrão.
Tabernas
Nas tavernas do Recife, onde o açúcar virava conversa e a conversa virava fofoca, o povo acompanhava a disputa como quem assiste a uma peça de teatro. Cada noite surgia um boato novo, um comerciante tinha sido insultado, um senhor de engenho tinha perdido a paciência, alguém prometia vingança. Entre um gole de aguardente e outro, marinheiros estrangeiros vendiam histórias e às vezes até armas escondidas. A política ali não era discutida em tratados, era discutida em mesas de madeira, com risadas, exageros e muita imaginação.
Panfletos
Também havia humor no meio da confusão. Pelas ruas apareciam papéis satíricos ridicularizando os poderosos, versos debochados sobre mascates e olindenses, textos anônimos que circulavam de mão em mão como se fossem pequenas bombas de riso. O povo sempre teve esse talento, quando não pode mandar na história, pelo menos ri dela. Enquanto os grandes discutiam honra e autoridade, o homem comum transformava tudo em piada, porque rir às vezes é a forma mais elegante de sobreviver.
Memória
Talvez por isso a Guerra dos Mascates não tenha sido apenas um conflito de comerciantes contra senhores de engenho, mas também um espetáculo observado pelo povo das ruas. Eles não escreveram os livros, não assinaram tratados e raramente aparecem nos retratos da época, mas estavam ali, vendo tudo acontecer. No fundo, a história de Pernambuco também foi construída por esses olhos anônimos que assistiam às brigas dos poderosos enquanto continuavam carregando açúcar, remando jangadas e inventando histórias para contar depois.
Até a próxima!
Zé da Flauta é compositor e cronista

Quando a verdade se torna inconveniente, por Jorge Henrique de Freitas Pinho*
09/03/2026
“A pior forma de injustiça é aquela que se apresenta com aparência de justiça.”
—
1 — A comparação impossível
Há momentos em que uma simples leitura de jornal é suficiente para provocar perplexidade intelectual. Foi exatamente essa sensação que experimentei ao ler a reportagem publicada pela BBC intitulada “Israel lança novos ataques contra Líbano e Irã; base da missão de paz da ONU é atingida: o que aconteceu até agora no 7º dia da guerra”.
(Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp9r3v7y7n8o).
À primeira vista, o texto apresenta o que parece ser uma cobertura equilibrada do conflito envolvendo Irã e Israel. Relatos de civis assustados, descrições de explosões, números de mortos e declarações diplomáticas aparecem em sequência, criando a impressão de neutralidade jornalística. No entanto, basta uma leitura um pouco mais atenta para p...
Imprensa, diplomacia e a moral seletiva do nosso tempo
“A pior forma de injustiça é aquela que se apresenta com aparência de justiça.”
—
1 — A comparação impossível
Há momentos em que uma simples leitura de jornal é suficiente para provocar perplexidade intelectual. Foi exatamente essa sensação que experimentei ao ler a reportagem publicada pela BBC intitulada “Israel lança novos ataques contra Líbano e Irã; base da missão de paz da ONU é atingida: o que aconteceu até agora no 7º dia da guerra”.
(Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp9r3v7y7n8o).
À primeira vista, o texto apresenta o que parece ser uma cobertura equilibrada do conflito envolvendo Irã e Israel. Relatos de civis assustados, descrições de explosões, números de mortos e declarações diplomáticas aparecem em sequência, criando a impressão de neutralidade jornalística. No entanto, basta uma leitura um pouco mais atenta para perceber algo profundamente estranho: diferenças fundamentais entre as ações dos atores envolvidos simplesmente desaparecem da narrativa.
O leitor é conduzido a concluir que estamos diante de mais um capítulo de uma guerra indistinta em que ambos os lados ocupam posições moralmente equivalentes. Israel ataca, o Irã responde, e o ciclo da violência se repete. Tudo parece caber dentro de uma mesma categoria moral indiferenciada.
Mas essa equivalência narrativa levanta uma pergunta inevitável. Quando ataques são dirigidos deliberadamente contra cidades e populações civis, enquanto operações militares são declaradamente orientadas contra infraestrutura estratégica e instalações militares, ainda faz sentido tratar ambas as ações como se pertencessem à mesma categoria moral?
