ENCANTOU-SE MIRÓ - UM GÊNIO POPULAR ENCONTROU O SEU TALENTO INFINITO
07/08/2022 - Jornal O Poder
Por FLÁVIO CHAVES Jornalista, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
Parafraseando Guimarães Rosa: “ O poeta não morre, encanta-se”. O
poeta Miró da Muribeca, falecido há uma semana, completaria, hoje, 62
anos de idade. Em 31 de julho passado, dia do seu encantamento, a
notícia da sua partida se expandiu nas redes sociais e na boca do povo. Um
dos poetas mais instigantes de sua geração (a conhecida “poesia
marginal”) encantou-se, e a saudade já está presente entre os
admiradores de sua poesia.
UM CERTO JOÃO
Não é exagero nenhum, dizer que João Flávio Cordeiro da Silva – nome
de registro de Miró- saiu das periferias do Recife para o mundo. Isto
mesmo, o poeta tem poemas publicados em alguns países… Aqui em
Pernambuco, a sua obra, iniciada em 1985, com a publicação de “Quem
descobriu o azul anil ?”, alcanç...
Por FLÁVIO CHAVES Jornalista, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
Parafraseando Guimarães Rosa: “ O poeta não morre, encanta-se”. O
poeta Miró da Muribeca, falecido há uma semana, completaria, hoje, 62
anos de idade. Em 31 de julho passado, dia do seu encantamento, a
notícia da sua partida se expandiu nas redes sociais e na boca do povo. Um
dos poetas mais instigantes de sua geração (a conhecida “poesia
marginal”) encantou-se, e a saudade já está presente entre os
admiradores de sua poesia.
UM CERTO JOÃO
Não é exagero nenhum, dizer que João Flávio Cordeiro da Silva – nome
de registro de Miró- saiu das periferias do Recife para o mundo. Isto
mesmo, o poeta tem poemas publicados em alguns países… Aqui em
Pernambuco, a sua obra, iniciada em 1985, com a publicação de “Quem
descobriu o azul anil ?”, alcançou o auge de seu reconhecimento com a obra “Miró até agora“, de 2013.
O livro “Miró até agora”, publicado pela Companhia Editora de
Pernambuco-CEPE, reúne 11 pequenos livros do poeta pernambucano,
publicados de 1985 até 2012. E bem documentou a reportagem da Revista
Continente, na época do lançamento da antologia: ‘’Miró, enfim, num livro
que fica em pé”.
Ler e ouvir Miró (apresentava sempre os seus textos em
recitais públicos) nos permite reconhecer a importância da sua poesia. E
ela tem a marca de sua biografia, como no trecho do poema CLARINHO: “
Hoje à noite/ Irei dormir no mar/ Do amor/ Que foram náufragos/ Nos
meus sonhos medonhos/ Hoje vou ser/ Claramente/ Um negro”.
Uma das grandes forças do seu trabalho poético é o humor, irônico e
às vezes ácido, que pertence historicamente à tragicomédia brasileira:
Um exemplo é o poema FATO: ‘’Troco meu revólver/ Por comida/ Lazer/
Educação e moradia/ Disse o cara da periferia”. Este é o poema FITO:
‘’Branquelos deslizam leves/ Seus carros nas avenidas/ Uns blindados até
os dentes/ E os banguelas no sinal”.