É precisamente nesse ponto que a filosofia precisa intervir. Quando distinções fundamentais desaparecem sob o peso de uma narrativa aparentemente equilibrada, o pensamento crítico tem o dever de recuperar aquilo que a narrativa dissolveu: a capacidade de distinguir. Sem distinção, não existe julgamento. E sem julgamento, a própria ideia de responsabilidade moral começa a desaparecer.
2 — A engenharia narrativa da imprensa
Se a reportagem da BBC citada acima serve como ponto de partida, ela também revela algo mais profundo do que um simples problema de redação jornalística. Ela expõe um fenômeno recorrente da comunicação contemporânea: a engenharia narrativa através da qual fatos reais são organizados de maneira a conduzir o leitor a uma determinada interpretação.
Observe-se, por exemplo, a estrutura da matéria. O texto começa afirmando que o conflito atual teria sido desencadeado após o assassinato do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, em um ataque atribuído a Israel e aos Estados Unidos. Ao fazer isso, a narrativa estabelece imediatamente um ponto de partida específico para a história: o momento da ação israelense.
No entanto, conflitos internacionais raramente começam no ponto em que uma reportagem decide iniciar sua narrativa. Eles possuem antecedentes, tensões acumuladas, rivalidades ideológicas e estratégias regionais que se desenvolvem ao longo de décadas. Quando a história começa no momento da resposta militar de um dos atores, todo o contexto anterior desaparece da consciência do leitor.
Outro aspecto chama atenção. Grande parte dos testemunhos humanos presentes na reportagem descreve o sofrimento de civis no Irã ou no Líbano. Essas vozes são importantes e merecem ser ouvidas. Mas a ausência de relatos equivalentes de civis israelenses sob ataque cria uma distribuição assimétrica de empatia.
Nada disso exige falsificação de fatos. Basta escolher onde a história começa, quem fala e quais emoções são enfatizadas. Assim, a narrativa permanece aparentemente neutra, enquanto a interpretação do leitor já foi cuidadosamente orientada.
3 — A simetria moral artificial
É neste ponto que a narrativa jornalística começa a produzir um dos fenômenos mais perigosos do debate público contemporâneo: a simetria moral artificial. Trata-se de uma forma de apresentação dos fatos que coloca ações profundamente diferentes dentro de uma mesma categoria moral indistinta.
Na reportagem da BBC que mencionamos anteriormente, os ataques atribuídos a Israel aparecem lado a lado com as acusações do Irã sobre vítimas civis e destruição urbana. A sequência narrativa sugere que ambos os lados estariam engajados em práticas equivalentes dentro de uma mesma lógica de violência.
Mas essa equivalência ignora diferenças fundamentais. O regime iraniano construiu ao longo de décadas uma estratégia regional baseada no uso de milícias e grupos armados que operam deliberadamente a partir de áreas civis e que frequentemente dirigem ataques contra cidades israelenses. Mísseis disparados contra centros urbanos não têm como alvo quartéis ou instalações militares. Seu alvo é a população que vive nessas cidades.
Israel, por sua vez, declara explicitamente que suas operações militares são dirigidas contra infraestrutura estratégica, depósitos de armas, centros de comando e posições militares. Isso não significa que não existam tragédias humanas ou vítimas civis — guerras urbanas são tragicamente complexas. Mas significa que existe uma diferença essencial de princípio entre atacar deliberadamente populações civis e atacar instalações militares mesmo quando elas se encontram em áreas densamente povoadas.
A filosofia moral sempre insistiu que a intenção da ação importa. Quando essa distinção desaparece da narrativa pública, a análise deixa de ser moral e passa a ser apenas retórica. Sem distinguir quem toma civis como alvo e quem afirma buscar objetivos militares, a própria ideia de responsabilidade desaparece.
4 — A redução economicista da guerra
Uma explicação que aparece com frequência em debates políticos, reportagens e comentários acadêmicos procura reduzir conflitos internacionais a uma única causa: os interesses econômicos da indústria bélica. Segundo essa interpretação, guerras existiriam essencialmente porque empresas produtoras de armamentos lucram com a venda de armas e, portanto, teriam interesse em perpetuar conflitos.