PROVIDÊNCIAS DA VIDA
Marcas de existencialismo ele
também carrega em sua poesia, basta ler o poema PROVIDÊNCIAS DA
VIDA: ‘’Olho para mim/ Torno a olhar,/ A morte toca/ Em meu ombro
direito/ Rapidamente/ Guardo todos os meus segredos/ No bolso
esquerdo da calça/ No direito/ Alguns cruzeiros/ E pra não morrer/ Feio/
Beijo o espelho”. O fator transcendental é outra marca de sua poesia: “A vida é uma dádiva/ A vida é uma dúvida/ A vida é uma dívida/ Cada um que pague do seu jeito/ Só que Deus não aceita cartão de crédito”. E como
todo Poeta que se preza, ele também fala de amor: ‘’Amor amor
amor/tantas outras dançam no espaço/Mas é que dentro do meu
peito/Mora uma mulher de olhos/Claros de lua/Desejos de quebrar
tijolos/E desenhar uma nova estrada”. O Recife e suas mazelas estão
sempre presentes em sua poesia, muitas vezes de forma explícita: “Recife/
Cidade das pontes/ e das fontes/ de miséria/ Poetas mendigando passes/
Pra voltar pra casa/ E sua poesia/ Passando despercebida/ Aliás/ Nem
passa”.
TESE
Pois é, amigos e amigas, além do livro “Miró até agora”, já em segunda
edição (a primeira foi em 2013 e a segunda em 2016), está na sexta
impressão, com diversas tiragens: 300, 500, 1.000 exemplares…Segundo
dados da Cepe, o Poeta é o escritor mais vendido da editora desde 2013!
A obra de Miró vem crescendo a cada dia! Depois de ser Dissertação de
Mestrado em 2007, pelo professor de Literatura André Teles, autor da
tese “ Corpoeticidade: Poeta Miró e sua Literatura Performática” e de ter
sido tema de dois belíssimos documentários: ”Onde estará Norma?”, de
2007, realizado pela UNICAP, e do “Preto, Pobre, Poeta e Periférico”, de
2008, dirigido pelo escritor e médico Wilson Freire, vem aí a biografia de
Miró, escrita pelo poeta e professor Wellington de Melo:”
POETA. E PONTO.
O desafio é
fazer uma biografia que não seja simplesmente um relato dos fatos, mas
uma recuperação dessa memória que se agregam. Encontrar alguma
coerência para isso e ao mesmo tempo dar uma forma poética é talvez o
maior desafio”, explica Melo.
Nunca gostei de rótulos para poetas: poetas marginais, poetas de
ontem, de hoje e de amanhã, da geração desse ou daquele tempo, disso,
daquilo… Digo isto porque Miró foi essencialmente poeta! E ele foi além
do seu talento literário, porque a poesia foi a sua condição de vida! Miró
da Muribeca teve a audácia de largar um emprego formal (Serviços Gerais,
na Sudene-PE) para viver de sua poesia. Ele costumava dizer: ‘’Vivo de
poesia num país que quase ninguém lê”.
POESIA CIDADE
A poesia de Miró vai fazer falta na cidade. Porque ele era a sua própria
poesia. Será difícil ouvir a poesia dele sem ser recitada pelo próprio, como
acontece com poucos poetas que são a própria interpretação da sua
poesia. Mas ficaremos sempre com a lembrança de suas performances
viscerais, é bom que se diga sempre. Enquanto houver injustiças sociais
nas ruas do Recife e das metrópoles brasileiras, a poesia de Miró viverá.
Ela viverá porque existe Coelhos, Muribecas, cracolândias e misérias
urbanas espalhadas pelas cidades brasileiras. Enquanto existir
corpo/poética/cidade, a sua arte viverá. A sua poesia será sempre
necessária, especialmente para os mais necessitados. O poema de Miró
reza na cidade. E a cidade reza na poesia de Miró!
ESTAR VIVO
Finalizo com as palavras do próprio Miró, ao participar de sua
primeira live, no lançamento do seu último livro publicado em
homenagem aos seus 61 anos, em 2021 pelas Edições Claranan, intitulado
“O céu é no sexto andar “, afirma o poeta em sua fúria e intensidade:
– O que é mesmo estar vivo? Quando amanhece o dia, eu digo: “Tá
Deus, ganhei mais uma manhã. O que vou fazer nessa manhã? Amanhã
você não sabe se vai ter outra manhã. Tô sem a bebida, tomando um
cafezinho, porque não quero ir embora agora do quintal de Deus.”
Miró, parabéns para você, poetamigo!