Essa narrativa tornou-se particularmente popular em determinados ambientes intelectuais e políticos, onde funciona quase como uma explicação automática para qualquer crise internacional. Sempre que um conflito irrompe, surge rapidamente a mesma interpretação: tudo não passaria de mais um capítulo do negócio global das armas.
O problema dessa explicação não é apenas sua simplicidade. É sua incapacidade de explicar a realidade histórica.
Guerras existiam muito antes da existência de qualquer indústria moderna de armamentos. O Império Persa guerreou com as cidades gregas séculos antes de existir qualquer fabricante de mísseis. As Cruzadas mobilizaram reinos inteiros da Europa medieval por motivações religiosas e estratégicas que nada tinham a ver com mercados industriais. Mesmo no século XX, conflitos devastadores foram impulsionados por ideologias políticas, rivalidades nacionais e projetos de poder muito mais amplos do que qualquer cálculo comercial.
No caso específico do regime de Irã, a hostilidade declarada contra Israel não nasceu de interesses da indústria militar ocidental. Ela deriva de uma ideologia revolucionária consolidada após a Revolução Islâmica de 1979, que passou a tratar a eliminação do chamado “regime sionista” como parte de sua identidade política e estratégica.
Reduzir esse tipo de conflito a interesses econômicos é ignorar aquilo que a filosofia política sempre soube: guerras são frequentemente movidas por ambição, crença, identidade e projetos de poder. O dinheiro pode financiar a guerra, mas raramente explica sua origem.
Quando a análise abandona essas dimensões humanas e históricas, o resultado não é esclarecimento, mas simplificação. E simplificações confortáveis raramente ajudam a compreender conflitos complexos.
5 — O silêncio seletivo e a moral condicionada
Se a imprensa frequentemente constrói narrativas que produzem equivalências artificiais, a diplomacia internacional muitas vezes reforça essa confusão através de um fenômeno igualmente perturbador: o silêncio seletivo diante de certos regimes. Esse silêncio raramente é fruto apenas de prudência diplomática. Muitas vezes ele revela alinhamentos ideológicos que acabam condicionando a aplicação de princípios morais.
Tomemos como exemplo recente as declarações do presidente francês Emmanuel Macron. Ao comentar acontecimentos no Oriente Médio, Macron não hesitou em condenar publicamente ações militares atribuídas a Israel e reafirmar a necessidade de respeitar a soberania dos países da região. Esse tipo de posicionamento aparece frequentemente no discurso diplomático europeu e é apresentado como defesa consistente do direito internacional.
O problema surge quando se observa o contraste. O mesmo vigor moral raramente aparece quando se trata de denunciar a estratégia regional do regime de Irã, que há décadas financia e arma milícias que operam fora das estruturas formais do Estado e que frequentemente conduzem ataques contra populações civis.
Esse contraste torna-se ainda mais significativo quando consideramos o contexto político mais amplo. A postura internacional de Macron tem sido marcada por uma tentativa constante de afirmar autonomia estratégica europeia em relação à política externa dos Estados Unidos, especialmente sob governos que adotam posições mais firmes em relação ao regime iraniano. Nesse cenário, a crítica a Israel torna-se politicamente conveniente enquanto a condenação direta do Irã tende a ser suavizada.
Do ponto de vista filosófico, o problema não está no cálculo diplomático — ele sempre existiu na política internacional. O problema surge quando esse cálculo passa a determinar quais princípios morais serão invocados e quais serão silenciosamente ignorados.
Quando
a moral se torna dependente da conveniência ideológica, ela deixa de orientar a política e passa a servi-la. E nesse momento os princípios universais deixam de ser universais. Tornam-se apenas instrumentos retóricos de uma disputa política mais ampla.
6 — O pragmatismo diplomático e o verniz moral
Diante das inconsistências da narrativa internacional, muitos defensores da diplomacia contemporânea recorrem a um argumento conhecido: o pragmatismo político. Segundo essa visão, Estados não podem agir apenas guiados por princípios morais abstratos. Eles precisam considerar interesses nacionais, equilíbrio regional e riscos estratégicos. Essa lógica foi descrita de forma clássica por pensadores como Nicolau Maquiavel e continua a orientar grande parte da política internacional.
O problema não está no pragmatismo em si. O problema aparece quando esse cálculo estratégico passa a ser apresentado ao público sob a forma de uma moral universal que não corresponde à prática real.
Um exemplo recente ilustra essa contradição. Tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Emmanuel Macron têm recorrido com frequência à linguagem do direito internacional e da proteção de civis para criticar operações militares de Israel. Esse discurso aparece em fóruns internacionais, pronunciamentos diplomáticos e entrevistas à imprensa.
No entanto, a mesma intensidade moral raramente aparece quando se trata de denunciar um elemento central da instabilidade regional: o apoio do regime de Irã a organizações armadas classificadas internacionalmente como terroristas, entre elas o Hezbollah e o Hamas. Esses grupos não escondem que seus ataques frequentemente têm como alvo populações civis e centros urbanos israelenses.
Esse contraste revela algo importante. O pragmatismo diplomático continua existindo, mas ele é revestido por uma linguagem moral seletiva. Certos princípios são invocados com vigor quando se trata de determinados atores, enquanto diante de regimes que patrocinam organizações terroristas o discurso se torna cauteloso ou silencioso.
Do ponto de vista filosófico, a consequência é clara. Quando princípios universais passam a depender da conveniência política do momento, eles deixam de orientar a política e passam apenas a justificá-la. O verniz moral permanece, mas a coerência desaparece.
7 — A lição de Sócrates e a coragem da verdade
Quando observamos as contradições entre discurso moral e prática política, a tradição filosófica oferece um exemplo que continua profundamente atual. A figura de Sócrates permanece um símbolo duradouro da coragem intelectual diante das conveniências do poder.
Sócrates viveu em uma Atenas que se orgulhava de sua democracia e de sua liberdade de pensamento. Ainda assim, foi justamente essa cidade que o condenou à morte. Seu crime não foi conspirar contra o Estado nem incitar violência. Seu crime foi algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais perturbador: fazer perguntas que revelavam as contradições entre aquilo que os homens diziam defender e aquilo que realmente faziam.
O método socrático consistia precisamente em expor incoerências. Ele interrogava políticos, oradores e cidadãos influentes até que suas próprias palavras revelassem inconsistências internas. Não atacava pessoas por paixão ou ressentimento. Limitava-se a mostrar que certos discursos públicos não resistiam ao exame racional.
Essa postura acabou tornando-se intolerável para muitos dos que ocupavam posições de poder. Quando a verdade começa a desmontar narrativas convenientes, ela se transforma rapidamente em ameaça.
A lição de Sócrates permanece essencial porque nos lembra de algo que frequentemente esquecemos: a filosofia não existe apenas para produzir conceitos abstratos. Ela existe para examinar a vida pública e revelar quando princípios proclamados deixam de coincidir com a realidade.
Quando líderes invocam direitos humanos seletivamente, quando a imprensa dissolve distinções morais evidentes e quando a diplomacia prefere o silêncio à coerência, o espírito socrático nos recorda que a primeira tarefa do pensamento é simplesmente dizer aquilo que muitos preferem não ouvir.
8 — O dever do filósofo: nomear o erro à luz de princípios objetivos
Chegados a este ponto, a questão que permanece não pode ser reduzida a uma simples disputa de opiniões. A distinção entre ações legítimas e ilegítimas em conflitos armados não é uma invenção retórica de comentaristas ou filósofos. Ela está codificada em princípios objetivos do direito internacional humanitário, desenvolvidos ao longo de séculos e formalizados nas Convenções de Genebra.
Entre esses princípios, um dos mais fundamentais é o princípio da distinção: combatentes devem distinguir entre alvos militares e populações civis. Ataques deliberados contra civis não são apenas moralmente questionáveis; eles constituem violações diretas das normas que procuram limitar a barbárie da guerra.
Quando organizações armadas como Hamas ou Hezbollah dirigem ataques contra centros urbanos ou operam deliberadamente a partir de áreas civis, essas ações entram em conflito direto com esse princípio. O fato de esses grupos receberem apoio político, financeiro ou militar do regime de Irã torna essa realidade ainda mais relevante para qualquer análise séria do conflito regional.
Essas constatações não dependem de simpatias ideológicas nem de preferências políticas. Elas derivam de normas reconhecidas pela própria comunidade internacional. O problema surge quando essas normas passam a ser invocadas seletivamente, conforme o ator envolvido.