Leia outras informações
É Findi - Recordes do País de Caruaru - Artigo, por Valéria Barbalho*
03/04/2026
Procurei me informar, com o meu conterrâneo Walmiré Dimeron, sobre esses e descobri que a tal cuscuzeira tem quatro metros de altura e capacidade para fazer um cuscuz com 600 quilos, só de flocos de milho. E que existe a variação: o maior “quarenta” do mundo (cuscuz nordestino que mistura fubá com charque, linguiça e outros ingredientes). Nosso recordista leva 300 quilos só de carne. Existem outros exageros culinários: canjica gigante (feita com três mil espigas de milho), maior pamonha (300kg), maior xerém (200kg), maior pé de mol...
Dia desses fui a Caruaru e peguei um engarrafamento danado. Levei trinta minutos para percorrer menos de cem metros, até conseguir fazer um retorno e me livrar daquele trânsito. Motivo do transtorno: uma carreta transportando uma cuscuzeira gigante, seguida por um trio elétrico, cheio de forrozeiros, e um carro de som anunciando a festa do maior cuscuz do mundo. Ocorreu-me, então, relacionar os inúmeros recordes da minha terra.

Procurei me informar, com o meu conterrâneo Walmiré Dimeron, sobre esses e descobri que a tal cuscuzeira tem quatro metros de altura e capacidade para fazer um cuscuz com 600 quilos, só de flocos de milho. E que existe a variação: o maior “quarenta” do mundo (cuscuz nordestino que mistura fubá com charque, linguiça e outros ingredientes). Nosso recordista leva 300 quilos só de carne. Existem outros exageros culinários: canjica gigante (feita com três mil espigas de milho), maior pamonha (300kg), maior xerém (200kg), maior pé de moleque (15 metros), maior bolo de milho (250kg), maior bolo de macaxeira (160kg), maior cozido de espigas de milho (2.200 unidades), maior quentão (300 litros), maior chocolate quente (450 litros de leite e 100 quilos de chocolate), maior pipoca (12.300 saquinhos), maior festival de tareco e mariola (100kg de biscoito e 2.000 docinhos), maior arroz doce (360kg) e a maior tapioca doce (100kg). Fora essas calorias, temos a maior fogueira do Nordeste (madeira de reflorestamento) e as maiores “drilhas” (grupos de danças juninas modernas), que, juntas, somam 20 mil componentes.
Em 2011, durante o Festival de Fogueteiros, os participantes, mostrando seus trabalhos, pipocaram, durante duas horas, a maior girândola do mundo. No dia 24 de junho, a maior concentração de bacamarteiros do mundo desfila pela cidade. Cerca de 700 homens, vestidos a caráter, portando seus bacamartes, festejam o seu dia. Dispomos, ainda, do maior número de bandas de pífanos, sendo, atualmente, a de maior evidência a do Mestre João do Pife, que já se apresentou em mais de 30 países.

Todos esses recordes, junto com a multidão que lota nosso mega pátio de forró Luiz Gonzaga, fazem o maior São João do mundo. Além desses inusitados e divertidos recordes, lembrei de outros não juninos: a maior feira ao ar livre do mundo, a Feira de Caruaru, patrimônio imaterial do Brasil, famosa também pela música do compositor caruaruense Onildo Almeida, gravada pelo Rei do Baião. Somos a cidade do interior mais cantada do país, segundo pesquisa feita, em 2010, pelo Dr. Emanuel Leite, que identificou 1.020 músicas que citam Caruaru em suas letras. O Alto do Moura, lugar de Vitalino, o Mestre do Barro, é considerado o mais importante centro de arte figurativa do Brasil. Temos o jornal mais antigo do interior do Brasil, que circula, sem interrupção, desde 1º de maio de 1932: Vanguarda, fundado pelo jornalista caruaruense José Carlos Florêncio.

Sem bairrismos, mas lembrando dos inúmeros filhos talentosos da Capital do Forró, conhecidos nacional e internacionalmente, acho que, como cidade do interior, também somos recorde. Mas, isso é assunto para outro artigo. Vixe! Em se tratando de bater recordes, o País de Caruaru parece até uma Olimpíada. Inté!
*Valéria Barbalho é filha do escritor e historiador Nelson Barbalho. É médica pediatra, cronista.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Viva O Meu País - Crônica, por AJ Fontes*
03/04/2026
Cá entre nós, pernambucanos, o calor sentido no peito nesse instante tem um cheirinho de coentro fresco no feijão e cuscuz com ovo no café da manhã.
Junto ao gosto de usar a bandeira estampada em tudo quanto é lugar, o de cantar nosso hino foi elevado aos pícaros lá pelos anos de 1970, com publicidades televisivas. Desde então, é bastante ouvir o primeiro verso que o segundo, o terceiro e o restante saltarão nas vozes dos tantos de nós presentes; independente do lugar onde estejamos. Os assuntos e atenções serão desviados, nesse momento, pelo hino de Pernambuco.
É gostoso pertencer a um grupo nacional fortalecido por seus símbolos. Os nossos estão presentes desde 1817. Chegou e ficou cravado no coração de cada pernambucano e transborda para os quatrocentos cantos do mundo cantado e explicado na pint...
Não foi a primeira vez, o povo brasileiro completou o hino depois do som ser cortado. Quem assistiu Brasil X Croácia na última terça-feira sabe.
Cá entre nós, pernambucanos, o calor sentido no peito nesse instante tem um cheirinho de coentro fresco no feijão e cuscuz com ovo no café da manhã.
Junto ao gosto de usar a bandeira estampada em tudo quanto é lugar, o de cantar nosso hino foi elevado aos pícaros lá pelos anos de 1970, com publicidades televisivas. Desde então, é bastante ouvir o primeiro verso que o segundo, o terceiro e o restante saltarão nas vozes dos tantos de nós presentes; independente do lugar onde estejamos. Os assuntos e atenções serão desviados, nesse momento, pelo hino de Pernambuco.
É gostoso pertencer a um grupo nacional fortalecido por seus símbolos. Os nossos estão presentes desde 1817. Chegou e ficou cravado no coração de cada pernambucano e transborda para os quatrocentos cantos do mundo cantado e explicado na pintura que representa o meu Estado e foi a bandeira cravada no chão de uma nação.
Trouxemos o sentimento de pátria para todos, responsáveis pela formação desse povo: originários e europeus, africanos, asiáticos chegados nesse canto do novo mundo, nas mais distintas condições. Construímos uma gente nova, diferente, capaz de inventar palavras, habitações, comidas, músicas, danças e sentimentos. Há quem chame de brasilidade.
Somos brasileiros de várias estaturas, cores e sotaques. Amamos, sentimos e arengamos, cada qual com seu jeito. Somos pernambucanos: brancos, galegos, negros ou de olhos puxados, mas inseridos em nossa pátria e dispomos, aos irmãos, nossos altos coqueiros para defesa que se faça necessária ou para, tomando as palavras de um baiano famoso, o refrigério de nossas praias.
Isso tudo é nada, apenas alguns ditos de um sujeito do povo mais bairrista em linha reta do mundo.
*AJ Fontes, contista e cronista, engenheiro aposentado, e eterno estudante na arte da escrita, publicou o livro de contos: ‘Mantas e Lençóis’.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Chuvas no Sertão! - Poema - Por, Eduardo Albuquerque*
03/04/2026
Bençãos que caem no chão
Ardente, ressequido do verão,
Aplacando a vil sede malsã
Do sertanejo, a sós, em seu afã.
A esperança se faz presente.
Agora tudo será diferente:
De manhã, já se vê toda gente
Que, talvez, se pense indolente,
Numa animação fremente!
Pouco antes do Sol nascente,
Se dirige qual inusitada corrente:
Filhos, noras, mãe e o pai à frente;
No caminho da roça, seu oásis,
Aquela que lhes trará a doce paz!