É precisamente nesse ponto que o papel do pensamento filosófico se torna indispensável. O filósofo não cria esses princípios; ele apenas lembra que eles existem e pergunta por que deixam de ser aplicados com consistência.
Sem essa exigência de coerência, o direito internacional torna-se linguagem diplomática vazia e a moral pública se dissolve em narrativas convenientes. E quando isso acontece, o que desaparece não é apenas a clareza do debate — é a própria autoridade das normas que pretendem proteger a vida humana em tempos de guerra.
9 — Guerra justa e Sharia: quando uma tradição é desvirtuada
Um dos equívocos mais recorrentes nas análises contemporâneas sobre o Oriente Médio consiste em tratar o conflito apenas como uma disputa geopolítica ou econômica. Essa abordagem ignora um elemento essencial: diferentes civilizações desenvolveram, ao longo dos séculos, princípios morais destinados a limitar a violência da guerra.
Na tradição ocidental, esses limites foram sistematizados na teoria da guerra justa, elaborada por pensadores como Santo Agostinho e Tomás de Aquino. Entre seus princípios centrais está a obrigação moral de distinguir entre combatentes e civis e a proibição de ataques deliberados contra populações inocentes.
O que raramente aparece no debate público é que a tradição jurídica islâmica também desenvolveu princípios semelhantes. Juristas muçulmanos clássicos estabeleceram limites claros para a condução da guerra, incluindo a proibição de matar mulheres, crianças, idosos e religiosos que não participassem das hostilidades. Essas normas aparecem em diferentes escolas da jurisprudência islâmica e mostram que a preocupação em conter a barbárie da guerra não pertence a uma única civilização.
É justamente por isso que a estratégia regional do regime de Irã levanta uma questão ainda mais grave. Ao financiar e armar organizações como Hezbollah e Hamas, cujas operações frequentemente atingem centros urbanos e populações civis, o regime iraniano não entra apenas em choque com normas do direito internacional moderno. Ele também se afasta de princípios reconhecidos pela própria tradição jurídica islâmica.
O problema, portanto, não é um choque inevitável entre civilizações. O problema é a distorção política de tradições morais que originalmente buscavam limitar a violência.
Quando uma tradição religiosa ou filosófica é reinterpretada para justificar estratégias que ignoram deliberadamente a distinção entre combatentes e civis, aquilo que se perde não é apenas coerência jurídica. Perde-se também a autoridade moral da própria tradição invocada.
10 — Conclusão: restaurar a distinção moral
Ao longo deste ensaio procuramos examinar um fenômeno que se tornou cada vez mais frequente no debate público contemporâneo: a dissolução das distinções morais fundamentais na análise dos conflitos internacionais.
Vimos como certas narrativas jornalísticas, mesmo quando baseadas em fatos reais, podem organizar esses fatos de maneira a produzir equivalências artificiais entre ações profundamente diferentes. Observamos também como a diplomacia contemporânea frequentemente recorre à linguagem universal dos direitos humanos enquanto aplica esses mesmos princípios de forma seletiva, conforme conveniências políticas momentâneas.
Esse fenômeno torna-se ainda mais problemático quando confrontado com normas objetivas já reconhecidas pela própria comunidade internacional. O direito humanitário consolidado nas Convenções de Genebra estabelece com clareza um princípio central: a obrigação de distinguir entre combatentes e populações civis.
Essa distinção não é um detalhe técnico. Ela representa uma das últimas barreiras morais erguidas pela civilização para limitar a violência da guerra.
Quando organizações como Hamas e Hezbollah dirigem ataques contra centros urbanos, ou quando populações civis se tornam deliberadamente instrumentos estratégicos em conflitos armados, essas ações entram diretamente em choque com esse princípio fundamental. E quando regimes como o do Irã financiam e armam essas estruturas, essa realidade não desaparece apenas porque certas narrativas preferem ignorá-la.
Ao mesmo tempo, quando operações militares dirigidas contra infraestrutura estratégica são automaticamente colocadas na mesma categoria moral que ataques deliberados contra civis, aquilo que desaparece
não é apenas a precisão do debate. Desaparece a própria capacidade de julgar.