A comida no prato será abundante,
Roupa no corpo, sorriso exultante.
Antes de tudo um forte ... que gente!
Não importam eventuais senões:
Esquecem-nos ... chova no sertão!
*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.
Chuvas torrenciais no sertão!
Bençãos que caem no chão
Ardente, ressequido do verão,
Aplacando a vil sede malsã
Do sertanejo, a sós, em seu afã.

A esperança se faz presente.
Agora tudo será diferente:
De manhã, já se vê toda gente
Que, talvez, se pense indolente,
Numa animação fremente!

Pouco antes do Sol nascente,
Se dirige qual inusitada corrente:
Filhos, noras, mãe e o pai à frente;
No caminho da roça, seu oásis,
Aquela que lhes trará a doce paz!

A comida no prato será abundante,
Roupa no corpo, sorriso exultante.
Antes de tudo um forte ... que gente!
Não importam eventuais senões:
Esquecem-nos ... chova no sertão!
*Eduardo Albuquerque, poeta, cronista, escritor.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Florescer - Poema, por Maria Inês Machado*
03/04/2026
o clarão da noite envolve o aposento.
As lágrimas percorrem caminho
silencioso.
Saudade de um tempo pulsante,
quase tangível, que respira na alma.
Os pensamentos sussurram, ecoam,
mas algo dentro os silencia.
Uma voz firme, ergue alegria entre ruínas.
Não há cárcere.
Nem angústia.
Só alça voo
quem prepara as próprias asas.
O passado, às vezes, pesa.
Mas o presente chama.
Desperto. A vida acelera.
Conforme afirmação do poeta/cantor Gonzaguinha,
Fé na vida.
E no que virá.
*Maria Inês Machado é psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Intervenção Psicossocial à família. Possui formação em contação de histórias pela FAFIRE e pelo Espaço Zumbaiar. Gosta de escrever contos que retratam os recortes da vida. Autora do livro infantojuvenil 'A Cidade das Flores'.
...
A janela da sala entreaberta,
o clarão da noite envolve o aposento.
As lágrimas percorrem caminho
silencioso.
Saudade de um tempo pulsante,
quase tangível, que respira na alma.
Os pensamentos sussurram, ecoam,
mas algo dentro os silencia.
Uma voz firme, ergue alegria entre ruínas.
Não há cárcere.
Nem angústia.
Só alça voo
quem prepara as próprias asas.
O passado, às vezes, pesa.
Mas o presente chama.
Desperto. A vida acelera.
Conforme afirmação do poeta/cantor Gonzaguinha,
Fé na vida.
E no que virá.
*Maria Inês Machado é psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Intervenção Psicossocial à família. Possui formação em contação de histórias pela FAFIRE e pelo Espaço Zumbaiar. Gosta de escrever contos que retratam os recortes da vida. Autora do livro infantojuvenil 'A Cidade das Flores'.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Ocaso - Crônica em Prosa Poética - Por, Ana Pottes*
03/04/2026
Um fogaréu se deita por entre portas, janelas, prédios e árvores, refletido nas vidraças dos edifícios mais altos e se adensa, despretensioso, por entre as nuvens.
Ainda é possível ver roupas brancas e multicoloridas, finas e esvoaçantes, dançando nos varais.
Lá de cima, um mundo em observação: ruas por onde vidas passam alheias, regressam rápidas, buzinas cantam ansiedades, correrias. Nos parques, por entre galhos frondosos, trinam canções; favelas, concretos, palafitas – concretude da existência esbarrando em tortas antenas das aldeias globais.
Há um inspirar e expirar ofegante em vidas condensadas. Os verdes teimam em se mostrar por entre os cinzas que, a cada segundo, crescem, e as chamas segu...