A história da filosofia sempre insistiu que o primeiro passo da justiça é a distinção. Desde Aristóteles sabemos que julgar exige reconhecer diferenças reais entre ações diferentes. Quando tudo passa a parecer igual, responsabilidade e culpa tornam-se indistinguíveis.
É precisamente nesse ponto que a tarefa do pensamento filosófico se torna indispensável. Não para simplificar conflitos complexos nem para substituir a análise política pela indignação moral, mas para preservar aquilo que torna o julgamento humano possível: a capacidade de distinguir.
Sem essa distinção, a linguagem moral da política internacional torna-se apenas retórica. Com ela, ainda permanece aberta a possibilidade de que princípios universais voltem a orientar o mundo em vez de apenas justificar suas contradições.
Quando a distinção moral desaparece, a injustiça não precisa mais se esconder. Ela passa a se disfarçar na linguagem da própria justiça.
(*) O autor é advogado, Procurador do Estado aposentado, ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas e membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.

Eduardo da Fonte trabalha para ampliacao imediata da oncologia pediátrica no Agreste de PE
09/03/2026
O ICIA
Atua há mais de duas décadas no atendimento a crianças e adolescentes de 0 a 19 anos diagnosticados com câncer, oferecendo acompanhamento que inclui diagnóstico, tratamento, cirurgias, quimioterapia e cuidados paliativos. A instituição atende pacientes de diversas cidades do interior de Pernambuco e de regiões vizinhas.
Aprovação técnica
De acordo com o parlamentar, o processo de habilitação já cumpriu todas as etapas técnicas e regulatórias no Ministério da Saúde. A proposta recebeu aprovação técnica em 2025 e aguarda apenas a publi...
O deputado federal Eduardo (Dudu) da Fonte solicitou ao Ministério da Saúde a publicação da portaria que habilita o Instituto do Câncer Infantil do Agreste (ICIA), em Caruaru, como Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) exclusiva em oncologia pediátrica no Sistema Único de Saúde (SUS). O pedido foi encaminhado ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
O ICIA
Atua há mais de duas décadas no atendimento a crianças e adolescentes de 0 a 19 anos diagnosticados com câncer, oferecendo acompanhamento que inclui diagnóstico, tratamento, cirurgias, quimioterapia e cuidados paliativos. A instituição atende pacientes de diversas cidades do interior de Pernambuco e de regiões vizinhas.
Aprovação técnica
De acordo com o parlamentar, o processo de habilitação já cumpriu todas as etapas técnicas e regulatórias no Ministério da Saúde. A proposta recebeu aprovação técnica em 2025 e aguarda apenas a publicação da portaria para formalizar o reconhecimento da unidade no âmbito do SUS.
Atendimentos
Entre 2002 e 2025, o ICIA cadastrou mais de 4 mil novos pacientes e realizou milhares de atendimentos multiprofissionais, exames, cirurgias e sessões de quimioterapia. A instituição também desenvolve iniciativas como a Caravana do Diagnóstico Precoce, que capacitou profissionais de saúde em dezenas de municípios pernambucanos.
Fala Dudu
“O ICIA já realiza um trabalho essencial no atendimento a crianças e adolescentes com câncer no interior de Pernambuco. A habilitação como unidade de alta complexidade vai garantir mais estrutura, segurança e ampliação do atendimento. Nosso objetivo é fortalecer a rede de oncologia pediátrica e assegurar que essas famílias tenham acesso a tratamento digno e especializado perto de casa”, afirmou Eduardo da Fonte.
O Poder com o blog do Tavares Neto.
Pedro Campos destaca PEC da Segurança de Lula como resposta ao avanço do crime organizado, por Alberes Xavier*
09/03/2026
A proposta
Foi aprovada, na semana passada pela Câmara dos Deputados em dois turnos e agora segue para análise do Senado. O texto prevê maior coordenação nacional das políticas de segurança, além de fortalecer o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), que integra ações entre União, estados e municípios no combate à criminalidade.
A medida
Também busca ampliar investimentos na área e estruturar uma política mais articulada para enfrentar o avanço do crime organizado no Brasil.
Debate amplo
Pedro Campos l...