Há momentos em que o espírito se desliga e se deixa conduzir por entre poeiras do pensamento. O corpo fica estático, os olhos em pesquisa, enquanto um novo mundo explode. São cores, sons, texturas, sabores, tudo em sinestésicas percepções.
Um fogaréu se deita por entre portas, janelas, prédios e árvores, refletido nas vidraças dos edifícios mais altos e se adensa, despretensioso, por entre as nuvens.
Ainda é possível ver roupas brancas e multicoloridas, finas e esvoaçantes, dançando nos varais.
Lá de cima, um mundo em observação: ruas por onde vidas passam alheias, regressam rápidas, buzinas cantam ansiedades, correrias. Nos parques, por entre galhos frondosos, trinam canções; favelas, concretos, palafitas – concretude da existência esbarrando em tortas antenas das aldeias globais.
Há um inspirar e expirar ofegante em vidas condensadas. Os verdes teimam em se mostrar por entre os cinzas que, a cada segundo, crescem, e as chamas seguem amainando: sombras despertam, se espreguiçam, resmungam em outros passos; aromas e essências envolventes emanam das janelas das casas. O belo e o encantado ocupam espaços comuns em lusco-fusco.
Um segue se esvaindo e o outro renasce em brilhos suaves, iluminando o ocaso.
*Ana Pottes, psicóloga, gosta de escrever crônicas, contos e poemas sobre as interações emocionais com a vida. Autora do livro de poemas: Nem tudo são flores, mas... elas existem!
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi – Casamento Matuto – Contículo, por Xico Bizerra*
03/04/2026
O cabra do Cartório, já meio invocado com o lero-lero do vigário, falando da riqueza e da pobreza, da doença e da saúde, aquele papo que rola em todo casório, a tudo assistia por dever de ofício. Foi quando Padr...
O fato aconteceu no Cartório de Registro Civil de uma cidadezinha chamada Crato, lá pras bandas do sul do Ceará, na beira da Serra do Araripe. Era semana pré-carnavalesca e o Anjo da Guarda de Bastião, ainda que de ressaca, nesse dia ‘tava' de prontidão vigiando os foliões retardatários. Foi ele quem segurou a mão de seu Bené de Dora, já se coçando em procura da lambe-suvaco amolada, um monte de polegadas nos cós, deixando à mostra só o cabo da bendita. O ‘bigodim de beiço de gato mijado' do caba fazedor da mal à filha de Seu Bené chega arrepiou-se todinho, imaginando aquela peixeira fina nas brenhas de seu intestino grosso. E Francisquim, ali quieto no útero de Ceiça, embuchado que fora já há cinco meses, só assistindo, de camarote, à solenidade.

O cabra do Cartório, já meio invocado com o lero-lero do vigário, falando da riqueza e da pobreza, da doença e da saúde, aquele papo que rola em todo casório, a tudo assistia por dever de ofício. Foi quando Padre Luiz, afinal, perguntou se tinha alguém contra aquele casamento. Francisquim arretou-se, levantou a venta, e de dedo em riste dentro do bucho da buchuda, cutucou o umbigo de Ceiça, a mãe menininha do Crato, e gritou em alto e bom som pra todo o sertão do Araripe escutar: 'tem não, seu Pade, e se avexe, acabe logo esse babado' que eu ‘tô querendo descansar um tiquim'. Descansou por mais quatro meses, e, sonolento e preguiçoso, desembuchou. Faz quase 20 anos e hoje está aí, contando história, fazendo poesia bonita que só a gota serena e aumentando a prole. Benedito Neto que o diga. E até hoje Bigodim e Ceiça são felizes que só a mulesta! Seu Bené, bisavô igual nunca se viu!
*Xico Bizerra, é compositor, poeta e escritor.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi – Lolita - Por, Carlos Bezerra Cavalcanti*
03/04/2026
Seu apelido vem do clássico “Lolita”, que fez sucesso com a exibição cinematográfica, aqui no Recife
Na realidade, tratava-se de — Ivo Alves da Silva, de quem, através de reportagem do Jornal da Cidade, publicada em 6 de julho de 1975, tem...
Figura pitoresca da chamada Z B M - Zona do Baixo Meretrício, que costumava dizer – quem não conhece Lolita, não conhece o Recife! Fazia, rotineiramente, imitações bem humoradas de cantoras como Ângela Maria, na frente, principalmente, da estudantada - será que sou feia? - não é não senhor. - então eu sou linda? - você é um amor... Para o deleite dos estudantes. No entanto, quando estava “zangada”, costumava desafiar e brigar com uma guarnição inteira da Rádio Patrulha, sendo, logicamente massacrado. Conta-se que em determinada ocasião, nas costumeiras arruaças que provocava, principalmente depois de bêbado e drogado, gritou para o policial que o surrava: Bate! Bate neste corpo que já foi teu... Para o delírio dos transeuntes...
Seu apelido vem do clássico “Lolita”, que fez sucesso com a exibição cinematográfica, aqui no Recife
Na realidade, tratava-se de — Ivo Alves da Silva, de quem, através de reportagem do Jornal da Cidade, publicada em 6 de julho de 1975, temos as seguintes informações:
Veio ainda adolescente para o Recife, onde passou a trabalhar como servente e cozinheiro. Por sua irreverência, e dotes, passou a participar de alguns programas de calouro na Rádio local, porém, adquiriu sua verdadeira popularidade quando caiu nas graças da estudantada.

Homossexual assumido, era a estrela das meretrizes
Viveu vários anos cantando e dando pequenos shows pelas ruas do Recife, aglomerando curiosos e fãs, motivo normalmente da presença de truculentos policiais que subiam as escadas das pensões que funcionavam, geralmente, nos andares superiores aos bares, chamados para contê-lo.
*Carlos Bezerra Cavalcanti, Presidente Emérito da Academia Recifense de Letras
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi - Fui Condenado a Comprar um Terno - Crônica - Por, Romero Falcão*
03/04/2026
Subiu de Paletó
Nunca tive um terno, nunca me interessou a vestimenta dos homens da lei. Dizem que dá um ar de respeito, probidade, retidão. Nas poucas ocasiões em que meu pescoço foi laçado por uma gravata, contei com o auxílio de um amigo gentil, que me emprestava o casacudo vestuário. No entanto, um facínora mandou meu amigo para o céu. Certamente subiu de paletó.
Cheio de Pompa
Agora estou desamparado: sem amigo, sem terno. Resta partir para o aluguel ou juntar minhas economias e comprar um daqueles estilosos, com flor na lapela, cheio de pompa —...
Nunca me vi metido dentro de um terno, meu corpo reage como se estivesse preso a uma armadura de luxo. Peço encarecidamente a quem me jogar no buraco, por favor, não me vista com a mortalha de paletó e gravata que me apertará por toda a eternidade. Facilitem o apetite dos vermes: ponham-me uma calça jeans surrada e uma camisa de pano simples.
Subiu de Paletó
Nunca tive um terno, nunca me interessou a vestimenta dos homens da lei. Dizem que dá um ar de respeito, probidade, retidão. Nas poucas ocasiões em que meu pescoço foi laçado por uma gravata, contei com o auxílio de um amigo gentil, que me emprestava o casacudo vestuário. No entanto, um facínora mandou meu amigo para o céu. Certamente subiu de paletó.

Cheio de Pompa
Agora estou desamparado: sem amigo, sem terno. Resta partir para o aluguel ou juntar minhas economias e comprar um daqueles estilosos, com flor na lapela, cheio de pompa — como se fôssemos alguma coisa importante. “Uma gravata bem atada é o primeiro passo sério na vida”, disse Oscar Wilde.
High Society
Fui condenado a comprar um terno e entrar numa igreja para um casamento de família high society. Não posso recusar a solene encomenda. A noiva, grande amiga, contou-me a história dos pombinhos — como se conheceram, os altos e baixos do relacionamento e, por fim, as alturas, decidiram voar juntos, felizes.