O deputado federal Pedro Campos (PSB) destacou, em entrevista exclusiva, a importância da chamada PEC da Segurança Pública, proposta enviada ao Congresso Nacional pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca fortalecer o enfrentamento ao crime organizado no país por meio de integração entre as forças de segurança e ampliação de recursos para o setor.
A proposta
Foi aprovada, na semana passada pela Câmara dos Deputados em dois turnos e agora segue para análise do Senado. O texto prevê maior coordenação nacional das políticas de segurança, além de fortalecer o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), que integra ações entre União, estados e municípios no combate à criminalidade.
A medida
Também busca ampliar investimentos na área e estruturar uma política mais articulada para enfrentar o avanço do crime organizado no Brasil.
Debate amplo
Pedro Campos lembrou que participou diretamente do debate da proposta na Câmara e ressaltou que a iniciativa pretende garantir recursos e integração entre as polícias para enfrentar o crescimento das organizações criminosas.
“Vale ressaltar que a PEC da Segurança é uma proposta do governo do presidente Lula. Eu fiz parte da Comissão Especial que debateu essa temática e a ideia é integrar as forças policiais e garantir recursos, inclusive a parte vinda do Fundo Social do Pré-Sal e também uma parte vinda da tributação das bets”, afirmou.
O parlamentar
Também avaliou que o avanço do crime organizado exige uma resposta coordenada do Estado brasileiro, com planejamento nacional e financiamento adequado para as políticas públicas de segurança.
“É uma iniciativa muito importante porque o crime organizado cada vez mais tem ganhado corpo nacionalmente e internacionalmente e para enfrentar isso a gente precisa de políticas articuladas, de integração nacional e de dinheiro. Então a PEC da Segurança responde a essas necessidades e dá uma resposta a esse objetivo”, disse.
Pedro Campos
Ainda citou outras iniciativas legislativas apresentadas pelo governo federal para enfrentar o avanço das facções criminosas no país.
“Como foi também o PL das facções do Governo do presidente Lula, que foi apresentado para poder enfrentar o crime organizado, que hoje é o grande problema da segurança pública do Brasil”, concluiu.
*Alberes Xavier é radialista e blogueiro. Comanda a Rede Pernambuco de Rádios.
(Edição de Jamerson Ramos e O Poder)

Executivo Romero Raposo vai receber homenagem por case de reestruturação empresarial do Grupo João Santos
09/03/2026
O prêmio Executivo do Ano 2025, concedido pela seccional Pernambuco do IBEF (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças), lança luz sobre um dos mais emblemáticos processos de recuperação empresarial em curso no Brasil: o do Grupo João Santos.
Homenageado da edição
É o pernambucano Romero Raposo que integra, desde 2022, a Diretoria Administrativo-Financeira do conglomerado, participando ativamente da condução da quinta maior recuperação judicial do país. O processo envolve a reestruturação de passivos bilionários, a retomada de operações industriais estratégicas e a preservação de milhares de empregos diretos.
Sobre sua atuação
Destacam-se o cumprimento de obrigações financeiras, a reorganização do fluxo de caixa e o fortalecimento da governança corporativa — elementos essenciais para restabelecer a credibilidade junto ao mercado e aos credores.
A entre...
Por Beto Lago*
O prêmio Executivo do Ano 2025, concedido pela seccional Pernambuco do IBEF (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças), lança luz sobre um dos mais emblemáticos processos de recuperação empresarial em curso no Brasil: o do Grupo João Santos.
Homenageado da edição
É o pernambucano Romero Raposo que integra, desde 2022, a Diretoria Administrativo-Financeira do conglomerado, participando ativamente da condução da quinta maior recuperação judicial do país. O processo envolve a reestruturação de passivos bilionários, a retomada de operações industriais estratégicas e a preservação de milhares de empregos diretos.
Sobre sua atuação
Destacam-se o cumprimento de obrigações financeiras, a reorganização do fluxo de caixa e o fortalecimento da governança corporativa — elementos essenciais para restabelecer a credibilidade junto ao mercado e aos credores.
A entrega da premiação
Será nesta quarta-feira (11 de março), no Mar Hotel. O reconhecimento do IBEF-PE evidencia a importância de lideranças técnicas e estratégicas na condução de empresas em cenários de elevada complexidade econômica.
*Beto Lago é jornalista.
Foto de abertura: Társio Alves