Sem Paletó
Daí me pediu que colocasse no papel uma síntese com doses de lirismo, romantismo e pitadas de irreverência — é aí que mora o perigo. Que Deus me ajude na empreitada e, um dia, me receba sem paletó.
*Romero Falcão é cronista e poeta. Articulista de O Poder.
NR - Os textos assinados expressam a opinião dos seus autores.

É Findi – Colheita de Esperança - Por, Poeta Pica-Pau*
03/04/2026
A semente que plantei
O tempo que esperei
Fez o amor renascer
Se a chuva aparecer
Pra chover nosso roçado
O mundo é transformado
E entre lágrimas e sorriso
Forma-se um jardim de riso
Ao relembrar o passado
Quem planta com esperança
Sabe colher com amor
Se no peito tinha dor
Hoje só resta lembrança
Dentro da perseverança
A fé é quem ganha espaço
No viver não há fracasso
Pra quem vive pra amar
É só pra comemorar
E correr para o abraço
Delegando minha história
Seguindo a passo lento
Reguei com o pensamento
Para florir na memória
Festejando uma vitória
Que o coração conquistou
Pois a dor que já passou
Virou perfume pra vida
E a esperança florida
Foi o amor que ficou
*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE.
Quando eu vi florescer
A semente que plantei
O tempo que esperei
Fez o amor renascer
Se a chuva aparecer
Pra chover nosso roçado
O mundo é transformado
E entre lágrimas e sorriso
Forma-se um jardim de riso
Ao relembrar o passado
Quem planta com esperança
Sabe colher com amor
Se no peito tinha dor
Hoje só resta lembrança
Dentro da perseverança
A fé é quem ganha espaço
No viver não há fracasso
Pra quem vive pra amar
É só pra comemorar
E correr para o abraço
Delegando minha história
Seguindo a passo lento
Reguei com o pensamento
Para florir na memória
Festejando uma vitória
Que o coração conquistou
Pois a dor que já passou
Virou perfume pra vida
E a esperança florida
Foi o amor que ficou
*Pica-Pau é poeta. Vive em Palmares, PE.

É Findi - Malude Maciel* Em Dose Dupla
03/04/2026
Cada um tem seu apego
Cada um tem seu xodó
Todos gostam de carinho
Ninguém pretende ser só
Não se sabe porque gosta
Nem de onde vem a atração
O sentimento existe
Preenchendo o coração
Alguém que traz alegria
Alguém que nos dá prazer
Sempre boa energia
Ajudando a viver
"Alma gêmea", como diz
O ditado popular
Sempre um encontro feliz
Quando junto se estar
De repente,
Seja como for,
Surge mútua simpatia
Nasce grande amizade,
Também cresce o amor.
Virar a página - Poemeto
Diante dos percalços
Da vida
Da injustiça
Sofrida
A gente chora
Mas, para recomeçar
A gente ri
Faz o sorriso acordar
Pois, o coração diz
Fundamental
É...
Afinidades - Poema
Cada um tem seu apego
Cada um tem seu xodó
Todos gostam de carinho
Ninguém pretende ser só
Não se sabe porque gosta
Nem de onde vem a atração
O sentimento existe
Preenchendo o coração
Alguém que traz alegria
Alguém que nos dá prazer
Sempre boa energia
Ajudando a viver
"Alma gêmea", como diz
O ditado popular
Sempre um encontro feliz
Quando junto se estar
De repente,
Seja como for,
Surge mútua simpatia
Nasce grande amizade,
Também cresce o amor.

Virar a página - Poemeto
Diante dos percalços
Da vida
Da injustiça
Sofrida
A gente chora
Mas, para recomeçar
A gente ri
Faz o sorriso acordar
Pois, o coração diz
Fundamental
É ser feliz.
*Malude Maciel, Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras, ACACCIL, cadeira 15 pertencente à professora Sinhazina.
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